sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Precisamos de um Milagre




Tinha alguma coisa esquisita se passando lá no céu.
Todos estavam parados olhando. Era intervalo, e marmanjos e criançinhas se misturavam no enorme pátio do colégio religioso. Cada um, com seu pescoçinho erguido, olhando para as nuvens e tentando decifrar o que acontecia no alto de suas cabeças.
Freiras, professores e professoras, coordenadoras, a tia da cantina, a mocinha da limpeza, o inspetor, o segurança... não tinha um que não mantivesse seus olhos colados no firmamento azul e branco que os cobria.
O que acontecia lá no alto? Ninguém saberia dizer e nem ousava tentar.
Limitavam-se a deixar a boca aberta, o queixo caído e os olhos arregalados, como se aquilo já bastasse como explicação. Não havia o que falar.
O certo seria que todos tivessem saído em disparada no momento em que tudo começou. Afinal, o barulho que se sucedeu à explosão deixaria qualquer pessoa normal com os pelos arrepiados e o coração em disparada, tamanho o desespero.
Mas então, porque aquela calma?
Mesmo depois de um susto em que alguns até chegaram a desmaiar, o povo mantinha-se atento as movimentações aéreas.
A coisa estava realmente esquisita. Do céu azul com nuvens que estamos habituados a ver, restava apenas alguns restolhos. Tudo estava se transformando em um cenário tão absurdo e surreal que talvez não fosse possível nem em filme.
Os espectadores assistiam a tudo de uma maneira um tanto inusitada. Em silêncio absoluto, eles mal se olhavam para checar a opinião do outro e averiguar se alguém ali estava com medo. Geralmente é assim que as pessoas entram em pânico, vendo as outras amedrontadas.
Ouvia-se uns ruídos, mas eles também vinham do céu, assim como qualquer movimentação visível. As coisas estavam tão diferentes que parecia que até aquelas pessoas, ali paradas olhando os acontecimentos, mudavam de alguma maneira.
A cada nova nuance adquirida pelo firmamento, um novo sentimento reinava nos corações dos espectadores, fossem eles idosos como a diretora do colégio, ou imaturos como as criançinhas do pré.
Depois da explosão, a atmosfera ficou negra a ponto de não se conseguir enxergar um palmo à frente do nariz. Ninguém se moveu.
Quando aos poucos as luzes foram novamente aparecendo, o céu, de início azul com poucas nuvens, foi tomado por uma revoada que em um ritmo lento, alterava as cores daquele imenso firmamento.
Um som baixo, quase inaudível, vinha lá do alto. Um zum zum zum tão discreto, que a menor das distrações passaria despercebido.
Ninguém ali procurava entender ou buscar explicações, tão forte a admiração e o encantamento pelo que estava acontecendo. Era como um ato de respeito calar o pensamento, e apenas observar.
Passaram-se várias horas e todos permaneciam ali, calados e estáticos, movendo apenas as pálpebras dos olhos e as narinas. Não havia o menor sinal de cansaço. A senhora com problema de coluna parecia ter esquecido sua doença, e a menina com a perna engessada exibia uma força descomunal. O pátio estava cada vez mais apinhado de gente.
Os pais, avós, irmãos, amigos e responsáveis que foram buscar os seus filhos no colégio surpreenderam-se todos de imediato diante do céu alterado, e como que hipnotizados, juntaram-se ao resto do pessoal e ergueram seus pescoços até onde a natureza permitisse.
Cada vez mais, o céu exibia o que parecia ser um quadro experimental de um artista nervoso, e ao mesmo tempo feliz. Era como se as cores tivessem sido colocadas por um pincel com vida própria, frenético e ansioso, nas mãos de um pintor harmonioso e contente. Um combate entre a arte e o artista, em que ao invés de lutarem um contra o outro, agregavam-se e produziam beleza.
Fora do colégio, já era noite, quase 22h00. Lá dentro, os relógios obedeceram o tempo, e deixaram de funcionar. Mas não fez diferença. Ali, ninguém pensava em horas ou seria capaz de mover seus olhos para outra direção que não fosse o céu.
Quando foi chegando perto da meia-noite, o som que vinha lá do alto foi aumentado lentamente.
Pequenos pontos de luz foram aparecendo em diversos locais do céu, e aos poucos, foi se tornando visível o que afinal estava fazendo com que tudo aquilo estivesse acontecendo.
A música, cada vez mais alta, emocionava a todos. Sinos e instrumentos de cordas harmonizavam com o movimento feito pelas luzes que se acendiam cadenciadamente, como se o maestro do espetáculo fosse uma brisa suave.
Os espectadores, pela primeira vez em horas, começavam a se excitar. A curiosidade fazia o sangue das veias agitar-se e os corações estavam prestes a explodir de ansiedade.
A canção tornou-se reconhecível. Era uma bela melodia natalina, universal, linda. Até o mais dos insensíveis e desumanos se emocionavam com ela.
As crianças buscavam as mãos dos seus pais em meio à multidão. Aquele era um momento para ser compartilhado em família, com seus eternos. Algo inacreditável estava para acontecer, e todos sabiam disso.
A platéia antes estática e calma se movia com impaciência, buscando todos ficarem próximos das pessoas amadas.
A música tocava cada vez mais alto, e por mais que os sons de sinos e violinos fossem incrivelmente reais, a única coisa que se via ao olhar para o céu eram os pontos de luzes e as cores suaves que o enfeitavam.
De repente, os sinos pareceram se agitar e os violinos calaram-se. As luzes do céu se apagaram, e o céu voltou a ficar negro. O badalar era estonteante e soava como se anunciasse a chegada de algo de outro mundo.
Os filhos apertavam as mãos de seus pais, e os pais, apertavam ainda mais as mãos dos seus filhos. Todos os olhares continuavam voltados para o céu.
Até que tudo ficou mudo. Um silêncio arrebatador percorreu o pátio, aumentando ainda mais as expectativas.
Foi então que, subitamente, quando todas as luzes do céu se acenderam, surgiu na imensidão uma das figuras mais populares dos sonhos infantis.
Medindo quase dois metros de altura - e uma barriga tão grande quanto ele próprio - trajando roupas felpudas de um vermelho vivo com as mangas em um branco alvo, um gorro caindo ao lado da cabeça e uma barba branca brilhosa e milenar, o famoso Papai Noel apareceu.
Com seu trenó inteiro enfeitado, e as nove renas – incluindo a do nariz vermelho – o bom velhinho gargalhava ao ver a expressão de espanto de todos. Depois de mostrar seu belo talento em guiar um trenó levado por renas encantadas, ele estacionou seu veículo na imensidão, e com um pulo, saltou para fora, parando bem no meio do pátio do colégio.
Com as mãos sobre a cintura e o peito estufado, Papai Noel mirou cada um dos presentes, exibindo uma expressão de alegria por poder estar ali, pela primeira vez.
As crianças mais novas batiam palmas entusiasmadas, já pensando que presente pedir; os adultos se olhavam entre si, como se hesitassem em acreditar no que seus olhos mostravam; as crianças um pouco mais velhas cutucavam seus irmãos e tiravam sarro, lembrando de quando lhes fora dito que Papai Noel não existia.
Porém, todos em uníssono, compartilhavam do mesmo sentimento de encantamento e magia por estarem próximos a uma figura tão respeitosa, querida e polêmica: o Papai Noel.
O senhor de barbas brancas e roupa vermelha ficou parado assim por algum tempo, apenas observando os que ali estavam presentes, sem falar uma palavra.
Uma menininha Julia explicou para o irmão que o Papai Noel não sabia falar português porque vinha do Pólo Norte.
- Então como ele entende as nossas cartas?
- Os anõezinhos que traduzem para ele seu derdis.
- Mas então porque ele não trouxe um tradutor para falar com a gente?
A menininha calou-se, sem resposta.
Quase todos os adultos esperavam por uma espécie de sermão do bom velhinho, algo criticando o capitalismo e relembrando o espírito natalino. Alguns achavam que ele falaria sobre aquele papo de nunca deixar de ser criança e acreditar em contos de fadas.
Pensando nisso, um jovem estudante confessou pra seu colega:
- Cara, Papai Noel eu meio que sempre acreditei. Mas que ele não me peça pra acreditar em fada dos dentes. É bichisse demais, e outra, não faz sentido nenhum.
- E um velho barbudo e pançudo viajar pelo céu com 9 gazelas faz sentido?
Silêncio.
Uma senhora, também admirada com a aparição, lembrou-se de um ocorrido na sua infância, quando ainda menininha, ela discutia com dois meninos da escola que não acreditavam mais em Papai Noel.
- Ele existe sim! Eu sei, eu já vi!
- Para de ser mentirosa, todo mundo sabe que quem dá presente pra gente é o pai e a mãe.
- Não é seu burro! Eu vou provar!
Ela chamou os dois amiguinhos para irem dormir na sua casa, e juntos, eles ficaram escondidos em baixo da mesa, bem em frente à lareira, esperando o velhinho aparecer.
Lembrando do quanto rezou para o papai do céu fazer o Papai Noel aparecer, e de que foi tudo em vão, a senhora decidiu que, assim que o velho de vermelho começasse a dar o seu discurso, ela tiraria satisfações com ele. Porque afinal, ele não aparecera 50 anos antes?
Algumas famílias se abraçavam emocionadas, olhando bem para aquele homem e pedindo em mente que ele os abençoasse.
Quando, enfim, a expectativa era muito e todos esperavam pelo discurso do Papai Noel, ele respirou fundo, acenou para uma criança, deu um pulo e subiu em seu trenó.
Os sinos foram aos poucos ficando mudos e as luzes que formavam praticamente uma constelação no céu se apagavam lentamente. Sobre o olhar indignado de muitos, triste de outros tantos, e de encantamento da minoria, o Papai Noel foi embora sem dizer uma palavra.
A magia se desfalecera, e o público foi indo embora como se tudo não tivesse passado de uma peça de teatro. Só faltavam pedir o dinheiro de volta.
- Que absurdo esse homem! Que falta de educação! Só porque eu queria dar uma palavrinha com ele.
-É sempre assim né. Esses caras da alta nunca dão atenção para gente como nós.
- Exatamente. Isso que eu só ia pedir pra ele dar um toque no meu chefe pra ele dar uma aumentadinha no meu salário.
A senhorinha agarrou a mão da neta e saiu resmungando:
- Velho desgraçado, na próxima eu te pego seu miserável.
Perto ao portão de saída, outro pai olhou para sua mulher, e ainda meio desnorteado, falou:
- A gente tá é precisando de um milagre. Só desgraça, meu deus do céu.
Enquanto isso, ainda encantados e com os olhos marejados em lágrima pela emoção, a pequena Julia, de mãos dadas com a mãe e o irmão, olhou para ele e disse:
- Mano, acho que Papai Noel sabia falar português sim.
-É, também acho.
E deixaram o pátio, não sem antes acenar para o céu com um sorriso inocente nos lábios.


Leticia Mueller

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


Fora de Órbita



Oi, meu nome é Ana, tenho 17 anos e vou contar a história de um infeliz da minha escola. O Clécio. Clécio é um cara idiota. Idiota mesmo, do tipo tapadão, daqueles que não tem boca pra nada, é mandado pela mãe e freqüentemente puxa assuntos sobre o tempo. De aparência meio exótica poucos atrativos físicos, cheio de manias e que só não era virgem porque passava as noites da semana decorando cantadas pra chegar nas meninas. Um dia, por pena, uma delas resolveu fazer uma caridade. Enfim, um verdadeiro paspalho.
Filho de pais quadrados, tinha uma família devota da Igreja. Estudou em bons colégios, freqüentou aulas de línguas, música e jogou no time de críquete do clube. Até os 13 anos era até que bonito, chamava a atenção pelos olhos cor de jaboticaba, pele branca e jeito tímido. Se concentrava mais nos estudos, gostava de ajudar as pessoas mas não era muito sociável. Na verdade dava a impressão que faltava coordenação pra falar e respirar ao mesmo tempo. Tinha uma paixão: as estrelas. Passava horas olhando pro céu e contando pontos luminosos, estudando a posição dos planetas e tentando descobrir um jeito de ir pra Marte. Não seria má idéia, ele era quase um ET mesmo de tão idiota.
Um dia avistou Marina, uma daquelas meninas que anda com sainha de prega, meia até o joelho, duas maria-chiquinhas e geralmente está com um pirulito enorme nas mãos. Sim, ela existia. Cada olhar seu era como se o tempo andasse lentamente, seu sorriso era como o nascer do sol, seu andar como uma marola carregando a areia para a praia e essa descrição dele sobre ela sempre me dá enjôo. Clécio babava por ela e como tocava violão, não tardou para que a moça, que gostava de música, também percebesse seus talentos.
Em uma tarde, logo após a aula de Filosofia, Clécio estava sentado debaixo de uma árvore, lendo revista (devia ser de mulher pelada), quando deu de cara com as pernas da Marina. Lentamente olhou pra cima com cara de bobo mesmo (essa foi a primeira de uma série) e disse meio gaguejando: “Oi”. A doce, sedutora e insuportável Marina ajoelhou-se lambendo seu grande pirulito e respondeu: “Oi Clécio. O que acha de sair comigo essa noite pra ver as estrelas?” Lógico que o paspalho aceitou, na hora, até parou de babar pra perguntar que horas poderia pega-la. Foram até o observatório local e passaram duas horas falando de estrelas, universo, planetas e afins até Marina pular indecentemente nos braços de Clécio que, como todo idiota, ficou sem saber o que fazer. Restou-lhe beijar a moça que o fez ir até o céu com seus carinhos.
Começaram a namorar e ainda hoje passam a noite observando estrelas. Eu nunca vi nada nesse idiota, inclusive na época em que ele corria atrás de mim dizendo que queria olhar as estrelas comigo. Não sei o que pode ter de tão bom em ficar olhando estrelas e ouvir o quanto você é amada, e nem sei muito menos qual o gosto daqueles pirulitos coloridos. Sei que Clécio é um idiota, idiota mesmo, do tipo tapadão, do tipo que fica orbitando na minha cabeça, do tipo melhor amigo, melhor parceiro, do tipo que eu odeio... do tipo que eu amo.


Angelica Carvalho

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


Marciana e os Extraterrestres



Era uma vez, uma menina chamada Marciana que morava em Curitiba. Na escola, por causa do seu nome, os coleguinhas faziam piadas dizendo que ela era uma extraterrestre.
Até que um belo dia, esta criança perguntou para sua mãe:
- Meu nome é Marciana, pois nasci em Marte?
A mulher respondeu:
- Você se chama Marciana porque é a junção do nome do seu pai, Márcio, com o meu nome que é Ana.
Após escutar esta explicação a menina ligou o rádio e escutou o refrão da seguinte música:
“- Alô, alô, Marciano...
- Aqui quem fala é da Terra!”
Logo a menina refletiu:
- Será que existe vida em outros planetas?
Então, ela ligou a televisão e viu um trecho do seriado Jornada das Estrelas e pensou:
- Eu tenho orelhas pontudas e cabelos cortados iguais ao do Doutor Spok. Mas minha mãe falou que não sou de outro planeta. Bem pelo menos não tenho nenhum dedo verde igual ao do ET do filme que ganhou o Oscar.
Uma vez, a idosa que morava ao lado da sua casa mudou-se e chegou um novo casal naquela residência. No mesmo dia, dona Ana comentou com o seu marido:
- Márcio, um casal estranho morará na casa ao lado.
Então o marido comentou:
- Descobri que a mulher é barriga-verde e o homem é pé-vermelho. Sem falar que o nome do homem é Astar e o da mulher é Andrômeda.
Logo Marciana, assustou-se e pensou:
- Nossa!
- Estes dois devem ser extraterrestres. Se a mulher é barriga-verde talvez ela seja de Marte e o homem pé-vermelho deve ser destes monstros parecidos com o famoso Pé-Grande americano.
A garota sempre espiava os vizinhos e ás vezes até usava binóculos para isto. Depois de meses vigiando o casal, ela refletiu:
- Eu nunca vi a moça de biquíni ou de calça cós-baixo.
- Será que ela tem mesmo a barriga verde?
- O pior é que nunca vi o homem sem sapatos ou tênis.
- Acho que a mulher não usa roupas que aparecem a barriga porque ela deve ser mesmo esverdeada e o homem só usa calçados fechados porque tem, realmente, o pé-vermelho.
Uma semana antes de Marciana completar seis anos de idade, surgiu na TV um seriado chamado Alf, o ETeimoso, que falava de um alienígena que foi adotado por uma família americana. Então Marciana, gritou:
- Que bom se eu ganhasse um boneco do Alf como presente de aniversário!
- Este personagem é interessante, pois parece uma mistura de Tamanduá com cantor brega!
Logo chegou o dia do aniversário de Marciana. Alguns amigos e conhecidos já estavam na festa da garota. Quando de repente a campainha soou. A aniversariante abriu a porta e deu de cara com o casal de vizinhos estranhos. Dona Andrômeda deu uma caixa embrulhada num papel de presente para a menina, que agradeceu, abriu o regalo ali mesmo e exclamou:
- Um boneco do Alf, o Eteimoso!
Assim a garota perguntou:
- Dona Andrômeda, a senhora deve conhecer o Alf de verdade. Já que a senhora veio de outro planeta e tem a barriga verde,né?
Desta maneira a mulher explicou:
- Bem, eu não vim de outro mundo. Eu nasci no estado de Santa Catarina e aqui no Paraná as pessoas costumam chamar os catarinenses de barriga-verde.
- Vou até erguer a blusa para provar que o meu ventre tem a mesma cor que o seu.
Marciana assustou-se e falou:
- O seu Astar é de Santa Catarina também?
- Meu pai disse que ele tem o pé vermelho e não a barriga verde.
Este vizinho, que estava escutando toda a conversa, comentou:
- Eu vim do Norte do Paraná e em Curitiba o povo costuma chamar as pessoas, da região onde morei, de pé-vermelho.
Marciana deu um sorriso. Então o tempo passou, esta criança cresceu e virou fã da série Guerra nas Estrelas. Na sua adolescência ela vivia mandando cartas para Arc, o extraterrestre que tinha uma coluna na revista Veja e na idade adulta virou pesquisadora de Ufologia chegando até a viajar para Varginha com a intenção de entrevistar o extraterrestre que morou lá, mas não conseguiu contato com o alienígena. Mesmo assim até hoje um pensamento paira na cabeça desta jovem:
- Os extraterrestres estão chegando!


Luciana do Rocio Mallon


terça-feira, 7 de dezembro de 2010


Diário de um marciano


Eu vim de um mundo muito diferente daqui. Notei que neste lugar, as pessoas são muito esquisita: elas tem a mesma estrutura de corpo, mas no entanto, tentam ser uma diferentes e melhores que as outras. Alguns fazem uma tal de plástica, para puxarem ainda mais suas faces, cortam um pedaço da barriga ou alguns destes seres colocam líquidos viscosos nas estruturas frontais dos seus troncos chamados seios (tinha medo daquilo estourar!). A maioria deles também tinha pelos no corpo, mas os raspavam de maneiras diferentes ou totalmente.
Percebi que estes seres são muito incomuns: suas espécies eliminam umas as outras. Os humanos denominados racionais eliminam os animais, que são denominados irracionais, na intenção de se manterem vivos. No entanto, possuem uma natureza farta, mas nada quase adquirem dela em sua alimentação, e continuam explorando os animais. Aqueles que não concordam com isso, são considerados chatos ou “fora da casinha”. Mas os humanos pagam para outros humanos matarem estes animais, do contrário, jamais caçariam e morreriam de fome.

Além disso, os humanos também se eliminam entre si mesmos. Eles usam os mais diversos artefatos para isso: faca, revólver, veneno, ou na base da “porrada” como ouvi dizer. Outras formas de morrer é a máquina que inventaram chamada carro que ao mesmo tempo que traz benefícios pela comodidade em se locomover, causa acidentes e mais pessoas morrem neles (prefiro minha nave!). O pior é que mesmo sabendo de tudo isso, eles continuam produzindo e confeccionando tais materiais, sempre argumentando ser uma tecnologia nova ou para um benefício maior que a própria vida deles. Notei que os seres humanos têm diferentes reações: alguns, mesmo quando são traídos, “passados para trás”, humilhados, enganados, exercem uma palavra muito bonita na prática chamada “perdão”. É um ato não exatamente de esquecer, mas de dizer que aceita o erro de outro ser humano e não o culpa por isso, mas este ato não acontece com muita freqüência por aqui. A maioria deles se vinga, quer ser melhor que o outro, mesmo quando são exatamente tão, mas tão iguais.

Também aqui existe algo que as pessoas lutam pela vida toda, muitas delas fazem até o que não gostam para ter isso: dinheiro. Algo inventado por eles mesmo também em nome do benefício, só lhes trazem na verdade malefícios. Isto porque muitos correm atrás dessa pequena nota de papel feia e fedida como verdadeiros cavalos num campo de grama verde. É até lindo de ver, mas no final, eles batem com a cara no tronco da árvore. Tem seres que até passam em cima um do outro por isso e outros que vendem seus próprios corpos. E o mais estranho disso é que aqueles que tem poucas dessas notas, não recebem nada daqueles que tem muitas, que geralmente ganham mais porque sabem cantar, são bonitos, aparecem numa tal de caixinha chamada TV ou por terem aqueles seios cheios do líquido viscoso e aparecerem numa tal de “Playboy” e por assim vai.

Há também os representantes destes seres. Ele dizem que vão acabar com os problemas de todos eles, mas criam novos a cada dia. Mas eles são os únicos que mesmo lá em cima no poder, não conseguem enxergar tais problemas e pensar em estratégias eficientes de solução para eles. Isto porque eles adoram ficar sentados horas e horas discutindo projetos de leis que no fim não servem para nada. Eu fiquei muito assustado com estes seres daqui. Os seres precisam de água e natureza para sobreviver, e são as coisas que mais destroem, precisam de amor e perdão e são as coisas que menos exercem. E são os únicos do universo que possuem uma arma que pode destruir toda a sua espécie de uma vez só. São os únicos que não acreditam em extraterrestre mesmo acreditando em Deus, que é um extraterrestre, pois também vive fora da Terra. E os que lutam contra tudo isso, são considerados loucos e lunáticos, simplesmente porque lutam pelo bem da própria espécie.

Talvez eles sejam da lua mesmo, lá é um lugar muito melhor que esse. Ouvi dizer que eles têm medo de nós, mas deviam ter medo de si mesmos. As espécies podem ser diferentes, mas o amor e respeito deveriam ser iguais para todas. Eu jamais quero voltar para esse lugar. Dizem que a Terra é um paraíso, mas não recomendo para ninguém. Daqui um tempo ela mudará e quem sabe será um lugar melhor, mas por enquanto, estou bem aqui, no sossego do meu lar onde não existe morte, dor e sofrimento. Assinado: Marciano.

Bianca Nascimento

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tema da Semana: Alô, alô marciano


Terra Brasil chamando





“Alô alô marciano, aqui quem fala é da terra, pra variar estamos em guerra”, quando a eterna Elis Regina cantava estes versos, mal podia imaginar que em pleno século XXI as coisas assim continuariam, nem ela e nem mesmo a memorável Rita Lee.
Passamos por duas guerras mundiais, diversas guerras civis e territoriais, sempre assistimos tudo pelo noticiário e pelos livros de história, até que, como o destino não poderia falhar à nossa terrinha, estamos nós, em guerra interna, não digo uma guerra civil, mas o que é isso que acontece no Rio de Janeiro? O que foi a invasão do exército em um território de todos?
Pera ai, que história foi essa de os traficantes dominarem? Até onde sei quem “manda” num Estado são seus representando eleitos direta ou indiretamente, agora está assim, os detentores do poder querem retomar o poder que sempre foi deles e até então estava sob vistas grossas. Confesso que até agora não entendi direito qual é a estratégia disso tudo, sim, porque eu acho ótima todas aquelas pessoas do morro resgatarem sua dignidade e liberdade, mas vamos combinar que está tudo muito fantasioso e lúdico, afinal em um território com mais de trezentos mil habitantes, centenas de traficantes, a apreensão de trezentos e poucos quilos de cocaína e poucas dezenas de traficantes é uma resposta bastante baixa, não entra em minha cabeça onde foram parar os manda-chuvas do tráfico juntamente com suas matérias-primas, afinal, o exército sempre foi a força máxima de um Estado (foi assim que aprendi na escola), e os resultados até então são poucos.
Bom, pelo menos a iniciativa foi tomada, antes que os próprios marcianos resolvessem escutar nosso apelo de trinta anos. Pior se continuasse aquela situação e aquele universo paralelo, com ou sem teatro, alguma coisa, ainda bem, já foi feita, e espero mesmo que a continuidade seja dada, não para garantir a segurança dos gringos na Copa do Mundo, mas a segurança do nosso povo, do Rio, que faz parte do Brasil que é a terra de todos nós, nosso cartão postal e para que possamos cantarolar Gil: “o Rio de Janeiro continua lindo”.

Fernanda Bugai

sábado, 4 de dezembro de 2010


Releitura Divina




Fiz um talho no dedo ao calçar o sapato,
Abracei 4 pessoas sem olhar nos olhos,
Respondi de forma automática a uma pergunta comprometedora.
Então, percebi que era ansiedade.

Sonhei acordada por horas a fio
Com um encontro que tanto quero,
O amor que idealizo,
Um amigo que está distante.
Então, percebi que era carência.

Sofri à toa com um fracasso inexistente,
Com o cabelo desajeitado,
Com o jeans apertado.
Então, percebi que era só vaidade.

Comi até ficar satisfeita,
Falei só enquanto era ouvida,
Insisti até onde valia à pena,
Consenti quando pareceu sensato.
Então, percebi que era equilíbrio.

Almejei ter um carro hoje,
Um amor amanhã,
E a sabedoria no mês que vem.
Então, percebi que não era a hora.

Aceitei sem dor uma mudança de agenda,
Uma alteração nos planos,
A concepção de uma nova idéia.
Então, percebi que era luz.

Tracei novas metas,
Abandonei velhos desejos,
Olhei com outros olhos,
Me vi rodeada de respostas,
Senti com um novo coração.
Foi então que descobri: era Deus.



Sabrina Lima Moreira

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um ode a máquina de Lavar Louças e outros Apetrechos




Aos 10 anos, eu só lavava louça se queria, e quando era por desejo próprio, eu adorava pegar numa panela e esfregá-la até ficar tinindo. Sempre achei lindo esse negócio de ver a sujeira saindo e indo embora ralo abaixo com um simples esfregão e um detergente.
Varrer e passar pano no chão, nossa, era uma loucura. Como toda criança que se preze, eu tinha meu kit completo de limpeza, com vassoura, rodinho, pazinha, escova, balde, e nem lembro mais o que tudo. Eu sei que era completíssimo, digno de uma verdadeira camareira de hotel de luxo. Engraçado que eu gostava de limpar a casa só quando minha mãe também se empenhava com essa tarefa. Não tínhamos empregada por causa de péssimas experiências passadas, como roubos de cueca e louça importada.
Eu olhava para ela, minha mãe inspiradora, e memorizava os movimentos com memória cinematográfica, tentando reproduzir com minhas mãos infantis a mesma segurança e eficiência na hora de juntar toda a sujeira, colocar na pazinha e jogar no saco de lixo. Minha mãe devia achar uma graça, porque só ficava me olhando com ar de que está achando a maior fofura. Ela nunca me corrigiu, logo, eu sempre varria daquele meu jeito, espalhando poeira pra tudo que é lado e ainda com a proeza de conseguir uma insuportável dor nas costas em menos de cinco minutos.
Não sei até hoje que tipo de ficção eu e minhas amiguinhas tínhamos com essas brincadeiras de ser dona-de-casa. Que menina nunca sonhou em ter uma daquelas casinhas, com cozinha de mentira, uma caminha pras bonecas, uma mesinha pra tomar chá? E quem teve uma dessas deve lembrar que, apesar da bagunça, tudo ali dentro era cuidado e limpo de acordo com toda a capacidade e esforço que poderia se exigir de uma menina com menos de oito anos.
Daí a gente cresce, deixa de ser criança, doa todos esses brinquedos educativos, e, perde o apreço por ser dona-de-casa. Conheço muita gente que ama lavar louça, limpar a casa, arrumar o armário, desinfetar banheiro (Ok, exagerei). Mas e daí? Como é que se explica tudo isso?
Porque algumas mulheres amam cuidar da casa, e outras, como eu, tem plena certeza de que deveriam ter nascido homem pra simplesmente ficar deitada tomando cerveja e comendo amendoins?
Alguns acreditam, e pode até ser verdade, que é simplesmente o dom de cada um. Afinal, sem preconceito, quando você vê a sua diarista limpando a sua casa não dá uma sensação de alívio, de que seus móveis, seu chão e sua cozinha estão em ótimas mãos? Não dá a impressão de que aquela moça tem o dom pra aquilo?
Acho isso ótimo, e confesso que tenho um pouco de inveja. Na verdade, eu tenho é medo de não prestar pra nada. A única coisa prendada que sei fazer bem é arrumar a cama e preparar umas sobremesas. Mas, como uma casa não se resume somente a uma cama arrumada e, muito menos não se vive somente de doces e porcarias, acho que estou condenada a aprender, e logo, as magias e encantos de ser uma dona-de-casa.
Confesso que também não contribuo muito. Comprei há pouco mais de um mês atrás um conjunto de kit de limpeza (de novo) parecido com aquele que eu brincava. A única diferença é o tamanho, até porque ele é todo estampado com Poá rosa bebê. Uma graça. Brinquei com ele umas duas vezes, e já perdi o encanto. Minha mãe não estava lá pra eu imitá-la.
Toda minha louça do diário é estampada com bolinhas, mais pra eu me conformar na hora de lavá-la do que por beleza ou decoração. Mas também não adiantou. Há uns dias atrás, ganhei uma máquina de lavar louça de tanto reclamar pelos quatro cantos do mundo o quanto eu odiava lavar pratos e talheres (sim, copo e xícara até que vai, não me pergunte o porquê).
Sobre meus panos de prato, menina, são um luxo. Tenho até dó de usá-los. Assim, já justifico o fato de eu não secar a louça com o medo de estragar aqueles bordados, rendas e estampas maravilhosos. E minha unha, claro.
Para quem está lendo tudo isso, e está sentindo um ódio imenso pela minha madamisse, eu tenho só uma verdade que me desculpa de todo o pecado: a culpa não é minha, e sim da minha educação que me privou de conhecer os deleites de ser uma verdadeira dona de casa mirim. Minha mãe até hoje fala com veemência que me criou para a cultura, e não para a mão de obra. Ok, ok.
Peço minhas sinceras desculpas àqueles que se frustrarem ao irem minha casa, mas cruzemos os dedos. Talvez vocês tenham a sorte de eu já ter me convertido no que eu projeto ser, ou talvez eu ainda esteja com mais um super-fashion-desentupidor-de-vaso-sanitário-com-suporte-de-bolinhas-e-um-cabo-em-forma-de-cabeça-loira-de-corte-Chanel, ligando para minha mãe e tentando representar com movimentos às explicações em “Alien” que ela me dita, passo-a-passo, pausadamente pra eu não perder nada e alagar o apartamento.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


EFEITO DOMINÓ




“Se tal ocorrência foi com efeito real, e até mereceu atenção do cronista, ela é indigna da História, contrária à intenção moral da pintura, e por consequência imerecedoura da contemplação dos pósteros”. Tal frase proferida pelo pintor Pedro Américo, autor da obra que celebra o Grito do Ipiranga, foi uma referência a narrativa histórica de Dom Pedro I em sua jornada, bem menos imponente que a retratada no quadro, rumo ao corte de laços entre Brasil e Portugal. Para o pintor, a versão era mais importante que a realidade dura, em cima do lombo de uma mula, e frágil em decorrência de possíveis problemas intestinais do Príncipe.
Lendo o livro de Laurentino Gomes, 1822, estou aprendendo uma história que não me foi mostrada na minha época de escola, mas que aparece todos os dias na minha vida, nos tombos históricos do país. Em suas palavras, “Começava ali a construção de um país mais imaginário do que real”. E foi mesmo, né. Aqui mais se falou do que se fez, mais se reclamou do que se modificou. Esse país rico em natureza, pobre em espécie, forte em idéias, debilitado em ações. Ong’s, projetos sociais, campanhas, voluntariado e o problema está sempre lá e parece cada vez maior.
Até que um dia, uns malucos resolveram descer o morro e “tacar fogo” no Rio de Janeiro, estopim para uma ação conjunta entre polícia, exército, comunidade, poder público. E foi ótimo ver bandido subindo o morro tentando se safar e levando chumbo. E sabe por que foi ótimo? Porque aquela certa sensação de poder, que até ontem tava na mão do tráfico, hoje começa a ser concedido ao povo livre. Pode ser uma visão romântica, mas pela primeira vez tive a certeza de que se alguém quiser, a coisa acontece. Longe de querer florear o quadro, como fez nosso amigo Pedro Américo, mas penso que se o primeiro passo demorou a ser dado, haverá compensação nos próximos. Esperamos que a atitude do Governador Sérgio Cabral em solicitar que o exército permaneça até julho de 2011 para a possível implementação do patrulhamento da Polícia Pacificadora seja para tornar real que o Rio tenha um pouco mais de PAZ.
Até hoje imaginamos um mundo melhor, como na letra de John Lennon, em que as pessoas teriam mais amor umas pelas outras. Acredito que não é mais tempo de ficar no idealismo, que partir pra prática é o que nos tornará melhores mesmo. Chega de ficar pirando em idéias coloridas, vamos plantar flores. Pare de mandar seu dinheiro pelo correio, compre um livro e vá ler uma história pra uma criança internada. Deixe de colar adesivos de combustível natural no seu carro e compre uma bike. Uma coisa puxa a outra, um hábito muda o habitat, como diz minha filha.
Está claro que a união das forças em prol de uma política única acaba com a falsa dicotomia entre a esfera federal e estadual. Meu total apoio para que as Cidades Maravilhosas, Cidades Ecológicas, Cidades Modelo, Cidades Tecnológicas, Cidades do Rock, enfim, mereçam seus títulos pelo melhor que puderem proporcionar por um planeta mais decente, humano e habitável, realmente.

Angelica Carvalho

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


O Natal e os Vários Tipos de Mulheres




O Natal mexe com todo mundo...

De um jeito místico e profundo!

O Natal mexe com as criaturas...

Normais e repletas de loucuras!

Mas com o sexo feminino...

O Natal mexe sempre mais...

Com a força do destino...

Trazendo e tirando paz!

Para a mulher consumidora e consumista...

Comprar sempre é uma divertida festa...

No Natal, de presentes, ela faz uma lista...

Enorme, exagerada e nada modesta!


Ela faz uma via-sacra no shopping e nas feiras...

Em busca dos melhores e inesquecíveis presentes...

Na noite de Natal as consumistas são faceiras...

Atrás de olhares de inveja e nada inocentes!



Já, para a mulher cheia de fé e religiosa...

O Natal é momento de reflexão e prece...

Onde, a cada noite, a estrela maravilhosa...

Neste mundo chamado de Terra desce...


Para anunciar o nascimento de Jesus,

Que enche o universo de luz!

Já, para a mulher estressada o Natal...

Causa uma angústia fenomenal...

Pois, nesta época, ela trabalha a mais...

Para terminar as atividades e ter paz!

Mas sempre aparece um serviço de última hora,

Que não deixa a afobação ir embora!


Assim no Natal ela fica doente...

Em vez de permanecer contente!

Mas o importante é que no Natal...

Acontece uma magia sobrenatural...


Todas as mulheres voltam a ser crianças...

Montando árvores tão brilhantes e belas...

Assim as mulheres vestem-se com tranças...

Para colocar as meias de seda nas janelas.



Luciana do Rocio Mallon


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sonhos sonhados e realizados




Ultimamente ando pensando em uma coisa, que posso dizer que rege a vida de todos nós: sonhos. Por que temos sonhos?Por que queremos realizar sonhos? Por que achamos que realizá-los é o significado de felicidade?
Sempre ouvi dizer que o segredo da felicidade é ser feliz com o que se tem como se é e diariamente com as pequenas coisas da vida. Mas se é tão simples assim, porque diacho as pessoas complicam a felicidade e colocam até essa palavra como uma meta de vida?Sim, a meta de todos parece que é ser feliz. O sonho de todos é ser feliz. Mas simplesmente a maioria não consegue ser.
Complicamos os sonhos e os colocamos num pedestal porque nunca estamos satisfeitos com aquilo que temos e somos. Mas tudo bem, isto vem de longa data, por que mudaríamos isso agora, né? Por que ser feliz hoje?Para que aceitar a aparência?Para que guardar dinheiro para aquela viagem, ela nunca vai acontecer né?E para que ir naquele restaurante tão bonito se eu posso fazer comida em casa?Ou porque então fazer aquele curso se é difícil mesmo entrar no ramo?Melhor assim, né?
É é e é. A vida simplesmente é e parece que a gente é assim, acostumado com o “é” e pronto. O “será” e o “deveria” são audaciosos demais. Mas a diferente dos felizes para aqueles que tentam ser está bem aí: os que tentam simplesmente se acostumam a ser assim, eternos buscadores de sonhos, mas os felizes, simplesmente SÃO e não importa qualquer outra palavra.

Bianca Nascimento

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Semana de Tema Livre


Fruto do meio





Karolyne nasceu numa típica realidade brasileira, a mãe viciada em drogas prostituía-se, e não para garantir o sustento dos filhos, mas seu vicio, o sustento era conseqüência. Irmã de mais cinco, cresceu vendo a mãe receber dois, três, quatro ou cinco homens por dia no único cômodo da casa, viu cenas mais do que inapropriadas para qualquer pessoa. Aos oito anos foi vendida para o dono da mercearia da esquina, sua virgindade por três maços de cigarro e alguns trocados, depois vieram os açougueiros, o feirante, o tio da pracinha e claro, os traficantes da vila, Karolyne jamais soube porque fazia aquilo, não era ela a drogada, não ela era quem recebia algum dinheiro, mas foi aos oito anos que descobriu que a vida não é tão legal quanto nas novelas da rede globo.
Quando ela tinha onze anos, seu corpo e alma já estavam, tal qual a mãe, consumidos pelo crack, as senhoras da assistência social resolveram mudar sua vida, chamaram pelo conselho tutelar, que tirou Karolyne daquela vida, e a menina-mulher de onze anos foi para uma casa lar, dessas que os menores ficam abrigados quando seus pais não possuem condições de criá-los. Na casa-lar, teve que retornar a escola, terceira série, conviver com meninas de nove ou dez anos que achavam que a barbie era a sensação do momento, enquanto Karolyne já conhecia as facetas do lobo-mau, freqüentara a missa aos sábados, bordava e lia contos infantis durante as tardes, tudo até a primeira crise de abstinência, onde Karolyne sem titubear tomou outro rumo na saída da escola, sabia bem como chegar até a praça da cidade sabia também como fazer para conseguir cinco ou dez reais por uma pedra, ela sabia ainda, que aqueles homens com cara de inocentes sentados nos bancos esperavam apenas um gesto daquela garotinha.
Quando foi capturada novamente pelo conselho, numa vala qualquer, em puro osso e corroída pelas drogas, karolyne foi novamente submetida a ressocialização, banho, higiene, escola, curso e literatura, também descobriram que já não estava sozinha, havia engravidado de alguém que jamais saberia quem, Karolyne foi encaminhada ao reformatório da capital, de onde fugiu tantas outras vezes, engravidou, abortou e retornou, até completar seus dezoito anos e definitivamente o estado deixar de ser o responsável por ela.
Talvez se Karolyne nascesse em outras circunstâncias, teria estudado filosofia, os grandes pensadores e até simpatizasse com Thomas More, e seus ideais de que o homem será bom quando submetidos à lei e costumes, mas mesmo sem nunca ouvir falar em filosofia, de uma maneira real e cruel, Karolyne acreditou no que disseram Maquiavel e Marx, o homem é mau por natureza e fruto do meio em que vive.



Fernanda Bugai

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


Super poderes – um convite para a prática!


Estava “fazendo hora” na recepção do hotel, já havia feito o check out e esperava o traslado, aborrecida lamentando mentalmente que não poderia trazer uma lembrança daquele local, que embora simplório era simpático, pois era meu último dia ali, e na correria dos compromissos o lazer havia sido relegado a segundo plano, quando aquela pequena lojinha, do outro lado da rua, saltou-me literalmente aos olhos.

Digo literalmente, porque um brilho de cristal atravessou “marotamente” a recepção e começou a brincar no meu rosto incomodando-me. Uma hora fugia, outra brilhava intensamente cegando a visão. Incomodada, resolvi mudar de lugar, sentando-me em outro sofá, daqueles que você se deixa cair e não quer levantar. Mas o brilho achou-me novamente, e por simples pirraça, agora projetava pequenos desenhos, ora de flores, ora de estrelas, as vezes de luas.
Intrigada com aquela ofuscante demonstração, olhei a volta para ver se mais alguém havia notado ou sido agraciado com aquele “show de luzes”, e todos pareciam que nem sequer haviam percebido qualquer coisa. Olhei o recepcionista, sendo muito solícito com uma senhora idosa, a arrumadeira passando pela recepção atarefada com algum afazer, o porteiro dando boas vindas, alguns hospedes lendo o jornal, e nada.

E o brilho, que havia acompanhado o meu olhar de indagação, voltou intenso em minha direção, pois em nenhum minuto sequer havia se desviado, apenas aguardava a minha constatação de que eu era o seu alvo. Encareio. Nos olhamos intensamente, eu inebriada por suas cores e formas, ele parecendo fascinado pelo meu olhar. Levantei-me automaticamente, como quem é puxado por um imã. Atravessei a recepção, cruzei a rua, e parei diante da vitrine. Tudo sem perceber ou titubear. Ainda fascinada pelo brilho que me conduzia, abri a porta da lojinha, que emitiu um delicioso som anunciando a minha chegada e entrei.

A senhora sentada a um canto, olhava-me com um sorriso nos lábios e um ar de sabedoria, apenas observava enquanto eu caminhava em direção ao brilho. Toquei a luz como quem toca algo muito frágil e delicado, senti um calor intenso tomar conta de mim, fechei os olhos e perdi-me. Dentro de mim havia um redemoinho de sentimentos, emoções, confusões, certezas, dúvidas, alegrias, prazeres e finalmente a paz. Quando finalmente abri os olhos, pude sentir que eu já não era mais a mesma que entrou por aquela porta, olhei ao redor e percebi novas cores, aspirei novo ar, senti calafrios e calor ao mesmo tempo, flutuei ao redor de mim e voltei ao chão.


Estendi meu olhar, agora sereno e senhor de si, em direção a velha senhora e ela apenas balançou a cabeça em sinal de “agora está feito”, “não existe garantia de sucesso”, “não há como se libertar”, os super poderes são seus para o bem ou para o mal.
E agora, com os olhos de nova sabedoria e surpresa constatação percebi que na realidade, eu tinha os super poderes o tempo todo.
Eu podia construir um castelo com um simples toque.
Eu podia confortar com uma doce palavra.
Eu podia retribuir um gesto de amor com outro.
Mas também podia destruir com um gesto imperdoável, uma ferina palavra, uma ação cruel.
E a velha senhora mais uma vez olhou-me, murmurando agora: - Todos nós temos super poderes para o bem ou para o mal, depende só de você.



Kate Jones

quinta-feira, 25 de novembro de 2010


Que super poder você gostaria de ter?





Não adianta! Desde os primórdios dos tempos, o que você gostaria mesmo era de ter um super poder naquela horinha básica em que, por exemplo, você tem que terminar as tarefas de casa, estudar pra prova, jogar videogame, ir pro teclado, pro inglês, pra natação e ainda comer tudo que ta no prato sem reclamar (inclusive os brócolis e o espinafre).

Você se multiplicaria em dez? Ficaria invisível (e essa seria uma boa alternativa pro brócolis)? Mentalmente moveria objetos, entraria na mente do seu professor pra descobrir as questões da prova? Ou, num ato impensado de desespero clonaria Silvio Santos e “mah, oi!” quebraria um banco e ainda faria piada com isso?

Enfim, super poderes são o sonho de dez entre dez estrelas que tentam sempre achar uma solução pro que, inevitavelmente, não tem solução senão o trabalho, ou a dedicação ou a árdua perseguição implacável por um sonho. Mas, falando em implacável, palavra esta que combina muito com heróis, pesquisando na bendita Internet (que é uma super poderosa fonte de saber e enlouquecer) achei uns super heróis, separados por classes, vejam que bom, que podem auxiliar na escolha do seu super poder favorito. Ei-las:

Para quem aprecia habilidades resultadas de Evolução Induzida ou seleção natural em humanos, como força, velocidade e cura acelerada, para poderes físicos fenomenais, como telepatia e telecinese, causados por um defeito genético de nascença, que aparece mais tarde na vida como poderes sobrenaturais, mais exposição a químicos ou radiação também foi conhecida por causar mutações sobre-humanas recomendamos O Coisa, Robocop, A Feiticeira Escarlate, Nathan Petrelli, Wolverine ou qualquer de seus amigos X-Men entre outors. Você também pode se instpirar na série Supernatural (que de natural não tem nada) ou Heroes.

Temos também a classe da Hereditariedade ou poderes de Magia, os mesmos se destacam como consequência de poderes ativados como algum encantamento ou experiência mítica ou fantástica. Estão lá o Harry Potter, Capitão Marvel, Shang Tsung ou a Dilma Roussef que fez um feitiço e virou Presidente do Brasil. Bom né? Na classe Infecção ou Contaminação, aparecem o Hulk, Monstro do Pântano, Nêmesis e por aí afora, que surgiram de uma fonte externa, às vezes contra a vontade do seu usuário, através da infecção por algum organismo alienígena ou não, contaminação radioativa, bacterológica, etc. Acho que o Senador Eduardo Suplicy está nesta, mas é só uma suspeita.

Enfim, muitos são os “superpoderosos” que podemos identificar, classificar, mentalizar e tentar entender. O lance que mais chama a atenção é mesmo o fato de que, SEMPRE, alguém no final morre, alguém fica curado ou alguém do “mal” renasce. Ah, para os mais antigos, que curtem uma “marreta biônica” nada melhor que Chapolin Colorado, aquele estranho besouro vermelho que não se identifica de onde vem e pra onde vai mas que aparece nas ocasiões mais variadas com um “Não contavam com minha astúcia”. Eu jogaria na classe dos invertebrados e apenas isso, mas há quem goste do bichinho.

E aí? Que super poder você gostaria de ter? Eu produzo leite, sangro e não morro, consigo fazer mais de três coisas ao mesmo tempo, ensino meus filhos, mantenho a casa, dirijo bem, escrevo, viajo, trabalho, faço as unhas sozinha, carrego compras pesadíssimas de mercado (a pé), corro na ciclovia, sei ser tempestiva, defendo as crias, tenho tempo pra amar, ser feliz, ajudar... Penso que ser a Chitara dos Thundercats com sua super velocidade muito me atrai.



Angélica Carvalho

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Graciosa e Seus Superpoderes



Em 1963, nasceu em Curitiba num bairro de descendentes de italianos chamado Santa Felicidade, uma menina que foi batizada de Graciosa. A avó desta garota, dona Filipa, era de uma seita secreta chamada Stregaria. Já no primeiro dia do nascimento desta sua primeira neta, Filipa fez um ritual maravilhoso, na Lua Cheia, para garantir superpoderes à menina. No meio desta sessão, a idosa derramou pétalas de rosas brancas no corpo da criança. De repente, um raio de luar iluminou o corpo inteiro do bebê e a anciã exclamou:
- Que a natureza proteja o seu corpo e alma!
- Que você tenha poderes mágicos!
- Com certeza, você terá superpoderes !
Quando Graciosa completou três anos de idade, Filipa resolveu levar a pequena para os grupos de orações. Sempre quando uma pessoa ficava doente, esta garota rezava e a criatura melhorava. Desta maneira, muitas pessoas passaram a acreditar que Graciosa fazia milagres e começaram a freqüentar a casa, de sua família, para pedir orações. Porém quando Graciosa completou doze anos de idade, ela passou a ser hostilizada na escola, pois esta garota passou a ser chamada de santa do pau oco pelos seus colegas. Por causa disto a menina entrou em depressão e Filipa resolveu mandar a neta morar com sua tia Laura, no centro de Curitiba. Na nova escola ninguém sabia dos poderes mágicos da adolescente. Lá ela prometeu que nunca mais usaria seus supostos dons sobrenaturais e ela cresceu sem problemas, porém sempre estudando para ter boas notas. Até que chegaram as vésperas do vestibular. Então a jovem pensou:
- Estudei bastante, mas ainda continuo insegura.
- Será que ainda tenho os superpoderes de quando eu era criança?
- Prometi que nunca mais usaria estas mágicas sobrenaturais.
- Mas acho que posso usar por uma boa causa: o vestibular.
Então a adolescente foi até uma praça deserta, fez um círculo, desenhou uma estrela, colocou velas coloridas nas pontas e várias apostilas de cursinho pré-vestibular no meio disto tudo. Após isto, ela fez uma oração com muita fé.
Desta maneira, Graciosa passou no vestibular e na faculdade casou-se com um colega de turma. Depois foi morar num bairro chamado Boqueirão e abriu um escritório de Contabilidade.
Alguns anos mais tarde, chegou a hora dos seus filhos irem para a escola. Logo, Graciosa, pensou:
- Neste mundo violento, como mandar as crianças para a escola sem ter medo?
- Ah, se eu tivesse superpoderes...
- Mas pensando bem, um dia eu tive dons mágicos. Afinal, na minha primeira infância, um bairro inteiro achava que eu podia fazer milagres.
- Será que eu ainda tenho estas habilidades?
- Eu usei uma pitada de magia para passar no vestibular. Mas, a aprovação pode ter sido o resultado do estudo e não dos meus poderes sobrenaturais.
- Se ainda tiver esta magia, quero que os anjos me escutem e mostrem a solução para que meus filhos possam estudar com segurança!
De repente, o corpo de Graciosa estremeceu-se e ela exclamou:
- Eureka!
- Veio uma idéia em minha cabeça, neste instante:
- Matricularei meus filhos numa escola em que existam câmeras, nas salas de aula e dependências, vinte e quatro horas na Internet à disposição dos pais.
Assim a mulher pesquisou uma escola destas na Rede Mundial de Computadores e achou uma pertinho da sua casa.
No dia seguinte, esta moça descobriu que a sua secretária, que era casada com um homem bem mais velho, tinha fugido com o “office-boy” da firma e que por isto ela não tinha mais subordinados. Deste jeito ela exclamou:
- Estou sem os mais importantes empregados!
- Agora o trabalho vai se acumular. Pois terei que fazer o serviço externo também!
- Se eu ainda tiver superpoderes, que as forças do universo me ajudem com todo este trabalho!
Desta maneira Graciosa sentiu uma grande quantidade de energia e conseguiu fazer todo o serviço de uma forma rápida e bem feita.
Um certo dia dona Margareth, uma cliente, chegou no escritório de Graciosa com os cabelos todos desalinhados e ressecados. Desta forma a freguesa comentou:
- Meu sonho é ter um cabeleireiro com superpoderes!
Graciosa comentou:
- Eu sempre tive habilidades em lidar com as madeixas das minhas amigas. Tenho xampu, cremes e tesouras no meu toalete, se a senhora desejar, tentarei domar os seus cachos.
Margareth concordou e a contadora deixou os cabelos da freguesa brilhantes e ajeitados como um passe de mágica. Assim todas as mulheres do bairro passaram a contratar os serviços contábeis de Graciosa, pois sempre levavam um tratamento gratuito de cabelo de brinde.
Algum tempo se passou e chegou novembro. Assim, Graciosa abriu a janela de noite, viu uma estrela cadente e refletiu:
- Eu gostaria de ter superpoderes de verdade para me vestir de Mamãe-Noel , pegar uma carruagem com renas voadoras e distribuir brinquedos para as crianças carentes da cidade.
- Pelo menos a metade disto eu posso fazer: farei um uniforme de Mamãe-Noel e comprarei brinquedos numa loja popular para distribuir aos pobres no Natal.
Na tarde do dia 23 de dezembro um idoso, numa carroça, bateu palmas na frente da casa da contadora e disse:
- Boa-tarde!
- Sou o cigano Jámon, um pobre velho e doente. Por favor, gostaria que a senhora comprasse esta minha carroça, pois estou sem dinheiro para adquirir remédios.
A moça ficou com pena do idoso e comprou a carroça. Depois de algumas horas a mulher pensou:
- O que farei com uma carroça velha?!
- Ah, se eu realmente tivesse superpoderes...
Na noite do mesmo dia, Graciosa ligou o telejornal e o repórter disse:
- O zoológico do bairro Boqueirão pegou fogo. O incêndio começou na ala das renas, veados e corças. O fogo já foi controlado, mas estes animais fugiram e ainda não foram capturados.
Naquele instante a mulher ouviu um barulho estranho no seu quintal. Então quando ela foi olhar teve uma surpresa: os brinquedos, para doação, que estavam armazenados na garagem tinham se multiplicado, a velha carroça virou uma carruagem mais bonita da que a da Cinderella e o lugar estava repleto de: renas, veados e corças. Através de sua intuição, a contadora vestiu-se de Mamãe-Noel, colocou os brinquedos dentro da carruagem e botou os animais para guiarem este veículo. Quando Graciosa sentou naquela carroça transformada, os bichos voaram pelo céu e ela conseguiu distribuir presentes para todas as favelas da cidade. Deste jeito a mulher exclamou:
- Os superpoderes existem de verdade, pois estão dentro de nós. Eles são: a fé, a caridade, a esperança, a solidariedade e o amor!
- Feliz Natal!

Luciana do Rocio Mallon