sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nervos Congestionados



Eu nunca imaginei o quanto gostaria de estar em um ônibus, mesmo em pleno horário de pico, às 18 horas e 30 minutos. O trânsito estava infernal, com carros entulhados em longas filas que pareciam não ter fim, porém, nada que uma mulher delicada e sensível como eu não pudesse suportar com elegância.
Teria sido bom se eu estivesse sozinha, mas não estava. Bem ao meu lado, há menos de dois palmos de distância, dirigindo o carro, aliás, o carro em que eu estava, havia um homem ensandecido com o tráfico lento.
-Anda Puta que pariu!Que merda! Vai logo seu imbecil!
Às vezes ele me olhava, respirava fundo, e fazia alguma indagação filosófica, com ar sério de quem realmente entende do assunto. Quase um pós-graduado em fenômenos do trânsito em Curitiba no horário pós-trabalho.
- Sabe porque existe trânsito? Eu vou te dizer o porquê. Existe por causa de gente burra, como esse cara aí da frente, olha. Tá vendo o espaço que ele tem pra ir pra frente? Isso vai acumulando na fila lá atrás, o que faz com que muitos motoristas parem em cruzamentos. Assim que acontecem os engarrafamentos. Por causa de gente burra.
Apesar de achar esse monólogo um tanto quanto engraçado, devido à seriedade com que ele discorre sobre o assunto, como se aquilo tudo fosse algo realmente importante, e sua “teoria” o fizesse um verdadeiro Einstein do trânsito, eu gosto desse raro momento de calma, e tento estabelecer um diálogo. Parto para a estratégia da distração, para ver se ele esquece onde está e quem sabe até acredite que se encontra em uma mesa de bar, onde o único tumulto e impaciência é a cerveja que o garçom ficou de trazer a menos de meio minuto. Uma longa espera pra ele, é claro.
- Realmente Edgar, é incrível. É tudo uma questão de burrice. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso.
- Como assim? Não é tudo uma questão de burrice coisíssima nenhuma. SAI DAQUI, EU NÃO VOU DAR A FRENTE PRA VOCÊ NÃO SEU MERDA. VAZA. Sério, não é não. Você entendeu errado.
- Você acabou de falar que a causa do trânsito congestionado é a ignorância das pessoas.
- Exatamente. Foi bem isso que eu disse. E não que é tudo uma questão de burrice.
- Se não é tudo então me diz o que que não é burrice.
- QUE FOI IMBECIL? TÁ BUZINANDO PORQUE? VEM AQUI E CHUP... Malandragem não é burrice, por exemplo.
Edgar afunda a mão na buzina sem nenhuma dó. Os músculos enrijecidos se contraem cada vez mais à medida que o som vai se prolongando, até que ele resolve parar. Seu corpo relaxa, e ele sem notar, olha pra mim com um sorriso:
- O que vamos jantar?
Eu viro o rosto e tento me entreter com as coisas lá fora. Um ônibus bem ao lado quase me faz chorar de inveja com os passageiros de rostos angelicais e serenos a balançar com leveza no balanço típico.
- AAAAAAAAAh! QUE BOSTA! EU QUERO IR EMBORA.
Agora, Edgar não apenas grita, mas também soca o volante do carro como se o próprio Hércules estivesse ali. De repente, ele me olha surpreso:
- O que foi?
- Eu quero ir a pé, cansei.
- Eu também canso de esperar, mas eu tenho paciência.
- Eu cansei da tua impaciência, não da minha paciência.
- Espera, a gente já chega.
- Então pára de fazer escândalo.
Aquele clima de tensão me deixava aflita. Eu não podia imaginar como aquele homem podia passar por aquelas sensações todos os dias. Ele realmente sentia raiva de tudo que estava acontecendo. Puxava os próprios cabelos, apunhalava o painel do carro, gritava coisas horríveis, fazia ameaças de morte.
O trânsito parecia cada vez pior. Ao longe, podia-se ver o sinal verde no semáforo contrastando com o movimento estático dos carros. Ele não colocava na terceira marcha há mais de 40 minutos, e o seu destino sempre estivera a uma quadra de distância.
Quando finalmente chegamos na quadra em que o congestionamento desembocava em diversas ruas e o movimento se amenizava, um carro cortou sua frente, tirando o seu “primeiro lugar” bem próximo à faixa de pedestres.
Vermelho, roxo, azul de raiva, ele gritou com todas as forças que pode, inclusive fechando os olhos para conseguir mais pressão.
- IDIOTA! EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FEZ ISSO SEU FILHO DA PUTA! VOCÊ VAI VER A MINHA IRA, VOCÊ PEDIU! EU VOU TE ENXER DE PORRADA SEU...
Tomou um pouco de ar, e recomeçou.
-VOCÊS TODOS PEDIRAM. EU VOU VIRAR O HULK, VOCES VÃO VER! VÃO VER...
O sinal abriu. Edgar respirou fundo, e com o rosto fumegando, prendeu os cabelos pra trás e abanou seu rosto, como se estivesse com calor. O congestionamento estava desfeito.
Baixou o vidro do carro, colocou o braço para fora e calmo, disse:
- Então amorzinho, o que vamos jantar hoje?



Letícia Mueller

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Deus castiga?


Alguém pode dizer que não, mas diariamente, vivemos nossas vidas sempre partindo de um pressuposto ou de uma motivação. Os motivos podem variar: ou porque queremos alcançar algum sonho, ou queremos agradar alguém, ou desejamos entender certas coisas e por ai vai. Ou seja, nunca estamos assim, pra lá e pra cá em nosso dia a dia por acaso.
Acontece que existem pessoas que vivem, ou melhor, que tentam viver de acordo com o que a bíblia prega. Há aquelas, por exemplo, que acreditam que Deus castiga e por isso tenta fazer de tudo que as escrituras recomendam. Afinal, Deus castiga?
Diversas teorias dizem que sim: Deus castiga, pois permite que seus filhos provem do seu furor. Isto porque antes não ouviram o que ele tinha para dizer. Outras já abordam um Deus bondoso, livre de maldades a ponto de não fazer ou permitir mal a nenhuma criatura.
Acontece que no mundo de hoje, as pessoas vivem os dois extremos disso tudo. Vivem ou demais temendo ou temendo muito pouco. Ou estão cegas de crenças, ou estão precisando de mais fé, pois nada tem. E isso não é bom. Podemos nunca entender se Deus era e é um ser que castiga que permite a fome, a miséria, a doença ou qualquer outra coisa que seja somente para nos provar daquilo que muita vezes nem conseguimos acreditar ou um Deus tão bondoso que nos perdoa de tudo aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. Não importa o que está certo: o que importa é que devemos antes de tudo temer em machucar nosso próximo, fazer mal a quem nem conhecemos, entristecer aqueles que amamos e principalmente, faltar amor para aqueles que estão ao nosso redor. Isso sim devemos temer, pois se Deus castiga certamente castigaria aqueles que só pensam em si mesmos e em viver fazendo o certo somente para agradar a Deus e não ser castigado por ele.



Bianca Nascimento

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Semana de tema livre

Comando Eleitoral




É pessoal, e neste ano o eleitor surpreendeu não é?
Tanta gente, tanto partido e coligação comemorando a vitória antecipada, ou até comemorando o segundo turno e não é que todas as pesquisas, aquelas do tipo IBOPE, foram furadas? Surpreendemos.
E a surpresa é o melhor da vida, talvez os currais eleitorais já não estejam tão obedientes, talvez nós eleitores estejamos mais subversivos. E por falar em subversão, que ela se mantenha aos possíveis segundo turno, e principalmente, a partir do 1º de janeiro, quando então, toda aquela parafernália de propostas e promessas, terão de ser colocadas, no mínimo, em pauta, você não concorda?
Porque não basta surpreender, não basta contornar a pesquisa, inovar, mostrar diferença, transparecer que estamos evoluindo e usando além das mãos a cabeça na hora de votar. O próximo passo deve ser dado, a cobrança. Cobrar a promessa, cobrar a mudança, cobrar o andamento e a aplicação, há, porque prometer é fácil, querer fazer também é fácil, como se diz de boas intenções o inferno está cheio.
O necessário é fazer a diferença, e parece que o eleitor já começou a fazer sua parte, o que é animador, afinal, já havia tanta certeza em tantos resultados, que as mudanças repentinas naquelas urnas, foram uma feliz surpresa, que mostrou um principio de evolução e nos faz acreditar que talvez num futuro, distante ou não, nossa democracia possa de veras ser exercida. Afinal, o poder está ou não nas mãos do povo?



Fernanda Bugai

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uma pra cada uma



- Fala a verdade Julio, você acredita em Deus?
- Oi?
- É. Deus, Jùlio, você acredita?
- Humm. – Júlio deixa escapar um grunhido indecifrável. Pera aí. Ô Garçom, garçom, amigão, traz mais dois chopps.
-Eu não quero um chopp, fala Adriana, indignada.
- Ah não quer?
Categórica, ela diz de nariz empinado, e olhando para as próprias unhas:
-Não.
O garçom parece incomodado com a discussão e seu rosto, parecendo um imã que atrai quando chamam seu nome, não pára de se virar para todos os lados. O bar está cheio, e todos parecem sedentos como se o mundo estivesse chegando ao fim.
-Mas então você não bebe?
-Você acredita em Deus?
-O que que tem a ver Deus com bebida?
- Tem a ver que eu perguntei primeiro e você não respondeu até agora.
- E nem vou responder.
-Ah, você não vai responder? – Ela fala com ar vingativo, ameaçador.
- Não.
- Ok.
-Ok.
O garçom também parece esperar uma resposta. Ficam em silêncio por 5 segundos, até que ele não resiste, e pergunta:
- Mas me fala linda, você não bebe não?

Duas horas depois, os dois, ainda sentados na mesa do bar, conversam sobre política, amores passados, filmes e música. Ele encoberto por 6 garrafas de cerveja, e ela ainda bebericando o mesmo suco que pedira quando chegara.
- Mas então Julio, me fala uma coisa, você acredita ou não em Deus?
- Adriana, posso saber porque tanto isso é importante, meu bem? Falar de religião a essas horas. O papo tá tão bom. Sempre dá merda quando a gente entra nesses assuntos mais pessoais.
- Mas eu acabei de te contar que já fiz um ménage com 3 caras, cada um de uma raça diferente, e você não quer me falar se acredita em Deus?
- Não.
- Não pode ser.
- Mas é.
- Não, não pode.
- O que que não pode?
- Você sabe o que que não pode.
- Não sei não.
- Sabe sim, você disse “Mas é”.
- Não, não disse.
-Disse sim.
- Ok.
Adriana parece calma. Respira com tranqüilidade, olhando para as pessoas do bar com ternura e sorrindo como uma candidata à vereadora. Até Julio se assusta com sua frase dita ao acaso, e aos berros:
- Fala logo se você acredita ou não! Fala, logo.
- E o que acontece se eu não falar?
- Sei lá, mas se você falar eu vou pra cama hoje com você.
Julio mexe-se de maneira esquisita na cadeira. Seu rosto parece passar por uma rápida deformação, mas logo volta ao normal. Adriana era bonita, gostosinha até. Os seios pareciam grandes o suficiente para encher a mão e, já fazia tanto tempo desde a última vez. Então, decidido, Julio é tomado por um arrepio da espinha até a nuca, e seu sangue fervente o faz gritar incontrolavelmente:
- Uh, Mi Dios! Que tetas calientes!
Silêncio.
- O que você disse?
- Eu não disse nada.
- Claro que disse. Todo mundo ouviu, tá todo mundo te olhando.
- Estão todos loucos.
- Você que é louco. O que você disse?
-Não vou falar.
- Fala logo o que você disse!
- Tá.
-Sério?
- Uhum.
- Então fala.
- Mas o que você prefere saber?
- Como assim?
- Se eu acredito em Deus ou o que eu acabei de falar?
- Ah então você admite que falou?
- Sim sim...
- Prefiro saber os dois. Trato é trato.
- Isso! Duas perguntas!
-É.
- Então cadê sua amiga pra eu te responder essa outra pergunta?
- Que amiga?
- Trato é trato, uma mulher pra Deus, outra pro espanhol.
E cruzou os braços decidido, esperando uma resposta.




Letícia Mueller

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Conto Portunhol



Diversificar é preciso e, esta semana, receio que o tema me encanta. Receio porque tudo que me atrai se torna ou perigoso ou vulnerável. Mas enfim, vou contar uma historinha que ouvi por aí.
Lá estava Alejandro, agachado apertando o parafuso que fixava el enchufe na parede. Tradição dos homens de sua família, a profissão de eletricista manteve os lares de quatro gerações da Família Hernandez. Levantou-se, passou o lenço na testa e tomou um copo d’água gentilmente servido por Anita, uma doce e jovem morena, de olhos cor de jaboticaba e jeito cativante.
Anita, não escondia seu encanto por Alejandro e não hesitava em debruçar-se em la ventana para mirá-lo passando pelo outro lado da rua. A primeira vez que o viu foi na venda do Sr. Jose. Entrou apressada por causa da chuva, tirou a capa e pendurou em la percha. Quando virou-se, lá estava Alejandro, de olhos verdes como esmeraldas, muy guapo, caliente. Ele levantou a aba da boina em sinal de cumprimento, esboçou um sorriso maroto e desceu la escalera em direção à calçada. Anita ficou hipnotizada, seu corpo começou a arder como fogo e já nem lembrava mais o que a tinha levado até o armazém. Passou noites sonhando com o moço, bastava deitar em la almohada para aquellos ojos saltarem em seus pensamentos. El balcón era seu lugar preferido nas noites enluaradas, pois podia ver a pracinha de bares boêmios, local preferido de Alejandro. Muito galante, sempre que a via, beijava um cravo e lhe oferecia seguido do sorriso que a fazia incendiar.
Certa noite, Alejandro ousou subir até Anita. Tomou-a em seus braços e a arrastou até el dormitório. Certificou-se que el arrofo estava seguro e delicadamente aproximou-se da moça, beijando fortemente seu cuello, arrepiando todo seu cuerpo, enquanto entontecia a moça com palavras envolventes e juras de um amor cierto. Hola, que tal? Adiós, menos mal.
Que casualidade desta moça deixar-se levar por este camelo.

Angelica Carvalho

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Quando meu sangue latino fica quente






Quando meu sangue latino fica quente...

É melhor meu inimigo sair da frente!

Pois rodo a minha saia estilo bata de cola...

E toco, rapidamente, minhas castanholas!



Viro a cigana Carmem com seu punhal...

Feito do luar mais puro e natural!

Quando meu sangue latino fica quente...

Meu espírito fica bastante diferente!



Sapateio tocando a brava melodia...

Do solado no chão com harmonia!

Bato palmas fortes e brilhantes...

E delas saem estrelas cintilantes!



Se for para escandalizar e dançar,

Que seja em ritmo latino...

De um bolero a luz do luar,

Falando das travessuras do destino!



Sua batata está assando...

E ela é batata-salsa...

Num ritmo que está mudando...

E que nunca será valsa!



Sempre danço um trágico e tango,

Quando alguém toca meus lábios de morango!

Minha vida é uma rumba cubana...

No meu destino louco de cigana!



Quando meu sangue latino fica quente...

Solto um gemido escandaloso e fremente...



Então coloco uma rosa grande e carmim...

No meu cabelo longo e escuro...

Dançando na noite sem fim...

Para espantar o inimigo obscuro.




Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O meu sangue ferve!


Esse meu sangue, que da mesma cor da paixão, também tem cor quente e de raiva quantas vezes já ferveu. Foram tantas, que só de lembrar, o sangue já sobe: quantas vezes ele borbulhou pelo amor não correspondido, pela paixão doentia, pela amizade falsa, pelas situações traiçoeiras, pelas trapaças de conhecidos, pelas pessoas mesquinhas, pelas mal-humoradas, pelas que queriam tirar vantagem, pela indiferença das pessoas, pelas mentiras deslavadas, pelo silêncio dos justos, pelo grito dos inocentes, pelos assassinos, estupradores, pelos padres pedófilos, pelas pessoas que maltratam animais, pelos governos tiranos, pelos ataques, pela bomba atômica, pelas guerras, pelas armas, pela exploração, pela injustiça, pelo ódio, pelo desamor e por muito mais. Quantas coisas que esse sangue latino já sentiu. Mas não importa se é latino, brasileiro, norte-americano ou mulçumano: por muitas coisas nosso sangue ainda há de ferver!




Bianca Nascimento

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Tema da Semana: Quando Ferve Meu Sangue Latino

Pacato



- Amor, o que você fez hoje durante o dia?
- O de sempre João, depois que você saiu para trabalhar, ajeitei a casa, dei uma olhada nas crianças na rua, fiz almoço, arrumei a merenda e levei os Dulce e bento para escola...
- Ta, mas e de tarde?
- Ai Ramon, depois que cheguei em casa lavei a louça, limpei a cozinha, fiz umas arepas para o café, dei uma organizada na bagunça das crianças, fui buscá-las na escola, dei de comer, ajudei na lição, e fui fazer seu jantar meu bem. Só isso, aliás, só isso que tenho feito ao longo de toda a minha vida aqui, não é João?
- Mas Dolores meu amor, você sabe que eu dou um duro danado lá no serviço, para te dar do bom e do melhor... Se pudesse, te deixava no salão o dia inteiro e pagava babá pras crianças, mas sabe como é nossa vida. Meu trabalho também não foi nada de diferente, a mesma labuta de sempre, daquele jeito, igual naquele filme de Carlitos...
- Já te disse que não é Carlitos, João, aquele lá é um artista, Charles Chaplin, Carlitos é um personagem que ele fez homem.
- Não importa Dolores, o que importa é que ta assim a vida, trabalho demais, diversão de menos. E por falar em diversão, que tal a gente namorar um pouquinho, heim?
- Ai João, você acha que essa vida de dona de casa é fácil? Acha que eu fico só deitada no sofá o dia todo? Pois vou te contar que não, estou muito cansada, na minha terra as mulheres também cansam. Namoramos amanhã.
- De novo Dolores? Aonde foi parar aquele teu sangue caliente?
- Esfriei na beira do tanque! Boa noite.
E assim se passaram os pacatos dias de João, caboclo nascido no sertão, que se encantou com Dolores ‘muy bonita y hermosa’, ainda quando fazia construção na cidade grande. Dolores aqui tinha vida pacata, João trabalhava, Dolores também, ele saia e ela ficava, as crianças na escola, e a vida seguia.
- Eu quero saber agora o que está acontecendo na minha cama Valentim?!
- João meu amor, não é nada disso que você está pensando, não está acontecendo nada.
- Ah não Dolores? Então me explica o que vocês estão fazendo na minha cama, grudados nessa hora da tarde? Logo hoje que sai cedo do serviço pra te fazer surpresa, e até flores te trouxe... Você é uma vadia mesmo, teu sangue quente esfriou foi na pele desse maldito Valentim que se fazia de meu amigo o tempo todo, mas isso não vai ficar assim.
- João não, o que você está fazendo? Nós somos amigos, tenha piedade homem, ela que me seduziu!
- Que gritaria é essa minha gente? O que está acontecendo aqui? Meu Deus! João o que foi que você fez?
- É o que a senhora está vendo Dona Aninha, eu posso ter sido corno daquela vadia, corno daquele maldito, dei abrigo pra ela, confiei nele, fiz da minha terra a terra deles, mas não Dona Aninha, quando ferve meu sangue latino, não existe latino que não pereça!








Fernanda Bugai

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Serve pra isso...


Era um sábado ensolarado. Ela não estava acostumada a andar de ônibus e ainda se mordia de raiva pelo pai que não pode levá-la ao shopping. O avô fora internado, e poderia receber alta a qualquer instante para deixar o hospital. O pai tinha que estar a mercê.
Que raiva ela sentia. O shopping era tão pertinho, não custaria nada que alguém a levasse até ali. Mas, lá estava ela, já há 10 minutos dentro daquela máquina de tortura. Como era horrível! Aquela gente toda, tudo tão feio, sujo, e pobre.
Ela não via a hora de encontrar logo com as amigas e contar à elas sobre a péssima experiência que teve. Até que renderiam boas risadas.
Mas enquanto estava lá, a menina não conseguia se distrair. Todos os passageiros pareciam olhar para ela, como se fosse um monstro, ou quem sabe uma princesa. Que nojo, ui. Ainda bem que tinha seu IPod Touch 32 Gb para lhe fazer companhia.
Deu Graças a Deus quando chegou no lugar aonde tinha de descer.
Que muvuca! Até pra sair tem que ser desse jeito! Bando de mal educado!
E saiu empurrando todos que via pela frente, discretamente é claro. Vexame é feio em qualquer lugar, até na favela.
Já olhando para o shopping belo e imponente à sua frente, quando estava prestes a respirar ar puro e saltar de alegria pela rua, uma coisa chamou sua atenção.
Uma família de seis pessoas estava parada em frente à catraca, do lado de fora. Havia um senhor mais velho, de mãos dadas com uma senhorinha grisalha. Ambos de chinelo de dedo, muito humildes. Tinha também uma mulher gorda, de cabelos emaranhados e oxigenados com as raízes pretas já grandes. Ela levava no colo uma criança negrinha, já bem cabeluda. Outras duas crianças, uma menina e um menino, se agarravam a suas pernas e puxavam a barra de sua saia com insistência.
- Mãe, também quero colo.
A mãe não conseguia se concentrar. Mexia desesperada em sua bolsa em busca da moeda que completasse o valor da passagem, até que a vózinha pegou com gentileza em sua mão, e com um sorriso sincero, falou:
- Calma filha, o pai paga. Afinal, pai é pra essas coisas né…
A senhorinha olhou para o marido, que retribui com uma gargalhada gostosa, e concordou com a cabeça, e disse:
- Toma filha, vamos.
A mulher da raiz preta sorriu como uma criança, como a própria que carregava em seu colo e tinha sobre a barra de sua saia.
A menina do ITouch notou que a família humilde estava na verdade bem vestida. Os dois senhorzinhos estavam sim de chinelo de dedo, mas pareciam ser os melhores de seus guarda-roupas. A mulher das raízes estava maquiada, exibia uns beiços vermelhos muito mal pintados, mas não importava. Ela tinha se arrumado. As duas meninas estavam de sandalinhas rosa cheia de miçanquinhas e usavam maria chiquinhas no alto da cabeça.
A família aproveitou o sábado para passear, e ali, o papel do pai era pagar a passagem da filha e dos netos. Era isso o que ele podia fazer, e todos ficavam contentes, e agradeciam com um sorriso sincero.
Nossa menina lembrou do próprio avô internado, e lembrou do último almoço que tiveram, com toda a família reunida. Uma churrascaria no Batel. Depois, ainda passaram no Mac, e sem querer ela deixou respingar um pouco do sundae no banco de couro do carro do pai. Discretamente, claro.
Huum, como ela amava sundaes!
Quase chegando no shopping, ela aumentou o volume do IPod e foi direto para a Praça de Alimentação.
Simples assim.



Letícia Mueller

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma Vez Alice, Sempre Alice.


Mais um daqueles finais de expediente sem graça. Depois de um dia exaustivo de trabalho, só o que Alice precisava era de um bom banho. E depois um jantarzinho, uma sopa talvez, fácil de preparar. Seus dias eram monótonos, travava uma luta pessoal contra as contas, não tinha mais tempo pra se cuidar e namorar já nem lembrava mais como era. Uma rotina, no mínimo, tétrica de uma pessoa acomodada com sua condição de ser vivente, se é que se pode dizer que vive uma pessoa assim. Particularmente eu indicaria sessões de terapia e sexo casual, mas não sou psicóloga, então que cada um faça o que bem entender com sua vida.
Mas, aquela tarde tornou-se diferente e mudaria a vida da doce e aguada Alice. No caminho para casa, tropeçou em uma pedra e caiu estatelada no calçadão. Já se achava uma perdedora e agora tinha certeza. De quatro, sem saber se olhava pra cima ou ficava chorando de vergonha ali mesmo, deu de cara com um bilhete de loteria. Quem pensaria em pegar um bilhete amassado no chão depois de uma cena dessa? Fala sério, nem eu. Mas a garota era tão descrente de tudo, que juntou a porcaria do papel, como se quisesse se desculpar consigo mesma por ter caído, do tipo, eu queria mesmo esse papel!
Levantou-se, ainda com o joelho meio doendo e continuou sua caminhada para casa, não sem antes passar pela padaria pra pegar os mesmos cinco pãezinhos frescos de todos os dias. Na fila do caixa, ficou prestando atenção no noticiário. No anúncio, os números da loteria que premiavam um ganhador. Um único ser tinha levado a bolada e Alice riu para si mesma, pensando: sortudo! Lembrou do bilhete que encontrara no chão e, só por curiosidade, conferiu: 07-19-35-38-44-52-59. Quase caiu no chão de novo. Como assim? Os mesmos números da TV? Ficou vermelha, começou a suar, mas não queria passar por mais uma vergonha. Vai que ela tinha lido errado, ainda iam rir muito dela. Amassou o bilhete, pagou sua conta e correu para casa, sempre olhando pro chão, cheia de livros nas mãos e sonhos em sua mente.
Subiu correndo pelas escadas, bateu a porta do apartamento e foi jogando tudo pelo caminho. Pegou novamente o bilhete em suas mãos e ligou a televisão na esperança de ter os números ditados novamente. Nada. Lembrou do notebook em cima da mesa, ligadinho esperando. Entrou no site e pimba! Não deu outra... eram mesmo seus números. Acabou a solidão, a vida chata, a falta de dinheiro, ficar na vontade nunca mais. Gritava e pulava como louca, sem ter com quem mais dividir aquilo, mas agora não importava. Poderia comprar amigos se quisesse. Rasgou todos aqueles trapos que chamava de roupas, agora poderia comprar o que quisesse nas boutiques mais caras e ai de quem não a tratasse bem. Jogou todas as flores no lixo. Pra que flores? Antes elas serviam de companhia, agora não passavam de um estorvo. Foi se desfazendo de tudo o que lembrava a sua triste e pobre vida, afinal sempre se achou uma vítima do destino, uma pessoa perseguida pelo azar, tudo dava errado e a culpa... do destino. Sonhava mais e agora poderia fazer tudo.
Passou a noite tomando a única garrafa de vinho que tinha guardado pra uma ocasião especial, jurou ao mundo uma vingança pelos anos de sofrimento, jogou a taça longe e foi dormir. Infartou fulminantemente na mesma noite e morreu dormindo.
É Alice... ainda não foi desta vez.




Angelica Carvalho

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Já olhou para as suas mãos hoje?


Hoje olhei para as minhas mãos. Olhei suas linhas. Percebi atentamente se talvez elas indicassem algum destino, alguma direção. Pensei no quanto de coisas elas já sentiram, quantas peles já haviam acariciado, quantos fios de cabelo enrolado. Quantas vezes foram elas que aliviaram o suor das febres que tive, que se fecharam pela raiva que já senti, que já se abriram diante do céu na busca de um ser para se agarrar. Quantos sinais por ela já emiti, alguns feios para quem merecia e para quem também não merecia. Quantas pessoas elas já apontaram e julgaram, deduraram ou simplesmente indicaram. E as estrelas: quantas vezes meus dedos já as contaram, quantas vezes para a lua minhas mãos acenaram. Quantos afagos já fizeram, quantas coisas já arranharam, quantos apertos de mão já apertaram, quantas batidas comemorando tantos aniversários, quantas portas já abriram, quantos documentos já assinaram, quanta comida já beliscaram e quantas preces já não fizeram. Quantos “adeus” elas já deram e quantos pães já dividiram. Fechei-as. Observei-as novamente. Lembrei que certa vez alguém me disse que uma mão fechada é do tamanho do nosso coração. E por isso, quanto mais minhas mãos forem leves, menos ásperas, mais segurarem as pontas e mais preces fizerem, mais meu coração se fortalecerá!











Bianca Nascimento

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Semana de tema livre

Chegada




Sua vida mudou depois daquela chegada, suas manhãs já não eram mais as mesmas, o ritmo acelerou, foram noites sem dormir, até que aquele pequenino ser pudesse reconhecê-la e se adaptar àquilo tudo, novo, temeroso, maior.
Os dias já não foram mais iguais, havia necessidades exigíveis, horários certos a família teve de habituar-se àquele pequeno ser, que aos poucos, aos tropeços, foi trazendo luz e alegria, de uma forma amável e carinhosa.
Já não se podia levantar tarde, já não se podia amanhecer nas ruas, as refeições balanceadas e bem nutridas, o horário do sono, a hora da brincadeira, ensinar bons modos e costumes, o respeito hierárquico, o amor maternal, agora um cedeu ao outro seu coração, formavam todos uma família, o apego era tanto e intenso, dia a dia, minuto a minuto, a carência de atenção e a necessidade de cuidado fizeram laços se estreitar e um amor incondicional surgir.
Ela já não pensa mais em si, sem antes pensar naquele, seus valores e interesses já não direcionam para futilidades, beleza, moda e lazer, necessidades maiores gritam. O medo de perder, a necessidade do cuidado, alimentar, educar, dar amor, ter certeza de que está agindo corretamente, saber lidar, repreender com atenção, não deixar surgir o medo somente o respeito.
Foram tantas coisas que vieram, são tantas coisas que estão por vir, que depois de sua chegada, aquele lar tornou-se mais feliz, a doçura de um olhar, a nobreza de um afago, o entender de uma preocupação, agora tudo gira em torno daquele pequenino que cresce a cada dia, um filhote canino que soube despertar o melhor do coração humano, pois como dizia Fritz Von Unruch “ o cão é o único animal que te ama mais do que a ele mesmo”.


Fernanda Bugai

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Planeta Roxo


Aninha tinha apenas 6 anos de idade, mas já era gente grande, sim senhor! Morava em uma cidadezinha bem pequena no interior do Paraná. Contava até um milhão e duzentos e oitenta mil bilhões, sabia escrever “Aninha” e “ Sorvete de Creme” e já tinha se desfeito de suas 24 bonecas, ficando apenas com uma, mas só porque Filomena, aquela uma que restara, não tinha como dar pra qualquer um.
Aninha era inteligentíssima. Já sabia prender o cabelo sozinha, amarrava os cadarços do tênis em 16 segundos (recorde entre as amigas da escola e do bairro), sabia de cor a receita de nega maluca e já tinha lido um livro de 52 páginas, coisa de que mais se orgulhava.
Aninha tinha uma irmã mais velha, de 15 anos. Marcela até que era legal, mas perto das amigas ficava insuportável, com ar de irmã mais velha.
Um dia, enquanto assistia à televisão, Marcela chegou em casa com uma amiga e nem sequer lhe deu oi. Aninha, como que dando uma bronca, falou a irmã:
- E eu não ganho oi, não, maninha?
Marcela apenas tirou a cabeça pra fora da cozinha, e olhando seriamente pra Aninha, falou:
- Oi.
Virou as costas e se foi. Aninha continuou a ver TV, fingindo que não se importava com o desdém da irmã.
As duas voltam da cozinha com um balde enorme de pipoca, e uma bandeja cheia com as suas bolachinhas recheadas preferidas. Animada, ela desliga a TV e senta-se junto com as duas meninas mais velhas, puxando assunto. Fala para a amiga de Marcela:
- Oi, tudo bem? Qual seu nome?
- Daniela, e o seu?
- Aninha. Na verdade Ana, mas ninguém me chama de Ana. Só de Aninha. Mas na verdade, meu nome mesmo, é Ana.
- Os dois são nomes muito lindos. Eu ficaria feliz de ter dois nomes que nem você.
A menina sorri, um pouco envergonhada. Então, se aproxima mais de Daniela, fica bem ao seu lado, e olhando em seus olhos, em tom solene, pergunta:
- Porque seu cabelo é roxo Dani?
- Ora, porque ...porque ...
Marcela interrompe, querendo debochar da irmã:
- Da onde que o cabelo dela é roxo sua loca? Você não ta vendo, não? É super loiro, mais loiro que o seu.
Aninha ignora Marcela.
- Sério Dani. Eu nunca vi um cabelo assim, igual ao seu. Só vi na TV. Mas minha mãe sempre me diz que nada do que passa na TV é de verdade.
- Ah Aninha, eu também nunca conheci uma menina que tivesse dois nomes. Nem na TV, responde Daniela.
- Ai vai dizer que você não entendeu? Meu nome mesmo é só Ana, mas...
Marcela interrompe novamente.
- É claro que ela entendeu sua anta. Ela ta só tirando com você.
Aninha parece se encolher no sofá, e com os olhos cabisbaixos, finge não se importar com o comentário da irmã. Quando se levanta para ir ao seu quarto, Daniela fala:
- Então, meu cabelo é roxo mesmo. E você sabe como ele ficou assim?
Aninha responde, já um pouco mais animada:
- Não sei não. Porque também nunca vi uma tinta roxa pra vender. A minha mãe passa uma que fica parecendo com a cor do meu cabelo, só que um pouco mais feinho, sabe? Até ela diz que meu cabelo é o mais lindo do mundo.
- Então, eu vou te contar porque meu cabelo é assim, mas você não pode contar pra ninguém. Pra ninguém mesmo.
- Nem pra Marcela?
As duas meninas mais velhas se olham e dão uma risadinha discreta. Daniela responde:
- A Má já sabe. Mas tirando ela, mais ninguém sabe, então não conta pra ninguém, ninguém mesmo.
- Sim, sim, pode deixar. Eu juro de dedinho que não falo pra ninguém, nem pra mamãe.
Daniela chega o rosto próximo do ouvido de Aninha, que está cheia de expectativas:
- Eu tenho cabelo roxo, porque sou um ET.
- Sério? Ai que mentira. Como assim, ET?
- ET ué, eu venho do espaço. Lá onde eu moro todo mundo tem cabelo roxo.
- É verdade?
Sem esperar a resposta, Aninha já pula de excitação.
- Nossa, que legal! Eu tenho uma amiga ET! Mas Dani, me conta uma coisa, como que você veio parar aqui?
- Minha família me deixou aqui de férias. Daqui uns 30 anos eles passam me buscar.
- 30 ANOS? Mas é muito tempo pra ficar longe da mãe e do pai. Acho que você não aguenta não.
- Aguento sim, porque o tempo pra a gente não é como o de vocês.
- Ah, entendi. Que legal isso, adorei. Mas, me diz uma coisa, todos os ET´s tem cabelo roxo?
- Lá do planeta que eu venho, sim.
- Mas então você é a única ET do seu planeta que tá aqui na Terra, né? Porque Dani, é sério, eu nunca vi nenhuma pessoa, nenhuminha, que tenha o cabelo igual ao seu.
- Até tem Aninha, mas é que aqui nessa cidade o pessoal não vem muito não sabe. Eles gostam de agito, de cidade grande.
- Haaaaaam. E como é lá no seu planeta? É parecido com aqui?
- Não é não. Lá é muito mais legal. As casas são todas feitas de doces, as piscinas são de gelatina, todos os brinquedos que a gente quer nascem no jardim... É muito legal.
- Nossa, quero ir pra lá. Muito! Como faz?
- Não faz, né Aninha. É impossível.
- Não pode ser impossível. Como que você faz se está em uma emergência e precisa ir pra casa?
- É só eu ficar lá fora e chamar.
- E porque se eu for lá fora e chamar eles não vão aparecer?
- Porque você não é eu.
Aninha responde pensativa:
- É verdade. E também porque eu não tenho cabelo roxo.
- É, também tem essa.
Aninha se despede rapidamente das duas meninas, e sai correndo pela porta, não sem antes pegar alguns trocados deixados pela mãe em cima da mesa, em caso de emergência.
No outro dia de manhã, procuraram por Aninha por todos os lados e não conseguiram encontrá-la em lugar nenhum.
Só Daniela espantou-se ao ver um vidro de violeta genciana vazio em baixo de sua cama.



Letícia Mueller
Concorda?



Quem nunca contou uma mentirinha? Dessas que de tão boba, chegam a ser engraçada? Adolescência e velhice que o digam:
- Vou dormir na casa da Aninha mãe.
- Já tomei todos os remédios filho.
E por ai vai e vai, é virose para faltar no trabalho, gripe para fugir de prova, dor de cabeça para evitar sexo, indisposição para fugir da faxina, visita em casa para não precisar sair, passear com as amigas para ver o namorado, são tantas e são inúmeras. Bom mesmo é quando as mentiras são mentirinha, não afetam e não corroem, essencial quando não se tornam vício, porque o pior e inaceitável, são as mentiras destruidoras, as ilusões sedutoras, as histórias mirabolantes e os vícios constantes.
A pseudolalia é uma doença, um vício e grave, afinal de contas mentir por mentir, criar situações fictícias, enganar e corromper faz mal para a pessoa e principalmente faz muito mal para os de sua volta, ninguém gosta de ser enganado, correto? Então já pensou conviver com alguém que mente sempre, sobre tudo? Essas situações imaginárias envolvem os demais numa atmosfera, mas envolve ainda mais o mentiroso, que seja por prazer ou deficiência emocional, cria e recria situações, e conseqüentemente, uma mentira é necessária para suportar à outra, até que pronto, está feito o bolo de neve, que, se descoberto, traz tanta dor aos que querem bem, e dor maior ao que mente, humilhação, vergonha e inevitavelmente solidão. Ah a solidão, nada pior que a solidão, como é bom estar rodeado de pessoas que nos amam e querem bem, como é boa uma companhia agradável e um ombro amigo, e por inequívoco, como é boa a sinceridade. Amo a sinceridade, faço ah como perdi falsos amigos por isso, como afastei falsos demagogos por isso, é, porque tem gente que só gosta de ouvir o que faz bem aos ouvidos, mesmo quando está metendo os pés pelas mãos, e não há mentirinha que agüente e abra aos olhos, tem gente que também não merece nossa sinceridade, merece mesmo a solidão.
É necessária a verdade, sempre, acima de tudo, mas quem nunca mentiu nada na vida que atire a primeira pedra, mentirinha é perdoável, não sei se inocente, porque imagino pelo ato de mentir já esteja inserido um quê de maldade, mas coisas simples, que não comprometam nada e ninguém vale, né? Como aquelas situações, de desculpa esfarrapada para pegar o telefone do gatinho na balada, descobrir a marca de sapato da chefa tirana, despistar aquele grude insuportável ou aquelas chatas de galochas, concorda? Nada, além disso, nada que machuque, que destrua e que corroa, nada que comprometa a vida alheia e nada que altere o destino de alguém, ok?




Fernanda Bugai