quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Intenções reveladas


Existem pessoas que teimam em dizer que nossos comportamentos não são uma forma de comunicação. Através deles entendemos o que o outro quer, se gostou ou não, entre outras informações. É de acordo com o comportamento, a forma de sentar, de se vestir, de olhar, de sentir, de falar e através de simples expressões faciais que ficamos conhecendo mais e melhor. Por mais que se tente esconder algo, nosso comportamento faz sua revelação.


Esses dias me deparei com um antigo amigo, ele é mudo e surdo, as pessoas estavam meio que brincando com essa situação, falando coisas não apropriadas. Aquilo me atacou de uma tal maneira que eu não poderia fazer outra coisa a não ser dar a volta e estacionar o carro. Assim, pude identificar essas pessoas, não sei falar através dos gestos, mas pude perceber que meu amigo chorava, mesmo sem escutar as barbaridades que aqueles moleques estavam dizendo. Mesmo com a minha chegada eles não pararam, ele chorava, porque, apesar de não entender, ele sabe ler os lábios, sabe ver nos olhos se a pessoa lhe fala algo de bom ou não, sabe ver o que nós “normais” não conseguimos ver, o coração.


Aquilo mexeu comigo, falei muitas coisas àqueles moleques, mas o meu amigo em gestos me disse que eu não precisava fazer aquilo, para que eu não me igualasse a eles. E as lágrimas rolavam ainda mais de meu rosto e do rosto do meu amigo. Como depois de presenciar essa cena, dizer que os comportamentos não falam mais que palavras?

Aqueles moleques foram embora, rindo, ou melhor, gargalhando de toda situação. Levei meu amigo para a casa dele, e ali ele sorriu em meio às lágrimas, me agradecendo, e colocando a mão no coração, coração esse que estava machucado, terrivelmente ferido, mas ainda me deu um sorriso, de coração.

Afirmo que nossos comportamentos, falam mais que nossas palavras, quantas vezes pensamos tanto em responder algo e, quando vamos ver, nossos gestos e nossas expressões já responderam, revelando algo que muitas vezes não era para ser exposto.

O nosso comportamento não mente, não omite, mas fere, machuca quando não controlado, porque a fala é fácil de controlar mas o comportamento não é tão fácil assim.




Mary Palaveri

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pigue-Pega e Esconde-Esconde Com Mutley


Mutley, Seu Cachorro Imbecil!
Vários desenhos animados e seus personagens fizeram parte da minha infância. Mas o personagem que mais marcou a minha meninice foi o cachorro Mutley. Ele era o cachorro do Dicky Vigarista, que participava da Corrida Maluca e do desenho da Penélope Charmosa. Porém, o que era mais interessante nestes desenhos era a maneira como este cachorro era xingado pelo seu dono:

- Mutley, seu cachorro imbecil!

Na primeira vez em que eu fui xingada de imbecil, tinha sete anos de idade, desconhecia o significado desta palavra e nem tinha visto este desenho animado do Mutley ainda. Apenas sabia que esta palavra não tinha um significado bom. Então, após o xingamento, eu procurei o significado da palavra imbecil no dicionário e achei este resultado:

“Imbecil = parvo, ingênuo, inocente, bobo...“

Bem, após esta rápida pesquisa, confirmei que imbecil era uma palavra que não tinha um significado positivo. Mas eu sentia o som desta palavra e notava algo poético nele. Assim, percebi que imbecil rimava com: anil, surgiu, varonil, gentil, caiu, sorriu... Afinal, descobri que a palavra imbecil rimava com outras palavras interessantes. Então, achei que isto seria um aspecto positivo dela. Porém, um mês depois, continuei sendo chamada de imbecil pelos meus parentes mais velhos e por alguns colegas da escola. Mas, naquele mesmo ano, ao chegar da escola após um xingamento destes, liguei a televisão e estava passando um desenho em que um cachorro e seus amigos tentavam pegar um pombo. Quando, de repente, o cão se atrapalhou e seu dono falou:

- Mutley, seu cachorro imbecil!

Assim me identifiquei com este cachorro na hora. Então, após tudo isto, notei que este personagem aparecia nas mais diversas situações:

- No desenho da Pnélope Charmosa, em que seu dono, Dicky Vigarista, e o seu grupo tentavam sabotar a personagem-título.

- No desenho do Dicky Vigarista e Sua Turma, onde Dicky e seus comparsas tentavam capturar um pombo que levava um segredo.

- No desenho da Corrida Maluca, onde Dicky Vigarista e o seu cachorro Mutley disputavam com vários corredores esquisitos, como os Irmãos Rocha, vindos diretamente da idade da pedra.


Havia ainda um muito interessante da Corrida Espacial, em que um vilão e seu cachorro guapeca se transformava em heróis com um simples apertar de botão no console da nave: o Capitão Guapo e seu amigo Branquinho (um gato angorá). Acho que é o melhor, porque ele mostra que as pessoas usam máscaras e se escondem nas piores falsidades.


Aqui é bom saber de uma coisa: estes desenhos ainda passam na televisão. E ainda gosto de todos eles, pois tenho um Mutley dentro de mim. No desenho da Penélope Charmosa vejo que ela representa a felicidade a ser alcançada e que por isto todos a perseguem. Porém, têm pessoas menos evoluídas que tentam sabotá-la. Já no desenho do Dicky Vigarista e Sua Turma , vejo o pombo como o destino que carrega um grande segredo e que por isto todos querem capturá-lo. Desde a Grécia antiga, as aves são vistas como representações do destino ou como mensageiros de alguma alma que já partiu. Por isso, eu sou um eterno cachorro Mutley, dentro de um grupo que persegue a felicidade e que deseja conhecer os mistérios do destino. Sinto que nesta corrida maluca da vida também uso máscaras e chego a até me transformar num gato chamado Branquinho, para camuflar a minha verdadeira personalidade egoísta e aventureira. Nem por isso deixo de ter um Dicky Vigarista, que me chama a atenção, desta forma:

- Mutley, seu cachorro imbecil!

E eu ainda me pergunto:

- Quem vencerá a corrida maluca de hoje?







Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Esconde ou Pega!


A gente sempre tem uma velha história de infância para contar, seja ela boa ou ruim. E eu não esqueço nunca do dia em que brinquei se esconde-esconde e pega-pega ao mesmo tempo, literalmente. Mas não foi tão engraçado. Maquiavélico foi para mim, uma criança, com nove aninhos, que acorda numa manhã calorosa e não sabe o que no final do dia lhe reservava. Franzo até a testa ao relembrar.
Estava no fim da tarde quando conversava com meus amigos e minha irmã na rua, na frente da casa do Baleia (apelido carinhoso do nosso amigo gordinho). Estava sentada com minha irmã de costas para a esquina com uns colegas e o Baleia, de pé virado pra nós, tendo a vista do resto da rua atrás da gente. E ali papeávamos e nunca virávamos da esquina - é claro, se virasse o véio do saco iria nos pegar, como contam estas lendas sujas criadas por mães... como elas são maquiavélicas também! Enfim... e papo ia, papo vinha até que o Baleia arregalou os olhos e disse pra nós:
- As "véias loucas" estão vindo ali atraaaás.
- Ah tá Baleia, sim, elas estão vindo... até aprece, pare de mentir - uma colega disse.
- É sério, olhem - disse Baleia.
E nós na recusa em querermos olhar para trás, crentes que ele estava querendo tirar uma com a gente, Baleia saiu correndo. As "véias loucas"? São duas irmãs que, se duvidar, são as mais velhas do mundo, vivem juntas em uma pequena casa escondida por árvores aqui no conjunto onde até hoje moro. Umas das diversões dos colegas da minha turma era atormentá-las jogando ovos na janela da casa onde moravam. E aí, com pedaço de pau na mão, naquela noite, elas vieram se vingar. Foi uma correia desatada, elas querendo pegar a gente e a gente lutando para se esconder. Um verdadeiro pega-pega e esconde-esconde forçado, que de engraçado não tinha nada na hora. Uns subiam em árvores, outros pulavam nas casas, e eu, passando pela minha, encontrei o portão um pouco aberto e por ali entrei e fechei rapidamente, com medo de, enquanto fechasse o cadeado, mãos enrugadas aparecessem e prendessem as minhas tão inocentes ali. Saí correndo e encontrei meus pais na cozinha. Mal conseguia falar
- Pai, as véia, ajuda - falava querendo respirar.
- O que, que véias? Bianca, cadê sua irmã? - meu pai perguntou um tanto preocupado.
- Pai, as véia louca tão na rua, querendo pegar a gente.
- Véias louca? Vamos ver logo isso, me leva aonde estão todo. - disse ele.
Eu relutei em ir, mas meu pai foi lá na frente ver o que acontecia e eu fui junto, tentando me disfarças atrás de suas pernas enquanto ele andava. Nessas alturas, como contou minha irmã, uns entraram e se esconderam na vendinha, em baixo das cadeiras de espera. Minha irmã entrou na casa de uma amiga pelo portão que estava aberto, indo até a porta da sala da menina. Encontrou o pai dela só de toalha na cintura. Perguntou discretamente, nem notando a toalha branquinha perfeitamente enrolada com um nó bem seguro:
- Tio, a Dani ta ai? - perguntou.
- É, não... ela foi posar na casa de uma amiga... pelo que lembro ela tinha comentado com vocês, não? – indagou ele.
- Puxa, é verdade, que cabeça a minha. - minha irmã disse com medo que, ao sair, se deparasse com as véias.
- Então eu espero ela voltar (risos). - disse ela.
Nesta hora, acho que se todos pudessem fazer um buraco e se esconder nele, fariam fácil. Tá aí um bom lugar para se esconder. Minha irmã caminhou lentamente, como se estivesse indo até a forca, quando viu o portão encostado na parede e ali foi se enfiando (melhor isso que morrer a pauladas). Eu, neste momento, estava embaraçada entre as pernas de meu pai, enquanto ele conversava com as veia.
- É, nós vamos pegá-los. Eles ficam jogando ovo em nossa casa... aquele menino gordinho e aquele outro e bla bla bla. - falavam elas para meu pai.
- Mas veja bem, deixe eles que vou falar com eles, isso nunca mais vai acontecer e as meninas não tem nada a ver com isso. - disse meu pai tentando reduzir o estrago

Depois da tentativa de negociação em vão , elas saíram correndo atrás de alguns amigos. A maioria nessa hora ia saindo de suas tocas e esconderijos. Nossas brincadeiras nunca foram as mesmas. Não por medo delas ou de receber pauladas, mas sim por que naquele momento todo mundo já sabia aonde se esconder e aonde achar. Quer algo mais maquiavélico para uma criança?




Bianca Silva

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tema da Semana: Esconde-Esconde ou Pega-Pega

O inevitável ciclo do esconde-esconde e do pega-pega


Jogos parecem ser a infância da arte de amar e, infelizmente para uns corações mais inexperientes, são importantes para desenvolver o jogo da sedução.

Poucas pessoas tem o culhão de se entregar ao desconhecido, ao abismo, ao nada. Apesar de ser a filosofia mais coerente, somos ainda mortais em aprendizado e precisamos conhecer e se deixar conhecer (implantaram a segurança como bem maior... pra tirar isso, a casa própria, o emprego fixo... só a arte mesmo).

Os testes serão inevitáveis, impostos pela vida, seja por um amor a distância, por um amor comprometido com outro amor, por falta de tempo, por alguma dificuldade emocional, por traumas, medos.

Mas...já que insistimos em criar nossos próprios testes e brincar de deuses, vamos ao esconde –esconde...

Um pé sempre atrás e tempo para pensar. O esconde-esconde não libera tudo de cara e, se libera algo, esconde rápido para dar tempo de amadurecer a idéia de encontrar o eixo certo para o próximo movimento. Muitas mulheres adoram o esconde-esconde porque ele preserva a liberdade de sentir em silêncio, em casa, de ter saudade, de elaborar melhor cada passo e sacar se o outro lado tem lastro ou quer algo solto no vento. Esse medinho, cagacinho de se entregar pode encher o saco da outra parte, que vai procurar alguém que pegue de jeito, que sinta e que vivencie a experiência sem ficar avaliando muito. O esconde-esconde preserva mas pode afastar.

Já o pega-pega tem urgência de existir. O mundo pode acabar amanhã e hoje é a última oportunidade de tudo. Nada é garantido, nada é certo. Vai, pega, transa, mete o pau, se joga, se perde. Bacana enquanto você pode bancar a ressaca, o vazio, as energias de ter transado com uma cadeia de pessoas ao mesmo tempo (já que a pessoa com quem trepou hoje, trepou com outra ontem, outra antes de ontem, e assim consecutivamente). Quando uma puta melancolia com carinha de depressão se instaurar, pode ser que você mude para o esconde-esconde. O pega-pega tem a presença mas pode trazer uma tristeza fodida.

O ciclo terá fim?
Sim viciados... existe esperança!

Experimente perder-se um pouco e encontre em você os limites que te fazem feliz.
Vai chegar um momento em que você vai poder olhar para os jogos com ternura, com sublimação como no livro de Clarice Lispector “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.”
Mais que pegar ou esconder, o importante é saber rir.


Patrícia Ermel

domingo, 9 de agosto de 2009

Evert



Oi, meu nome é Evert. OK, não é meu nome, é um pseudônimo, mas você não tardará a perceber que é melhor eu não me expor. Há algum tempo, perdi o controle da minha vida e não recuperei até hoje. Vou contar a minha história, para alertar aqueles que, como eu, gostam de cinema. Ou melhor, eu gostava, hoje já não sei mais.

Eu sempre fui cinéfilo. Desde criancinha. Mas não cinéfilo de ir ao cinema, gostava mesmo era de ficar na sala de casa, comendo chocolate e enchendo o videocassete de filmes a tarde toda. O dia todo. Mesmo nas viagens de férias eu levava uma pilha de fitas VHS e uma TV portátil. Meus pais até apoiavam porque eu era o que menos dava trabalho entre os cinco filhos. Por conta disso, sempre fiquei enclausurado em casa, não me relacionava. E criei uma séria dificuldade em me sociabilizar.

Quando cresci, passei a trabalhar num banco, na área de informática, e só falava de números e sistemas. Percebi que a minha vida seria assim para sempre, que minhas maiores emoções reais se restringiriam a um porre na festa de final de ano da empresa, ou a uma viagem com os colegas para passar um fim de semana no litoral. Debaixo de chuva, provavelmente.

Foi aí que, numa tarde, assistindo ao DVD de Muito Além Do Jardim, eu decidi que o cinema tinha de me dar algo em troca. Sim, porque eu entreguei a minha vida para ele, nada mais justo que eu ganhar alguma compensação. Até aquele momento, eu havia passado a vida assistindo à vida dos outros. Cansei. Eu era um sedentário cansado, exausto. De início, pensei em tentar carreira de crítico cinematográfico, mas eu não era bom com as palavras. Então tive uma ideia que resolvi botar em prática imediatamente: iria colocar os meus conhecimentos dos filmes na vida real. Não sabia quando, não sabia como, mas faria isso, por mais vaga que fosse a ideia num primeiro momento. Era muita informação acumulada, para alguma coisa tinha que servir.

A primeira grande oportunidade surgiu mesmo na locadora que eu frequentava. Havia uma garota, uma ruiva, por quem eu era apaixonado. Mas não recordava de nenhuma conversa mole que eu pudesse jogar, nunca tinha cantado uma mulher, aliás, até então eu só havia dado um único beijado na boca, e por acidente na brincadeira de morder a maçã pendurada. Rendeu um tapa e acabou ali minha carreira de Don Juan de Marco. A propósito, se havia uma coisa dos filmes que eu sabia que não poderia aplicar eram as cantadas, elas só funcionavam na tela porque partiam de um Johnny Depp ou de um Brad Pitt. Faça um sujeito comum vestir máscara de Zorro e tentar passar maliciosamente seus dedos entre os dedos de uma mulher que recém-conheceu. No mínimo será agredido, no máximo será preso. Como eu fui sempre péssimo no "chega junto", paguei o fim da minha virgindade quando fiz 18 anos. E era justamente este desastre na arte do galanteio que estava ali, diante da ruiva, indecisa na escolha de um filme, analisando-os como quem apalpa frutas numa feira livre. Acabou pegando um com a Britney Spears em que a guria sai pelo mundo com umas amigas, tipo road-movie teenager. Eu achava um nojo. Ela ficou numa conversa longa com o atendente da locadora, que pelo jeito também era a fim dela. Foi aí que a ruiva, Lena era o nome dela, comentou que só queria pegar aquele filme porque gostava de carros conversíveis.

No dia seguinte, eu abri os jornais na firma procurando oferta de carro sem capota. Achei um impecável, lindo mesmo, um Stratus vermelho da Daimler Chrysler, e o cara da loja queria uma grana que eu não tinha e que acho que nunca iria ter na vida. Fiquei me imaginando como aquele inconsequente personagem do Nicolas Cage em Coração Selvagem, que burlou a condicional para sair pelo mundo a bordo de um conversível com a namorada. Também lembrei daquele filme, O Aviador, em que o Leonardo Di Caprio era audacioso e se endividou mas tinha a mulher que queria. Tá certo que não foram bons exemplos, um era marginal e o outro milionário, mas eu precisava de referências, de inspiração para essa empreitada. O problema é que meus holerites jamais comprovariam renda para parcelar a compra de um carro daqueles. Foi aí que eu lembrei de outro personagem do Di Caprio, aquele do Prenda-me Se For Capaz. Fui para a firma e falsifiquei todos os meus comprovantes de rendimentos. Mandei para o banco e pronto, dois dias depois eu estacionava aquela maravilha na minha garagem, sem saber como seria capaz de pagar as prestações. Mas nisso eu pensaria depois de ter a ruiva no banco do carona.

Na noite daquele mesmo dia, voltei a encontrar a guria na locadora. Desta vez ela estava indecisa e o atendente parecia não saber ajudar muito. Ela tinha na mão um Drugstore Cowboy e um Christiane F., então percebi que estava a fim de algo meio junkie mesmo. Ofereci o Trainspotting, disse que quem dirigiu era o Danny Boyle, ela fez cara de “quem?”, expliquei que era o mesmo cara que dirigiu o Quem Quer Ser Um Milionário, daí sim ela fez uma cara de ”também não sei”. Falei que ele ganhou um Oscar, pronto, ela se localizou. Pegou o DVD e me agradeceu. Percebi que ela sempre chegava lá por volta das sete da noite, provavelmente vindo do trabalho, e pegava alguma coisa para ver em casa. E isso era toda sexta-feira. Provavelmente, filminho de final de semana para ver sozinha. Era o que eu esperava. Eu sabia que não poderia oferecer carona no meu conversível logo de cara, porque ela poderia ficar com medo da generosidade de um estranho, e eu jamais iria conseguir dar a volta por cima e recuperá-la depois de um fora. Então, tinha de ir de mansinho, fazendo daqueles encontros na locadora uma conquista à prestação.

Na sexta da semana seguinte dei um “oi” e a garota pareceu ter demorado a me reconhecer. Agradeceu a indicação e disse que gostou, mas parecia não ter sido muito sincera. Disse que queria levar uma coisa mais “levinha” dessa vez, tipo “uma comédia romântica inteligente”. Era o mesmo que pedir uma teen movie intelectual, mas eu consegui algo para ela, ofereci O Fabuloso Destino De Amèlie Poulain. Ela olhou a capa, o verso, e, como era tudo coloridinho, resolveu aceitar a indicação. Disfarcei, fui atrás dela até o balcão e vi, no ticket de locação, que a ruiva deveria devolver na segunda.

Arrisquei e, na segunda à noite, lá estava eu, demorando um monte para escolher um DVD, só para esperar a Lena entrar na locadora. Deu certo. E desta vez ela realmente pareceu ter gostado do filme que recomendei. Claro que eu queria engatar e fazer outra indicação, seria sinal de que meu bom gosto cinematográfico tinha conquistado a confiança dela. Mas dessa vez a ruiva estava muito em dúvida, não sabia o que levar. Disse que as locadoras não deveriam ter sua divisão por gênero e sim por humor: se você quer alegria, lá estão os filmes que vão deixar você feliz; se quer superar seus medos, eis outra sessão; quer se sentir apaixonada? Opa, siga à direita. Depois ela riu com a própria ideia maluca e eu aproveitei, disse a ela que poderia indicar filmes de acordo com a emoção que queria ter. Ela duvidou, mas resolveu testar. Disse que tinha medo do que as outras pessoas poderiam pensar dela, do julgamento alheio, e eu indiquei Beleza Americana; depois falou que também tinha medo de se apaixonar, peguei A Corrente Do Bem; então continuou com a brincadeira revelando uma fobia muito esquisita: ela tinha medo de plantas, fui correndo em outra sessão e trouxe Adaptação para ela. A garota ficou impressionada, e então disse as palavras mágicas: que eu passaria a ser seu consultor de filmes.

De quebra, na saída da locadora, eu percebi que ela estava indo a pé para casa e passei com meu conversível de capota abaixada ao lado da ruiva para oferecer carona. Ultrapassada a barreira da desconfiança, claro que a garota aceitou, impressionada com meu possante. Eu a deixei em casa, mas ficou por isso – para um cara tímido e anti-social, eu tinha avançado demais naquela noite. Mas ainda arrisquei uma última cartada quando ela já havia saído do carro: convidei-a para ver filmes na minha casa. Ela virou-se e disse “sim”, que eu poderia pegá-la na sexta às sete, na locadora mesmo.

Mas como eu iria trazê-la para ver filmes na minha 32 polegadas? Nunca! No dia seguinte, fui numa loja de eletro-eletrônicos e comprei a maior e mais sofisticada TV que tinha no show room. Não foi difícil parcelar, eu já tinha toda aquela documentação falsificada mesmo.

Na noite de sexta, assistíamos Betty Blue no meu monumental aparelho LCD, filme que eu achava perfeito por ter romance, sexo e uma trilha incrível. Ela não pareceu surpresa com a primeira cena, era a prova de fogo, depois dela tudo seria plenamente aceitável e a ruiva não me acharia um tarado. Como eu já havia visto o filme, pedi licença e fui para a cozinha abrir uma garrafa de vinho (qualquer filme mostra que é item obrigatório, nem o Psicopata Americano dispensa). Só que ela pediu uma cerveja. Abri duas latinhas e, quando me virei para voltar na sala, me surgiu a surpresa: a garota estava enrolando um baseado. Eu só havia fumado maconha uma única vez na vida e forçado ainda por cima. Não sabia como reagir, mas não poderia dar uma de amador nessas horas. Agi com naturalidade. Bebemos, fumamos, conversamos, o filme passava mas nós nem aí. Eu tentei me aproximar, mas ela se esquivava. Ficamos naquele jogo por um tempo até que adormecemos.

Acordei de madrugada com a TV ligada no menu do filme. Ela dormindo serenamente. Fiquei apreciando seu rosto delicado com a pele branca contrastando com os cabelos vermelhos. Percebi que eu já não tinha mais o efeito da maconha na cabeça (até porque eu dei apenas duas bolinhas), só havia um buraco no estômago. Mas antes de ir para a cozinha, resolvi dar um beijo na Lena enquanto ela dormia. Só que quando aproximei meu rosto é que percebi algo apavorante: ela não respirava. Primeiro fiquei estático, petrificado. Depois, passei a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Nunca tinha ouvido falar que maconha matava. Recorri à minha memória cinematográfica mas nunca havia visto isso em filme nenhum. Seria a combinação da canabis com o álcool? Pouco provável, porque ela bebeu só meia latinha da cerveja. O que a teria matado então? O que eu deveria fazer? Se saísse com ela assim, a polícia faria exame de corpo de delito e descobriria que a Lena estava drogada. Claro que me botariam a culpa. Olhei para o relógio e vi que eram quatro da matina. Eu presumi que ela estava morta há umas três horas, no mínimo. Não havia mais o que fazer. E eu também nunca tinha feito nenhum curso de primeiros socorros, nem saberia como agir. Fiquei agachado no canto da sala, com a cabeça entre os joelhos, pensando desordenadamente, só deixando o fluxo mental fluir em meio a flashes de puro desespero. Decidi que iria esperar amanhecer, porque daí talvez a presença da droga se atenuasse e nem fosse identificada na autópsia.

Quando o sol começou a entrar pela janela, eu acordei todo dolorido no chão, com a esperança de que aquilo tivesse sido um sonho, uma ilusão do THC. Fui até o sofá. Não, era mesmo real. Passei Bom Ar pela casa toda. Joguei o resto de baseado na privada e puxei a descarga umas cinco vezes. Limpei o cinzeiro com uma esponja e muito detergente. Queimei a esponja no quintal de casa. Trouxe uma bacia com água e sabão até a sala para lavar os dedos da Lena e tirar o cheiro. Só não consegui tirar o amarelo das pontas do indicador e do polegar. Escovei os dentes dela e passei um anti-séptico bucal embebido em algodão nos lábios e na parte interna da bochecha, esfregando com meus dedos. Então comecei a pensar na minha versão da história, naquilo que eu iria contar para a polícia: trouxe a Lena para casa, assistimos a um filme, dormimos e, quando acordei, ela simplesmente estava morta. Ensaiei na frente do espelho e repeti em mim mesmo a operação de higienização que eu havia aplicado na Lena, só que esfregando meus dedos com uma escovinha que achei na área de serviço. Ainda tomei uma ducha e vesti uma roupa com cheiro de amaciante, jogando a outra no cesto de roupa suja após me certificar de que não estava com cheiro de maconha. Estava um pouco, então joguei no tanque e despejei muito Omo até encher de espuma. Pronto, agora era tomar fôlego, voltar para a sala e ligar para a polícia.

Mas, quando eu cheguei na sala, a Lena não estava mais lá. Apenas seu cobertor, sem ninguém embaixo dele. Fiquei muito assustado e tentei recordar de filmes em que o corpo da vítima some, mas me deu branco. Ouvi então um barulho na cozinha e fui caminhando até lá, pé-ante-pé. Havia uma pessoa por trás da porta aberta da geladeira. Identifiquei pelos pés descalços: era Lena, em pé, bebendo uma garrafa de dois litros de refrigerante direto do gargalo. Ela fechou a porta, me olhou e simplesmente disse: “larica”.

Sentada depois comigo no sofá, ela me explicou, enquanto eu tomava um chá para me acalmar, que sofria de um tipo de catalepsia. Era como se morresse mesmo: do nada e sem motivo aparente, seus batimentos cardíacos e a respiração desciam a níveis que beiravam a inércia completa. Já chegou mesmo a ser diagnosticada como morta. “Por isso eu tenho fobia de plantas”, explicou, afirmando que aquele era um tipo de estado vegetativo. Disse que isso durava no mínimo quatro horas. Eu perguntei como era a sensação, e ela só soube me dizer que, no início, parecia que seu corpo estava deitado na relva molhada e só, em seguida apagava por completo. Daí começou a rir de chorar quando percebeu que eu estava mais cadavérico do que ela. Estava realmente branco de pavor, tremendo os dedos que seguravam a asa da xícara de chá.

Passado o susto, viramos amigos e passamos a assistir a DVDs juntos com frequência, todos por escolha minha. Eu sempre fazia uso de frases famosas dos filmes para impressionar, e funcionava. Até gastei uma grana preta me vestindo como os caras que se davam bem nos romances, o que me rendia outros tantos elogios. Como eu parcelei a compra dessas roupas de grife? Bom, você sabe. Enfim, eu estava feliz e o cinema agora me recompensava pelos anos e anos de minha inabalável devoção. Só que eu nunca conseguia me aproximar e beijá-la. Pior que isso, ela vivia me contando das suas histórias com outros caras, e não era nada santinha. Eu não sabia por que ela se fazia de difícil. Será que me achava repulsivo? Por que dava para tantos e não para mim? E, apesar de tantas histórias, contava que estava há uns dois meses sem transar, ou seja, falta de fissura é que não era. Enfim, eu não entendia.

Até que chegou o dia em que bebemos bastante ao ponto de ela passar a me provocar o tempo todo. Ficava se insinuando, se exibindo. Forçando um decote, caindo sobre mim “sem querer” no sofá, brincando debaixo das cobertas e fazendo todo tipo de situação capaz de me deixar fora de controle. Em um dado momento, ela disse algo sussurrado no meu ouvido que me acendeu por completo: “fuck me”. Eu perguntei, como num reflexo de quem desacredita em sua própria audição: “o que?!”. Ela apenas respondeu “nada” e encheu a boca de cerveja. Fiquei por um bom tempo pedindo “repete”, mas ela só ria e dizia que eu estava surtando, que não sabia o que tinha me dado. Claro que eu havia entendido perfeitamente o que a Lena tinha dito, mesmo que fosse um simples sopro eu dispensaria a tecla SAP, só queria uma confirmação. Depois de muitos risos e de eu ter ficado exausto com aquela brincadeira de gato e rato, acabamos adormecendo.

Acordei de madrugada e foi quase um deja vu: a TV na tela de menu de um filme (agora nem lembro qual) e a Lena quieta, adormecida, com seus cabelos vermelhos em contraste com a pele alva, iluminada pela luz que vinha da televisão. Quando me aproximei dela para dar aquele beijo tão protelado, percebi que a garota não respirava. Mexi seu corpo e não houve reação. Eu já ia me desesperando quando recordei do episódio de algumas semanas atrás: a Lena estava de novo com catalepsia. Resolvi tirar uma casquinha com a situação: dei um beijo naquela boca que há tanto tempo me evitava. Depois apreciei seu corpo. Coloquei a mão em seu peito, e de fato o coração parecia nem existir ali dentro. Aproveitei e resolvi a apalpar seu seio. Mais: decidi que iria ver seu seio. Lindo, lindo. Eu estava hipnotizado. Queria então ver o par. Abaixei a blusinha listrada e sem alças, e fiquei olhando por um bom tempo. Toquei-os como quem venera, pareciam sagrados. Tirei então toda a roupa da Lena, eu sabia que aquele estado dela duraria pelo menos quatro horas. Quando ela estava completamente nua, passei a beijar seu corpo todo. Demorei-me por longos minutos e não poupei nem um milímetro quadrado. Das juntas dos dedos às delicadas rugas atrás do calcanhar, não houve parte de seu corpo que meus lábios não houvessem tocado. Dei-me praticamente por satisfeito, mas daí recordei do que ela havia dito: “fuck me”. Naquele momento, lembrei do cara que transava com a garota em coma naquele filme que o Almodóvar dirigiu: Fale Com Ela. Então, resolvi aceitar aquela provocação da Lena, que me foi dita em tom de pedido e de desafio.

Acordei mais tarde, nu e abraçado à Lena. O sol já tomava conta da sala. Era sábado. Assustei-me, não porque ela ainda estava sob o efeito da catalepsia, mas porque estava nua. Eu precisava vesti-la, pois provavelmente ela desaprovaria eu ter me aproveitado daquele seu estado vegetativo. Pronto, a Lena vestida, agora era só eu passar um café e aguardar um pouco mais.

No meio da manhã, comecei a me preocupar. Eu não sabia se deveria tentar reacordá-la, mas uns tapinhas no rosto não fariam mal. Ela não reagiu. Resolvi esperar mais um pouco. Quando se aproximava o horário do almoço, eu já estava absolutamente inquieto. Andava de um lado para o outro e queria ir no posto buscar cigarros. Eu fumava quando ficava excessivamente estressado. E eu estava excessivamente estressado. Mas não podia sair de casa. O que aconteceria se ela acordasse e não visse ninguém? Eu poderia deixar um bilhete, quem sabe. Mas o que mais me assustava não era ela acordar e não ver ninguém. Era ela não acordar...

A garota havia dito que a catalepsia durava no mínimo quatro horas, mas não disse quanto seria o máximo de tempo daquele “fenômeno”. No meio da tarde, eu resolvi tomar uma atitude enérgica, dei tapas mais fortes nela, gritei no ouvido, chacoalhei. Mas nada. Então, já começava a se confirmar aquilo que eu tanto temia. Desta vez, ela estava mesmo morta.

Logo estaria anoitecendo. Eu até já havia decidido não atender se o telefone tocasse. Dificilmente isso aconteceria, mas o medo estava lá, significava que eu não podia ter contato nenhum com o mundo exterior. Eu daria bandeira. Mas por que essa guria morreu? Então eu lembrei daquela noite em que ela queria um filme junkie na locadora, aquela em que eu recomendei o Trainspotting. Fui na bolsa da ruiva e a revirei. Encontrei então uma porção de embalagens de comprimidos, alguns deles eram tarja preta. Talvez por isso ela estivesse tão animada naquela noite. Devia ter misturado com a bebida e deu nisso. Rolou, quem sabe, uma parada cardíaca. Nessa hora eu lamentei ficar vendo só filmes mas nunca ter sequer assistindo a um único episódio inteiro de ER. Merda.

O inevitável aconteceu, a noite caiu. E a Lena não despertou. Agora eu já estava convencido de que ela não voltaria. Levantava seu braço e ele caía como se dentro nem tivesse ossos. Eu estava nervoso demais para lembrar o que os gangsteres dos filmes faziam com os corpos mortos, mas a necessidade de me livrar da Lena já me atormentava. Eu sabia que, se a descobrissem morta, fariam autópsia e identificariam que ela bebeu bastante e misturou com barbitúricos. Pior, o resultado mostraria que eu transei com ela. Conclusão da polícia: eu a embriaguei, a dopei, a estuprei e a matei, lógico.

Lá pelas nove da noite chegou o taxi com os DVDs que eu pedi para a locadora por telefone. Peguei os filmes abrindo um pequeno vão na porta e passei o dinheiro para o motorista. Fechei a porta sem esperar o troco e fiquei ali, aguardando o som do taxi se afastando. Pedi os filmes que eu lembrava ter situações de gente se livrando de cadáveres. Eu precisava de orientação. O cinema me botou nessa, agora tinha que me tirar. Primeiro, revi o Cova Rasa. Não, serrar os ossos da Lena, eu não conseguiria. Nunca. Fui então para Um Plano Simples, mas de simples não tinha nada: neve, aquelas encrencas com a polícia, avião recheado de dinheiro, um amador e um retardado, iriam ainda me meter em encrenca maior. Parti para os profissionais: Pulp Fiction. Mas não tinha muito a ver, era a morte num carro e com muito sangue, meu caso era em casa e sem derramar uma gota de catchup. Começou a bater o desespero de causa quando botei Um Morto Muito Louco. Não lembrava o que tinha no Hannibal, mas resolvi rever mesmo assim. Não, eu não conseguiria comer a Lena até não restar mais nada de seu corpo. Pelo menos não conseguiria comê-la no sentido literal. Resolvi parar de ver filmes porque só estavam me deixando mais confuso.

Entrou a madrugada e me dei conta de que logo ela estaria cheirando mal. E a família da Lena? Deviam estar desesperados atrás dela. Eu nunca havia visto seus pais e a pegava sempre na locadora, mas teve aquela noite em que dei carona para ela até sua casa. Se alguém da família viu o carro chegando, eu estaria em sérios apuros. Dificilmente outro alguém na cidade teria um conversível como aquele. Agora eu teria de me livrar da Lena e daquele conversível caríssimo. Maravilha, passaria o resto da vida temendo ser preso e tendo de pagar uma fortuna por um carro que nem mais estaria dirigindo.

Acordei assustado. Não sei dizer como foi que consegui dormir. Acho que estava exausto e simplesmente apaguei. Ela continuava lá. No sofá. Imóvel. Eu me aproximei e a cheirei. Ainda não havia nenhum odor, talvez aquele perfume adocicado e persistente dela estivesse disfarçando. Só a pele que estava mais branca do que o normal. Reparei pela janela que já estava amanhecendo. E eu continuava sem solução.

Resolvi que iria ligar para alguém. Minha família é que não podia ser, não queria encrencar ninguém. Não poderiam nunca descobrir aquilo. Já não tinham orgulho de mim, mas também não precisavam ter vergonha. Muito menos daquele jeito. Imagina o que é ser parente de um assassino drogado estuprador. De um frustrado eremita, até se tolera. Mas foi nessa de ligar para alguém que cometi meu grande erro.

Lá pelas onze, chegou o Aurélio, meu colega de trabalho, assustado porque eu não quis dizer por telefone qual era aquela situação que me fez acordá-lo domingo de manhã. Mas susto mesmo ele teve depois que entrou. Ficou por um bom tempo que nem uma lagartixa, grudado de costas para a parede, apavorado e só dizendo “você matou ela, você matou ela”. Deu até vontade de corrigir aquele português horrível, que soa mal até para um cara tão mal letrado como eu, mas me desesperei com o desespero dele. Como já havia virado ato-reflexo, comecei a recordar de filmes com situações semelhantes, imaginando o que fazer. Eu poderia tomar uma atitude como em O Talentoso Ripley e matar aquela testemunha inconveniente. Ou poderia simplesmente dizer para ele ficar em silêncio e fazer como o marido chifrudo de Infidelidade, me entregando para a polícia. Só que esses dois filmes tinham final aberto, não dá para saber se os caras depois se deram mal ou bem. Malditos roteiristas indecisos.

Bom, por falta de inspiração dos filmes, resolvi deixar o roteiro por conta do Aurélio. Abri a porta e o cara saiu correndo. O que ele fizesse seria bem feito. Pelo menos é o que eu queria pensar. Quinze minutos depois, a revelação: ele fez o óbvio, como no final de Durval Discos, chamou a polícia. Uma viatura, felizmente sem sirene ligada, parava na frente da minha casa. Os dois policiais já entraram de armas em punho, me algemando. Ficaram conversando comigo, fazendo um monte de perguntas idiotas e falando pelo rádio. É claro que para todas as indagações eu sempre usava como resposta o maior de todos os clichês dos filmes policiais: “só falo perante o meu advogado” (e eu nem tinha advogado). O Aurélio devia estar sabe lá onde, talvez em casa contando o episódio para os amigos enquanto preparavam o churrasco de domingo. Por fim, chegou o pessoal da perícia, a polícia me levantou da poltrona e foram me levando para a viatura. No trajeto, não tive como não me sentir um pouco como o personagem daquele filme dirigido pelos irmãos Cohen: O Homem Que Não Estava Lá. Ah, mas que se foda! Merda, o cinema fez isso comigo e nem agora eu conseguia deixar de lembrar de filmes. Teria uns bons anos atrás das grades para recordar de todos os filmes que quise...

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhh!!!

Eu e os policiais nos viramos instintivamente em direção à casa. Eles voltaram para lá com armas em punho novamente. A voz era da Lena: “enfia no cu da sua mãe, idiota”, dizia a ruiva possessa. Chegando lá, a encontramos sentada no sofá, coçando o nariz e olhando ao redor, sem entender o que se passava. O legista então explicou que introduziu uma pena no nariz dela para ver se não havia algum reflexo capaz de revelar se a Lena ainda estava viva. Estava. Algemado e me escorando no batente da porta, eu não me conformava que uma simples pena poderia ter evitado aquele meu final de semana de pesadelo.

Deixei de ver a Lena, nunca mais assistimos a filmes juntos e hoje eu só peço DVDs pelo telefone, ou melhor, peço Blu Rays, e pela web. Fui demitido e quase me abriram um BO por estelionato, fraude e falsidade ideológica, mas eu fiz um bom acordo demissional e deixaram a coisa por aí. O Aurélio nunca mais falou comigo, aliás da única vez em que nos vimos casualmente num supermercado ele fugiu de mim como se eu fosse o Jason. Voltei para minha vida no casulo, só saindo da cama para fazer cursos pela web, me alimentar e assistir a filmes. Descobri que viver envolve riscos demais. Consegui me formar em um e-learning sobre ortografia e gramática, e passei a trabalhar em casa, fazendo consultoria de filmes e críticas para sites especializados (os leitores sacaneiam meu pseudônimo me chamando de Evert Richards). Devolvi aquela minha TV gigante, alegando que ainda estava no prazo dos 30 dias previstos pelo Procon. Fiz a mesma coisa com as roupas, o que rendeu uma enorme discussão na loja. Já o carro, tive de dar para um cara que topou pagar aquelas prestações todas, eu morri só com a entrada e a primeira parcela, que não eram pouca coisa.

Hoje eu sei que há um tanto de ilusão no ritual de escolhermos filmes, porque em muitas das vezes são os filmes que escolhem a gente. Na minha história, por exemplo, não tem como não recordar daquele desfecho de Carrie, A Estranha, em que a mão da coitada, já morta e enterrada, salta para fora da terra, fazendo a gente pular de susto quando achava que tudo havia acabado.

Aliás, a minha história mesmo também não tinha acabado. Dois meses depois, bateram na minha porta e fui atender: saltou para dentro da minha casa o braço esticado da Lena segurando uma folha de papel – nela se lia: “Teste de gravidez: Positivo”.



Mario Lopes

sábado, 8 de agosto de 2009

Uma odisséia de inverno


Começo com Drummond e seu sábio conselho: “Convive com os teus poemas antes de escrevê-los ...”

E depois de conviver, eu não imaginava que gostaria tanto. Seu jeito de falar, sua forma de estar presente, suas gargalhadas que deviam ter seguro de tão gostosas, sua capacidade de ouvir, seus carinhos sem economia, tudo isso foi fazendo com que minha travessia ganhasse outro sentido.

Com ele, sentia-me livre para errar com minhas verdades provisórias. Com ele, não havia pressa .Gostava de ouvir suas canções e suas histórias. Admirava seu jeito de falar da vida. Descolado, independente ,vegano, espiritualizado, sedutor. Um poeta-iogue rebelde.

Nunca me senti amada daquele jeito por ninguém, nunca com tamanho prazer e com tamanha destreza e obstinação. Embora não saiba muito do assunto, sei que, na intimidade, existem determinadas leis naturais que regem a experiência sexual de duas pessoas, e que essas leis não podem ser mudadas, da mesma forma que a gravidade não admite negociações. Sentir-se fisicamente à vontade com o corpo do outro não é uma decisão que se possa tomar. Ou o misterioso imã está presente, ou não está. Acho que temos entre nós a sintonia perfeita. Tudo no nosso universo sensual é de maneira simples e completa, facilitado, e também felicitado. Claro, só não chegamos a um acordo quanto ao outro lado do planeta, mas temo que eu acabe abrindo a guarda totalmente quanto a antigas convicções.

"Olhe só você" – ele disse, puxando o espelho enquanto fazíamos amor mais uma vez, mostrando-me meu corpo nu e meus cabelos, que estavam absurdamente organizados mesmo depois de tanta agitação (de fato, não acho que o meu corpo tenha tido a aparência ou a sensação de tamanho relaxamento na vida). E então ele me conduz novamente a uma outra posição e diz: "venha gostosa" (ele também é mestre em apelidos carinhosos), fui promovida várias vezes nessa noite.

O fato é que eu havia me apaixonado por ele. Em minha defesa posso dizer que ele havia possibilitado isso, já que era uma espécie de homem fatal.

Eu também ouvia passarinhos na janela. Isso não é certeza, talvez seja fruto do meu êxtase pessoal daqueles dias. Não sei se havia realmente algum passarinho. Nem sei se ele cantou. Nem qual era a canção, qual o tom ou a partitura. Só sei que era verde.





Paula Diniz

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Olha, Maria


Maria sempre fora conhecida por sua beleza celestial e por seu espírito pacato. A sua pele lisa de porcelana, os seus claríssimos olhos azuis e a sua feição harmônica eram as responsáveis pelas muitas noites mal dormidas dos rapazes que a conheceram, ou simplesmente tiveram o prazer de ver por uma única vez aquele seu belíssimo rosto.


O que mais reluzia em Maria eram os seus olhos, pois como se não lhe bastassem serem de uma pureza azulada e aquosa, ainda emitiam uma luz que a todos resplandecia e encantava. Aquela jovem, apesar de misteriosa e resguardada, andava sempre com a fronte levemente erguida, com passos leves e timidamente temerosos. Os olhos? Como sempre, bem abertos, olhavam a tudo de forma lenta e às vezes, se fixavam em algum lugar do espaço, e lá permaneciam por algum tempo.


Era esse o seu mistério. Desconhecia-se como, mas o segredo de Maria tornou-se público e a pobre menina não conseguiu aceitar que todos soubessem de sua cegueira.


No velório, as pessoas murmuravam: "Ave Maria, cheia de graça..." Alguns homens até se equivocaram: "Maria Nossa, que estais no céu".





Letícia Mueller

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Naturista Da Rodada



Já na terceira garrafa de cerveja, Alberto olha para as três e diz:
- Sabem essas praias de nudismo? Fui numa nessas férias.
- Mas não tinha ficado tranquilo na casa da mãe?? – indaga Beatriz, que mais parecia enciumada do que querendo fazer com o que o amigo perceba que mentiu.
- Ah, mas não posso chegar já contando que fui numa praia de nudismo, né? Perde a graça.
Bianca e Lucia, que já estavam mais para lá do que para cá, pois tinham misturado cerveja com Xiboquinha, só davam risada e perguntavam:
- tá, mas e aí, como é?
- Olha, sem querer me achar, mas as gurias não pararam de ficar me olhando.
- Em qual você foi?” – pergunta Bianca.
- Não importa, o que importa é que lá, as pessoas ficam todas à vontade, como é que eles diziam lá... é: seguem a filosofia naturista!
- O quê que é isso? – indaga Lucia.
- É acreditar que a vida é mais do que as marcas de roupa, do que ficar se importando em comer em lugares caros, é ficar ao natural, sabe, bem sem vergonha. – tenta explicar a Lucia, mas com um olhar malicioso para Beatriz.
- Ficou com alguém lá? – pergunta a própria Beatriz, fingindo não querer saber.
- Não pode, né? Se não, bem que teria rolado, fiquei com o telefone de umas cinco.
Rapidamente Beatriz acende um cigarro, ato imitado pelas outras outras duas.
- Sabe, nunca conseguiria ser uma naturista... preocupo-me sim com as minhas vestes, gosto sim de comer e beber bem, acho que não conseguiria ir para uma praia de nudismo, por ficar sem graça, não comigo, mas olhando os outros. – comenta Bianca.
- Hahahahaha, imagine eu numa praia de nudismo – comenta Lucia, entre altas risadas.
Lucia era mãe solteira, com seus 34 anos, trabalhadora, tinha no rosto as marcas de uma vida difícil, mas sempre companheira de todos.
- Qual é o problema, Lucia? Bem que poderíamos marcar de ir numa, hein? – Beatriz mais fala isso para provocar Alberto, que nessa hora olha para o jogo de futebol que está passando na TV do bar.
- Que merda esse time.
Não queria dar mais corda para a amiga, sabendo que os dois deveriam se resolver em um dia desses, quem sabe, mas que não seria naquela noite. Lucia e Bianca pedem ao garçom para que traga mais uma dose de Xiboquinha, para a amiga se esquentar.
- Então, acho até que vou ligar para uma delas agora – Alberto pega o celular e começa a procurar na agenda.
Lucia e Bianca se olham e provocam:
- Isso, liga, qual é o nome dessa que você vai ligar?
- Marta.
Silêncio na mesa...
- Marta? Como ela é? – pergunta entre risos Beatriz.
- Loira, alta, 24 anos, estudante...
Lucia corta Abelberto
- Meu Deus, é a Sabrina na versão loira! – todas caem na risada.
- Vocês podem me levar uma vez a sério, por favor?
- Sério digo eu, Alberto, você nunca foi numa praia de nudismo e só está falando isso para me provocar, então, já cansei dessa brincadeira, pára de tentar algo comigo, porque sou sua amiga e vai buscar mais uma cerveja porque o Pedro está ocupado e nossa cerveja acabou há um tempão. – quase fala aos berros Beatriz.
As outras duas ficam com o cigarro na boca quase tirando, olhando fixas para ver qual seria a reação de Alberto.
- Olha, vou buscar a cerveja, só não fico bravo com você porque você é sim minha amiga e por isso mesmo não vou parar de tentar ficar com você. – sai mostrando a língua.
Voltando, Alberto ainda solta:
- E vou deixar vocês no suspense se eu fui mesmo ou não em uma praia de nudismo huhuhahaha.
Entreolhando-se, as três servem-se de cerveja e fingem não ter existido o último comentário de Alberto.





Giana Liebel

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cerveja e Música Popular Na Casa Branca São Reais


Sempre achei fora da realidade aquela cena em que os humoristas do programa Casseta e Planeta contracenam numa festa onde há o presidente Obama tomando cerveja, ouvindo música popular e comento aperitivos com convidados na Casa Branca.
Confesso que semana passada mudei totalmente de opinião quando vi, na mídia, uma cena do presidente dos Estados Unidos bebendo cerveja, tomando aperitivo e escutando música popular americana com dois protagonistas de um fato polêmico ocorrido naquele país: um professor negro e um policial loiro que foi acusado de racismo por ele, por acreditar num chamado de uma vizinha, que enganou-se pensando que o mestre era um ladrão ao tentar entrar na própria residência.
Este fato mostrou humildade, diplomacia e descontração da parte do presidente Obama. Neste caso, o único erro dele foi não ter convidado a vizinha atrapalhada, pois foi ela quem gerou toda a confusão.
Mesmo assim tudo isto comprova a veracidade do ditado que afirma que é possível fazer as pazes numa mesa regada a cerveja e aperitivos .
Com certeza, o gosto pela cerveja também ajudou o presidente Obama a simpatizar com o nosso presidente Lula, que manifestou várias vezes o seu gosto pela loira gelada.



Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mais do que palavras


Clara era uma moça forte, sonhadora e determinada. Fazia tudo que lhe vinha em mente, se fosse de sua vontade. Inclusive em relação às suas paixões durante a vida. E, quando casou com Cassius, não foi diferente. Vivia o casamento com muita intensidade e sempre falava tudo que sentia. Mas, Clara às vezes, com este jeito impulssivo de ser, sentia-se desconfiada em relação ao que Cassius sentia: se estaria feliz, satisfeito, completo. Ela gostava das coisas pontuadas, expostas, claras como seu nome e sua pessoa já diziam. Mas Cassius, que mesmo sendo um bom homem e um ótimo companheiro, sempre foi ao contrário, mais reservado com as palavras, preferia calar e apenas sentir o que dizia o coração, realizar os desejos de sua amada, ir aonde ela queria ou, por meio de pequenas ações, demonstrar o que sentia por ela. Ele sempre foi assim. Clara sabia o bom homem que era, mas, às vezes, por seu jeito mais comunicativo e indagador, gostaria de ouvi-lo falar o que sentia e tinha certo medo de que, no fundo, ele não estivesse feliz ou qualquer coisa do tipo. “Como alguém feliz não dá pulos de alegria ou ri do nada sozinho só pelo fato de estar com a pessoa que ama?”, às vezes Clara pensava assim. Para ela gestos e ações eram também importantes, mas precisava de mais: Clara queria palavras! E então, sabendo que seria um erro perguntar de uma vez só o que ele sentia, pois achava que poderia não receber bem pergunta, decidiu indagá-lo sutilmente com algumas perguntas que ela julgava saber todos os significados. Porém, precisava confirmar se seu marido também os entendia como ela. Se ele pensasse como ela, então estaria tudo bem!

Chegando perto de seu corpo no sofá, onde estava assistindo televisão, ela, mexendo com as pontas dos dedos levemente em seu pescoço e raiz dos cabelos negros, perguntou singelamente:

- Querido, você gosta desse carinho que eu faço?

- Claro, eu adoro quando você faz isso em mim. - respondeu Cassius.

- O que esse carinho significa para você? Quer dizer, o que significa carinho para você? - perguntou ela.

- Carinho? Olha, querida, entendo como um gesto de afeto entre duas pessoas, ou dois seres, não importa quem. É uma troca afetiva , mansa, que proporciona um momento e um toque gostoso - respondeu ele.

- Gostoso? E o que é gostoso pra você? - retrucou Clara.

- Ué Clara, algo muito bom de sentir. Algo macio, suave, que dá uma sensação diferente e prazerosa. - disse Cassius com um leve sorriso entre os lábios olhando Clara, como se quisesse entender o porquê de tantas perguntas e ao mesmo tempo adorando receber aquele afago.

- Prazerosa é? - indagou novamente Clara.

- Sim. Sabe quando dá aquele “friu” na barriga? Então, sei lá, é um bem estar emocional, um relaxamento junto com uma euforia boa de sentimentos, que deixa a gente leve,meio bobo, sem conseguir falar. - disse Cassius com o mesmo leve sorriso e olhando para o nada, como se estivesse pensando em todos momentos que já tivera de prazer.

- Então, o tesão para você é uma forma de prazer? - ela indagou.

- Depende, né, querida... prazer pode ser para várias situações, inclusive para o tesão. O tesão é um grande prazer que sentimos dentro de nós, quando despertado pela pessoa certa, é claro, aquela pessoa que sabe como fazê-lo vir à tona. É um prazer totalmente físico, que a gente pode sentir na carne - disse ele, bem leve em sua expressão e pensativo.

- Humm. Nossa, você parece que viajou agora. Deu saudade de alguma situação parecida? - perguntou Clara, curiosa e aflita.

- De certa forma. - respondeu ele.

- E como é essa saudade pra você?” - perguntou novamente curiosa em saber o que ele entendia por saudade.

- Sei lá, simplesmente amamos tanto de algo ou de uma situação que passamos que, quando estamos longe ou sem aquilo ou aquela pessoa, a ausência é inevitável e nos causa a saudades. - disse ele, respondendo todas as questões e de certa forma sabendo as intenções de Clara.Foi aí então, que ela lançou a pergunta a qual sempre almejava a resposta.

- Amamos? O que é o amor para você, Cassius? - perguntou Clara, fitando os olhos de Cassius com a expressão da certeza que ele não saberia a resposta como ela sabia.

- Amor? Ah, o Amor! Nada mais é do que a junção desse carinho completamente gostoso, do prazer e do tesão, e da saudade que sinto por você, todo dia, toda hora, que não dá nem para falar, só sentir! - respondeu Cassius, fixando em seus olhos.

Clara sorriu levemente e por uns instantes ficou quieta, como Cassius sempre ficava antes. Naquele momento ela somente sentia o sentimento passar em seu coração. E ali, entendera que não importava o que seu amor pensava ou como se expressava e sim, o que ele realmente sentia.


Bianca Silva

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Displasia e relógio biológico


Estava com frio e de pernas abertas. Ouvia ele reclamar: ”Porra, assim não dá! Se eles não pagarem esse mês eu vou denunciar, que absurdo é esse?! Como eu vou trabalhar assim? Liga lá e fala pra eles... Você viu quantos eu atendi hoje? Isso é um piada!”


Ele vinha perto de mim com um gel melequento: “Vou fazer as mamas primeiro, tá? Depois a gente faz o transvaginal”. Circulou o aparelho que escaneava meio seio: “Você tem displasia... Você sabe, né?”. Ele mostrava na tela do ultra som enquanto deslizava o aparelho no outro lado das minhas mamas melecadas. ”Sei”, eu disse. Ainda com um tom imperativo, prosseguiu o homem: “É uma doença. Displasia é uma doença e ninguém se preocupa, só fazem esse exame pra detectar câncer. Tá dolorido?", “Tá”, respondi. “Existe uma forma de evitar ou de melhorar a dor?”, perguntei timidamente. “Posso te dar uns remédios. Você tem filhos?”, eu disse "Não". “Então, quando você tiver, vai melhorar”.

Ele me deu algumas toalhas de papel, tirei a papa de gel dos seios com o eco do que acabara de dizer e, com um preservativo e um gel lubrificante nas mãos, disse o medico com pouco caso: ”Vou colocar o preservativo, é procedimento, se sentir alguma dor ou desconforto me avise”. “Tá, beleza”. “Ta doendo?”, indagava enquanto introduzia o fálico aparelho vagina adentro. ”Não, tudo bem”. "Seu útero tá ótimo, você tá com que idade?”, olhou minha ficha, antes que eu pudesse responder, e disse: “34... Não vai fazer que nem eu que tive filhos com 38, é muito tarde. Olha, você tem um... mioma mas ele não impede que o feto se desenvolva, pode engravidar tranquila. Você quer ter filhos?”, "Quero”, respondi no ápice do meu constrangimento. “Então, não espere muito”. Ele me deu mais papéis para limpar a meleca, retirou o aparelho da minha vagina e voltou a reclamar para a enfermeira: “Você não ligou, ai, meu Deus, liga lá, fala pra eles que não vou esperar mais nem um dia! Pode se trocar, querida”.

Saí de lá arrasada. Eu me senti uma puta de ultra-som. Nem tanto pelo fetiche da putaria mas pela realidade do descaso. Já não é agradável ficar tendo que abrir a perna no inverno pra cada teste ginecológico, agora... ficar semi-nua numa sala que tem uma enfermeira com cara de louca e um médico de saco cheio do seu emprego, ninguém merece. Beleza, eu não apoio injustiças mas poupe este ser do sexo feminino de sentir-se uma “Vagina Abierta de la America Latina”, naquele lugar inóspito.

A agressão-invasão não era só pelo fato de introduzir um aparelho no meu corpo falando mal da situação empregatícia, mas por invadir minha intimidade de pensar na maternidade com privacidade. Não abri a conversa para discussão, não perguntei pra ele se ele era broxa, se ele fora um mal aluno de medicina, se a calvície precoce incomodava, se ele tinha mais tesão no cu ou na orelha ou se ele tinha noção de que havia uma paciente em frente a sua impaciência. A impaciência pela maternidade e pelo casamento não nos pertence (falo por mulheres da minha idade pra cima) mas sim ao mercado de consumo. Nossas vaginas são parte do grande mistério do universo, do nosso mundo secreto e sagrado, e nenhum médico debilóide de convênio (talvez os de hospitais públicos sejam muito melhores neste aspecto) tem o direito de ser grosso ou invasivo.

O ideal seria uma consulta individual privada-delivery, onde a médica viesse tranquila, entrasse muda, saísse calada e pudéssemos ficar com o silêncio de informações precisas que sairiam depois do exame, avaliadas por um médico ou médica que valha o título.

Oremos pelas mulheres sem voz, pelas invasões diárias, pelos maridos que abusam, pelos médicos imbecis.

Um beijo a todas.




Patrícia Ermel

domingo, 2 de agosto de 2009

Guia para naturistas de primeira viagem



Muita gente acha que ser naturista é a coisa mais simples do mundo, é só tirar a roupa e pronto. Não é bem assim. Não que você precise fazer um curso para ficar sem roupa, mas é recomendável que tome algumas providências, como as que verá abaixo. Elas valem para um passeio em praia de naturismo, aprenda para não passar vergonha.

1) Abuse do bloqueador solar
A grande maioria dos que debutam em praias de naturismo comprovadamente passa mais dor do que vergonha. Isso porque ninguém está acostumado a passar protetor solar nas partes pudentas. O resultado é que o cidadão ou cidadã tem de atravessar toda a semana seguinte dormindo de bunda para cima ou com os seios numa bacia de gelo. Ou ainda com suas vergonhas sopradas pelo ventilador. Portanto, capriche na hora de se bezuntar com esse santo produto, privilegiando as versões com fator de proteção elevado. Só um alerta para os nudistas de primeira viagem: não peça para sua companheira aplicar o bloqueador nas suas partes íntimas, porque a coisa pode esquentar e vocês acabarão sendo expulsos da praia. Ao contrário do que muitos pensam, em praia de naturismo não dá para ficar fazendo festinha, como você verá no próximo tópico.

2) Segure a onda
Há quem pense (muita gente, inclusive) que praia de naturismo é uma tremenda putaria, uma suruba a céu aberto. Se você faz parte deste time, esqueça. É muito mais fácil testemunhar excessos numa praia convencional do que numa de nudismo. Portanto, se você vai com más intenções, é bom mudar os planos. E se não vai por medo das más intenções alheias, é bom rever seus conceitos. Mas, claro, como estes conselhos são para naturistas de primeira viagem, vale o alerta de que é bom controlar a empolgação: caso os ânimos esquentem (normal pra você, debutante, que se sentirá como uma criança no Playcenter pela primeira vez), entre na água com urgência, se o mar estiver gelado não tardará a fazer passar a febre. Se ela não passar, permaneça no mar. Com o nível da água da cintura para cima, obviamente.

3) Cuidado com os bichos da areia
Nos anos 80, quando o fio dental chegou ao auge na adesão das mulheres cariocas, houve um grande número de intervenções médicas ocasionadas devido àquele ser que anda sempre nu: o cachorro. Suas fezes contém o famigerado bicho geográfico, que leva este nome porque percorre o corpo humano desenhando um rastro por baixo da pele que fica bem delineado e visível, parecendo o tracejado de um mapa. Quando o cidadão ou cidadã senta nu em pêlo na areia, o danado do bichinho resolver fazer, digamos, expedições espeleológicas... Portanto, use uma canga ou toalha de praia para forrar a areia, tomando o devido cuidado também com siris e caranguejos, já que esse bichos têm aquelas pinças que é bom nem lembrar das possibilidades de uso.

4) Cuidado com os bichos do mar
Se uma água viva já é capaz de detonar as partes mais expostas da sua pele, imagine o que não pode fazer naquelas que você vive escondendo... Portanto, inspecione bem o estado da água na qual você vai banhar seu corpinho. As recomendações aqui são para naturismo no mar, mas no rio há um alerta especial sobre um peixe intrometido chamado Candiru, que entra na uretra de homens e mulheres. Dizem que, se for para comparar a dor, você preferirá uma água viva.

5) Escolha o esporte certo
Frescobol, para os homens, pode ser muito inconveniente: uma bolada ou raquetada em áreas delicadas renderia um desfecho prematuro de sua tarde no paraíso. O mesmo pode ocorrer em um futebolzinho de areia, a não ser que você corra o tempo todo em posição de quem está na barreira diante de uma cobrança de falta. No vôlei de praia, cuidado com uma cortada mais animada de um jogador adversário... bom, façamos o seguinte: nada de esportes com bola, combinado? Se você for surfar, melhor abrir mão do naturismo e vestir um longjon, caso contrário a parafina pode grudar nas suas partes e causar um belo estrago na hora de pular para ficar em pé na prancha.

6) Não faça piadinhas nem fique reparando em tudo
Naturista de primeira viagem dificilmente consegue se conter e é fácil de ser identificado por justamente dar bandeira olhando tudo ao redor. Fica apontando para os outros, fuxicando e comentando impropérios do tipo “olha o tamanho daquele”, “olha os volumes daquela” e por aí vai. Quem faz isso paga o mico de passar por jacu e ainda corre o risco de levar umas bolachas de algum naturista menos paz-e-amor. Como também de ser apontando e debochado por outro naturista de primeira viagem.

7) Cuidado em operações de salvamento
Fingir que está se afogando só para ter um contato pele a pele com o saradão que se bronzeia na areia, ou correr para salvar aquela cover da Feiticeira só porque ela pisou numa concha, podem ser atitudes de risco. As beldades podem estar acompanhadas, como também é bom lembrar que podem nem ser a fim do sexo oposto, já que praias de naturismo costumam muitas vezes ser reduto gay.

8) Evite câmeras
Vale tanto para você evitar de levá-las quanto para fugir das dos outros. E isso tanto para câmeras fotográficas quanto para as de vídeo. Sua câmera pode ser vista com maus olhos, ainda mais se tiver uma daquelas teleobjetivas com zoom capaz de focalizar um fio de OB escapando a cinco quilômetros de distância. E as câmeras alheias representam inimigo iminente para você, naturista amador, que provavelmente não irá gostar de ser pano de fundo de uma foto que circulará livremente pela Internet.

9) Tenha sempre em mãos um binóculo
Para apreciar peitos e bundas? Não. Para se certificar de que a área está livre de gente que não possa ver você sem roupa, ou de gente que você não possa ver sem roupa, ou ambas as coisas. Alguns frequentadores da praia poderão ficar incomodados, mas dane-se, é melhor discutir com um desconhecido pelado do que com a sua sogra nua, concorda? Eis os tipos de situações de perigo e o que fazer em cada uma delas:
· Alerta vermelho – chefe
o Vista-se e fuja em direção ao lado oposto ou entre no mar e nade até a praia (ou ilha) mais próxima.
· Alerta vermelhíssimo – chefe com esposa
o Peça a alguém que enterre você na areia (use o canudo da água de coco para respirar) e só deixe que o desenterrem quando anoitecer.
· Alerta verde – chefe com amante
o Vá em direção a eles rapidamente, antes que seu chefe possa percebê-lo (use um sombreiro), esbarre “sem querer” nele e cumprimente-o com cara de surpreso (do tipo “chefe, você por aqui!?”) – pronto, sua promoção está garantida.
· Alerta vermelho vivo – sua cara-metade
o Onde já se viu, aquela pessoa tão recatada que você escolheu para dividir seus dias e seu carinho de repente surgindo do nada, pelada, numa praia de naturismo!? O alerta passa para vermelho chacina se ela disse que iria passar a tarde na avó. E passa para alerta cor de burro quando foge se você também inventou uma desculpinha barata para se livrar e vir na praia de nudismo. Enfim, aqui a vermelhidão tem várias nuances: aumenta se sua cara-metade estiver acompanhada, mais ainda se a companhia for uma grande amizade sua, e mais ainda se for mais de uma companhia. Como também diminui se você estiver na praia em companhia de mais alguém, se esse alguém tiver amizade com a sua cara metade, se for mais de um alguém, etc. Provavelmente este é um dos motivos de ser terminantemente proibido entrar em praia de naturismo armado (no sentido literal, obviamente).
· Alerta laranja – amigos ou parentes
o Vai depender do grau de modernice de você e de quem pintar no pedaço. Se for a galera da balada, vão tirar uma com a sua cara e vice-versa. Se forem amizades do sexo oposto, a coisa ficará entre o embaraçoso e o divertido. Se forem parentes próximos, como tios, por exemplo, melhor fugir para evitar constrangimentos na próxima reunião familiar. Se forem parentes distantes (tipo primos de terceiro grau), que se dane, você não deve nada a eles. Mas se forem parentes que você quer distância, como sua sogra, fuja como quem corre do capeta (o que não deixará de ser verdade). Para os homens, se for aquele primo com o qual você rivalizava desde a infância, será a hora da verdade...

10) Cuidado com praias de nudismo facultativo
Geralmente, praias de naturismo ficam localizadas em uma área geográfica confinada, cercada por paredões ou outro tipo de bloqueio natural, justamente para tornar restrito o acesso e a visibilidade. Corretíssimo. Só que isso faz com que você tenha de caminhar um certo trecho até chegar à área dos pelados. E é aí que entra um risco delicado, que pode ser exemplificado através de duas praias de Santa Catarina: a do Pinho, em Balneário Camboriú, e a da Galheta, em Florianópolis. Na Praia do Pinho você pode se desnudar sossegado e caminhar tranquilo, porque lá só vai encontrar gente peladona como você; mas se for na Galheta, fique atento porque é uma praia de nudismo facultativo, sendo que fora de temporada só tem gente vestida de Adão e Eva, mas quando chega o verão vai ter seus quadros de naturistas reduzido a uma meia dúzia de gatos pelados. Ou seja, cuidado para você não ser uma dessas raras pessoas nuas em pêlo no meio de uma multidão de sungados e biquinadas. Pode até correr o risco de você ser a única pessoa sem roupa no recinto. Neste caso, levante as mãos pra cima e grite: “socorro, me assaltaram!”.


Mario Lopes

sábado, 1 de agosto de 2009

Naturismo, estilo de vida ou destino de vida?


Um estilo de vida livre, sem cobranças, porém rodeado de preconceito, como tudo o que é diferente aos nossos olhos. O preconceito é previsível. Quero relatar sobre o nudismo divulgado em um programa de TV, que causou impacto aos olhos dos que pouco entendem sobre o assunto.

Em um programa da TV Record, Troca de Família (onde as mães trocam de casa e assumem a rotina da outra família), houve um caso de participação de uma família tradicional oriental, de conceitos e valores rígidos de São Paulo - Capital. De outro lado, uma família naturistas que moravam em uma praia. A troca foi feita e houve um choque da mãe oriental ao saber que estava a caminho de uma comunidade naturista, alegando que jamais tiraria a roupa. O choque também aconteceu do outro lado: a mãe naturista teria que voltar a usar roupas e viver em uma casa cheia de conforto, com regras e tradições.


A família oriental se adaptou rápido com a mãe naturista, já ela demorou mais tempo para essa adaptação, pois teve que mudar seus costumes. Já na comunidade naturista, a mãe oriental fechava os olhos no primeiro dia, depois se acostumou. Porém, não olhava para lado algum a não ser no rosto das pessoas, por ficar constrangida.

As duas mães mudaram radicalmente suas vidas, afetando automaticamente suas família, por viverem essa experiência tão diferente dos hábitos rotineiros. A mãe oriental sempre disse que não teria coragem de visitar uma comunidade naturista, mas, tendo essa oportunidade de conviver com essas pessoas, observou a qualidade de vida deles, alegando que vivem em harmonia com o corpo, com a natureza e com o próximo, sem gastos extremos com roupas e coisas sem necessidade. Pessoas felizes e de costumes simples, por viverem longe da cobrança da sociedade. Porém, a mãe oriental diz que não trocaria sua vida da cidade pela vida naturista.

Do outro lado, a mãe naturista chora de saudade do filho, saudade da vida tranquila, sem obrigações ditadas pela sociedade, mas teme que o filho possa sentir necessidade desse mundo de coisas fáceis, roupas da moda, comidas diferentes e até mesmo da escola, onde teria acesso a esse mundo diferente do que eles conhecem.


O programa é muito bom porque aprendemos a ver mundos tão diferentes, convivendo naturalmente, tão próximos, abrindo canal para reflexões, diálogos, gerando comentários, mas sem deixar de existir o preconceito de ambas partes.

Muitas pessoas ainda ficam chocadas com o naturismo, por acharem inviável viver desta forma, em uma ambiente desconfortável, considerado por alguns como carente de respeito. De outro lado, os naturistas consideram nossas vidas dominadas pela sociedade, alegam não termos liberdade de escolha, e, se temos, é imposta pela sociedade, nos fazendo acumular futilidades. Não deixam de estar certos, não é mesmo?

Mas cada um tem seu estilo de vida, ou é melhor nomear como "Destino de Vida", porque em muitos casos as pessoas não tem a oportunidade de decidir o que querem, e tem outra que decidem por elas. Esse assunto é mais complexo do que possamos imaginar. A TV ainda o trata com cautela, mas é importante trazer esses assuntos a tona, pois nos faz ver o que em nós precisa ser mudado, aos nossos olhos, e não pelos olhos da sociedade. Porque para cada um reage de um jeito a essa história.

Naturista X Não Naturista.
Liberdade X Opressão.



Mary Palaveri

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A Máquina Quase Perfeita


Em pleno Século XXI, criei uma máquina há muito sonhada, cuja estimativa para que fosse criada margeava uma espera de no mínimo dois séculos. Por ser uma invenção estupenda, já tentada pelo homem, era necessário um teste minucioso de seu funcionamento que não deixasse dúvidas sobre a eficácia e anulasse qualquer possibilidade de risco mortal.

Portanto, após meses e meses de estudo, usando ratos como cobaias, e obtendo resultados extremamente satisfatórios, concluí que já estava na hora de eu mesmo embarcar nessa loucura e dar um veredito sobre minha invenção: a máquina do tempo.

Fiz os devidos preparativos, arrumei uma mala com roupas para todas as estações e deixei sobre minha mesa um bilhete tendo como remetente eu mesmo, detalhando o funcionamento da máquina e o dia de minha partida, caso eu voltasse com a memória afetada.

Elaborei um itinerário em ordem cronológica, com início na Grécia clássica, pois ansiava conhecer o berço da Filosofia e quem sabe até eu tivesse a sorte de esbarrar com algum grande pensador, como Sócrates ou Aristóteles. Porém, devo ter cometido algum engano na programação, pois acabei passando três séculos do esperado. Eu estava entre IX e VIII a.C., nos tempos Homéricos. Infelizmente, devido ao meu grandíssimo erro, não pude ir atrás de Homero e Hesíodo, e tive de permanecer lá só o tempo suficiente de ver duas ou três pessoas trajando aquelas túnicas brancas.

Com cautela, regulei a máquina e cheguei ao destino esperado, Atenas. Parei próximo a uma arena onde estava ocorrendo provavelmente um dos primeiros Jogos Olímpicos da história da humanidade.

Após minha primeira vitória, viajei até a Idade Média e tudo ocorreu como o esperado. Passeei por Paris, vi a Catedral de Notre Dame com sua arquitetura gótica e tive o desgosto de passar por um ritual da inquisição. Tratei logo de ir embora, mesmo porque, se alguém ali desconfiasse de mim, o meu destino seria a fogueira.


Assim, fui seguindo com minha viagem, de acordo com as expectativas, sem grandes percalços. Na Idade Moderna, cheguei no exato momento em que Pedro Álvares Cabral ouvia:
- “Terra à vista”, e descobria o Brasil após cruzar o Atlântico.

No Renascimento, vi Thomas Morus escrever as últimas páginas de sua maior obra, Utopia. Na Reforma, presenciei a queima de milhares de livros considerados hereges e, durante o Iluminismo, quase fui atacado por um soldado escocês que invadia a Inglaterra - tratei logo de ir embora antes que começasse a Guerra Civil.

Presenciei alguns minutos da Revolução Francesa, com a Tomada da Bastilha e uma revolta de operários da Revolução Industrial. Não quis passar pela Primeira Guerra Mundial, mas acompanhei alguns estragos da Crise de 1929 nos Estados Unidos. Ouvi um discurso de Hitler e novamente pulei a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. A máquina funcionava e eu já podia voltar.

Cheguei em casa felicíssimo. Minha invenção, até então, era um sucesso. Após cerca de 100 dias no passado, eu ficaria uma semana descansando, para enfim cumprir o desafio final. Uma máquina do tempo, que além de viajar para o passado, também deveria levar para o futuro, e já passava da hora de eu garantir que isso também era possível com minha “engrenagem”.

Passei a semana imaginando como seria minha viagem, afinal, o passado não era um mistério propriamente dito, pois havia muitos livros relatando-o. Já o futuro só podia ser imaginado. Nada se sabia do que estava por vir e os que arriscavam algum palpite baseavam-se na imaginação e hipóteses duvidosas. É claro que a maior parte das opiniões convergia para um mesmo ponto: muita tecnologia em qualquer “área” da vida humana. Isso era óbvio demais, mas não menos interessante.

Os dias se passaram tão rápido que, quando vi, eu estava novamente arrumando minha mala e escrevendo um bilhete com novas instruções e com a data de minha partida. A “viagem” foi um tanto quanto estranha, mas ainda dentro do esperado. Meu corpo tremia em convulsões indolores e só o que eu via era uma mistura de cores indefiníveis girando a minha volta.

Finalmente, eu estava lá. Alguns minutos antes eu estava em minha casa, no ano de 2009, e, logo em seguida, eu vivia o ano de 2513, como indicava a máquina. Meu nervosismo atingia seu ápice, pois não sabia o que me esperava do lado de fora.

E se não existissem mais humanos? Apenas E.T’s? E se eles me vissem, o que fariam comigo? E se o mundo estivesse em guerra? Ou pior ainda, e se não existisse mais mundo nenhum? Afinal, que garantia eu tinha para acreditar que encontraria algo além do nada? Superei meus medos e saí da segurança do meu casulo.

Muito havia de diferente, mas existem coisas que nunca mudam. O céu continuava azul e as nuvens brancas, a grama era verde, ainda havia gravidade. As casas eram todas de alumínio e as que pareciam ser mais luxuosas ostentavam um jardim com plantas enormes de cores extravagantes. Os carros flutuavam pelo ar, seguindo um fluxo que me parecia muito organizado. Aliás, nem sei se posso chamar aquilo de carro, pois mais pareciam bolhas movidas por ar.


Caminhando pela rua, tentei descobrir em qual cidade eu estava, mas isso parecia impossível sem referências visuais. A saída era perguntar a alguém com a maior discrição possível, para que eu não passasse por louco.

Fui andando em busca da “civilização”, ansioso para ver os homens do futuro e as suas roupas espaciais, mas, minha surpresa foi ainda maior ao ver um casal caminhando de mãos dadas, felizes, sorridentes... e nus. Aquilo seria extremamente normal para 2009, um casal de um homem e uma mulher, andando juntos na rua, não fosse o fato de estarem despidos. Pensei que talvez eu estivesse em uma área de nudismo, e vi ali uma boa oportunidade de me informar sobre minha localização. Aproximei-me do casal e, no exato instante em que fui visto, notei o pavor incendiar-lhe os olhares. Assustados, saíram correndo, o que me deixou ainda mais surpreso. Apressei o passo para encontrar logo outras pessoas, e acabei chegando ao que seria o centro da cidade. Lá, dezenas de pessoas circulavam vestidas com a roupa que vieram ao mundo. Nus em pelo.

Concluí que estava em uma cidade naturista, mas ainda me faltava saber seu nome e onde exatamente estava localizada. Era interessante pensar que, talvez, o Afeganistão opressor e tradicionalista da minha atualidade vivesse essa nova realidade libertária. Porém, estava impossível eu conseguir me comunicar com alguém, pois todos me olhavam com repúdio. Olhei pra mim mesmo, tentando achar algo discrepante além de minhas roupas, mas eu era fisicamente idêntico a qualquer homem ali presente.

Pasmo com a situação, mal eu imaginava que o pior ainda não havia acontecido. De repente, fui abordado por dois homens (nus, obviamente) que me ameaçavam com um objeto prateado, enquanto evitavam olhar para mim. Eles me empurraram até a sua “bolha”, gritando coisas horríveis ao mesmo tempo em que não me deixavam argumentar em minha defesa.

Fui levado para uma espécie de delegacia e, durante o trajeto, percebi que todos, sem exceção, andavam nus. Sendo assim, conclui que eu estava em um ambiente em que o “fora da lei” era eu. Ouvi as acusações da autoridade:
· Atentado violento ao pudor
· Uso indevido de recursos naturais
· Desrespeito à autoridade
· Perturbação a ordem pública
Eu me desculpei e fui liberado... sem roupas.

Andando a esmo pelas ruas, achei uma biblioteca e percebi que ali estava a minha grande chance de sanar todas as minhas dúvidas. Fui logo em busca de periódicos e, não os achando, pedi ao atendente robô. Ele me veio com um objeto, o qual chamava de jornal, que mais parecia com uma pequeníssima folha de papel transparente. Ao invés de virar as páginas para ler as noticias, elas corriam à medida que eu as lia, como se acompanhassem o meu olhar. Li notícias de todos os tipos e todas elas confirmavam que o mundo havia mudado drasticamente. Eu não estava em uma cidade naturista, mas em um mundo naturista.

Procurei em livros de história o curso dos acontecimentos e descobri que, há cerca de duzentos anos, o fim do mundo estava próximo. A natureza morria aceleradamente e o homem apenas piorava a situação, acabando com os poucos recursos naturais que restavam. Os cientistas avançaram com suas pesquisas, e descobriram que a solução mais viável era conseguir a total harmonia entre o homem e a natureza. Ao ler isso, não consegui conter uma gargalhada. Afinal, que cientistas do futuro são estes que repetem o que até meu sobrinho de quatro anos vem aprendendo no colégio?

Continuando a minha leitura, vi que a situação não era nem um pouco risível, mesmo porque, os cientistas dos séculos XXV e XXVI partiram da teoria e do falatório para a prática. Todos os recursos não renováveis passaram a ser substituídos por outros, e mesmo os renováveis eram usados com cautela. Sendo assim, os produtos feitos com esses recursos renováveis tiveram sua matéria-prima substituída por substâncias sintéticas que não agrediam a natureza e protegiam o homem.

As roupas, feitas de algodão, lã, seda, e outros tecidos, tornaram-se desnecessárias a partir do momento em que um creme isolante térmico e com fator UV altíssimo, foi criado. Isso explicava tudo. O fato de eu estar vestido infringia as leis naturistas universais vigentes, pois eu usufruía de um bem muito valioso, visto que era natural.

Fiquei admirado com o senso de consciência que a humanidade conseguiu desenvolver ao longo dos anos, o que não correspondia com as expectativas. Reparei que a sociabilidade tornara-se fácil e qualquer tipo de preconceito, por ser considerado primitivo, estava extinto. Mesmo não dispondo de objetos que pudessem registrar o momento, eu sabia que era hora de voltar para casa. Chequei a máquina e nunca tive tanta pena de ter que usá-la, mesmo porque eu sabia que não viveria tempo suficiente para gozar de toda aquela benesse. Dei uma última olhada no “paraíso” e girei o botão.

Cometi um pequeno engano, engano esse nada fora do esperado, afinal, era a primeira vez que eu voltava do futuro e acabei parando a uma quadra de minha casa. Sai do casulo e fui caminhando tranqüilo, refletindo sobre aquele mundo tão utópico, mas ao mesmo tempo tão real.
De repente, fui abordado por dois policiais, que me ameaçavam com um cassetete, enquanto evitavam olhar para mim. Eles me empurraram até o camburão, gritando coisas horríveis ao mesmo tempo em que não me deixavam argumentar em minha defesa.

Fui levado para a delegacia e durante o trajeto, percebi que só eu estava nu. Sendo assim, conclui que eu estava novamente em um ambiente em que o “fora da lei” era eu. Ouvi as acusações da autoridade:
· Atentado violento ao pudor
· Desrespeito à autoridade
· Perturbação a ordem pública
Paguei a fiança e fui liberado... com roupas.
Pois é, a máquina me levou ao passado e ao futuro, mas não me vestiu.


Letícia Mueller