sábado, 5 de julho de 2008

Voyeur não fala, voyeur vê.












Mario Lopes
A descoberta

Juliana nunca gostou de ser observada. Quando era criança ficava super chorona e irritada quando os pais ficavam indo atrás dela para ver o que estava fazendo. Na época da adolescência tudo piorou! Os pais entravam no quarto sem bater para dar uma olhadinha, ligavam no colégio para longas conversas com o diretor para saber como estavam as notas e os relacionamentos de amizade, entravam no computador e no perfil do orkut só para dar uma fuçadinha. Algumas vezes chegaram ao ponto de mexer na agenda do celular dela só para conferir.
Irritada com a “super proteção” dos pais Juliana decidiu sair de casa aos 24 anos. Foi morar com uma amiga em um pequeno apartamento no centro da cidade. Ju e Ana eram amigas inseparáveis. No primeiro mês tudo foi as mil maravilhas no pequeno cubículo com dois quartos super pequenos em que só cabia uma cama de solteiro e uma arara, uma cozinha germinada com a área de serviço, um banheiro que tinha que entrar de lado e um quadrado que chamavam de sala. Após o primeiro mês as coisas começaram a mudar... com as primeiras contas chegando no novo endereço.
Um dia Juliana chegou em casa e viu sua amiga vestida com sua blusa. Nada contra emprestar, mas ela ficou brava porque a amiga entrou em seu quarto e simplesmente pegou. As duas discutiram um pouco e já estavam fazendo as pazes quando ela viu, em cima da mesa, suas correspondências abertas. Nem os pais delas faziam isso!!
Assim que pôde saiu de lá e foi morar sozinha. Radicalizou! Excluiu todas as fotos do orkut, assim que recebe post já deleta como as mensagens da caixa postal, decidiu limpar o novo apartamento sozinha porque não queria que nenhuma faxineira mexesse nas coisas dela, passou a queimar todas as correspondências e a selecionar o que realmente ia ao lixo - afinal todo mundo sabe que o lixo diz muita coisa sobre uma pessoa...
Quase em neurose ela vai jogar o lixo e no cesto percebe uma sacola aberta. Olha para os lados e não vê ninguém. É tomada por um sentimento que nunca sentiu..uma curiosidade absurda em saber o que tinha dentro. Ela sabia que era o lixo do vizinho, um verdadeiro gato! Como não tinha ninguém perto ela abriu a sacola e viu: um tubo de pasta de dente, inúmeras latas de cerveja e uma foto amassada. Ela pegou a foto e viu que era o vizinho com uma mulher, o que ela deduziu que fosse uma ex-namorada. Rapidamente ela colocou a foto em seu bolso e foi para sua casa. Assim que ouviu o vizinho chegar foi até a área de serviço, pisou num banquinho e olhou pela pequena janela que dava de frente ao quarto do rapaz. Viu ele tirando a camisa (o coração dela foi a mil), deitando na cama e ligando a TV. Ela estava adorando aquilo! Continuou olhando, por horas, até o momento em que o observado vai fechar a janela e a vê. Ela disfarça, finge que está limpando a janela e sai brava..afinal ela nunca gostou desta coisa de ser observada! Ô coisa mais sem graça!!!

Josiany Vieira

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Roubando cenas



Sento em algum cantinho invisível e fico lá longe, só observando. Não dá pra ter pressa, e tem que ser algum lugar desses que passa tanta gente, tanta gente, que ninguém te nota...

Logo aparece alguém que me interessa. Primeiro fico imaginando a história daquela pessoa. Através das roupas que a pessoa usa, do livro que carrega de baixo do braço, dos pedaços de tatuagens que aparecem, enfim, sempre acho algum elemento que parece me ajudar a “inventar” a trajetória de vida.

Dia desses foi o senhorzinho sanfoneiro. Devia ter uns 72 anos. Ele tocava aquele acordeon com tanta paixão e cuidado que eu tinha vontade de levantar a aplaudir de pé. Acho que prestei atenção em todos os detalhes. Mas foram os pés que me prenderam a atenção. O modo como aqueles sapatos de verniz tão bem lustrados batiam no chão, ritmados com as notas que os dedos rápidos tocavam. O sapato parecia refletir todas as luzes do mundo.

Foi aí que saquei minha 400 mm e comecei a registrar. Parecia uma criança, ria sozinha, feliz de registrar aquele momento.

Sabe que grandes fotógrafos falam que não é certo você ser “ladrão de imagem”, que você tem que pedir pra pessoa, avisá-la que vai fotografá-la. Pra mim, em alguns casos, não funciona. A cena natural morre. As pessoas ficam tensas. Então, prefiro continuar sendo uma ladra... Sentar lá longe e roubar cenas e guardá-las só pra mim...


Mônica W.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O ônus da prova




O legal do voyeurismo não é o ver, mas o ser vista. Pra mim não há graça apenas em ver. O legal da brincadeira é arrasar, e destruir corações na entrada e na saída. É ter a sensação de que até música parou para te observar chegando. É saber que por onde passa tem um olhar te observando. Ter a nítida certeza que esta arrasando. Putz é esta a idéia, o mais interessante do voyuerismo e o seu lado oposto.
Mas a Desaforada tida “politicamente correta” não vai falar do conceito e muito menos dar um exemplo de voyuerismo a dois, mas puxa a discussão do quanto este imenso BBB que esta acontecendo no mundo esta de fato, aumentando a segurança da gente.
Li recentemente que dobraram o número de câmeras nas ruas da Cidade de Curitiba. Sei que pelo google podemos observar qualquer lugar do mundo em uma foto via satélite quase que momentaneamente. E lanço aqui a pergunta para debate? Em qual porcentagem isso realmente nos trás segurança e com que ônus? Parece-me que a privacidade do ir e vir esta sendo arrancada de nós. Pois sei que a probabilidade de olhar o outro com a “desculpa” e ou o “propósito” da defesa deve ter virado um grande televisão real para adultos. Deixando de ser um trabalho para ser uma observação alheia. Criamos assim uma legião de voyueristas legais que será que estão nos protegendo ou nos bisbilhotando?

Verônica Pacheco

terça-feira, 1 de julho de 2008

Voyeurismo Digital




Lia vasculhava suas feeds de RSS no Google Reader e atualizava o orkut a cada sei lá 4 horas? Não conseguia perder o vício de dar aquela espiada no blog da colega insuportavelmente chata e no flickr do amigo do amigo. Sabia quem estava com quem, quem tinha mudado de cidade, de emprego, etc, apenas monitorando noite adentro alguns perfis online. A mãe, as irmãs e até o namorado a alertavam sobre o vício, que só aumentava na mesma proporção que o número de sites de redes sociais e ferramentas de comunicação.

Um belo dia, Jaques, o namorado viajou a trabalho em um feriadão, ia passar 5 dias em Recife produzindo umas filmagens. Era a deixa para Lia ficar conectada o feriado inteiro sem pentelhações. Além do mais ia poder conferir todos os perfis do seu cemitério online de ex-namorados sem ter que minimizar a tela de 5 em 5 minutos.

Na segunda madrugada de voyeurismo digital, ali por umas 2h30, de tanto entrar e sair de um perfil de um ex, aparece um scrap de um dos "cadáveres" em sua página:
- Oi, vai estar em casa amanhã à noite?

O coração de Lia disparou mas não era de emoção. Ela não sentia mais nada por Marcelo, de quem se separar há uns 7 anos, gostava apenas de ficar monitorando as ações de todos, assim mesmo, de longe. Ficou apavorada com a possibilidade de que Jaques pudesse ter visto o scrap naquele mesmo instante. Apagou-o sem nem responder e de canto amaldiçoou aquela tecnologia. Desistiu da mídia personalizada por umas horas e foi assistir TV bebendo jack daniels.

Lia apagara de sono após quase 36h nonstop de vigilância internética. Quando acordou, toda torta no sofá avistou o relógio do dvd: 4:47. Madrugada ainda. Voltou para o ibook que ela deixara ligado em cima da mesa e ao tocar nas teclas percebeu que não havia dado o logout de seu perfil no orkut. As atualizações pularam em seus olhos vermelhos.

Jaques atualizou relacionamento.

Respirando alto, Lia clicou no perfil do namorado e lá estava a mudança

Nome: Jaques Loureiro
Relacionamento: solteiro

Lia não podia acreditar naquilo, nem enxergava mais nenhuma das 301 informações do perfil dele. Foi direto para o ícone do skype no desktop e discou para o seu celular. A ligação chama uma vez, duas, três... até oito.. na nona finalmente atendem. Uma voz de mulher:

- Alô
- Quem tá falando - berra Lia
- Oi, tô passando a ligação diz a voz de mulher nhem nhem nhem

Após uns 10 segundos com Lia berrando feito louca com o ibook, a ligação cai e o notebook se espatifa no chão.

Lady A.
QUANDO O VOYEURISMO TOMA CONTA DA SUA VIDA

Cláudio, trinta e poucos anos, solteiro, bem sucedido em sua carreira, com uma vida cheia de atividades, cheio de ambição e orgulho é mandado embora após uma discussão com um de seus chefes. Na noite seguinte, sai na balada, fica bêbado e tem um horrível acidente de carro, deixando-o paralítico.
Seus sonhos evaporaram, sua vida ruiu. Era incapaz de encontrar algum estímulo, alguma paixão, alguma fagulha que desse um start pra uma nova vida.
Morava sozinho em seu apartamento numa zona nobre da cidade. No início alguns familiares e colegas o procuravam, mas ele preferia não atender ninguém. Agora só seu sobrinho adolescente que o visitava todo fim de tarde para trazer mantimentos, baseados e novos vídeo-games.
Nos primeiros meses passava o tempo catatônico em sua cama, depois 24horas no computador jogando paciência, assistindo TV, games, até que descobriu as janelas de um pequeno prédio localizado no outro lado da rua e a grande utilidade de seu antigo binóculo.

Janela 2º.andar direito (19h30) – 2 crianças brincando e a mãe preparando a mesa do jantar. A mulher, dos seus 40 anos, parecia morar sozinha com as crianças. Poderia até ser uma mulher interessante, mas estava desleixada, acima do peso e cara de infeliz. Ele imaginou que o marido devia tê-la trocado por uma garota bem mais nova há pouco tempo.
Janela 3º.andar direito – Velho assistindo TV com dois labradores a seus pés. Provavelmente um viúvo aposentado.
Janela 3º.andar esquerdo – Um homem de terno, trinta e poucos anos, chega em casa falando ao celular. Tira o paletó, liga o som e pega uma cerveja na geladeira. Num repente, Cláudio parecia estar vendo a si próprio. Parecia o seu ap, só que mais limpo e com mais artigos de decoração. O homem sai da sala e acende a luz do quarto. Chega uma mulher no apartamento carregando sacolas de fast-food. Ela deixa as sacolas na sala e vai para o quarto. O homem sai do banheiro e a agarra por trás. Eles começam a se despir rapidamente.
Cláudio a princípio se assusta e se afasta da janela. Mas pouco a pouco, com a luz apagada, volta à janela e assiste a uma bela noite de amor. Seus olhos marejaram ao se dar conta que ele nunca terá uma mulher que o ame e a quem ame à seu lado, e que quando ele brevemente teve mulheres que pareciam amá-lo, nunca valorizou. O rosto das várias amigas coloridas e namoradinhas de adolescência vieram uma a um à sua cabeça.

No dia seguinte, a primeira coisa que fez foi encomendar uma luneta. E lá ia ele de hora em hora para a janela, bisbilhotar a vida de seus vizinhos.
Janela 2º.andar esquerdo (21h) – Um jovem de seus vinte e poucos anos dá uma festa no apartamento. Música alta e uma fauna impressionante. Travestis, homens e mulheres dançavam e se misturavam.
Cláudio os observava com deboche. Lembrou-se de uma vez quando adolescente, um de seus melhores amigos tentou lhe dar um beijo. Um misto de surpresa e ojeriza o tomou. Nunca mais teve coragem de olhar para o garoto.
Janela 3º.andar esquerdo (22h) – O casal chega em casa, troca de roupa e desce até a festa do 2º.andar esquerdo. Cláudio se surpreende ao ver que a mulher é amiga de todas aquelas bichas e o marido a acompanha tranquilamente.

A luneta finalmente chega, Cláudio não vê a hora da chegada do casal em casa pra poder observá-los em detalhes. Seu maior prazer era se imaginar na pele do feliz marido.
Janela 3o.andar esquerdo(18h) - A mulher chega. Cláudio foca a luneta em seu rosto. Estremece ao perceber que conhecia aquele rosto, mas bem mais jovem. Era Roberta, sua colega de escola por quem teve uma paixonite aos 14 anos. Naquela época ele acreditava no amor.
Ela vai direto pro quarto, sem se importar em fechar a cortina, prende o cabelo, se despe e desfila pelo apartamento apenas de calcinha antes do banho. Cláudio pôde notar que a idade só a tornou mais bonita, sensual e doce.
Um lampejo de inveja o tomou, imaginando que se ele tivesse mantido o contato, talvez fosse ele que estaria ali com ela, recebendo seus carinhos, fazendo amor e convivendo com aquela linda mulher.

Os dias passam e Cláudio continua vivendo de suas lembranças do passado e da vida dos outros. Numa manhã de sexta vê Roberta se despedindo amorosamente do marido e saindo com uma mala. Vai trabalhar no fim de semana, pensa.
Naquela noite (22h30):
Janela 2º.andar direito – A “mãe solteira” finalmente recebe a visita de um homem pra jantar. Ela caprichou na ementa, deve ser um possível pretendente.
Janela 2º.andar esquerdo – O rapaz homossexual se arruma pra balada.
Janela 3º.andar direito – O velho continua assistindo TV.
Janela 3º.andar esquerdo – O marido de Roberta parece ansioso, fecha as cortinas e sai de casa.
(4h30 da madrugada)
Janela 2º.andar esquerdo – O rapaz chega acompanhado do marido de Roberta, em beijos avassaladores. Os dois transam ali mesmo na sala, com as luzes acesas e a cortina aberta. Cláudio não acredita no que vê: “Por que pelo menos essa bicha não me poupa fechando a cortina, que merda?!?!”
Cláudio só consegue pensar em Roberta e fica louco de raiva em pensar que aquele cafajeste tem na mão a mulher mais maravilhosa do mundo e não a valoriza, e o pior ainda a trai com outro homem!
Na manhã seguinte, resolve fazer uma série de ligações, procura colegas de infância, ouve diversos comentários que não gostaria de ter ouvido a seu respeito e finalmente consegue o telefone da mãe de Roberta. Pelo menos ela se lembrava com carinho dele... Ela disse que Roberta trabalhava como agente de artistas e que estava casada a 5 anos com um publicitário que a tratava muito bem e que eles se amavam muito. Deu o telefone do apartamento deles e disse que ela ia gostar de falar com ele.
Imediatamente Cláudio liga pro marido de Roberta e o xinga, desligando logo a seguir.
(Domingo 19h)
Janela 3º.andar esquerdo – Roberta chega e é recebida pelo marido com flores e vinho.
Eles transam e ele vai pro banho. Nessa hora Cláudio resolve ligar e dedurar o marido pra Roberta. Ela atende. Cláudio fica mudo.

by Mazé Portugal