domingo, 17 de maio de 2009

As quatro linhas como última fronteira





Elas estavam indo bem, ganhando o jogo, até que tiveram a ingênua ideia de que, para vencer, precisavam imitar o adversário. Foi assim que se iniciou o processo de masculinização da mulher. Vestiram então um tailleur para imitar o terno, e saíram pelo muno engrossando a voz e fumando charuto para mostrar “eu também posso”. Nem se deram conta de que, em um mundo todo errado (não coincidentemente liderado por homens), estavam entrando na contramão da evolução. Acreditar que é preciso mimetizar o oponente para ser bem sucedido em uma batalha é o mesmo que um homem de Neanderthal acreditar que precisa andar de quatro para enfrentar um mamute. Mas, por uma lógica coletiva infeliz, este foi o caminho trilhado, e chegou-se assim à última fronteira do remedeio combativo: as quatro linhas, o campo de futebol. Se antes havia repulsa, hoje o jogo da marmanjada é compartilhado, virando motivo de confraternizações sociais e até de “disputas” entre marido e mulher sobre qual é o melhor time. A velha imagem do homem bebendo cerveja no sofá enquanto a mulher toma conta dos filhos e do jantar já é quase uma cena do passado, tão anacrônica quanto aquele postal do seu avô que exibe os cavalheiros no bonde, elegantes com seus cabelos a escovinha e outras vaidades de artigos de toucador.

Não que mulheres torcendo seja uma bobagem sem tamanho: o fato é que qualquer ser humano torcendo é uma bobagem sem tamanho. OK, temos momentos em que esse ritual toma ares de patriotismo e respeitamos nossos atletas como heróis, como nossos embaixadores em um embate pacífico, o que é ótimo. Mas perder 90 minutos preciosos da vida se remoendo na frente de um aparelho de TV para que um grupo, formado por pessoas que você não conhece e que não conhecem você, coloquem uma esfera de couro recheada de ar dentro de um espaço retangular de 2,44m x 7,32m beira o patético.

Se o raciocínio soa exagerado, vamos não a dez mas sim a 11 motivos (para casar com o tema) que demonstram o quanto torcer é um retrocesso no campo feminino e uma tolice desmedida para qualquer um dos sexos:

1) Torcedor é...
Alguém que quer se sentir vitorioso não fazendo nada, apenas torcendo para que alguém faça por ele. Faça-me o favor, é o máximo da humilhação você delegar a outrem a responsabilidade de fazer conquistas e assim elevar sua auto-estima. Em termos nada polidos, podemos fazer valer o dito de que é o mesmo que "gozar com o pau alheio". Quando não temos do que nos orgulhar em nossos atributos naturais ou construídos, passamos a ter de nos abraçar a motivos externos: a cidade em que moramos, nossa linhagem familiar, nossa tradição étnica e... o time pelo qual torcemos. Certa vez, ao ser indagado sobre o que faria para recuperar o orgulho de ser alemão, o premier Gerhard Schroeder simplesmente respondeu: “ninguém tem de ter orgulho de ser alemão. Temos de ter orgulho daquilo que construímos e conquistamos e não daquilo que ganhamos de graça”. Gol de Schroeder.


2) Vencedor sem mérito. Aliás, “vencedor”?
Ser torcedor é isso, é ter orgulho de algo pelo qual não há mérito algum. Nada. Zero. A pessoa vê seu time ganhar um campeonato e sai pela rua vestindo uma camisa ou faixa de campeão. Mas campeão de que? A criatura não pegou numa bola, não pisou no campo um segundo sequer e nem ao menos entrou em forma (pelo contrário, deixou crescer o barrigão tomando cerveja enquanto berrava contra as 500g a mais do Ronaldinho). Daí, o torcedor ou torcedora irá alegar que seu esforço, somado ao de inúmeros “irmãos” da nação rubronegra-alviverde-colorada-ou-sei-lá-das-quantas, é que impulsiona o time à vitória. O engraçado é que as mesmas pessoas que jogam este argumento são as que não se empenham em votar bem nas eleições, porque dizem que seu voto sozinho não fará a menor diferença.

3) Vitaminando o extremismo
Hooligans, manchas verdes, gaviões e congêneres espalhados mundo afora tem a convicção de que você, cidadão ou cidadã, que não gosta do time deles é ou um imbecil ou uma ameaça. Então pau pra cima de você. Claro, quem mandou escolher o time errado. O mais absurdo é a divisão que as rivalidades promovem nas cidades e comunidades, fazendo com que dois vizinhos de condomínio se achem rivais só porque estão em lados opostos nas arquibancadas. Um segregacionismo estúpido que semanalmente leva aos noticiários manchetes de morte e mutilação, às vezes até mesmo em família. Talvez você não se identifique com esta faceta intolerante, mas se você alguma vez já chorou ou ficou de mau humor porque seu time sucumbiu a um oponente, cuidado, o vírus do extremismo pode estar em você, mesmo que em doses aparentemente administráveis.

4) Desvirtuando a atenção daquilo que realmente merece atenção
Divórcios, faltas ao emprego e endividamentos são recorrentes na vida dos fanáticos. Mas mesmo quem não encontra-se em estágio patológico tem um sério problema ao ficar torcendo em frente à TV ou em um estádio. Porque poderia estar lendo um livro e se aculturando, frequentando algum curso, passeando com a família em um parque ou, enfim, exercitando qualquer outra atividade mais construtiva do que berrar palavrões para alguém que nem os ouvirá. O mais ridículo: poderia estar praticando um esporte e ficando tão saudável quanto aqueles homens e mulheres lá das quatro linhas. Ao contrário do esporte, torcer costuma fazer mal à saúde. Além de gerar gastos de dinheiro e energia que são falsamente recompensados quando o time ganha (o que, em campeonatos, é uma possibilidade bem mais remota que a derrota).

5) Vítimas do merchandising
Tomar Brahma porque o Ronaldinho é garoto propaganda não faz muito sentido, principalmente porque sabidamente atletas são proibidos de consumir álcool e outras porcarias. Mas o incrível é que a receita incoerente dá certo. Isso porque o torcedor e a torcedora são pessoas que quase nunca têm opinião própria. Afinal, se tivessem, procurariam no mínimo repensar o motivo de se empenharem tanto em nome de um clube de futebol do qual não são acionistas. Aliás, do qual na grande maioria das vezes nem freqüentam como associados. Torcedor cria simpatia por um produto só porque seu logotipo está estampado na camisa de seu time, não importa se é de uma marca leite que foi vendido contaminado com água sanitária para milhares de crianças. É como diz uma velha canção da Plebe Rude: “cale a boca e consuma”, no caso, merecendo aqui um remendo: “cale a boca, torça e consuma”.

6) Mercenários sem bandeira
O que faz uma pessoa torcer por um time se os seus quadros, tanto de atletas quanto de dirigentes, mudam quase que por completo no espaço de tempo inferior a uma década? Ou seja, o time pelo qual se começou a torcer na infância não tem absolutamente nada a ver com o que se torce na adolescência, e certamente será outro totalmente distinto quando se chegar à idade adulta. Jogadores, seus agentes e os dirigentes estão só interessados em cifras, e mudam de camisa sempre que surge a melhor oferta. Enquanto isso, os fiéis torcedores se matam em nome de um brasão, porque afinal é sempre apenas isso que resta de um time: seu símbolo. Nem mais há a relação de identidade, de perceber ali no time os seus pares, por uma questão regional que seja. O time do Atlético Paranaense que sagrou-se campeão brasileiro tinha como artilheiro Alex MINEIRO. Já seu arqui-rival, o Coritiba, tem como grande goleador Marcelinho PARAÍBA. Tem por enquanto, já que quando surgir oferta melhor, lá sairá ele pelo mundo, provavelmente marcando gols em cima do próprio Coritiba. Para ódio dos mesmos torcedores que hoje o idolatram.

7) Admirando acéfalos
Amar de paixão homens truculentos e ignorantes é realmente um hobby dos mais ilógicos. Todos conhecemos um sem número de frases imbecis e entrevistas embaraçosas que saíram da boca de jogadores de futebol. Também vemos diariamente episódios de violência em campo e fora dele que comprovam o quanto os astros das quatro linhas carecem de compostura. Agora, admirá-los só porque têm habilidade com uma bola, é desconsiderar todo o componente humano que os embala. E sempre vemos recepções acaloradas nos aeroportos, com torcedores dando as boas-vindas quando os dirigentes adquirem um atleta que marca gols mas bate na mãe e faz faltas graves nos oponentes. Se é para admirar alguém, que seja alguém mais inteligente e mais gentil do que eu. O contrário seria me rebaixar perante minhas próprias referências pessoais, seria me desqualificar por conta de meus ídolos, seria acreditar que a habilidade com os pés é superior à exercida com o cérebro.

8) Todo time se acha
Você já viu um time que se diz derrotado? Ou cujo hino fala dos infortúnios do passado? Não, todo time se acha o suprasumo do brio, vigor e vocação para a vitória. Sendo assim, é muito fácil ser torcedor. Você sempre estará entre vitoriosos natos. É claro que geralmente as pessoas preferem escolher aquelas bandeiras que ostentam o maior número de títulos, daí o motivo de Flamengo e Corinthians serem os que mais somam torcedores em nosso Brasilzão. E aí ocorre um processo de transferência: se o hino diz que o time é o bam-bam-bam, eu, que torço por ele, lógico, sou tão bam-bam-bam quanto. A modéstia não é o forte nos times de futebol. Nem nos torcedores. Por incrível que pareça, torcer faz bem para o ego. Mesmo sendo um falso ego.

9) Martírio sem sentido
Faz sentido sofrer e se desesperar por alguém que não terá a menor intervenção na minha vida? Aliás, que não exercerá qualquer mudança na vida de qualquer pessoa que não sejam os atletas, os dirigentes e seus familiares? Torcedor tem de ser um sadomasoquista em potencial. Alguém que trepudia em cima dos amigos quando seu time vence o deles, e que se submete a entrar em depressão quando acontece o contrário. E dificilmente se tocam do factóide que é esta situação: que aquela derrota na final da Libertadores não fará a menor diferença em seu ambiente social e doméstico. Também, quando ocorre a vitória, não haverá aumento de salário ou o ganho de um pacote de férias para a Europa, o que significa que a histeria movida pelo campeonato é uma ilusão de dimensões gigantescas gerada apenas por uma questão de fanatismo. Mas, como diria Rita Lee: “não adianta chamar quando alguém está perdido procurando se encontrar”.

10) Identidade zero
A pergunta é: torcer pra que? Que motivo leva uma pessoa a olhar para uma flâmula e beijá-la como se tivesse sido parido por ela? Em mais de 90% dos casos a resposta é um argumento de desconcertante imbecilidade: “porque meu time é raça!”, “isso não se explica, é coisa daqui ó, do coração”, e por aí vai. Não continuemos porque é de deixar ruborizado. Enfim, o sujeito ou sujeita passa a vida acreditando que seu "amor" fará alguma diferença na vida daquela bandeira e vice-versa. Mas pior ainda é a criatura que torce para o time dos outros, ou melhor, de outro estado ou país. A pessoa nunca pisou no Rio de Janeiro mas é Vasco roxo, nunca esteve nos pampas mas é Inter até a alma. É o cúmulo da falta de identidade e da prostituição territorial. Não que vivamos em guerra com vizinhos, mas se é para eleger alguém por quem eu vou me esgoelar, que seja ao menos alguém de dentro de casa.

11) Deixa-se de se torcer para quem realmente merece torcida
A pessoa muitas vezes não dá atenção ao filho porque está no começo do segundo tempo, enquanto que o menino está lá na beira da mesinha de centro, precisando de um apoio para a lição de casa do dia seguinte. A esposa ou esposo quer orientação em uma decisão importante, mas a criatura não pode agora, precisa combinar com os amigos a lista de petiscos para logo mais na transmissão das semi-finais no pay-per-view da casa do Zeca. A família quer combinar o aniversário de alguém importante, mas daí lembra que um dos principais convidados estará viajando para assistir a um jogo das quartas de final em outro estado. É ridículo, mas essas situações são recorrentes. Ficam de lado as pessoas e causas relevantes, em nome de uma paixão absolutamente inexplicável e infrutífera. As mulheres poderão reclamar que preferem hoje estar dividindo espaço com seus maridos nos estádios a ficar em casa cuidando dos rebentos e da limpeza do lar, só que qualquer ser humano minimamente coerente preferirá zelar pelo ambiente familiar a se empenhar por torcer por quem é de fora. Todos temos primos viciados, irmãos em crise financeira, casais de amigos se separando e cunhadas desempregadas, mas acabamos nos dedicando menos a eles do que a um bando de marmanjos e marmanjas que nada têm a ver com nossas vidas. Se é para torcer, que ao menos seja por quem merece, precisa e está em nosso real campo de influência.

De mais a mais, para as mulheres que ainda não se convenceram da bobajarada que é torcer para um time de futebol, é bom que saibam que, para os homens, a adesão do gênero feminino representa apenas mais lucro nas bilheterias dos estádios e nas lojas de produtos temáticos, além de ser um contingente de gostosas que irá deixar as arquibancadas mais aprazíveis. O deboche quanto a mulher não entender de futebol acabou, afinal o desempenho superior da seleção feminina, em comparação à masculina, fez cair por terra as brincadeirinhas quanto à falta de compreensão das moças neste esporte. Mas, sempre que possível, se tira uma casquinha, haja vista a situação de uma bandeirinha incompetente que acabou sendo despida para virar objeto de masturbação nas páginas de Playboy. Interessante notar que as feministas de plantão se apressam em queimar sutiãs, mas nenhuma fez qualquer crítica a uma revista masculina demonstrar em público que mulher no futebol merece ser objeto do desejo mesmo quando numa das posições mais sérias das quatro linhas.

Infelizmente, a sina de torcedor (nossa tal "vocação para plateia" tão lamentada pela Denise Stoklos) é uma maldição típica do brasileiro. Somos um povo com auto-imagem de cucaracha, de guapeca. Sendo assim, temos no futebol uma das raras oportunidades de nos sobrepor ao resto do mundo. Como nossos méritos são nanicos, nossos times oferecem a chance da revanche. A vingança do pipoqueiro em escala descomunal, com estádios lotados e bilhões em cifras. Motivos suficientes para nenhuma emissora de rádio ou TV fazer qualquer crítica à alienação que o hábito de torcer significa. E é um mercado resistente a crises ou turbulências: quem não se lembra dos momentos críticos dos governos militares, em que vencíamos a Copa do Mundo enquanto os verdadeiros heróis da nação morriam anônimos e torturados nos porões da ditadura?

E, só pra encerrar, ao invés de torcer, mesmo que seja por um colega de trabalho que batalha por uma promoção, tiremos a bunda da poltrona e façamos algo para que as coisas aconteçam. Porque o mundo já está cheio de gente omissa que coloca na mão dos outros o próprio direito inalienável de ser feliz e de fazer os outros felizes. Não torça, faça.


Mario Lopes

8 comentários:

* Cá * disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
* Cá * disse...

Eeeeeeei, peraí! Pára tudo!
Ô Mário, vc tá generalizando meu... rs
Que aversão toda é essa? E que história é essa de que nós torcedores somos patéticos? Ou dizer que torcer é sinônimo de falta de identidade? Nunca imaginei ouvir (ou melhor, ler) isso de vc... rs
Eu mesma...
... sou corinthiana (e com muito orgulho), não sou fanática (mas quase) e tenho personalidade e opinião próprias. ;-)
Então, muita calmaaaaaa nessa hora!
Beijos!

Anônimo disse...

Cá, não generalizei, não. Nunca generalizo. Mas não preciso abrir meus textos escrevendo "na grande maioria dos casos é assim (mas não em todos)" porque acho que isso deveria estar subentendido. Essa aversão vem desde muito cedo, quando eu via meu irmão e os meus amigos torcendo pelo Flamengo sem nunca ter sequer pisando na areia de uma praia, quanto mais numa carioca. Era e é claro que isso não faz o menor sentido. Claro que me incomodava os caras se fazendo de superiores só porque gostavam de um brasão que ganhava títulos sem que eles fizessem absolutamente nada. Não disse que torcedores são patéticos, mas que a atitude de torcer o é. E é mesmo. Eu dei 11 argumentos mostrando o quanto. Identidade é você ter singularidade própria e não se apropriar da identidade alheia. Que orgulho você tem de ser corinthiana? O que você fez no time além de berrar nos jogos? E o que na sua relação com seu time você observa como manifestação de personalidade e opinião própria? Torcer para o mesmo time de milhões de pessoas é exemplo de personalidade e opinião própria?
Enfim, não entendi. Se puder explicar melhor, agradeço.
Beijo, Cá.

Mario

Julianna disse...

Ai, eu gostei!! ^^

Anônimo disse...

Obrigado, Julianna. Só que tenho certeza que você é uma das poucas (pouquíssimas) pessoas que gostaram do texto. rsrsrs
Beijo.

Mario

Anônimo disse...

Parece que fui eu que escrevi o texto. Concordo plenamente.

Adorei o texto.

Ariam Quejaneli

Anônimo disse...

Parece que fui eu que escrevi o texto. Concordo plenamente.

Adorei!

Ariam Quejaneli

Anônimo disse...

Que ótimo, Ariam. Se quiser escrever outro texto complementando, por favor, me envie para que possamos publicar no blog: marioaugustolopes@hotmail.com
Beijo.

Mario