Em uma grande cidade, existia um psicólogo que se dizia especialista em fazer as pessoas gozarem. Cláudia, vinte e poucos anos, pobre e que nunca tinha gozado na vida foi procurá-lo.
- Então, seu doutô, eu não sei o que é goza.
- Minha cara, é muito comum as mulheres não conseguirem gozar nas primeiras relações sexuais. Demora anos muitas vezes. O segredo é simples: relaxar, se sentir bonita, gostosa...
- Olha, seu doutô, eu acho que é o sinhô que deve ta me gozando. Óia pra mim, com 98kg em 1metro e 55, e essa cara, é meio difícil se senti bonita e gostosa, né?
- Mas você pode fechar os olhos e fingir que é a...Juliana Paes, por exemplo. E pode pedir pro seu parceiro ser carinhoso, demorar mais nas preliminares. Sabe o que é isso, né?
- Eu num sou burra não. Mas seu dotô, o único homi que qué me come é o Godofredo, que já chega bêbado lá em casa, enfia e goza. E num adianta o sinhô me fala pra cunversa cum ele, pois ele é surdo-mudo.
- Bom, mas você não precisa de ninguém pra ter prazer sexualmente. Comece a se tocar, a descobrir cada parte do seu corpo.
- Eu já tuntei. Mas aí, vou sentindo minhas banhas, minha pele áspera e me dá uma vontade louca de chorá.
- Bom, Cláudia, mas gozar não está necessariamente ligado ao sexo. Você pode gozar a vida! Aproveitar tudo o que a vida tem de bom pra oferecer. A beleza do nascer e pôr do sol, a inocência de uma criança, o mar, a natureza...
- Seu dotô, eu sô pobri, moro na favela ondi só tem pirralho fedido e bandido, barraco e edifício por tudo que é lado. Quandu o sol tá nascendo, já penso nos criente chato que tenho de infrentá pra tira uns trocado pra cumê. Praia é muito longe e eu num tenho dinheiro ou amigo pra me levá. Parque? Já fui. Mas num me feiz goza, não. Tinha um lago lá no meio muito sujo.
- Mas e que tal gozar no sentido de preguiçar, sair um pouco pra vadiar.
- Num tenho vuntade, não. Quando eu era criança, fiz isso umas duas veiz, levei tanto pau du meu pai que associei à coisa ruim. Só de pensá, já me sinto culpada.
- Viajar com um baseadinho, ou uma droga do tipo então, nem pensar?!?
- Já tentei tumém. Um criente me pagou a roupa lavada com um desses aí, me falô que eu ia goza legal... Vumitei, fiquei tantã e passei 2 dias cum febre e boca seca. Nim pensá.
- (Silêncio) Ah, já sei. Espertinha!!! Você inventou todas essas histórias e vai sair daqui gozando de mim pra todo mundo lá fora dizendo que eu sou um farsante, não é?! Hehe...
- Cruiz credo. Coitadinho do sinhô. Eu jamais falaria mal do sinhô.
- Sério mesmo?
- Craro, ué! Isso é coisa de genti ruim.
- Bom... você já tentou uma religião?
- Eu fui duranti uns meis na Igreja Universal, mas óia só, eu tinha que paga o dízimo toda veiz, repeti aquelas coisas que eles cantavam e o tal do Jesuis não me deu nada de volta, num achei juisto.
- Minha cara, vou lhe ser sincero: você não tem fantasias, ilusões, desejos, senso de humor e me parece extremamente infeliz e realista, pra não dizer pessimista. Trata-la me parece um desafio impossível. Com uma vida dessas, eu me jogaria do edifício mais alto que encontrasse e torceria pra que numa próxima encarnação viesse com mais sorte e ou um corpinho mais ajeitado, pelo menos. Seu horário acabou e boa tarde, se for possível pra você.
Claudia saiu do consultório com essas últimas palavras do “doutô” batendo em sua cabeça. Passou em frente ao edifício Itália e subiu até à cobertura. Na beirada do edifício, pronta pra pular, seu corpo e mente foram invadidos de um surto de adrenalina e prazer e nos poucos segundos que lhe restaram de vida, teve o maior orgasmo que possa imaginar.