
Patrícia Ermel


Todo esportista é um sadomasoquista. Sádico porque esporte implica em vencer alguém, humilhar um oponente, causar dor no nocaute fulminante, na raquetada sem dó, na ultrapassagem impiedosa – mesmo que ferir não seja a intenção principal, ela ocorre necessariamente. Masoquista porque as condições para a prática de qualquer esporte são severas, não respeitando finais de semana, mau tempo ou indisposição, ignorando as preces da carne e as lamúrias da alma – “no pain, no gain”, já dizia o famoso ditado do povo mais competitivo do mundo. Considerando que a vida também é um esporte (o maior de todos, tendo até um livro discorrendo sobre o assunto: “Se A Vida É Um Jogo, Estas São As Regras”, de Chérie Carter-Scott), chegamos à constatação de que todos temos algo de sadomasoquista. E essa nossa vocação de machucar e sofrer se estende para as mais diversas modalidades, algumas um tanto aconvencionais: tem gente que entra na disputa para deter recordes, de número de tatuagens a quantidade de cigarros fumados de uma única vez; outras praticam os desportos do cotidiano: ser o mais rico, chegar na praia mais rápido que qualquer outro carro na rodovia, responder o maior número de e-mails possível no final do dia. Praticamos inúmeras pelejas com outros competidores e com nós mesmos ao longo de um dia e no decorrer de uma vida. Mas, de todos os esportes, um é o que mais assusta por ser o único que transforma aliados em opositores: o heartbreaking.
Não há um nome exato para o esporte (ao menos não na língua portuguesa), mas ele consiste em conquistar e arrasar corações desavisados. É o único esporte capaz de gerar, nos derrotados, reações sérias e instantâneas de depressão profunda, anorexia nervosa, perturbação mental e até de homicídio e atentado contra a própria vida. Difícil afirmar se o maior número de adeptos é do sexo masculino ou do feminino, mas abordemos como personagem de estudo a mulher, visto que a quantidade de filmes e referências em outras artes, como na música e na literatura, fazem parecer que ela é, de fato, o grande pivô das históricas trágicas, em que corações são pisados com salto agulha por puro deleite. Para fazer uma abordagem com certo grau de cientificismo, escalamos para debate quatro estudantes da área de comunicação social, são elas: Carolinni Tauscheck, Fernanda Lima, Luciana Calçado e A. P. L., que preferiu não se identificar por motivos que ficarão mais claros ao longo deste texto. Sendo acadêmicas de um curso que tem como principal alvo de estudo o comportamento humano (e, principalmente, por serem mulheres), certamente têm condições de discorrer sobre o assunto com certa desenvoltura. De outro lado, temos uma assumida heartbreaker concordando ou discordando das afirmativas, vamos chamá-la de Débora para não criar nenhum desconforto, seja por parte dela ou de alguma vítima que venha a ler este texto.
Como é o esporte?
Nenhuma das quatro convidadas conhece uma legítima heartbreaker, nem se assumiu como tal. Também não souberam definir categoricamente qual o perfil da esportista ou como se pratica a modalidade. O que ficou em consenso é que toda mulher tem um pouco (ou um muito) de “arrasa corações”. Fernanda, por exemplo, relatou com grande naturalidade sua experiência com um rapaz que a amava, sendo que a recíproca não era verdadeira. Sem qualquer constrangimento ou trauma de consciência, deixou claro que o usou apenas por prazer, mesmo sabendo ser ela uma paixão não correspondida do pobre e esperançoso rapaz. Chegava a ir com ele para motéis pedindo a uma amiga que lhe ligasse em dado horáro, fingindo ser sua mãe ordenando que voltasse para casa, a fim de escapar do seu escravo-amante. Com o desembaraço e frieza com que relata este episódio, Fernanda parece ser uma garota indiferente à dor das pessoas com as quais se relaciona, mas este, ela garante, foi um episódio isolado. Porém, só para se ter melhor noção do perfil da autora do relato, ela consegue convencer a todos que não entende nada de baralho para, logo que se inicia o jogo, mostrar-se expert no jargão do carteado e na arte de blefar. Ou seja, é sim capaz de ela ter se divertido com a situação de usar seu apaixonado como joguete, afinal dissimulação é, possivelmente, uma das maiores habilidades de uma heartbreaker. E o mais curioso: isso não a torna uma pessoa cruel, talvez apenas inconsequente.
Já Débora é mais prática na definição do esporte: “simples, é conquistar, usar, colocar na prateleira e partir para o próximo quando não tiver mais serventia”. Não foi precisa na explicação do que vem a ser ter “serventia”, apenas complementou dizendo que é “tipo quando enjoa”. Na verdade, a conversa com Débora indicou que a modalidade é praticada de forma muito mais intuitiva do que planejada e meticulosa como muita gente costuma achar – talvez uma concepção residual do estereotipo de femme fatale fria e calculista tão disseminado pelo cinema. Há até um “q” de inocência no modus operandis e nas justificativas, conforme foi se constatando na investigação de seu comportamento padrão ao longo da conversa. Mas é difícil fazer essas afirmativas de forma cabal, posto que (conforme já dito) ser dissimulada é possivelmente uma forte característica desse tipo de esportista, ou seja, pode estar apenas enganando a torcida.
Qual o prêmio?
Orgulho e prazer. Quase sempre nesta ordem. No caso de Fernanda, o prazer veio antes, ela garante, mas isso é uma exceção à regra – não esquecendo o fato de que ela não é uma típica heartbreaker (apesar de ter todos os predicados necessários para a prática). Luciana afirma que não está só no ego e no tesão a recompensa da heartbreaker: ela faz também para conquistar presentes, viagens e privilégios, como, por exemplo, maior chance de ascensão hierárquica em uma empresa, seja por dominar a fome de um macho poderoso ou por poder lhe chantagear. Carolinni (conhecida por Carol entre as amigas) vai além: ela acredita que a heartbreaker, de alguma forma, tem de tangibilizar e “documentar” suas façanhas, e o faz colecionando lembranças dos amores arrasados, como bilhetes apaixonados, fotos de viagens juntos e outros souvenirs que vai acumulando ao longo do tempo.
Débora concorda com as afirmativas do quarteto, e complementa frisando que uma arrasa-corações gosta de causar intriga e de ver homens brigando por ela, mas não casais, “daí já é baixaria”, conclui. Outro fator que faz uma heartbreaker ter aversão a brigas de casais está, provavelmente, no fato de que este conflito pode significar que irá sobrar para ela no final das contas...
Qual o perfil da praticante do esporte?
Há mulheres que têm volatilidade afetiva: ora amam, ora odeiam. Mas isso não corresponde às motivações de uma heartbreaker, pelo simples fato de que ela não é movida por estímulos descontrolados, e sim por uma noção real de que tem uma tarefa sádica a cumprir. Nessa obsessão, o quarteto manifestou-se favorável à ideia de que ela é uma pessoa que já amou mas não foi amada, portanto quer se vingar em cima de todos os homens. Luciana afirmou nunca ter se apaixonado, colocando-se assim sem opinião formada a respeito dessa possível vida pregressa infeliz das heartbreakers. E também talvez seja esse um dos motivos de ela própria não ser adepta do esporte. Outros pontos consensuais entre as garotas do quarteto: heartbreakers são geralmente mulheres inteligentes (mais do que bonitas); por dedução, são boas de sexo; muito vaidosas; não ambicionam viver um grande amor; geralmente são cultas e refinadas; e nem sempre são bem sucedidas profissionalmente – o que pode explicar a colocação feita anteriormente de que são capazes de usar o esporte como jogo de poder. Não souberam precisar se arrasa-corações são mais hetero, bi ou homo, só se sabe que este comportamento ocorre em todas as opções sexuais, entrando aqui o depoimento de A. P. L.. Quando tinha 18 anos, ela começou a namorar uma menina que conheceu pela web, e que morava próxima à sua avó. Bonita, esbelta e “carne nova no pedaço”, A. P. L. usou de seus charmosos olhos azuis para ficar com diversas garotas, pois estava se iniciando no universo gay. Chegou inclusive a ter um affair com uma miss, incitando ciúmes na namorada. O romance acabou e ela encontrou então um namorado hetero, mas A. P. L. exercitou, na homossexualidade, seu lado heartbreaker tanto quanto Fernanda (vide relato da primeira questão). Neste ponto é que ela entrou em uma tese que aponta para a possibilidade de as arrasa-corações terem um tipo de “vacina” contra a paixão: A. P. L. jogou no debate a teoria de que toda mulher só ama de fato uma única vez na vida, sendo que seu comentário recebeu aprovação de Carol e indiferença de Luciana e de Fernanda. A. P. L. disse que sua primeira namorada foi efetivamente a única pela qual se viu capaz de fazer loucuras, e que essa febre não mais se repetirá em sua vida. Se isso valer para toda mulher, como ela acredita, então não é tão difícil ser heartbreaker, posto que os riscos de perder o controle de seus romances, tornando-se dominada ao invés de dominadora, é praticamente inexistente.
Débora não entendeu a teoria de que mulher só ama uma vez na vida e preferiu nem entrar nos méritos. Mas riu quando indagada se o comportamento heartbreaker é mais presente no universo hetero, bi ou homo – a pergunta a fez recordar de uma frase de Claudia Raia no filme “Os Normais 2” que acredita resumir tudo: “toda mulher é bi, só que umas aproveitam e outras não”. Brindou com o copo d’água que estava bebendo e fechamos assim essa terceira pergunta do pacote, vamos à próxima.
Quem são os aliados/oponentes mais comuns de quem é heartbreaker?
Costumam pegar homens casados para não se prenderem, visto que as chances de relacionamento com compromisso se reduzem bastante. Luciana acredita que solteiro sustenta mais o ego da heartbreaker porque ele pode vir atrás dela sem tanto temor de ser pego (já que não há ninguém no seu pé para puni-lo por pular a cerca). Carol acha que heartbreakers atacam do office-boy ao chefe, embora este último seja mais visado. Ela e Luciana concordam que as arrasa-corações não gostam de caras “bananas”, em especial na cama. Por mais que o prazer venha depois do orgulho, continua sendo um item bastante importante na ordem do dia.
Débora entendeu que a colocação aliados/oponentes se refere ao mesmo personagem, ou seja, a homens que se tornam partners para logo depois serem jogados na sarjeta gritando lamúrias e impropérios pelo resto da vida; mas ela também acredita que há aliados e oponentes separadamente. Como aliados, ela alfineta sem dó: “não há melhor aliada para uma heartbreaker do que uma esposa que não faz de tudo na cama”; também coloca as amigas como importantes agentes de prospecção, apontando homens vulneráveis e ajudando em esquemas de encontros, sedução e despiste de namoradas inconvenientes. Já como oponentes ela sai do aspecto pessoa física para cair no pessoa jurídica: empresas com restrições pesadas a relacionamentos afetivos no ambiente de trabalho, religiões de normas severas e todo o “blá-blá-blá dos mais machistas que acham que mulher que toma a iniciativa é vulgar e não merece atenção. Vulgar, eu?! Vai tomar no cu!”, caindo numa gargalhada logo em seguida.
Onde se pratica o esporte?
Carol acredita que a heartbreaker sai em vários lugares e estuda o perfil da vítima antes de abordar e seduzir. Ela prossegue neste raciocínio garantindo que a web também pode ser um bom canal, através da visualização de perfis no Orkut, por exemplo. Luciana é enfática em afirmar que a arrasa-corações frequenta vários tipos de círculos sociais, indo de rodas de pagode a bailes da alta sociedade.
“Ah, qualquer lugar é lugar”, assegura Débora, sustentando que esse raciocínio de toda heartbreaker se deve ao fato de que homens (e mulheres) infelizes pela solidão ou por relacionamentos frustrantes estão por toda parte. Ela nem quis entrar nos méritos de web e outros meios alternativos, voltando a balançar a cabeça e a reafirmar que “qualquer lugar é lugar”, concluindo: “quer saber onde encontrar alguém? Pega um copo e encosta na parede que cola o seu apartamento no do seu vizinho. Todo mundo gosta de sexo e todo mundo tem algum tipo de problema afetivo. Só não se deixa seduzir quem gosta de sofrer”.
Qual o ponto fraco de quem está neste time?
O quarteto acredita que, apesar de toda a postura auto-confiante e de seu modo de agir frio e técnico, a heartbreaker não é imune a arrasa-corações do sexo masculino. Neste sentido, o homem auto-confiante é praticamente uma kryptonita contra seus superpoderes. No entanto não são seres que podem desfilar sem medo em frente a uma heartbreaker: homens bem resolvidos são um desafio maior e mais estimulante. Eles apenas geram temor pelo medo de envolvimento.
Tentando sair pela tangente, Débora disse que o “homem que se basta” (como ela preferiu definir) é “um belo de um troféu”, mas que a característica dele que mais incomoda não é a auto-confiança e sim a determinação: “odeio o cara que diz ‘não vou mais te ligar’ e não liga mesmo. Isso corta a minha possibilidade de blefar, eu não posso dizer ‘se sair daqui não volte nunca mais’ porque eu sei que se ele sair não voltará mesmo, e isso não porque eu ordenei, mas porque ele manda em si mesmo. Aliás, tem homem que adora provar que pode, que se garante, desse tipo eu quero distância”.
Quais as regras do jogo?
Praticamente, a regra é não ter regras. Mas há comportamentos da heartbreaker que são padrão por evitarem complicações no meio da peleja. Ela não chega a se envolver com a família da vítima, por exemplo, no máximo é apresentada à mãe do coitado, mas não frequentará sua casa, muito menos levará uma sobremesa para o almoço de domingo da sogra em potencial. Embora as quatro não tenham explicado o motivo desta postura, ele é um tanto evidente: além de fugir de envolvimento, a heartbreaker sabe que pode ser desmascarada por irmãos ou pais de seu macho-alvo, daí sua ojeriza à exposição no círculo familiar. Outra regra fundamental é a de que é preciso buscar informações que indiquem a facilidade de arrasar um determinado coração: a heartbreaker investiga e adéqua-se ao universo do outro para depois trazê-lo para seu mundo pessoal. Por fim, também é importante ter um bom timing: quando percebe que a vítima está muito na dela, sai fora e a deixa a ver navios.
Saber o momento certo para puxar o carro é a regra mais desafiante para a heartbreaker, acha Débora. “Conquistar e seduzir não é o bicho. Mas sair com elegância deixando o cara sem chão, não protelando demais nem antecipando em excesso a decisão de dar no pé, ah, isso sim é que aponta se a guria é mesmo profi no assunto”.
Há dia melhor ou pior para se praticar o esporte?
Essa foi fácil porque veio ao encontro da indagação sobre lugar para a prática do esporte. Não há dia certo, a heartbreaker está o tempo todo agindo, se compatibilizando com a rotina de seus alvos, assim comentou o quarteto. Parece ser ilusória a noção de que sábados à noite são o ponto culminante desta prática esportiva, mesmo sendo este o período em que as pessoas saem para baladas à procura de aventura e romance.
“Isso mesmo”, concordou Débora, “todo lugar é lugar, toda hora é hora”. Ponto.
Quais os equipamentos para se praticar o esporte?
Outra questão de resposta simples e prática. Apetrechos indispensáveis: celular, estojo de maquiagem, perfumes, jóias e guarda-roupa refinado.
Para Débora é por aí, “ah, e claro: uma vizitinha na sex shop não faz mal a ninguém”, arremata enquanto ri de sua própria molecagem.
Quais os segredos de quem pratica com sucesso?
Foram disparadas frases soltas das garotas do quarteto, sendo agora difícil determinar a autoria de cada uma delas, aqui vão então as sentenças mais interessantes: “Ela não tem o auto-controle para não se envolver, simplesmente não acha o homem certo”; “Mas ela não quer achar o homem certo”; “Existe uma minoria que pratica esse esporte sem querer (de forma involuntária), a maioria sabe muito bem o que está fazendo”; “Ela dá a entender que não quer envolvimento, mas não explicita isso, não verbaliza, só para deixar o cara na esperança e depois puxar o tapete”; “Faz sexo bem feito, e ninguém manda nela, deixa o alvo pensar que manda”; “Nunca fala ‘eu te amo’, a não ser que seja como arma para gerar mais envolvimento; “Não coleciona por número, mas sim pela qualidade das relações”; “Ao identificar em um cara a presença de características de um homem que já tenha seduzido, vai usar as informações a seu favor para repetir o sucesso”; “Não se torna mal falada porque não divulga seus feitos, mas quando os conta a uma confidente passa-se por vítima. Só fala a verdade quando tem uma amiga igual a ela”.
Débora concordou com tudo, mas, ao ser perguntada sobre o que mais citaria como segredo de sucesso no esporte, disparou: “ah, você não quer que eu perca minhas cartas na manga, né?”.
Observação final
Ao final da conversa, Débora já pedia para parar porque aquele não era “um bom dia”. Visto que ela não tem problemas familiares ou financeiros, não é leviano afirmar que nossa “arrasa corações” possivelmente foi vítima de um rival à altura. Mas isso ela nunca iria confessar. Faz parte do jogo.
Mario Lopes



Ele apareceu em um momento, em que todos precisávamos de um cachorro calmo, e que nos desse carinho. Ele é tão dengoso, tão amoroso, ele te abraça e deita no seu colo, ele te conquista no olhar, pede comida, consegue se divertir com uma tampa de plástico, correndo pelo corredor.
Quando estamos desanimados, ele pede para brincar e nos contagia com sua alegria, veio mesmo para alegrar nossa vida. É criança ainda, faz bagunças, e nos olha com aquele olhinho de quem fez arte, come os sapatos, estraga os tapetes, o sofá, e, falando em sofá, ele fez de um de dois lugares a cama dele - se alguém ali sentar, ele com educação manda sair, provocando a pessoa a fazer carinho nele e a brincar de jogar o ursinho para ele ir pegar. Ele é bem esperto, e ninguém resiste a esse cachorro.
É apaixonado pela minha mãe, deita quando ela vai dormir, e às seis horas já espera por ela na porta, antes mesmo de todos levantarem. Ele chama atenção quando ninguém fala com ele, sente ciúmes do Loro, quer ser o único, e conquistou esse lugar.
Cachorro é tão sensível, sente muito tudo o que queremos, e sabe do que gostamos. O Obama é incrível, se falasse perderia o encanto do olhar, do latir, porque só falta ele falar mesmo, é sentimental, mais que muitas pessoas que já conheci.
Come só um tipo de ração, e tem que colocar no chão, porque, se colocarmos no potinho, ele derruba para comer no chão, porque considera o potinho como seu brinquedo favorito.
Ele gosta de brincar de morder as nossas mãos, pede carinho, atenção, ele merece.
Uma coisa que ele não gosta é de beijo: se beijamos, ele logo morde fraquinho e late grosso, ele gosta é de abraço e cheirinho, aí ele fica todo mimado.
Obama e outros tantos cachorros, marcam nossas vidas e fases, mas o Obama é todo especial, bendita a hora que chegou e nos conquistou, somos felizes com sua vinda. Nasceu na rua, passou fome, e não perdeu o brilho no olhar, e sabe nos fazer felizes. Ele nos encontrou, não foi nós que o encontramos, ele nos escolheu.
Desejo que todos tenham um Obama em suas vidas, esse Obama já é meu, mas sei que outros com essa mesma alegria e sensibilidade estão espalhados por aí.
Mary Palaveri


Jornada esportiva
Na escola, sempre quis ser aquela que era vista praticando esportes. Como eu era amiga dos esquisitos e marginalizados, acabava não sendo escolhida para os times. Praticava pouco e não era muito boa. Via aquele povo cheio de energia marcando pontos, formando times, competindo, gritando e chorando. Eu pelo menos não sofria por ter perdido. Reparei que as boas jogadoras eram agressivas na sala de aula. Uma delas me deu um tapa na cara uma vez do nada. Disse que eu a incomodava só por existir. Talvez se eu tivesse sido esportista devolveria o tapa. Mas ali fiquei intrigada e triste. Será que a violência não era expurgada o suficiente através dos esportes? Com muito esforço, consegui jogar um pouco de vôlei e handball mas meu tesão secreto era o basquete. Eu era calminha e não muito alta.
O que me restava então era o grupo de expressão corporal. Como minha escola era batista, não era necessariamente a coisa mais charmosa pra se fazer. Lembro que uma outra classe dançou a trilha do filme “Flash Dance”- She is a Maniac e eu fiquei louca. Queria pular dali mesmo onde estava, só que estava na arquibancada e meu grupo de ginástica rítmica desportiva era o próximo. Fizemos uma coreografia com a trilha do filme “Carruagem de Fogo”... Meus amigos renegados me davam uma força.
Hoje eu nado. Não sou lá muito alongada mas estou pensando nisso todos os dias.(uma vez me apaixonei por um cara que me trocou por uma bailarina, fiquei tão triste que resolvi não alongar mais nada. Isso já passou...) .
Nado e esqueço da vida. Já trombei com pessoas e quase arrebentei a cabeça. Quando a água me levita eu escuto música, resolvo questões difíceis e já me peguei chorando algumas vezes (você chora, embaça o óculos e vê uma sobreposição de águas). Dentro da água as coisas parecem estar em outro planeta. Minha diversão secreta é soltar um punzinho dentro do maiô enquanto estou nadando e sentir aquelas bolinhas fazerem cócegas.
Nado bem e sei bem fazer nada, meu esporte favorito.Não quero competir mas ficar forte para aos 80 anos ainda ser capaz de jogar basquete e dançar como a atriz do Flash Dance, de preferência com meus amigos renegados que no final das contas se tornaram muito interessantes.
Patrícia Ermel

“Me mandei pra Curitiba, como eu gosto dessa vida eu sei”.
Queria saber se as motivações para o Oswaldo Montenegro vir a Curitiba eram as mesmas dela. Mas não era isso que importava naquele momento, na verdade pouca coisa importava agora. Só caiu nessa indagação insolúvel porque estava ouvindo a música naquele taxi com cheiro de essência de uva. Ela não gostava de pegar taxi, tinha medo que aquele motorista de modos grosseiros a sequestrasse, sentia-se perdendo o controle da situação. Mas era a melhor maneira de sair beber o quanto quisesse e ir para onde a vontade ditasse (ou enquanto o dinheiro deixasse (ou enquanto o raciocínio não sucumbisse (ou enquanto não achasse o caminho de casa (ou enquanto não achasse uma casa)))).
O fato é que aquela música era a trilha sonora perfeita para a ocasião: ela não morava em Curitiba mas estava ligada à cidade, próxima demais até. Apesar de poder a qualquer tempo chegar na capital paranaense com brevidade, queria mesmo era morar nela. E à noite o vínculo com aquela metrópole provinciana ficara mais forte e vívido, como se as luzes dos prédios se tornassem tochas abrindo caminho para sua passagem. Como se os letreiros e neons fossem convites formais e personalizados para sua fuga. A capital a imantara com as seduções do imponderável.
Sua vida havia dado tilt. Um curto circuito em meio à rotina e às obrigações que não sabe quem lhe impingiu. Estava cansada de se conformar, de se anular, de discutir a relação a sós, de monologar a dois. A dobradinha "amor e sexo" agora era para ela apenas nome de programa de TV. E sua lista de demandas só crescia: as tarefas do lar e de fora dele, a indiferença de um parceiro relapso, o vácuo de um affair que só se consumava na imaginação, a dúvida de poder corresponder a um modelo de companheira, de mulher, de profissional, de mãe, de tudo. O planejado e o frustrado agora viviam em regime de concubinato. Aumentar os seios, diminuir o grau de exigência, afinar a voz, ler mais, falar menos, economizar pr’aquela viagem, ir no oftalmo, trocar de gineco, criar uma conta no twitter, abrir o Orkut, entrar na academia, praticar yoga, botar mais giga de memória, incrementar o sex appeal, entender o marketing viral, bancar a multifunção, ser, ter, fazer, ostentar, vestir, despir e lavar a roupa suja em casa de ferreiro. E a calcinha debaixo do chuveiro. Tudo sem chorar, porque isso é coisa de mulherzinha. O muito pouco que usara do blog como catarse eletrônica havia de fato sido insuficiente para ordenar o raciocínio, precisaria de muitos terabytes para alinhar seus pensamentos. Todos os verbos e adjetivos se rebelavam em motim, já não conseguia conjugar o ser sem comprometer o estar. Suas personagens se recusavam a parar quietas na ribalta. Amiga, colega, confidente, parente, cliente, psicóloga, filha. Todas em silenciosa exigência. Nem precisavam pedir nada, bastavam existir. Não que tivessem culpa, pelo contrário, mas também tinham sua parcela de peso na prateleira de responsabilidades (mesmo que a maior fosse com ela própria). Estavam todas ali. Dentro daquele taxi cheirando a essência de uva. E cobrando bandeira dois.
A noite agora era a sina. Ela estava no centro de Curitiba, sozinha, e logo seria madrugada. Resignou-se, estava sozinha há muito tempo. Nem lembrava da última vez em que usou o “nós” ao invés do “eu”. Não fugia dele, e sim dela própria. De sua face tolerante que dava a outra para bater. E a outra era a face da verdade. Beberia não para esquecer, mas para se esquecer. E sentia-se corajosa por fugir. Era mulher-macho porque deu no pé. Porque deu na telha. Sua inconsequência agora era bálsamo, um maná caído do céu noturno. Olhou para o relógio e percebeu que em duas horas seria Dia da Independência. Riu da ironia cronológica fazendo o taxista fitá-la sisudo pelo espelho retrovisor. Comportou-se procurando pela janela do carro algo para se distrair. E o que viu a tirou do prumo ainda mais: um cartaz de preservativo lembrando que aquele domingo era o Dia do Sexo. Segurou o riso de si mesma. Teve então uma ideia, ou melhor, uma certeza: não viraria o Dia do Sexo sem sexo.
22h04m21s
Chegaram. Na penumbra do taxi, achou uma nota de 50 na bolsa e ouviu os resmungos do repulsivo motorista de pouco troco. Saiu do veículo e cheirou-se temendo ter ficado com aroma de uva. Não, continuava cheirando a seu perfume favorito, apesar de perceber ter sido um pouco impregnada com aquela fragrância que mais lembrava chiclete. Mas o problema real era como conseguir sexo em apenas duas horas. Logo ela, mulher comprometida, moça de família, dona de um lar, de um nome a zelar, de uma conduta ilibada no currículo da vida, de inegável instinto maternal. Não sabia como. Só sabia que aquele seria seu grito da independência.
22h10m37s
Entrou no Wonka pegando a comanda e dizendo seu nome em voz baixa para o porteiro anotar, como que temendo ser ouvida por algum conhecido que a flagrasse ali sozinha. Estava lá por uma escolha aleatória, encontrou a casa num guia da Veja que surrupiou da sala de espera do dentista, tendo decidido seu destino por um critério absolutamente randômico: fechou os olhos, abriu a revista numa página qualquer e apontou às cegas. Deu Wonka. Subiu a escada até o bar indagando-se do motivo de aquele ter sido decretado o Dia do Sexo. Talvez por ser o dia 6 do mês 9, pensou. Aquilo a deixou ainda mais irritada: sentia-se uma teórica sexual, estava no feijão-com-arroz, no papai-mamãe, no parou-por-que há tanto tempo que faltaria calendário para comportar todas as suas noites de sexo mecânico (isso quando ele ocorria). Chegava a achar que sabia tanto de 69 quanto um médico legista sabe de engenharia mecatrônica. Precisava comemorar o Dia do Sexo, queria ser inconsequente uma vez na vida. Claro que já havia sido outras vezes, mas não naquele ponto. Sentia-se carente e incapaz de sair à noite desacompanhada, quanto mais de fazer o que estava intencionada a fazer. Seria sua prova de coragem para si mesma.
22h14m18s
Ela teria três etapas obrigatórias a cumprir. A primeira seria beber algo para tomar coragem. A segunda escolher o cara certo. E a terceira encontrar o local apropriado. A bebida teria de ser de alto teor etílico. O cara teria de no mínimo estar num grau de embriaguês tolerável. E o local poderia ser até o banheiro da casa noturna, naquela altura do campeonato não teria como ser exigente. Sabia que dificilmente encontraria um homem sóbrio que aceitasse transar com alguém que recém-conhecera, mas não era esse o motivo que a fazia querer alguém com álcool no sangue: ela temia se apaixonar, e, se isso ocorresse, queria que pelo menos o homem com o qual transara tivesse uma desculpa razoável para ter perdido a cabeça e fornicado com ela, jamais teria relacionamento sério com alguém que em sã consciência fizesse sexo tão casual assim. Mas preferia não pensar na possibilidade de se envolver após um sexo em banheiro de boate com alguém que pouco iria lhe informar além do próprio nome. A tarefa não deveria ser complicada, ela sabia que estava atraente e que homem não presta, o que por si só já consistia em uma combinação mais que suficiente para seus propósitos. Viu na TV que nas micaretas chega-se a beijar mais de 20 pessoas por noite, o mundo atingira um grau de permissividade em que se tornou atestado de incompetência sair de casa e não pegar ninguém. Ou de seletividade, dependendo do ponto de vista. Por um breve instante pensou na dificuldade de ser mãe nos dias de hoje, mas logo desanuviou aquele raciocínio nebuloso ao consultar a lista de bebidas do cardápio.
22h22m08s
Enquanto folheava a carta de drinks e admirava a decoração do lugar, recordara dos ditados recitados por sua avó: “a mente vazia é a oficina do diabo”, ou “o jardim”, ou o “quintal”, ela não recordava direito no momento. Só sabia que queria esvaziar a mente enchendo o corpo de álcool. Cada gole corresponderia a um pensamento lúgubre que transbordaria para fora da cachola. Estaria exorcizando seus fantasmas pessoais, seus entraves falso-moralistas. Perdeu tempo procurando na bolsa um drops que não existia. Voltou ao cardápio.
22h26m47s
Encostou-se na parede ao lado do balcão, passando as bebidas em revista correndo a ponta do indicador pelos nomes extravagantes, irritada com o esmalte vermelho já lascando nas bordas bem aparadas pela lixa de sua manicure. Olhava ao redor por sobre o cardápio, tentando perceber se havia algum homem interessante que despertasse seu interesse em copular com urgência. Observou um que achou atraente, mas gesticulava demais e falava alto, querendo chamar toda a atenção do bar para si. Não, teria muito pouca sensibilidade e sairia contando para os amigos que comeu uma ninfomaníaca antes mesmo de abotoar as calças. Em sua varredura visual, encontrou o caminho para o banheiro, mas era muito à vista de todos, precisava de um discreto, talvez houvesse mais sanitários no ambiente de baixo – pelo que lera na revista, havia uma pista de dança no “porão” da casa. Mas, antes de descer, precisava escolher a bebida. Parou de ficar caçando reprodutores com o olhar e voltou mais uma vez ao cardápio.
22h32m01s
Havia nomes sugestivos de bebidas: Sex On A Singer Beach, por exemplo, indicava que poderia ter algum componente afrodisíaco entre os ingredientes, embora tesão não fosse seu problema, pelo contrário, ela sofria pelo excesso e não pela falta. Precisava era de algo que a desplugasse das amarras de pudor. Não encontrou Absyntho, o que muito lastimou, já que a fama da bebida era a de ter um elevadíssimo teor alcoólico, e ela precisava realmente de um efeito rápido. Whisky com energético, quem sabe, mas achava muito forte o gosto, ficou com medo de se demorar demais tentando colocar a bebida para dentro, e até de passar mal. Quem sabe um guaraná atenuasse o sabor, deixando mais docinho, embora o energético também tivesse esse papel. Prosseguiu e percorreu a lista toda, foi e voltou três vezes, até que se decidiu por uma marguerita. Ficou no balcão tentando achar espaço entre os frequentadores da casa. Quando chegou sua vez, tentou jogar charme para cima do barman, pedindo que caprichasse na dose de tequila. Teve dupla intenção, ganhar mais álcool e também flertar com um possível partner para sua missão. Não obteve nem uma coisa nem outra: ele estava ocupado demais para perceber sua piscadinha e o som da música eletrônica estava alto demais para poder ouvi-la direito. Pegou sua bebida, derrubando um pouco no balcão por causa do empurra e se afastou para procurar o caminho até o subsolo da casa, conformada com o fato de o barman não fazer seu tipo mesmo.
22h41m51s
Arrependeu-se em um primeiro momento por ter decido, pois o porão era bastante escuro, dificultando a prospecção de seu público-alvo. Seria complicado tanto o flerte quanto a identificação dos machos alfa, aqueles que lhe suscitassem mais interesse. Mas algo a animou: viu que havia um banheiro muitíssimo mais discreto que o do pavimento superior. Ficava numa parte escura e de paredes negras. O grande inconveniente é que havia uma fila respeitável na porta, sendo que se desanimou de investigar como era por dentro. Sua marguerita chegava ao fim, a fila no balcão era maior do que na parte de cima, bem como o volume de pessoas por metro quadrado no ambiente, acotovelando-se na disputa por um espaço na pista ou por uma cerveja morna no bar. Enquanto esperava sua vez (ou seu espaço) lambia o sal que contornava toda a borda do copo.
22h47m11s
Chegara sua vez, mas de novo se degladiava com o cardápio de bebidas batizadas com nomes esquisitos. Começava a se impacientar com a demora das coisas, já deveria estar trocando conversa com alguém àquela altura. Por falta de ideia e pela dificuldade em ler o cardápio apenas com as luzes da pista de dança incidindo sobre aquela lâmina de papelão plastificado, resolveu pedir outra marguerita. Dessa vez nem se atreveu a flertar usando o golpe da caprichada na tequila – o som no local estava muito mais alto do que no pavimento superior e os dois barmen estavam ocupados demais, nenhum teria tempo para pular pelo balcão e dar uma rapidinha. Mesmo que fosse muito rapidinha.
22h59m03s
A bebida demorou a chegar em sua mão. Bebeu mais rápido para ver se acelerava o efeito. Ficava difícil lançar algum olhar insinuante naquela escuridão, e boa parte dos homens conversavam entre si, chegou a desconfiar que era uma casa GLS. A Veja dizia que o lugar tinha uma jam session de jazz, mas só estava rolando música eletrônica. Deduziu que leu errado ou que tocavam aquele tipo de som em outro dia da semana. Mas nem era muito chegada em jazz mesmo. Começou a arrepender-se de não ter ido no Taj, apontado pela revista como o melhor lugar para azaração. A fila do banheiro continuava grande. Quem dera conseguisse um cara com carro confortável... Mas, ao constatar que agora tinha menos de 60 minutos para dar cabo em sua missão, percebeu que só um cara já estaria de ótimo tamanho.
23h06m28s
A marguerita acabou rápido, mas não estava sentindo nem um pilequinho sequer. Pensou no que havia comido, mas não era nada de fritura, gordura ou algo que impedisse o álcool de subir. Agora, puxava para si o limão preso à borda da taça e o chupava com cara de contrariada, mal se importando com o azedo da fruta. Nem se deu conta de que havia ficado sexy sugando aquele gomo verde entre seus lábios rubros, deixando de aproveitar aquela oportunidade de ampliar seu poder de atração. Estava desconfortável numa banqueta no bar, o tempo todo com alguém inconveniente empurrando-a para se aproximar do balcão e fazer um pedido. Resolveu se levantar e se recostar em uma pilastra, de frente para a pista. Talvez lá se mostrasse isca fácil. Realmente, não demorou para ser abordada por um rapaz de moicano e aparelho nos dentes. Era bonito e tinha um sorriso metálico simpático. Só que, nitidamente, estava além do ponto no quesito etílico, e lançando perdigotos enquanto fazia perguntas incompreensíveis. Ela logo entrou em desespero. Sabia que com ele é que não poderia ser, sob pena de traumatizar seu Dia do Sexo, tornando-o uma data a ser esquecida para sempre. Como também sabia que a presença daquele teenager metido a galinha iria dificultar a abordagem de outros frequentadores do bar. Não era o tipo da mulher indelicada, daquelas que sentem prazer em dar um fora, então esperou a conversa se esticar mais um pouco e pediu licença para ir ao banheiro. Durante todo o diálogo não entendera uma só palavra do rapaz de camisa de futebol americano, apenas balançara a cabeça afirmativamente e sorrira, enquanto ele, com toda certeza, se gabava de algum feito e tentava convencê-la de que era a melhor opção masculina do recinto.
23h14m39s
Quando percebeu já estar camuflada de seu pretendente, usando os frequentadores como escudo humano, saiu da fila do banheiro e foi até o bar pedir outra marguerita. Sabia que enfrentaria mais um tempo de espera até chegar sua vez. Mas surpreendeu-se com um homem sarado que lhe deu espaço para que passasse à sua frente. Pediu sua bebida, e só não xingou o barman exigindo que botasse tequila de verdade porque o musculoso chamou sua atenção com a gentileza de ceder a vez. Resolveu puxar papo com ele enquanto sua bebida não chegava. Com falta de o que perguntar, indagou o que ele fazia da vida, sendo que nem reparou na resposta, não pelo fato de o som estar altíssimo, mas porque algo em sua boca lhe chamou a atenção: o rapaz não tinha um dente da frente. Ou melhor, tinha um pivô, sendo que o esmalte escurecia com a luz negra que era projetada em um dos cantos da pista. Segurando o riso e o próprio constrangimento pelo vexame alheio, pegou sua bebida e pediu licença, argumentando que o celular estava tocando e precisaria atendê-lo lá fora.
23h28m19s
Chegando na parte externa do bar, acomodou sua bebida em uma das mesinhas e guardou seu celular, já que não tinha mais motivos para disfarçar. Em outras mesas observou quais os tipos que poderiam ser seus prospects, percebendo que tinha apenas meia hora para a façanha que planejara de rompante. Um era simpático mas calvo demais; outro com rosto muito harmonioso mas barrigudo demais; mais adiante um muito bem vestido, só que fungava tanto a ponto de ficar indisfarçável ter cheirado o pó que o diabo amassou; em um canto, um rapaz moderninho no visual e na pose, mas com um piercing pendendo do lábio inferior como um tumor metálico; perto da porta de saída um emo que tinha corpo e tatuagens bonitos, mas com o cabelo laranja e seboso cobrindo o rosto até a altura do queixo; do outro lado, um possível lutador de jiu jitsu que inspirava segurança, mas de orelhas esfareladas por tanto atritá-las no tatame; na passagem para o ambiente dos caixas, um carinha com ar de pegador, muito sedutor, só que chegando junto de uma garota que nitidamente se afastava pelo bafo de cerveja ou coisa pior. Resolveu voltar para o ambiente da pista, em desespero de causa estava disposta até mesmo a praticar a dança do acasalamento.
23h36m09s
Dançou da forma mais sexy possível, quase encostada a uma pilastra. Começou letamente e logo foi se soltado. A marguerita e a bolsa dificultavam seus movimentos, mas dane-se, alguém capaz de suportar por tanto tempo uma relação em constante naufrágio estaria habilitada a manter firme o leme até com os braços amarrados. Dançou, balançando os cabelos lisos de um lado para o outro, mexendo os quadris de forma insinuante, levantando o braço desocupado e girando o pulso quase que sinalizando “tô aqui, ó”. Não tardaram a baixar os gaviões de micareta, primeiro um que havia saltado do catálogo da Ford models, mas que dançava à sua frente de forma tão destrambelhada que parecia ser ele quem equilibrava uma bolsa, uma marguerita e o senso de ridículo, que aparentava na verdade já ter se espatifado no chão há muito tempo. Seguiu-se a ele outro que exalava um perfume irresistível, mas era do tipo “grudento”, já chegando como um octopus, pegando-a pelo ombro e falando bem de perto com seu hálito de Marlboro e voz de radialista de FM, fazendo-a quase ceder mais pela persistência do que por sua urgência de sexo, mas ela não havia bebido o suficiente para fazer vistas grossas a um homem que anda de suspensório e cinto. Dirigiu-se a outro canto sem parar de dançar e viu três rapazes muito mauricinhos na aparência, poderia até ficar com qualquer um deles, mas os moleques se empurravam uns aos outros para chegarem nela, visto que estavam certamente apostando quem levaria a melhor com a bêbada (e ela nem de pileque estava). Ficou indignada com aqueles rebentos ainda cheirando a Parmalat e passou pelos três esnobando-os sem dó, despejando o resto de marguerita em seus pés embalados pelos mais recentes modelos da Nike. Viu então as mesas próximas de vitrais em mosaico num canto e dirigiu-se para lá. Sentou e olhou para o bar distante, desmotivando-se a atravessar a pista e enfrentar a horda de frequentadores que queriam molhar a garganta.
23h45m17s
Olhou para o relógio e desesperou-se. A frustração começava a se apoderar de seus pensamentos, passando a olhar ao redor buscando por alguém que a salvasse em meio à escuridão. Em menos de um quarto de hora teria de se embriagar, achar um macho e um lugar para a cópula. Foi quando uma mão robusta a pegou pelo pulso puxando-a para a pista de dança. Ficaram em um canto onde não insidiam as luzes estroboscópicas, e a penumbra a ajudava mais do que nunca, pois em meio ao semi-breu poderia imaginar que aquele homem era quem ela bem quisesse: George Clooney, Brad Pitt ou até mesmo o seu real companheiro, só que como o homem que ela gostaria que fosse, e não aquele pelo qual se apaixonara. Ficaram mexendo o corpo ao som de Elastica e rapidamente o desconhecido a tomou pela cintura dando-lhe um guloso beijo de língua. Demoraram-se assim por alguns minutos, até que ela se deu conta de que seu prazo estava acabando, precisava ter atitude. Foi a vez de ela puxá-lo pela mão até o banheiro feminino. Deu sorte de não haver fila. Entraram, ela jogou sua bolsa sobre a pia e esforçou-se para desativar seu entrave inicial acionado pela fedentina, tratando de continuar a beijá-lo para esquecer o pequeno e abjeto ambiente ao redor, com um latão do qual transbordavam papéis sujos e uma torneira que pingava insistente e irritante. Virou-se de costas levantando a saia rapidamente, apoiando-se com as mãos na parede de azulejos brancos ao lado do vaso sanitário. Ouviu o som do cinto sendo desafivelado e do zíper abaixado. Sentiu a calcinha ser afasta para o lado por um par de dedos grossos que a puxaram pelo elástico, com a glande vindo em seguida e o membro abrindo espaço pelo sulco vaginal, invadindo sua cavidade íntima sem respeitar a falta de preliminares e de lubrificação. Olhou para o relógio discretamente e percebeu que atingira seu intento quando faltavam apenas quatro minutos e meio para expirar seu prazo. Sabia que não iria conseguir gozar naquelas condições, mas não importava, já havia cumprido com sua questão de honra. Pouco antes de os ponteiros de seu relógio se encontrarem, percebeu a respiração mais ritmada e arfante de seu amante de última hora, que agora gozava na meia-noite em ponto. Teria de usar a pílula do dia seguinte. E já era o dia seguinte. Dia da Independência. Aquele gozo alheio e anônimo inaugurava sua liberdade. Não sabia se iria querer repetir a experiência. Mas essa questão agora era irrelevante. Não sentia-se uma adúltera, pois seu relacionamento já havia morrido há muito tempo, só faltava a pá de cal. Branca como esperma. Aquele momento a fez novamente lembrar dos ditados de sua avó: “a ocasião faz o ladrão”, ou a "oportunidade", ou a "situação", ela não lembrava direito. Confirmou-o não só por sua própria atitude, mas também pela de seu macho improvisado, que se revelou um grande aproveitador ao se debruçar sobre suas costas. Foi quando sentiu na roupa dele o cheiro da essência de uva.
Mario Lopes


Não era possível. Em seis meses, era a terceira vez que aquilo acontecia. Novamente, o “homem da sua vida” lhe abandonara. Não bastasse o primeiro e o segundo terem lhe deixado, o terceiro, que parecia o mais perfeito, agira da mesma forma que os outros dois, e, provavelmente, da mesma forma que qualquer outro homem da sua vida, ao redor do mundo, agiria, partindo sem ao menos um adeus, uma explicação ou um beijo de despedida.
Ensaiou no espelho alguns diálogos dramáticos, gravou juras de amor para testar se surtiria algum efeito de arrependimento no outro, pensou em pedir perdão. Mas, afinal, pedir perdão a quê? Nada havia feito de errado. Tratou-o como um deus, sem ciúmes, cobranças ou discussões de relacionamento. Assim como havia feito com os outros dois homens da sua vida.
Então, depois da chuva, veio o sol. Secou as lágrimas de horas, e chegou a uma conclusão que iluminou seus pensamentos. Nada mais óbvio pensar que, já que não havia feito nada errado, o problema estava nos três homens, ou melhor, em todos os homens da Terra. O que acontecia era uma aversão, a longo prazo, a pequenas atitudes doces no dia a dia. Atitudes que, no início, conquistaram-nos a ponto de se apaixonarem, tornavam-se enjoativas com o tempo. Tal qual um brigadeiro.
Sim, ela era, aos olhos masculinos, um brigadeiro. Daqueles de colher, que você deseja mais que tudo e tem que esperar um tempo até ficar pronto para o consumo. Eles a preparavam para aumentar os seus desejos, e ela contribuía para isso, não se entregando, e assim que eles davam a primeira colherada, deliciavam-se com o sabor. Ah... o brigadeiro, a espera, o calor! A segunda porção ainda era deliciosa, mas não tanto quanto a primeira. A boca, já adoçada, não mais se surpreendia com o sabor peculiar que a uma colherada atrás ansiava. Porém, a vontade ainda era grande, e zapt: lá iam eles para a terceira colher. Agora, o que antes era desejo já se transformava em gula. Já não havia mais vontade em saborear o brigadeiro preparado, mas, devido ao esforço de outrora e à tolerância ainda presente, lá ia: a quarta colherada, fatal.
Nada mais restava de desejo, gula, doce, ou espera. Reinava o enjôo e a vontade de jogar a colher, a panela e todo o brigadeiro para bem longe da vista, mas não no lixo, claro. Nenhuma pessoa normal, que ama brigadeiro, o jogaria fora, mesmo que já estivesse saciada. Apenas colocaria algo por cima da panela, para proteção, ou simplesmente deixaria na geladeira, sob risco de alteração na textura e sabor, a longo prazo. Assim que a vontade voltasse, lá estaria o brigadeiro, esperando para ser novamente devorado.
Ela era assim, ou pelo menos os homens pensavam que era. Os dois homens de sua vida abusaram da sua doçura por três colheradas, mas, na quarta, jogaram-na em um canto, sem mais explicações, e um tempo depois, voltaram cheios de vontade para umas últimas abocanhadas gulosas.
Cheia de ira, ela, reconhecendo-se como um brigadeiro, quis mudar sua maneira de ser e a oportunidade surgiria a qualquer instante, com a volta do terceiro homem ou o início de outro relacionamento.
Morria um brigadeiro, nascia uma Coca-Cola... mas aí já é outra teoria.
Letícia Mueller




Como todo mundo sabe, a Gripe Suína é uma doença ativada pelo vírus Influenza A (H1N1), que é a mistura da gripe do porco com a gripe aviária mais a gripe humana. Através dos noticiários, é possível saber que esta enfermidade matou e continua matando muita gente. Até o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, foi contaminado.
Um problema inusitado é que com a epidemia da Gripe Suína também surgiu o alastramento de uma doença moral chamada Espírito de Porco. Esta expressão apareceu através de um trecho da Bíblia onde Jesus chegou numa cidade que estava infestada de maus espíritos. Então, com o seu poder, Ele fez com que estes demônios entrassem dentro dos porcos, que se suicidaram em seguida. Por isso, este termo é usado como definição para pessoa boçal e mal intencionada.
Há alguns meses, numa partida de futebol, um jogador mexicano fingiu ter Influenza A e espirrou, escarrando no rosto de um adversário. Ainda por cima, ele teve a coragem de gritar palavras como:
- Cuidado que estou com gripe suína e vou passar para você!
Após esta atitude, ele foi expulso. Nesta situação, pelo menos o atleta arrogante saiu punido.
Num condomínio onde mora uma amiga, vi algumas crianças espirrarem no rosto de idosos e exclamarem:
- Estamos com Gripe Suína!
Após falarem isso, elas saíram correndo dando altas gargalhadas. Este é mais um caso da enfermidade moral chamada Espírito de Porco. O pior é que as almas dos suínos também estão presentes nas seguintes situações: em alguns comerciantes que colocam o preço de uma bisnaga de álcool-gel a dez reais; nas criaturas que quando espirram não colocam a mão na boca; nos seres que fecham as janelas dos ônibus lotados; nos rackers que passam e-mails cheios de vírus com o tema da Gripe Suína; nas pessoas que não obedecem aos seus médicos e por isto recusam-se a usar máscaras cirúrgica por questões fúteis de estética.
Porém, ainda podemos usar a própria Gripe Suína como antídoto contra certos espíritos de porco, como, por exemplo, para afastar aquelas moças que, para cumprimentar-nos, sempre nos abraçam com seus corpos suados e exclamam:
- Três beijinhos pra casar!
Estes dias vi uma destas criaturas na rua e, antes de ela cumprimentar-me , com os tais “três beijinhos pra casar“, evitei contato físico e fui logo falando:
- Hoje não aceitarei o famoso trio de beijos para casar porque o Ministério da Saúde proibiu o contato físico como forma de combater a Influenza H1N1.
Assim, ela apenas me deu um sorriso e eu abri uma gargalhada por dentro. Afinal, me livrei da atitude mais Espírito de Porco existente sob a face da Terra: “três beijinhos pra casar“.
Luciana do Rocio Mallon