terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Doce De Menina


Silvinha era uma moça muito bonitinha, a começar pelo apelido que lhe deram e ficou desde a época do ginásio. Essa época, então, foi o marco para Silvinha. Desde lá, já era aquela menina graciosa e inteligente, que chamava a atenção entre os colegas, meninos e meninas. Era ela quem sempre apagava o quadro, que respondia as perguntas que ninguém sabia, que corrigia a lição dos colegas quando a professora se ausentava. Silvinha, além de muito inteligente e prestativa, era sempre engajada com os eventos escolares. As meninas sempre sentiam uma inveja branca ou mais negra por Silvinha. Os meninos, a admiravam, não só pela comunicatividade da moça mas por sua pele límpida, olhos mel, cabelos sempre penteados e perfeitamente alinhados e sorriso grande e arrematador. Era a mocinha dos sonhos, a garota propaganda. Para eles, a “garota ideal”. Mas Silvinha não namorava nenhum, afinal, sua maturidade estava muito avançada para meninos de colégio. Além do mais, eles cheiram a salgadinho e a ambiente escolar, dizia Silvinha quando lhe indagavam. E assim cresceu, bela e graciosa. Entrou na faculdade, com certeza, aonde começou a cursar Veterinária, afinal, além de tudo, ela também amava os animais. E lá foi a mesma coisa: participava das festas, dos eventos, das palestras, reuniões e comissão de formatura, além de abaixo assinados e campanhas em pró dos animais. Era reconhecida em toda a faculdade e nos estágios que fazia. Futuro promissor com certeza quando saísse dali. Os seus colegas machos pareciam cães babando quando ela chegava e por onde passava. Mas Silvinha não queria ficar ou namorar com ninguém, afinal, os caras da faculdade são todos bobões e chatos, além do mais, não queria ver a cara de um possível namorado todo o dia, dizia quando lhe perguntavam. Silvinha conquistou sua profissão e conseguiu um trabalho aonde era bem requisitada e conceituada. Os homens do trabalho caiam em cima, afinal, linda e com o mesmo imutável sorriso arrematador, olhos mel, inteligente e ainda por cima reconhecida profissionalmente, era o sonho de consumo de qualquer cara que sabe o que querer de uma mulher. Alguns chegaram guardar sentimentos pela bonitinha, mas ela não estava nem aí. Trabalho é trabalho e amor é lá fora, afinal, os homens do trabalho são tudo uns safados que ficam olhando para as meninas mais novas enquanto sua mulheres estão em casa. Não valem o prato que comem, dizia Silvinha quando lhe cutucavam, sobre os homens que ela convivia. E assim, Silvinha passou adolescência e a juventude, sempre lindinha, engraçadinha e graciosinha, mas sozinha. O problema de Silvinha não era ser muito doce. O problema é que o cú dela era também.


Bianca Nascimento

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tema da Semana: Fazendo Cu Doce

Escolhas De Um Vencedor

Pedro estava no auge de sua adolescência, muitos amigos que na verdade nem eram assim tão amigos, muitas festas, que na verdade não eram lá aquelas festas, muitas namoradas, que na verdade não eram bem namoradas, muito estudo, que com certeza não eram assim muitos estudos, isso para ele na sua visão de campeão.
Mas assim corria comodamente sua vida, em meio a festas, namoradas, estudos e amigos. Foi nesse caminho que Pedro encontrou vários caminhos, sua vida também era feita de escolhas, conheceu coisas e pessoas diferentes, errou e acertou, mas sempre escolheu. Maratonista seja de matemática ou na educação física, vencedor nato, admirado por todo o colégio e o pupilo da família. O terceirão foi para ele simples e fácil, passou no vestibular em várias universidades públicas e mais uma vez pode escolher a qual preferia.
Pedro então mudou de cidade, mudou de amigos, mudou de festas, mudou de namoradas e mudou de estudos, sim a faculdade era puxada, virava horas debruçado nos livros, nesses momentos seus novos amigos, aqueles que levaram Pedro para as novas festas e apresentaram as novas namoradas, bem aqueles, lhe apresentaram pílulas mágicas, que o faziam dançar a noite toda e ter pique para estudar, chegar na faculdade e realizar provas, e Pedro mais uma vez fez suas escolhas.
Ele ainda mantinha contato com os antigos amigos, aqueles que ficaram lá na sua cidade natal, e nas férias sempre se reuniam para relembrar os tempos antigos e colocar as novidades em dia. Numa dessas férias Pedro apresentou sua mágica descoberta, alguns que nele confiavam e admiravam cegamente aceitaram de primeira, outros resistiram um pouco e muito poucos se negaram e tentaram avisar Pedro sobre o que realmente estava acontecendo, sobre os fins que poderia ter. Ah mas Pedro era um campeão, ele mesmo repetia para quem quisesse ouvir que era um vencedor e nada o abalaria o controle de sua vida estava em suas mãos e sabia sempre das escolhas feitas, e mais ainda, repetia ter autocontrole para parar sempre e quando quisesse. Depois desse discurso os velhos amigos sentiram-se pequenos, Pedro era grande demais para a pequena cidade e decidiu para lá não mais voltar.
Os meses se passaram e nosso campeão não venceu pela primeira vez, na verdade uma pílula já não era o bastante, agora já eram quatro às vezes cinco, ele não fazia “cu doce”, como diziam os mais chegados. Ainda acreditava que tinha tudo sob controle, os velhos e os novos amigos se afastaram, mais uma vez as festas e as namoradas mudaram constantemente, os pais já não suportavam mais a condição de seu pupilo, e de certa forma se afastaram, clinicas não bastavam, não o agüentavam, dinheiro já não era suficiente.
Pedro escolheu buscar outras alternativas para manter o fictício controle, numa dessas aventuras foi pego, foi preso, e dessa vez não teve escolha, nenhum telefone o atendeu, estavam todos cansados de avisar e sempre ouvir o mesmo sermão de que ele era um vencedor inabalável.
Por lá Pedro ficou, talvez tenha se arrependido o que nunca assumiu, mas com o passar do tempo pode perceber um novo mundo, um universo paralelo, com leis próprias do mundo cão, viu sangue, viu dor, viu a morte e percebeu que na escola da vida a vida é feita de escolhas.


Fernanda Bugai

domingo, 31 de janeiro de 2010

Dia Da Saudade


Comemorado no dia 30 de janeiro, o dia da saudade pode em um primeiro momento gerar controvérsia, sim, por que podemos nos perguntar, mas por quê? Por que comemorar o que passou? O que traz a dor? Pessoalmente eu não vejo como algo que traz a dor, para mim a saudade é um dos sentimentos mais nobres, que mostra a capacidade humana de se doar, de sentir a falta e perceber que não somos auto-suficientes. O dicionário nos explica:

“SAUDADE: s.f. Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir. / Nostalgia. / Zoologia Pássaro da família dos cotingídeos, encontrado na serra do Marinha / Botânica. Denominação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas e a suas flores; perpétua, suspiro. / Botânica. Planta da família das compostas.”
Pois bem, são tantas definições, e uma curiosidade, saudade é uma palavra existente na língua portuguesa que dificilmente encontraremos a tradução exata nos demais idiomas.
Esse sentimento pode ser de perda, nostalgia, lembrança, mas no meu ver remete coisas boas, a saudade é aquilo de bom que passamos ou vivemos e que nos traz boas lembranças, às vezes desejo de voltar no tempo, às vezes não ficando apenas a boa sensação.
Recordar, e todos nós sentimos saudade, seja lá do que for, das histórias do avô ou do bolo da avó, da comida da mãe ou da casa dos pais, da infância ou das festas da adolescência, dos amigos de infância ou das professoras de colégio, do melhor amigo que partiu ou do primeiro amor, de um vestido velho ou de um relógio de bolso, de um boneco do Batman ou da primeira Barbie, daquele encontro ou daquele bolo que te salvou de uma enrascada, de um perfume ou de uma música, de um fim de semana com chuva, filme e pipoca ou de um verão regado a sexo, drogas e rock and roll, dos tempos da faculdade ou dos cursinhos intensivos, de usar aparelho ou óculos, de um amor de verão ou de um casamento, e por ai vai... E é assim mesmo, sempre sentimos saudades de coisas, de pessoas, de momentos, de tudo aquilo que nos fez bem e traz aquela lembrancinha boa, uma coisa confortável, às vezes emociona também, segue o pranto, mas é feliz! Nunca vi ninguém falar que sente saudades de coisas ruins, talvez seja bem por isso que esse dia seja comemorado, afinal quem é que comemora coisas ruins? (quem gosta que me perdoe).
“Das lembranças que eu trago na vida. Você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim sinto você bem mais perto de mim outra vez.” Já disse Roberto Carlos na sua canção...
E como é bom sentir saudade, sentir por perto outra vez, seja lá o que for, significa que vivemos, aproveitamos, estamos vivendo, sim, porque o tempo não pára, a vida não pára e as vezes nos obrigamos a deixar coisas e pessoas para trás, e algumas vezes já não podemos retornar ao passado e viver como se foi um dia. Assim, sentir saudade significa que estamos evoluindo e apesar de deixar para trás, ironicamente trazemos conosco, a parte boa da história, o melhor que o outro no ofereceu, e deixamos o melhor que poderíamos oferecer, trazemos a saudade e certamente a deixamos, deixamos e levamos a boa lembrança do que passou.
Acima de tudo sentir saudade é a certeza de que amamos e somos amados. Comemoremos sempre a saudade, comemoremos nossa capacidade de amar e sentir, a delícia de estarmos vivos.

Fontes:
Aurélio on line: http://www.dicionariodoaurelio.com/dicionario.php?P=Saudade


Fernanda Bugai

sábado, 30 de janeiro de 2010

Nervos Em Trânsito


Lembram daquele episódio do desenho do pateta, onde ele se apresenta como um cara distinto, trabalhador, gentil, coisa e tal?
Mas que, em questão de um segundo, ao sentar em frente ao volante ele vira um cara nervoso, um completo irresponsável e sem educação? Pois é, o que será que acontece na cabeça das pessoas quando entram em seus carros e saem insanas por aí passando por cima de tudo? Pressa? Tempo é dinheiro? O que vale a vida pra alguns, que não respeitam pedestres, nem senhorinhas, ciclistas, muito menos o sinal que te diz: PARE!?

Esse desenho já tem tempo, e lá atrás já se entendia essa versão de motorista. Pra alguns, vale tudo. Andar na contramão, furar sinal vermelho, parar em cima da faixa, ultrapassar pela direita, xingar, e ainda, perder a cabeça e apertar o gatilho.
Sabem o que é isso? Agora mesmo estou escrevendo esse texto e lá embaixo uma sequência de buzinas nervosas. E pra que? Neguinho no carro da frente vai andar mais rápido? Não. Vai levantar voo e abrir caminho para sua passagem? Não. Vai adiantar alguma coisa, além de deixar as pessoas sem nenhuma paciência? Não. Não vai.

Pois então. E pedestre, tem vez? Coitado, esse sofre. Fechou sinal, abriu sinal? Se liga, sempre tem motorista atrasadinho querendo se aproveitar. A lei, por mais que esteja do seu lado, pode te deixar com uma perna quebrada, senão pior. Não importa se o sinal está livre pra você, se aquele motorista inconsequente achar que não vai dar nada se ele passar no vermelho "só um pouquinho", a consequência será sempre ruim pra quem está do lado de fora da carcaça de lata.

Ciclista? Acho muito bacana essa atitude que algumas pessoas tem em suas vidas. Sair por aí de bike curtindo um ventinho, fazendo um exercício, hummmm.. BÉÉÉÉ!!! Opa, até ser surpreendido bruscamente por aquela turma que não respeita. Não é assim tão fácil, se não prestar atenção, os motorizados te levam, isso sem falar nos assaltos. Mas esse é outro assunto.
Existem tantos lugares criados para que seus habitantes possam usufruir de mais essa opção, e olha que Curitiba tem a primeira ciclovia do Brasil... poderia ser melhor, mas sei lá, como estamos no Brasil, então não é.

Do que a gente tava falando mesmo? Ah, educação pois é, vou pegar esse gancho. Todos os lugares tem coisas boas e ruins, prós e contras. É inevitável. Alguns problemas são piores, bem piores que os outros, mas o que lamento de verdade é que a maioria dos nossos problemas são os próprios brasileiros que trazem. Que criam. Falta de educação, seja ela onde e como for, atrasa.
Atravanca, estressa. Definitivamente, se as pessoas não pararem só um minutinho pra sacar o que estão fazendo com seus nervos, não vai sobrar nenhum pra contar história. Mesmo assim, a vida vai continuar, coisas irão acontecer...

No final, a fila tem que andar.

Liliana Darolt

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Como Desejar


Em um imenso salão de festas, inteiro enfeitado com rosas brancas e vermelhas e contrastado por bonecos de personagens da Disney, quem reinava era Maitê. De todos os convidados elegantes que bailavam em seus vestidos bordados e ternos de risca sobre a gigantesca pista de dança, Maitê, em seu pequenino conjunto branco cheio de babados e sapato envernizado, era irrevogavelmente a mais bela presente. Todas as atenções voltavam-se para ela, desde sempre tão bajulada até por pessoas que a viam pela primeira vez. Seus pais, representantes mor da sociality, como faziam questão de que Maitê já fosse apresentada a sociedade desde cedo e não tivesse que esperar até seus 15 anos para debutar, prometeram a si mesmos que em todos os aniversários da filha seria dada a festa mais linda já vista, que só seria arrebatada no outro ano, quando a menina completasse mais um ano de vida.
Com apenas dois anos de idade, Maitê, com toda sua simpatia e graciosidade, já construíra sua reputação e se tornou a nora dos sonhos de muitos pais jovens, afinal, o que mais um pai poderia querer para seu filho além de uma bela moça com boas condições de vida? É claro que ainda havia muito a se descobrir sobre sua personalidade, mas todos achavam que bondade e inteligência seriam apenas mais um bônus para uma menina que por si só, e pelos pais, já era perfeita.
Porém, obviamente a aniversariante mantinha-se alheia a todos a sua volta, vivendo seus dois anos de idade da melhor forma que podia, pondo na boca tudo que via pela frente, mordendo os braços dos coleguinhas, coitados, que mal podiam reclamar para seus pais, e divertindo-se com sua coleção de bonecas. Durante sua festa, enquanto era passada de braço em braço e tinha suas bochechas rechonchudas apertadas por gente que nunca antes vista, Maitê apenas gargalhava e batia palmas para todo aquele pessoal engraçado.
A hora do parabéns era a sua preferida. As dezenas de luzinhas sobre o enorme bolo de chocolate iluminando todo o ambiente e a euforia daquelas pessoas batendo palmas e sorrindo para ela, deixavam Maitê extasiada. E depois da cantoria, vinha a melhor parte da festa. Não que não gostasse dos deliciosos brigadeiros ou dos cajuzinhos, ou de ter sua visão ofuscada no momento da foto e ser beijada e receber cócegas dos que vinham lhe dar parabéns, mas nada se comparava a sensação de chegar bem pertinho do bolo, sentir o maravilhoso cheiro de chocolate misturado à fragrância quente das velas, encher todo seu pulmãozinho com ar até ficar vermelha e... FÚÚÚÚÚ! Ver todas as velinhas sendo apagadas, algumas mais facilmente, outras nem tanto, exigindo até 4 assopradas. Depois disso, Maitê sentia que poderia ir dormir, pois seu aniversário fora concretizado. Pronto, já fiz 2 anos, e já está na hora de eu ir para a cama. Mas onde estão meus pais?
O pai e a mãe custavam a notar o cansaço e o sono da filha, então ela sempre acabava dormindo sobre algum sofá e acordava no outro dia em sua cama.
Todos os aniversários seguintes foram assim, um sempre infinitamente mais belo que o passado, mas infinitamente menos belo que o seguinte. Porém, houve um aniversário em específico que marcou e mudou a vida de Maitê para sempre.
Quando completou 7 anos e chegou o momento tão esperado de assoprar as velas do bolo de chocolate, alguma voz irreconhecível gritou de algum lugar, enquanto ela já estava de pulmões preparados:
- Faça um pedido! Não esqueça de fazer um pedido!
Maitê, ao ouvir isso, sentiu que tudo ao seu redor desaparecera. Não haviam mais convidados, pai e mãe, coleguinhas para morder, personagens escolhidos para a ocasião, música ou docinhos. Havia sobrado apenas ela e o enorme bolo de chocolate exibindo seus de pontos brilhantes cheirando a cera queimada. Fazer um pedido? Foi isso o que realmente ouvira? Sabia que sim, mas o que aquilo significava? Que se no momento em que soprasse as velas mentalizasse algum desejo ele viria a se realizar? Poderia ser apenas uma superstição, iguais as outras que ouvia e das quais já havia tentado algumas, como a de deixar o guarda chuva aberto em casa para fazer com que a mãe desaparecesse. Mas a sua mãe estava ali o tempo todo, e a única vez em que sumiu por mais de algumas horas foi quando teve que viajar para fora do país a negócios. Também já havia quebrado vários espelhos e pelo menos por duas vezes um gato preto passou a sua frente, e nada de mal veio a lhe acontecer. Mas, sem saber bem o porquê, Maitê arrepiou-se ao ouvir “Faça um pedido”.
Aos poucos, foi saindo de seu transe à medida em que os convidados foram ficando impacientes com sua demora e teve que decidir logo o que fazer. Fazer um pedido parecia perigoso, mas deixar de fazê-lo parecia desperdício. E Maitê, como era uma menina nem um pouco covarde, pôs-se a pensar em algo para pedir. Olha para toda aquela gente e aqueles doces, e sem hesitar, fecha os olhos e pede para que, durante todos os outros dias do ano, tenha um bolo de chocolate igualzinho ao que está vendo em sua escrivaninha ao acordar. Soprou as velas com tanta força que chegou a engasgar, achando talvez que a chance de seu pedido se realizar era igualmente proporcional à força com que apagasse as velas.
Tendo sido pela voracidade com que apagou as chamas ou não, o seu desejo foi realizado. Todos os dias, ao abrir os olhos, havia um grande bolo esperando por ela. Maitê, apesar de maravilhada, sentia que aquilo deveria ser um segredo e sempre depois que comia algumas fatias, escondia-o embaixo da cama para tê-lo a mão assim que sentisse fome. Desde o dia depois de seu aniversário, seu café da manhã e lanches permaneceram os mesmos, o que obviamente fez com que Maitê engordasse consideravelmente, a ponto de a mãe ter que levá-la a um médico para ver o que estava acontecendo. O acompanhamento médico de sua alimentação não surtiu efeitos e a menina engordava cada vez mais.
Como o seu aniversário já estava chegando, os pais preocupados com a saúde da filha, decidiram realizar uma festa inovadora, com um menu à base de frutos do mar, alimentos orgânicos e doces lights de frutas.
Maitê ansiava o momento do parabéns para fazer mais um pedido, apesar de não fazer idéia do que pediria. Pensava e repensava em hipóteses para seu pedido. Talvez uma nova boneca? Mas isso seu pai lhe daria no mesmo instante em que pedisse. Fazer com que aquele menino lindo da oitava série se apaixonasse por ela? Não, sabia que logo enjoaria dele. Sem conseguir pensar nada, achou melhor tomar a decisão na hora exata.
E no exato instante em que esse momento chegou, sob os olhares reprovadores daqueles que a olhavam em frente ao bolo, Maitê pediu com veemência: Quero voltar a ser magra como antes.
No outro dia, acordou esbelta e aliviada por não ter mais de ouvir as repressões de sua mãe, ao mesmo tempo em que se preocupava que seu segredo fosse descoberto. Como aceitariam o fato de ela ter ido dormir gorda e ter acordado magra?
Mas, para sua surpresa, ninguém parecia ter notado nenhuma diferença. Era como se as manhãs e as madrugadas comendo fatias e mais fatias de bolo nunca tivessem existido. Inclusive, os bolos de chocolate sobre a sua escrivaninha não voltaram mais a aparecer, o que para ela foi um sinal de que os seus pedidos traziam consequências concretas: Se queria voltar a ser magra como antes, teria que parar de comer como antes. E assim fez, até que mais um ano se passou e lá estava ela novamente em frente ao bolo, tentando pensar em algo para pedir.
Já sem muito ânimo e sem criatividade, Maitê pediu o que talvez, muitas meninas de sua idade pediriam: Eu quero ser adulta.
No dia seguinte, a menina acordou mulher de 30 anos, deitada ao lado de seu marido e com seus dois filhos, um de 3 anos e outro de 9, pulando sobre os travesseiros e pedindo para que a mãe acordasse para levá-los para passear no parque como havia prometido.
Maitê havia se tornado uma advogada de sucesso, casada com um médico cirurgião e morava em uma belíssima mansão, comprada à vista. Levava uma vida tão corrida e atarefada que mesmo nos fins de semana, levava processos para casa e não dava a atenção necessária a seus filhos.
Durante esse ano, poucas coisas mudaram e Maitê, um dia foi pega de surpresa pelos filhos cantando parabéns para ela às 6 horas da manhã. Nem havia se lembrado de que era seu aniversário. O seu marido veio logo atrás com um bolo de chocolate nas mãos e duas velas indicando que fazia 31 anos. Ao olhar as duas velas, ela percebeu que havia dormido durante esses anos todos, pois não sentira o tempo passar. Chorou como se sua vida tivesse se perdido em alguma curva, e ela já não soubesse o caminho de volta. Seu marido, ao ver as lágrimas em seu rosto, tirou as duas velas do bolo e as inverteu:
-Meu bem, parabéns. Não há motivos para chorar. Você sabe que o que realmente conta é a idade que se tem aqui, (apontou para sua cabeça) e aqui, (e apontou para seu coração) não é?
Deu um beijo carinhoso em Maitê, e falou para as crianças:
- Meninos, dêem os parabéns à sua mãe, pois hoje ela faz 13 anos de idade!
As crianças riram com a piada e falaram para a mãe apagar logo as velas, pois elas estavam famintas.
Maitê olhou o bolo, e mal seu marido falou para ela fazer um pedido, as velas já estavam indiferentemente apagadas, tal qual ela a um ano atrás.



Letícia Mueller

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um Pulo No Inferno



Textos de Boteco apresenta: Cara, eu quero ser advogado do diabo!
Onde eu trabalho? Eu trabalho em lugar nenhum! Acho que seria ótimo trabalhar no inferno. É, vocês leram bem: no inferno. Por que? Ora, pergunta retórica se me conhecessem. Mas como não me conhecem vou lhes explicar a minha lógica funcional.
Trabalhar no inferno seria hiper, ultra, mega legal. Lá não existem regras, podemos passar a perna em quem quisermos, usar palavras que ninguém mais entende confundindo todos, causando balburdia, além da possibilidade de culpar os outros por algo que nos caberia executar e ainda por cima sermos canalhas sem nos sentirmos culpados. Quer coisa melhor?
Outra coisa legal é a comida do inferno! Veja que deleite:
O cardápio local é bem “massa”: os petit fours de hipocrisia são servidos no café da manhã, regados a sucos de sacanagens do tipo “culpe o outro pelo seu erro” ou então “se errou, esconda todas as provas”. Ao meio dia o “arrego” é maior: no almoço, como entrada, uma sopa de avareza acompanhada pelo pão da inveja. Costeletas de cordeiro, que nos lembrariam todos a quem ferramos e enganamos, aqueles por cima de quem passamos o tempo todo, acompanhadas de batatas sauté de maldades e regada ao molho de alfinetadas. Para finalizar este banquete, a sobremesa: manjar dos diabos, docemente elaborado com luxúria e maus pensamentos. Para o coffee-break bombocados de egoísmo, beijinhos de traição, brigadeiros de fuxicos com chás de apelidos e comentários maldosos, além do café de defeitos alheios. Para o jantar a gula imperaria, e estando a maldição presente a mesa, não poderia faltar a galinha cabidela da ira, o churrasco da soberba, a salada da preguiça e o vinho da vaidade. Ufa! Acabou.
Ah! Em algum ponto eu mencionei trabalho, bem vejamos: Surpresa! Não existiria horário de trabalho, penduraríamos o paletó na cadeira e iríamos para a sala de reuniões beber champanhe no gargalo e dançar na mesa do chefe.
Bem, deixe-me lembrar: o que me levou a tudo isso mesmo? Ah, sim, claro o papel de advogado do diabo cujas palavras não perderíamos a oportunidade de utilização sem nenhum óbice, causando desarrazoamento e aduzindo as pessoas com denegação. Pugnando em prol da desavença e da maldade com esbulho. Laborando maneiras de causar uma litispendência junto a irmãos, nuncupativando aos quatro ventos as desavenças, preclusando o litisconsorte inocente e desavisado. Oficiando-se junto ao egrégio, causando ao impetrante com sua substancialidade e insurgência o acostamento da coatora dos atos de maldade, instaurados com sucesso e grande fulcro. Gostou? Ser advogado do diabo é “the best”, é fashion, causa status e está com tudo.
Aliás, uma das minhas amigas que é advogada já está lendo a Bíblia para, como “boa” advogada que é, achar brechas na Lei Divina! Assim, poderemos cometer deslizes e dizer o que realmente queremos dizer sem dizer o que realmente queremos!

Texto: Kate Jones
Revisão: Angelica Carvalho

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Impeachman



Conhecemos o superman ...
Mais forte que um trem !
Ele só fica com alma aflita ...
Quando vê a criptonita !

Há o batman , o homem-morcego ...
Um herói que , de nada , tem medo !
Há o speardman , o homem – aranha ...
Que voa pelos prédios com façanha !

Mas estes heróis que tiram o terror ...
São todos vindos do exterior !
Porém há um herói brasileiro ,
Faceiro e muito verdadeiro :

É o impeachman que deseja justiça ...
Esta é a sua única premissa !
Ele tira os maus políticos das cadeiras ...
Sem armas tristes e traiçoeiras !

Sua arma é uma pizza saborosa ,
Gostosa e misteriosa !
Esta pizza com raios duros ...
Matam os bandidos obscuros ...

De indigestão dentro de um banheiro ...
Pois a vida é um grande picadeiro .



Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A dieta do sexo


Vivemos em um mundo que passou por transformações estéticas e conceitos de beleza de tempos e tempos. Hoje, sabemos que mulher com peitão e bundão e barriga definida e o homem com barriga de tanquinho, de belos músculos e peitoral sarado são os ícones de um ser humano belo. E é exatamente por isso, que vemos muitas mulheres hoje totalmente desesperadas, buscando os centros de estéticas, SPA, massagens linfáticas ou mesmo aquelas dietas milagrosas, tudo em nome do novo conceito mundial de beleza. Aquela mulher que não tem os “padrões atuais” pintados por aí, geralmente são as que sofrem ou se sentem infelizes por não serem como acham que deveriam ser.( um grande engano visto que beleza é algo que varia pra cada um). O problema é quando a mulher surta por isso, entra em depressão e faz aquelas dietas malucas, deixando de comer e não aproveitando o melhor da vida. Mas eu digo que há uma solução eficaz para todas aquelas que buscam a dieta perfeita para um corpo saudável e devidamente exercitado: a dieta do sexo! Isso, exatamente isso que você leu. O sexo é a receita perfeita, recomendada por todos médicos e terapeutas, desde que feito com consciência e realmente se sinta prazer. Segundo uma matéria do portal Terra, em uma reação sexual o indivíduo pode queimar até 560 calorias. Também é um exercício que envolve todos os músculos, relaxa a tensão pois comprime os vasos sanguíneos cerebrais e alivia as dores de cabeça (pra quem tem enxaqueca, essa desculpa não vale mais para não se fazer sexo, afinal, ele pode ser a cura deste mal!), além de deixar a pessoa mais disposta para seu dia a dia. Outro fator é que ao fazer sexo, a mulher produz o dobro de quantidade de estrógenos, que é responsável por manter a pele macia e os cabelos brilhosos. O ato também retarda o processo da osteoporose e protege contra hipertensão. O suor que emitimos quase inevitavelmente durante o sexo é saudável também para a pele pois contribui para a limpeza dos poros, elimina possíveis dermatites, erupções e manchas cutâneas. Também ajuda a prevenir as celulites pois ativa a circulação dos fluídos linfáticos. A prática do sexo protege contra os problemas digestivos (é claro, também não me vá comer um leitão a pururuca e depois transar!) e alivia dores de artrite, melhorando também a circulação do sangue. Ou seja, sexo melhora o condicionamento físico, além de trazer muitas vantagens estéticas e mentais. Sim, mentais. Fazer sexo ajuda a curar depressões leves pois faz circular a endorfina, aumentando assim seu humor e euforia, tornando-o um indivíduo mais feliz e garantindo sua auto-estima. É um santo remédio contra a insônia, uma vez que durante o ato sexual ocorrem mudanças bioquímicas que fazem o corpo relaxar e entrar em um estado de sono profundo. O sexo também libera a adrenalina, fazendo com que a pessoa sinta-se mais viva, agitada, mais animada (e não aquela pessoa rancinza, chata e encruada!). Um corpo sexualmente ativo agrega maiores quantidades de feromônios, os hormônios da atração. E não só o sexo em si, mais os beijos também dados com frequencia faz com que melhore a forma,cor e aparência dos lábios. Ou seja, tudo isso mostra que pode ser fácil emagrecer e se sentir melhor corporalmente e mentalmente sem ter que pensar tanto só nas academias e centros de estéticas. Há muitos recursos naturais como o sexo que pode garantir isso tudo em você. Eu já passei a receita, agora só falta ir atrás. É um tratamento que não se paga, pode ser feito a qualquer momento, de várias formas, e o tempo que quiser, além de ser um tipo de remédio que não tem gosto ruim, mas sim dá muito prazer (e seu vício, se associado sempre ao prazer em ambos parceiros, pode ser o melhor vício que existe). Portanto, colegas, nada de se desesperar, busque seus recursos naturais que nossos próprios corpos nos oferecem. A receita tá aí...procure ser médico particular e inicie já seu tratamento, porque esse, minha cara, é mundialmente recomendado!
Fontes: Portal Terra
Paraná Online


Bianca Nascimento

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Rock’n’roll e Champagne


Não há homens no mercado.
Esta é a afirmação mais comum entre mulheres solteiras, acima de 30 anos.
A gente passa a vida inteira idealizando a pessoa ideal, o príncipe encantado, nos relacionamos, nos separamos, e tentamos novamente. E além de continuarmos idealizando a pessoa perfeita, nos tornamos mais exigentes, acrescentando cada vez mais atributos em uma lista praticamente impossível de existir.
Estes dias estava comentando com um amigo meu do Rio de Janeiro, que o homem ideal para mim, seria a mistura de quatro homens que eu conhecia. Ele riu na minha cara e disse: “Sua horrorosa... isso seria praticamente fabricar um homem só prá você.”
Confesso que curti a idéia. Seria divertido.
O problema em idealizar a pessoa perfeita e continuar acrescentando qualidades nesta lista maluca, é que nos esquecemos de olhar para os lados e conhecer pessoas “normais”, que podem nos fazer felizes, ou até, mais felizes ainda do que o tal príncipe encantado. Mas o pior de tudo isso, é que esquecemos de olhar para nós mesmas.
Homens gostam de mulheres que gostam de si mesmas.
Estética é importante sim, e a maneira com a qual nos apresentamos aos outros, também importa. Mas seguidamente ouço amigos comentarem que a guria com quem estavam saindo era linda, tinha corpão, peitão, mas era fútil e chata. Homens também gostam de mulheres divertidas, inteligentes, simpáticas e gentis e não gostam de mulheres pessimistas, que se queixam de todos os programas que fazem, falam mal de outras pessoas e principalmente, nas quais não podem confiar.
Encontrar alguém legal exige pró-atividade, mas não através de uma imagem projetada em outra pessoa, e sim, através de quem somos e o que fazemos.
Gosto de uma frase de Ericson Luna que diz: “só se desilude, quem se ilude.”
E mulheres devem aprender que nem sempre aquele quarentão rico, moreno, alto, forte e gostosão, é a combinação perfeita para completar atributos como inteligência, cultura, gentileza e maturidade.
É perda de tempo ficar sonhando com homens que não podemos ter.
Muitas vezes, aquele baixinho, magrinho, que gosta de rock’n’roll, é o cara maduro, inteligente e gentil, que vai te fazer rir por horas e te dar a atenção que tanto desejas. Sem falar que ele pode te surpreender com uma noite de sexo sensacional, com direito a café da manhã no Plaza e passeio de barco no domingo ensolarado.
Já pensou nisso? Olhe pro lado....


Karime Abrão

domingo, 24 de janeiro de 2010

Evolução Nonsense


Nasci, cresci
Aprendi a andar, aprendi a cair
Anos se passaram e continuei a cair
No ballet, na bicicleta ou no skate
Tombos que causaram feridas expostas
Nada que houvesse me preparado para os anos que vieram
Primeiro, beijo, primeira ficada, primeiro namoro, primeira decepção
E outras vezes estes ciclos se repetiriam
Adolescência e as grandes quedas chegaram
Trazendo cicatrizes invisíveis e mais danosas
Separações, mudanças fazendo parte do cotidiano
Introdução ao mundo dos excessos e brincadeiras com o perigo
Na universidade vieram as novas amizades
Novos e velhos interesses se misturam
Novos namoros e novas loucuras
E com elas as novas brincadeiras e quedas bem mais perigosas
Matérias que não estão na grade de nenhum curso
Pois esta é a evolução da vida.



Daniela M. Braga

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sonhos de um vegetal


Comer para matar a fome,
Comer para suprir as necessidades físicas,
Comer para viver,
Mas nunca como um vegetal.

Coma um vegetal com o sabor da terra, com sabor da vida
Sempre penso sobre isto:
Minha mãe fazia sonho
Do prato de feijão com arroz
Então de sonho se matava a fome
O sabor a gente vivia
E sem fome se ia

A comida corre rápido no estômago
A lei da sobrevivência tem nome: fome
Então mato a fome que a vida me dá
E saboreio o sabor que a vida me dou
A fome é física
O sabor é química
A mistura do ácido tomate e o cheiro verde faz-se a química do molho.

A goiabada do meu sonho se derrete
Do vegetal que gerou goiaba
Da goiaba com o vegetal açúcar
Goiabada do meu sonho
Do sonho que trago em minhas lembranças de criança...

Entupo o meu estômago
Uma garfada cheia
Engulo sem sentir o sabor
Que sabor tem a vida?

A necessidade física se cumpriu
Não tenho fome
A necessidade química
Ficou entalada na garganta
O sabor virou sonho
Do sonho da minha criança
Então comi, como um vegetal

Às vezes é tão simples se pegar vegetando
Deixar tudo entalado
Viver com fome química
Viver como um vegetal

Não quero deixar de viver o sabor
Quero comer além da fome
Quero matar a fome dos meus sonhos
Saborear a goiaba derretida dos meus sonhos
Nunca como um vegetal


Andreia Kaláboa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

In Conveniência


Turco miserável. Desde que entrei aqui com meu mais recente novíssimo marido, ele não pára de nos olhar. Fica ali, sentado atrás do balcão, disfarçando seus olhares furtivos com um jornal aberto. Que absurdo!
Imagine se eu, ex Cristina Batista e a mais nova integrante da família Hauer, portanto Cristina Hauer, mereço ser julgada e olhada dos pés a cabeça como se fosse não apenas uma mera cliente, mas uma ladra. Justamente eu, com uma ótima formação, que casei na melhor igreja e fiz a mais linda festa do ano no melhor salão de Curitiba.
Ah se esse turco soubesse disso, não estaria me olhando como uma vigarista, mas me admirando e até quem sabe me desejando.
Ah se ele soubesse que estou em lua de mel, com quem estou casada, aonde moro e qual é o carro que eu tenho na garagem, não só no Brasil, mas aqui mesmo, em Miami. O Roberto não só tem bom gosto para carros, mas tem dinheiro para bancar seus desejos de consumo. O seu único problema é que às vezes ele não quer esbanjar. Hoje, por exemplo, quis sair a pé do nosso hotel 6 estrelas, enquanto nosso Porsche conversível ficou mofando na garagem só porque o sol brilhava lá fora e essa loja de conveniências fica a apenas duas quadras. Mas hoje ele aprende, mesmo porque aqui eu não volto mais.
Turco miserável, está me medindo dos pés a cabeça. Parece que tudo que eu estou colocando no carrinho ele está anotando mentalmente. De propósito, vou pegar o que há de mais caro aqui só pra ver a sua reação. Aquele vinho ali de 60 dólares, que eu e o Roberto poderíamos tomar todo dia no lanche da tarde, vou colocar no carrinho.
Pego o vinho na prateleira, ergo-o na altura de meus olhos, e quando estou prestes a colocá-lo no carrinho, Roberto tira-o da minha mão e fala:
- Pra que isso meu amor? Sessenta dólares é muito dinheiro. E você não tinha dito que aqui só tomaria Cherry Coke pra não se esquecer do gosto?
Olho para o turco e sinto um leve riso de sarcasmo em seu rosto debochado.
Como ele não entendeu nada do que Roberto falava, agi com inteligência e falei no tom mais amável possível e de um jeito que até uma alienígena entendesse o que eu dizia mesmo sem saber falar nenhuma língua humana.
-Meu amor ,é claro que vou tomar muitas Cherry Cokes. Mas vamos levar esse vinho para hoje a noite – tiro o vinho de suas mãos e coloco-o no carrinho.
Roberto me olha com cara de espanto e mal começa a falar, eu dou uma risada alta e um longo beijo em sua boca, pego em sua mão e continuamos as compras. O turco continua nos olhando e coçando a barba com ar de confuso.
Enquanto eu estou comprando algumas bolachinhas importadas, entram na loja dois rapazes de péssima aparência. Seus Cabelos sujos, barba por fazer, camiseta rasgada e chinelos puídos me dão a certeza de que, finalmente, o foco do meu mais novo inimigo vai se deslocar para o verdadeiro perigo. Chego quase a desejar que eles realmente tentem alguma coisa com a loja, só para que eu os impeça e surpreenda o Turco. Até imaginei ele, com todo aquele tamanho e aquele turbante na cabeça, se ajoelhando, me pedindo perdão e agradecendo a Alá por eu ter aparecido para salvá-lo. Olho para meu mais novo inimigo, imaginando que finalmente ele desviara a sua preocupação, e vejo que estou totalmente enganada. Ele não só não se incomodava com os mal vestidos, mas até gostava de suas presenças. Quando eles foram pagar, conversaram como velhos amigos, e o pior, pareciam que falavam de nós. Os dois maltrapilhos nos olharam e falaram algo em uma língua estranha, provavelmente árabe, e saíram da loja desconfiados.
A minha ira aumentou ainda mais quando vi que Roberto não notava nada do que estava acontecendo e até parecia gostar daquela lojinha e de seu dono.
Eis que do nada, Roberto, extremamente calmo e distraído, comenta sobre a variedade dos produtos e a decoração simpática do lugar. Eu não me contenho e falo aos berros:
- Roberto, você é cego? Essa espelunca aqui não vale nada! Ou você ainda não viu aquele turco FDP que não pára de nos olhar achando que somos líderes de uma gangue assaltante de lojinhas furreba? Enquanto você fica aí, apreciando tudo como um turista indefeso, ele fica sentado atrás do balcão te medindo com os olhos, provavelmente só esperando a polícia chegar.
Roberto, corado, me pega pelos ombros e implora pra eu falar mais baixo.
- Falar mais baixo? A única língua que esse MERDA deve saber falar é a do país dele. Quer ver só? Seu F&$^* DA @$&*, M$@* A DO %A@#LH*, IMBECIL, IDIOTA, RETARDADO.
Roberto espera eu me acalmar e vamos pagar para acabar logo com tudo.
O turco empacota nossas compras com extrema tranquilidade, nos dá o troco, e eu falo, arrogante e com sotaque:
Thank you!
Ao puxarmos a porta para irmos embora, ouvimos:
- De nada!
Primeira lição aprendida durante nossa lua de mel:
Sempre tem um turco que fala português.




Letícia Mueller

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Dito Pelo Não Dito



Textos de Boteco apresenta: Palavras não-ditas, palavras ben-ditas, palavras mal-ditas.

Você pode estar achando estranha esta forma de escrever as palavras acima, mas não eu não estou tendo um problema de separação silábica, o intuito é este mesmo provocar o desconforto e repensar as posições (Hum! Isto me lembra algo! uuhuhuhuhuhuhuhu).


Palavras não-ditas
Quantas coisas desejamos dizer e não dizemos?! Palavras que desejamos proferir e não o fazemos?! Milhares, milhões de palavras não ditas que ficam nas entrelinhas, logo abaixo do contexto, entre parênteses, sob os lençóis, que são muito importantes, eu diria até primordiais, a qualquer relacionamento ou diálogo realmente verdadeiro. Algumas pessoas consideram as palavras não ditas como forma de poupar “frágeis” criaturas de um possível confronto com o real. Mas no fundo, bem fundo é claro, pois isto é não-dito, desejaríamos ter a coragem de dizermos o que realmente pensamos ou sentimos. Podemos até odiar aquela pessoa que tem a coragem de dizer “na lata” o que realmente deseja, mas realmente, o que nós gostaríamos era sermos “cruéis e verdadeiros” iguais a ela. Mas, nos escondemos sob as máscaras da boa convivência e somos o tempo todo hipócritas, não declarados.

Palavras ben-ditas
Dizer palavras bonitas não é suficiente hoje em dia, o importante mesmo é dizer palavras ben-ditas, pois não basta ser, você tem que parecer que é! Palavras difíceis estão na moda e as esdrúxulas também, quando inventadas por personagens não menos esdrúxulos, como por exemplo o Lulês. No mundo de aparências em que vivemos as palavras proferidas de maneira correta, adequada e dentro de um contexto interessante, para não dizer no mínimo puxa-saco, é primordial. Pois o lema é: errado não é puxar o saco, é puxar o saco errado. Palavras bem-ditas podem abrir muitas portas e até transformar a figura que as pronuncia em pessoa de grande eloqüência, versado nas letras! Pois no final o que importa mesmo é parecer que é!

Palavras mal-ditas
O que dizer das palavras mal-ditas se elas são malditas? Como dizer coisas que queremos ou precisamos dizer sem dizê-las de forma rude, imprópria ou ofensiva? As palavras malditas abrem enormes brechas, pra não dizer crateras nos relacionamentos e deixam tudo subentendido, mal explicado, mal resolvido. Transforma amigos em candidatos a inimigos, marca um “X” na sua testa para com o chefe e ainda te dá fama de ser um “bruto” e não ter o mínimo tato. Usando um chavão bem batido: “um palavra mal-dita é igual a uma flecha lançada, você sabe de onde vem, mas não sabe aonde ou em quem vai parar”. Como fugir das palavras malditas? Pois todo mundo vez por outra escorrega e maldiz uma palavra ou pior uma frase completa. Uma palavra mal-dita tem o poder de te derrubar ou levantar, basta saber que lado você deseja enxergar. Palavras malditas podem sim ser benditas, basta dizê-las sinonimamente.

Texto: Kate Jones
Revisão: Angelica Carvalho

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Carolina Aprendeu Tarde Demais Na Escola Da Vida


Carolina era uma menina comportada e nascida numa família muito rígida, que escolheu este nome em homenagem a uma música homônima de Chico Buarque, cujo refrão era: “O tempo passou na janela, só Carolina não viu”. O pai, Pedro, sempre dava o valor à leitura e à Educação. Por isto ele falava para a filha que a riqueza verdadeira só vinha para quem tinha bastante estudo. Por causa desta filosofia, este homem contava para a pequena, antes de dormir, fábulas como: A Cigarra e a Formiga; O Coelho e a Tartaruga, e, o Patinho Feio. Além disto, toda a vez que a criança errava na lição ou tirava nota baixa Pedro batia nela com surras de chinelo e cinta. Quando esta garota entrou na adolescência viu que suas amigas passaram a freqüentar festas e a namorar. Mas seu pai era o único homem da cidade que não deixava a filha fazer estas atividades típicas da juventude. Toda a vez que a menina pedia a ele para ir às baladas, ela era espancada. Assim, sem poder divertir-se a jovem dedicou-se, totalmente, aos estudos e passava até altas horas da madrugada em cima dos livros. Ela notava que suas colegas namoradeiras e festeiras eram muito felizes. Porém sempre pensava:
- Hoje elas se divertem enquanto eu me mato de estudar. Porém, no futuro, terei mais dinheiro do que estas farristas.
Mesmo assim a estudiosa tinha uma ponta de inveja das festeiras. Principalmente de Alexandra, filha de um empresário que nem ligava para a escola e vivia reprovando. Esta farrista sabia aproveitar o melhor da vida. Pois: trocava de namorado sempre que aparecia um novo pretendente, freqüentava festas todos os finais de semana, viajava sem ligar para o calendário estudantil, era fera em todos os esportes e sempre participava de campeonatos.
Certa vez Carolina perguntou à Alexandra:
- Nunca vejo você estudando e nem sequer falar do colégio. Então me responda: Como pretende garantir um futuro, se nem liga para a escola?
A festeira respondeu:
- O único colégio que faço questão de frequentar é a escola da vida. Afinal, é como diz a minha avó: mais vale a prática do que a Gramática.
A estudiosa refletiu:
- O que é esta tal escola da vida? Não consigo ver um excelente futuro sem os estudos.
Vinte anos se passaram e Carolina se decepcionou porque, apesar do seu esforço, conseguiu um emprego simples. Enquanto suas amigas, que na adolescência eram festeiras e namoradeiras, casaram-se com homens ricos, que deram vidas de princesas para elas. Sem falar de Alexandra, que primeiro engravidou de um pagodeiro famoso e casou-se com ele. Mas separou-se, depois de um ano e recebeu muito dinheiro de pensão. Depois Alexandra contraiu matrimônio com um idoso milionário e filho único, que faleceu e deixou tudo para ela.
Assim Carolina aprendeu na escola da vida que o mundo é injusto e que estudo nem sempre traz dinheiro. Hoje ela sofre de depressão, fobia social, toma remédios de caixa preta e faz psicanálise três vezes por semana. Afinal a mulher arrependeu-se de ter estudado demais na juventude. Pois hoje está velha e continua pobre. O pior é que, atualmente, ela sente-se sozinha e infeliz debruçada na janela vendo a vida passar. Tudo porque ela ficou tão impressionada com as fábulas dos livros, que ignorou as lições da escola da vida.





Luciana do Rocio Mallon