sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Vício De Um Ex-Cidadão Comum


João José da Silva. Típico cidadão brasileiro. Aliás, típico até demais. Exagerava na pobreza e na ignorância. Não tinha nada, mas sempre dava um jeitinho pra tudo. A comida já faltara à mesa, mas a fome dificilmente chegava à barriga, ou à consciência, como diriam alguns. Era menino, só 14 anos, mas já trabalhava como um de 25. Nasceu sem pai, e praticamente sem mãe. Podia contar nos dedos quantas vezes a via por ano. Mas tinha irmãos. Alguns vários irmãos. Uns de sangue, outros da vida, mais um outro tanto que nem Deus seria capaz de dizer da onde viam. Mas eram todos irmãos. Todos pobres. Magros. Famintos. Cheirando a doença, falta de banho, cupim, casa de lego.
João José trabalhava muito. Batia cartão, mas não abria mão dos bicos. Se não estava dormindo, estava trabalhando. Vida dura.
João José era feliz entre as próprias lágrimas, mas dos irmãos só admitia o sorriso. Se via um olho mais caído, com um brilho estranho, tratava logo de contar uma piada ou rezar um credo. Sua voz tinha timbre de esperança. Curava mau humor, curava tristeza. Curava até o que não tem cura. Mas não curava doença. “Curador da carne é Deus“, João José falava quando passava em frente a um hospital. E dormia tranqüilo.
Um dia, o irmão Paulo acordou indisposto. Não sabia dizer o que era, nem João José. Não era coisa de se curar com palavra, nem com abraço ou consolo. Era coisa de Deus.
Mas a fé de João era realista. Ele sabia que Deus, aqui na Terra, custava dinheiro, e que dinheiro custava trabalho.
João saiu da cidadezinha, e foi atrás de Deus.
Chegando na cidade grande, João José se sentiu João. Da Silva. Típico e ignorante. E mudou a reza.
Se não dormia, trabalhava ou estudava. Se estudava, pensava em outro trabalho. Quando estava no outro trabalho, pensava nos estudos para o trabalho da cura de Deus.
João queria crescer. E cresceu. Em apenas um ano, João saiu da casinha da cidadezinha, foi para casa da cidade e finalmente, pro escritório da Multinacional.
João trabalhava, trabalhava, trabalhava e já não havia lágrimas para derramar. Mas também não tinha tempo para pensar nisso. Pensava em Paulo e na sua cura.
Há tempos não telefonava para ele. Cada ligação para a cidadezinha durava 5 minutos. Cada página para a Multinacional, 15. O dia era curto. Dinheiro. Cura..
Paulo doente. Pilhas de papel na mesa. Três zeros à direita no extrato. Não bastava. Trabalho. Paulo.
Deus custa caro...


Letícia Mueller

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Isso não tem nada a ver com você?


Roberto e Rebeca sentados no sofá da sala, debaixo do cobertor. Ambos com o laptop em mãos, preparando suas respectivas apresentações para o dia seguinte:
- Me ama nada.. só pensa em você!
- Amor, eu te amo sim. Mais do que consigo explicar, só isso.
- Mentira! Só consegue dar atenção ao que tua chefe te fala. Putz, não acerto essa margem.
- Claro que não, linda. Você não tá entendendo.
- Ah sim, porque só tua chefe entende, né? Eu sou burra.
- Eu não disse isso. Você viu como a cotação da bolsa oscilou hoje?
- O funcionário mais inteligente, o mais dedicado, o que melhor traz soluções ao ambiente corporativo.
- Isso eu sou mesmo. Sem falsa modéstia. Mas é por nós. Pelos nossos planos.
- Por nós quem, cara pálida? Só se for por ti e por aquela tua... chefe.
- Tá preocupada com meu excesso de trabalho ou tá com ciúmes da minha chefe, Rebeca? Pega aquele balancete ali pra mim?
- Eu, ciúmes? Hahahaha. Até parece. Só porque ela passa mais tempo com você do que eu, chegou a gerência antes de mim, é mais... alta que eu? Ascensão meteórica é pra quem trabalha na horizontal meu amor, isso que eu acho. Com quantas linhas você finalizou o relatório?
- Ixi, tô vendo que isso vai longe... quinze linhas.
- Longe sim, longe de mim e perto dela.
- Eu estou preocupado em construir um futuro pra nós.
- E eu em o que vou fazer com o nosso presente. Não temos um jantar há quanto tempo?
- Imagina, fomos jantar semana passada.
- Com tua chefe junto, Roberto. Era um jantar de negócios e eu só fui porque ela queria saber quem era a “segunda prioridade na sua vida”. Segunda Roberto!! Eu quase dei na cara dela quando ouvi isso.
- Ela não quis ofender. É que ela só tem a visão do seu maridinho no trabalho, amor. Acha que eu vivo pra isso. Mas não vivo Rebeca e você sabe. Vamos mudar de assunto?
- Eu sei? Mudar de assunto? Por que quer mudar de assunto? Quer dizer que falar de trabalho só se for com ela não é? Eu não consigo acompanhar teu raciocínio, é isso?
- Rebeca pelo amor que você tem nos teus Prada, para vai. E de mais a mais, tá falando o que? Pensa que eu não sei que aquele teu chefe fica querendo te “ensinar” tudo o que ele sabe? Eu poderia fazer um trabalho muito melhor que o dele.
- Não inverta as coisas, querido. Sabe muito bem que ela suga você... ou melhor, você se deixa ser sugado porque teu ego é maior que teu amor por mim.
- Onde foi que eu errei?
- Acha que está errando comigo então porque não muda?
- Errei esse último cálculo, vou ter que refazer.
- Robertoooo... não acreditoooo !
- O que? Desculpa amorzinho, fala coração.
- Como é que pode errar um cálculo tão simples? Juros simples, meuu.. Deixa que eu termino isso pra você vai.
- É por isso que eu amo essa minha mulherzinha linda.
- Espera Ro, deixa eu fazer a conta... Rsss
- Conta nada.. vem aqui vai!
- Oops! Acho que vamos ter que começar tudo de novo...

Angelica Carvalho

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Tuany, a Artista Trabalhadora e Sua Lua-de-Mel


Tuany era uma jovem artista perfeita, pois era: cantora, atriz, dançarina, escritora, blogueira e a principal comerciante de sua grife de roupas. Além disto, hasteava a bandeira da virgindade afirmando, para a mídia, que só teria relações íntimas depois do casamento. Aos vinte e sete anos de vida, ela casou-se com o cantor e compositor Zenito, da mesma idade, bem no feriado do dia primeiro de maio.
Depois da cerimônia religiosa e da festa, os dois foram passar a lua-de-mel em um hotel famoso na cidade de Paris. Mas ao entrar no quarto Tuany exclamou:
- Preciso abrir meu computador portátil e contar tudo para meus fãs no blog!
O marido da artista fez um ar de companheiro compreensivo e não reclamou.
Então a moça passou três horas em frente do computador escrevendo textos sobre a cerimônia e conversando com os fãs.
Quando ela fechou o aparelho falou ao esposo:
- Agora preciso ligar para a gerente geral da minha grife para ver como estão os negócios.
Assim a jovem passou duas horas falando da empresa com a sua empregada. Após isto Tuany recebeu um telefonema da sua principal produtora de eventos e saiu correndo sem dar explicações ao marido.
Deste jeito Zenito bebeu vários copos de wisky no quarto do hotel, pegou o violão e escreveu a seguinte letra de música:
“-Vejam que coisa mais triste e cruel:
Ela me abandonou na lua-de-mel!
Tudo por causa do seu trabalho...
Não se me suicido ou ralho...
Com a minha linda, se ela voltar...
Talvez ela vá embora com o luar!
Se isto acontecer será meu fim...
Não mereço morrer assim.”
Depois de escrever este texto com caneta Bic numa folha de papel sulfite, o cantor resolveu passear perto da piscina do hotel. Então o pobre escorregou, caiu dentro da água e como não sabia nadar afogou-se.
Uma funcionária do estabelecimento notou que havia algo estranho na piscina e pediu ajuda. Porém quando a ambulância chegou Zenito já estava morto. A polícia investigou o quarto e achou a letra de música com a grafia do rapaz. Desta maneira as pessoas pensaram que o moço suicidou-se porque foi abandonado em plena lua-de-mel pela própria esposa, que foi tratar de negócios. Logo a fofoca espalhou-se pelo ar. Então, Tuany ao pensar que os fofoqueiros estavam certos, ficou maluca e foi internada num hospital psiquiátrico.





Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 27 de abril de 2010

Trabalhe Mais Pela Sua Vida


Tem pessoas e pessoas nesse mundo. Tem um mundo diferente para cada tipo de gente. Existe gente viciada jogo, dinheiro, sexo, drogas, fama, e por ai vai. Mas à vezes me pergunto...até quando isso é ruim?Ser viciado em algo que se gosta, pode ter suas vantagens. Por exemplo, ser viciado em sexo. A pessoa viciada nisso pode ser alguém mais feliz, menos ranzinza e ainda de quebra sempre fará o parceiro bem. Por outro lado, há o problema do vício: quando ele faz mal para si e para os outros.

Qualquer coisa que é demais ou de menos pode ser problemático. Solução?Tentarmos viver sempre em equilíbrio com nossas ações, sem prejudicar os outros ou a si mesmo (a menos que seja sado masoquista). Quando nossas ações viram doenças podemos não ter culpa, mas temos que buscar ajuda. Para quem é viciado em trabalho, é a mesma coisa. Ou o cara surta e surta os outros ou fica completamente sozinho. E aí que mora perigo: é achar que viver neste mundo sozinho e viver para si mesmo é realmente a coisa mais certa a se fazer. Não importa quem, todos nós temos relações pessoais, sejam amorosas, familiares ou de amizades. Mas aquelas pessoas que vivem para o trabalho, acabam se privando de viver outras coisas na vida.

Viram aqueles “nerds”, pessoas “abitoladas”. Eu fico pensando...o que estas pessoas tem na cabeça além de compromissos?E a família?E o amor?E os amigos?E o lazer?E o sexo?Será que o trabalho é realmente mais importante ou melhor que tudo isso?Penso que não. Mas se a pessoa já possui uma namorada ou é casado, por exemplo, e mesmo assim só pensa nos pepinos do trabalho, sugiro algumas medidas (se você for um deles, vale a pena ler!):

1- Pelo menos uma vez ao dia liguei para sua parceira (o) e digo o quanto ama ela/ele. Isto não tomará nem 10 segundos das 8 horas ou mais que irá ter para trabalhar

2- Ao invés de Te Amo, que é importante, também liguei para ela/ele na hora do almoço (sim você tem hora de almoço) e diga as coisas que quer fazer com ela/ele quando chegar em casa

3- Se puder, antecipe esta conversa no trabalho mesmo (brinque, afinal, no teu trabalho tem algum banheiro né?)

4- Mande e-mails ou mensagens para sua companheira (o) falando as coisas que não deram tempo de falar ao telefone ou fazer no banheiro

5- Se levar trabalho para casa, tire horas para relaxar, respire fundo e dê uma volta. Afinal, ao fazer isso estará oxigenando sangue para o cérebro e pensará melhor depois (fora que pode dar um amasso rapidinho).

6- Tudo bem, você ama seu trabalho e não se imaginou fazendo nenhuma destas opções!Mas espere para ver quando entrar na sua sala em plena hora do almoço e sua mulher ou seu homem estiver lá. Aí, só pensa em trabalho se for muito burro mesmo!

Se for viciado, seja apenas em uma única coisa: viver!



Bianca Nascimento

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tema da semana: Os Workaholics também amam (mas levam o patrão na lua de mel)

Na Cama Com Dr. Germano

Se tu és aquele tipo de pessoa que esquece os aniversários da família, os happy hours com os amigos, nomes de pessoas, passa muito mais tempo no trabalho do que o necessário, responde emails do Black Berry até na hora de fazer xixi, e principalmente, continua pensando em trabalho quando vai dormir, bem-vindo ao time: tu és um workaholic.
Workaholic é a pessoa que faz do seu trabalho a razão da sua existência, inclusive nos finais de semana, e sente prazer por isso. É a pessoa que abdica dos momentos de lazer com a família e amigos, ou os interrompe, para checar emails no notebook ou fazer uma ligação importante, sem se dar conta do prejuízo que isso causa à sua vida pessoal.
Existem estudos psicológicos que comparam o vício em trabalho ao vício em drogas, mostrando a insônia, instabilidade de humor, falha na memória, enxaqueca, variação na pressão arterial e depressão, como efeitos colaterais. Trabalhar demais muitas vezes pode ser uma fuga ou uma indicação de que há algo muito maior dentro da gente, que não está andando como deveria.
Tenho uma amiga totalmente workaholic que deixou um relacionamento sério ir por água abaixo, por causa de processos, iniciais, reuniões com o chefe e clientes.
O namoro já não ia bem há alguns meses, desde que ela assumiu o cargo de advogada principal em um escritório de advocacia super importante aqui na cidade. Ela trabalhava até altas horas da noite, estava sempre cansada, passava finais de semana grudada em processos extensos e nunca tinha tempo para a família e o namorado.
O sujeito no início foi compreensivo, entendeu que a namorada estava investindo na sua carreira e que era um momento único, mas com o tempo foi se sentindo abandonado, excluído e meio perdido, porque nunca sabia se podia contar com ela nos finais de semana, ou se podia combinar alguma coisa com os amigos.
Um belo dia, como não poderia deixar de ser, eles tiveram uma briga feia e o cara queria terminar o namoro, não queria mais papo, de jeito nenhum. Minha amiga pediu mais uma chance para provar que poderia mudar e ser uma namorada melhor.
Combinaram então, de tirar um final de semana prolongado em Gramado, cidade muito charmosa da região serrana aqui do Rio Grande do Sul. Era inverno, o clima inspirava lareira, vinho, fondue, edredom e noites românticas... Escolheram uma Pousada super charmosa, que, aliás, fui eu que indiquei a eles.
O acordo seria saírem quinta no final da tarde e voltarem segunda pela manhã.
Já na saída, minha amiga deu a mancadinha básica dela: não saía nunca do escritório e deixou o namorado esperando mais de três horas. A justificativa foi que estava resolvendo todas as pendências, para que pudesse se desligar por completo do trabalho durante o final de semana.
Ok, vamos lá...
Tiveram a sorte, pois Deus os presenteou com um final de semana ensolarado e frio, ótimo para curtir os pontos turísticos da cidade.
Ele, o bendito namorado, me contou que tiveram momentos ótimos: compraram malhas, jantaram em um restaurante que serve um fondue m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, tomaram café colonial, dormiram “de conchinha” com a lareira acesa, estas coisas gostosas de fazer a dois.
Estavam curtindo a última noite na cama com um vinho que inspirava uma noite de sexo caliente, até que minha amiga tinha que dar o ar da graça: no meio do rala e rola, quando o cara estava falando coisinhas picantes no ouvido dela, ela largou: “Meu Deus, esqueci da inicial do Roberto! Tenho que entregar amanhã, senão, o Dr. Germano me mata!”. Desvencilhou-se do namorado, pulou da cama, pegou no notebook e começou a trabalhar.
O namorado, que já tinha exercido que chegue a paciência e a tolerância yogue dele, arrumou suas coisas e foi embora. Deixou-a lá, terminando a inicial do Roberto, que tinha que ser entregue na segunda-feira, ao Dr. Germano.


Karime Abrão

domingo, 25 de abril de 2010

Traz O Mau Humor


É inevitável, desagradável, insuportável
O dia fica escuro, desanimado, molhado
Que preguiça, que trânsito, que sono

Mais carros na rua, mais luzes acesas
O medo que pingue, receio que tudo caia
Transborda, paralisa, preocupa

Olho pra fora e não consigo nem sorrir
As caras fechadas, exaustas, aborrecidas
O tempo fechado, indisposto, insosso

Eu sei, é natureza, é necessária
Como tudo nessa vida
Até lado bom tem

Vontade de ficar em casa
Assitir filme, comer pipoca
Abraçar, beijar... descansar

Tomar um bom vinho
Fazer um jantarzinho
Aproveitar o escurinho

Junto com o barulhinho
Da chuva...


Liliana Darolt

sábado, 24 de abril de 2010

Não Dá!


Essa semana li um artigo da Danuza Leão, não me recordo o título agora, mas é muito interessante para nós mulheres. Concordo plenamente com o texto e exponho meu pensamento mesmo parecendo um desabafo.
Em linhas gerais Danuza Leão fala da incapacidade de nós mulheres conseguir ser boas mães, boas companheiras e boas profissionais ao mesmo tempo, e essa é a mais pura realidade. Não somos capazes, não conseguimos, não existem meios físicos que nos permitam!
Ora, a própria autora fala e tenho certeza que muitas de nós concordamos, não existem meios para que estejamos com a aparência impecável em nosso trabalho tendo que levar criança para escola e se preocupar com seu desempenho escolar tendo que viajar a trabalho, participar de cursos, feiras, congressos seja lá o que for. Não conseguimos estar sedutora com a última coleção da Victoria Secrets no corpinho em um jantar a luz de velas com o namorado, marido, noivo, amante, quando temos metas e prazos para cumprir no trabalho ou temos que angariar, manter, dispensar clientes, em pleno final de semana.
Não podemos nos dedicar a maternidade em pleno 2010 se não somos criadas em berço de ouro e vivemos para o casamento, as mulheres de hoje em sua maioria batalham juntamente com seus companheiros, isso quando existe um companheiro, o importante é que batalham e muitas vezes nem mesmo é para torrar o salário em uma Louis Vuitton é para garantir o pão de cada dia mesmo!
É-nos humanamente impossível ser sozinha a super-mãe, a super-namorada, a super-profissional! Não dá, não conseguimos.
Já é o bastante carregar uma barriga por nove meses sofrer com alterações de pressão, de peso, de humor, sozinhas e ouvindo palpite de todo mundo. Já é o bastante sair da faculdade fazer mestrado, doutorado, MBA, aperfeiçoamento e todos os outros 21.712.487 cursos que o mercado de trabalho nos cobra para que consigamos ter um trabalho pelo menos digno. Já é o bastante manter um relacionamento, conhecer a pessoa, engolir sapos de inicio de namoro, conhecer a família e rir das piadinhas idiotas dos tios chatos no domingo e depois ainda conviver com as carências ou com as inseguranças masculinas, sim porque pode não parecer, mas elas existem, e por vezes eu chego a pensar que são maiores que as nossas em alguns casos.
Sem contar que para tudo isso nos é necessário, tempo para se dedicar ao filho, para estudar, para fazer aquele programinha no meio da semana com o companheiro. Dinheiro para colocar o filho no inglês, na natação, no balé. Dinheiro para fazer o nosso inglês, dinheiro para fazer cursos, dinheiro para comprar a lingerie da Victoria Secrets, para o jantarzinho a luz de velas, para a viagem de fim de ano. Ânimo para rever a lição de casa, para participar daquele congresso cheio de pessoas chatas lá no caixa prego, para discutir a relação.
E de repente se por ventura nos tornamos tão potentes assim, com tanto tempo, dinheiro e ânimo, se pararmos para olhar, tudo isso acaba sendo em proveito do filho, do namorado, da futura aposentadoria ou do colégio das crianças e nos deparamos que somos também seres humanos e na verdade precisamos mesmo é de tempo, dinheiro e ânimo para serem gastos com nós mesmas, sem contar os amigos o circulo social que a essa altura já está além do buraco. Depois de tudo isso ainda tem gente que fala que mulher é sexo frágil...




Fernanda Bugai

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Jogo De Nicotina


Ela nada conhecia do amor além do que ouvia da boca das amigas e via nos filmes. Não entendia aquele furor, aquela melação, aquele desapego de si própria, aquela vontade de perder sua essência e ficar igual a da outra pessoa, que no fim, sempre se descobria que não prestava.
Flavia se negava a conhecer alguém mais a fundo, mas fazia questão de se divertir. Três noites era o seu limite. Durante esse período, ela deitava e rolava com seus amantes, mas nunca deixou que a relação ultrapassasse as barreiras do carnal. Três dias era o tempo necessário para que nenhuma regra fosse quebrada e ela não acabasse se apaixonando.
Em uma noite, enquanto aproveitava seu último terceiro dia com o seu amante provisório, Flavia conversava com um rapaz, amigo do homem amante, há mais de 2 horas e nem notava o tempo passar. Quando viu as horas no relógio, tirou as mãos do outro homem de seu colo, levantou-se e olhando diretamente para o rapaz, pediu que alguém lhe desse uma carona. Não esperou resposta. Pegou no braço de Vinicius, o seu desejado, fez com ele pagasse a conta e ainda abrisse a porta de seu carro para ela entrar. Foi para sua casa e fizeram mil e uma peripécias na cama. Deitaram e rolaram em cada canto da casa.
Depois de horas, ela deitada na cama, as mãos ao redor do pescoço de Vinicius, observava-o fumando. A boca carnuda que tragava e soltava a fumaça com masculinidade, as mãos que subiam e desciam, com o cigarro pendido no dedo... seria tudo encantador, não fosse ela ter olhado, acidentalmente, sem nenhuma curiosidade ou dúvida, a marca daquele cigarro.
- LM? Ué, não tinha dos bons?
Ele a olha de canto de olho, parecendo completamente disperso:
- Oi? Quer um?
Ele estende o braço para pegar uma carteira fechada de cigarros, mas ela o impede e com cara de desconfiada, responde:
- Não, não, eu tenho dos meus. Mas... você gosta de LM? Não tava faltando da sua marca, e aí você não quis gastar muita grana com uma marca muita cara, e acabou comprando LM... tipo como todo mundo que aparece com um cigarro desses na boca?
- Meu, fuma um aí.
Flavia deu uma risada debochada, mas pegou o tal do LM e se concentrou para tragar ao mesmo tempo em que tentava fazer uma cara hilária, de quem estava achando aquilo tudo uma grande piada.
Fumou até o fim, e quando acabou, só pra não perder a razão, deu uma tossidinha e falou que aquilo era cigarro de pedreiro.
Vinicius fingiu que não ouviu, mas olhou bem para a carteira de Lucky Strike dentro de sua bolsa e teve certeza do que aconteceria.
Nos próximos 3 dias, Flavia, sempre muito esperta, passou a inventar desculpas para fumar um dos cigarros de Vinicius, até que ele, já tendo percebido tudo, não perguntava mais e simplesmente colocava um cigarro dentro de sua boca.
Considerando que estava realmente contente com seu amante, Flavia achou que poderia multiplicar por alguns números o seu tempo limite de 3 dias e ficar com Vinicius por tempo indeterminado, até que cansasse dele.
E assim foi. Passearam, viajaram e fumaram muitos cigarros juntos. Alguns pouquíssimos Lucky Strikes, muitos tantos LM´s. Flavia se rendera a tal ponto que, se antes fumava apenas meia carteira por dia, hoje já passava da uma e meia. Sempre LM.
Vinicius, orgulhoso, não podia evitar a satisfação em ver a mulher que antes o criticara, estar aderindo aos seus hábitos. Olhava-a com o cigarro na boca, fechando os olhos, cruzando os braços, e aquelas duas letrinhas marcadas no filtro pareciam lhe dizer: Você venceu!
Convicto de sua vitória, Vinicius um dia apareceu em casa com outra mulher. Sem dar explicações, apenas olhou para a Flavia, e com toda a frieza do mundo, pediu que ela fosse educada e deixasse o casal em paz.
Flavia não chorou, não sentiu raiva, nem pena, nem nada. Nunca passou pela sua cabeça se vingar de Vinicius, e fazer algo realmente forte, como voltar a fumar Lucky Strike. Era fiel ao que gostava.
Ele que tratasse de converter mais uma... aquela tinha cara de Carlton Crema, ou seria L.A. cereja?











Letícia Mueller

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Razão e Sensibilidade


O Caos e o Equilíbrio se encontram em uma manhã quente de sol, daquelas em que você acorda suando e torcendo pra que não encontre ninguém ao seu lado, ninguém que te traga nenhuma pergunta para te atormentar.
Se misturam, tentando levantar da cama e colocando os chinelos fofos nos pés, mesmo estando de meias e ainda meio sonolentos e tropeçando nas coisas deixadas pelo caminho. Até o banheiro, quase se engalfinham para estabelecer quem entra primeiro. E assim que o decidem, param em frente ao espelho e se olham. O Caos mente pra si mesmo não se olhando muito, o Equilíbrio tenta se entender procurando imperfeições na sua face.
Pouco depois, abrem a ducha e se jogam debaixo da água escaldante na esperança de terem seus braços trêmulos curados. Tudo o que é quente, cura ou te traz a visão do real.
Ainda se batendo, lutam pela mesma toalha, que seca o excesso da atividade mental. Um, se envolve totalmente para que o frio não o apanhe e o outro, deixa alguns respingos no corpo para sentir a delicadeza da vida. De forma calma, olham-se novamente no espelho, procurando algo que não encontraram no momento do despertar. Ainda não vêem nada além de suas rugas, já conhecidas, e seu doce sorriso, já embalsamado.
Na cozinha preparam o desjejum que os alimentará para o dia, já que não sabem se haverá outra refeição. O Caos prefere as regalias do extremo, enquanto o Equilíbrio torna trazer o cardápio de ontem. A artimanha de cada um é perspicaz e solidária, não havendo o que tornar um melhor que o outro... são, apenas, o complemento um do outro.
O dia segue e então saem no mundo em busca do que os faça existir. Cada um com sua característica, tão visível para uns e tão inexata para tantos. Visões místicas de algo tão terreno... Materialmente, incisivos em sua opinião e espiritualmente, esplendidamente capazes de argumentar contra si mesmos.
Trabalham pela simples arte de estarem presentes e pela súbita emoção de serem o que são. Algo bastante ilusório e fugaz, ou não... talvez, contemplem o fato de que sem eles, nada aconteceria. O que vem a favor é concedido ao Caos como bênção, mas ao Equilíbrio como marasmo. O que lhes vem contra, ao Caos, transposição, ao Equilíbrio, redenção. Passam oito horas todos os dias engalfinhando-se entre as masmorras da decência e a liberdade das obscenidades. Mas o dia tem que acabar.
O Caos e o Equilíbrio precisam viver juntos, enfim. No fim da tarde, reencontram-se para os comentários do dia. Um dia tão atribulado e entupido de decisões que poderiam esperar ou de situações que teriam que ser resolvidas naquele momento, mas que vão esperar até amanhã porque entre o Caos e o Equilíbrio tudo tem que ter um tempo.
Nada melhor do que uma noite de sono.




Angelica Carvalho

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Kombi Com A Música Do Plantão Da Globo



Todos sabem que a música das notícias do plantão da Globo é de assustar : pois ela é um tipo de sinal de que algo ruim aconteceu no mundo e isto deixa qualquer pessoa tensa . Um certo dia , eu estava sossegada em casa , quando de repente escutei a música do plantão da Globo , em alto volume , lá fora . Então , com o coração na mão , liguei a televisão e estava passando um desenho animado . Mas , aquela melodia do terror continuava . Logo , notei que o som tenebroso vinha de uma Kombi , que estava passando na minha rua , com um alto – falante que anunciava um produto com esta música . Achei este tipo de marketing de muito mal gosto . Uma semana depois , eu estava estudando no escritório , quando , novamente , escutei a música do plantão da Globo . Então , pensei : - Será que houve mais uma Tsunami ? - Será que mais uma bomba explodiu no Iraque ? - Será que faleceu mais um artista querido ? - Qual a desgraça da vez ? Após pensar nestas coisas , liguei a televisão e tinha um filme de amor . Porém , aquela música se aproximava cada vez mais alta : era a mesma Kombi fazendo o comercial através de um alto falante . Então fiquei nervosa , abri a janela e xinguei a Kombi . Mas , o motorista nem escutou meus xingamentos . Dias depois descobri na Internet , que havia comunidades virtuais com os nomes : “ Tenho Medo do Plantão da Globo “ , “ A Música do Plantão da Globo Me Apavora “ e “ Odeio a Kombi com a Música do Plantão da Globo “ . Ao entrar nestes grupos virtuais notei que não era só na minha cidade que existiam Kombis marketeiras que usavam a música do plantão da Globo . Também percebi que as pessoas que escutaram esta melodia , também , ficaram com sentimentos iguais aos meus e não concordavam com o marketing da Kombi .


Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 20 de abril de 2010

Respostas


Por que não falar de amor?Se formos analisar, a gente vive e respira amor não importa como ele seja. Amamos coisas, relíquias, dinheiro, status, lugares, animais, pessoas. Fazemos algo, pois amamos fazer aquilo ou isso. Vivemos, pois temos esperança de um amor encontrar.

Por que não falar de morte?Vivemos a morte diariamente. Vemos ela no meio da rua, nos hospitais, nos jornais, n família. Nós vivemos ela, pois temos um medo constante da mesma. É por isso que nos cuidamos e cuidamos de quem nós amamos.

Por que não falar de dor?Sentimos esta palavra com tamanha precisão em nossos órgãos internos, em nossa pele, em nossos pensamentos e sentimentos. Vivemos para tentar nos livrar das tantas dores que temos.

Por que não falar se sexo? Vivemos para o sexo diariamente. Quando olhamos alguém do nosso sexo oposto, quando imaginamos tal alguém na cama, quando cobiçamos um corpo, quando desejamos o corpo de quem amamos. As pessoas negam falar de algo que já está embutido em nossos corpos e nossas mentes, pois os dois têm suas reações a tudo que está ligado a sexualidade.

Por que não falar de liberdade? Vivemos ela todos os dias, em nossos pensamentos, em nossos sonhos como sonhar em estar longe dali ou daqui, eu poder fazer isto ou aquilo. Vivemos a liberdade quando nos abdicamos algo só para fazer aquilo que queremos, ou cedemos um tempo para nós, colocar em práticas projetos e sonhos.

Fale o que quiser. Faça o que quiser. Se não machucar ninguém e nem a si mesmo, é porque está certo. A vida só continua, só tem sentido e existe quando nos permitimos. E para vivê-la, começamos respondendo os “porquês” que nos impede de sermos felizes.


Bianca Nascimento

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Semana de tema livre

A Super-Poderosa E O Super-Sem-Noção


- Chega! Prá mim, chega Fernando! Não vou ficar mais um minuto ouvindo estes absurdos.
Betina levantou-se da mesa onde jantava com o namorado e foi para o quarto. Bateu a porta, trancou-a por dentro, atirou-se na cama e começou a chorar.
Estava passando pelo momento mais feliz da sua vida: acabara de receber uma proposta irrecusável da empresa concorrente. Propuseram a ela ser gerente regional, com carta branca para fazer as modificações que achasse necessárias na filial.
A primeira coisa que fez, após receber a proposta do dono da empresa, foi ligar para seu namorado para contar-lhe a novidade. Esperava que ele a parabenizasse, que a convidasse para comemorarem a nova proposta, a nova oportunidade. Trabalhara há anos em uma empresa que não a valorizava e agora, estava transbordando de alegria que a concorrência a estava valorizando. A última coisa que precisava era de um namorado ciumento que dissesse:
- E como vou fazer quando tu fizeres tuas viagens para outro estado? Tu achas que vou ficar em casa esperando mulher minha voltar? Sabe-se lá o que tu vais fazer...
Discutiram muito, Betina ouviu acusações prá lá de levianas e resolveu ir embora da casa do namorado. No meio do caminho para casa, Fernando ligou para seu celular e terminou o relacionamento.
Neurose pura, insanidade total, Betina estava sem forças para dirigir.
Chegou em casa, subiu correndo as escadas para seu quarto e chamou o irmão para conversar, despejando todas as bobagens que ouviu do namorado, no ouvido do rapaz, que ferveu de raiva e tentou consolá-la.
Aos poucos, ele acalmou-a e colocou-a para dormir, mas duas horas depois, quando Betina já estava em sono profundo, seu celular tocou novamente. Era Fernando querendo saber como ela estava.
- Como eu estou? Estou no melhor momento da minha vida, com um namorado idiota e neurótico que me acusa de coisas insanas e termina o relacionamento, ao invés de pular de alegria e comemorar comigo. Quem muito acusa, é porque faz também, Fernando. Como tu queres que eu esteja me sentindo?
- Ah, mas agora que tu estás super-poderosa, gerentona da região, logo, logo vai se sentir melhor!
Betina desligou o telefone, pois não havia mais o que conversar.
A combinação homem x poder é afrodisíaca para as mulheres, mas infelizmente não se pode dizer o mesmo para os homens, que freqüentemente sentem-se inseguros diante desta combinação.
Para as mulheres, é muito difícil conciliar carreira com casamento e filhos, sem falar na dificuldade de achar parceiros compreensivos e que a estimulem a crescer profissionalmente.
Pesquisas indicam que o percentual de mulheres sem fillhos (40%) é muito superior ao dos homens (19%) e que nos altos cargos hierárquicos de grandes corporações, há três vezes mais mulheres sozinhas do que homens.
Normalmente, os homens não gostam de mulheres dependentes e inseguras, mas quando se deparam com a situação inversa, com uma mulher bem-sucedida, não têm estrutura emocional para suportá-la. Historicamente, o homem tem o papel de ser o ser protetor, o porto seguro da relação, e uma mulher independente e segura de si, pode fazer com que o parceiro sinta sua masculinidade fragilizada.
Histórias como a de Betina são muito comuns e freqüentemente, as mulheres abdicam de sua carreira em prol do relacionamento.
Depois do colo do irmão e do apoio da família, Betina acordou no dia seguinte, renovada e mais segura.
No caminho para o trabalho ligou para a melhor amiga e contou o que havia acontecido na noite anterior.
A amiga, sempre leal e disponível, perguntou:
- Tu aceitastes a proposta, né?
- Claro!
- Então, Bê... Vamos comemorar hoje à noite!! Se tu és super-poderosa, ele é super-sem-noção! Tudo o que tu precisas agora é de comemoração e pessoas que te apóiem e fiquem felizes por ti, e não de pessoas que te puxem para o fundo do poço. Precisamos nos cercar de pessoas que nos amem, que fiquem felizes com as nossas conquistas e que dêem brilho à nossa vida. As que não forem assim, a gente amassa e põe na lata do lixo. Sem dó.



Karime Abrão

domingo, 18 de abril de 2010

Afonso


Desce a colina,
Com os olhos do tamanho da lua.
Uma pintura cinza,
Focos de luz,
Sombra e neblina.
O imponderável tem nome
E tem cheiro de flor.
O vendaval passa rasgando,
Jogando um corpo na grama
E no peito um choque de dor.

Acompanhando a densa nuvem
Cujo nome jamais saberá,
Afonso pode ver o segredo,
Tocá-lo com a ponta dos dedos,
Tudo do seu triste desejo,
Do tempo recompensar.

O quinhão que permaneceu
Vai te restar só pro café.
Essa sombra que permeia
Só atrasou,
Zombeteira,
Teu horário de almoçar.


Larissa Santin

sábado, 17 de abril de 2010

Cabra da peste


Carmo que partiu naquele barco rumando o horizonte do infinito mar deixou para trás Dira e seus filhos até mesmo o fruto de seu amor...
Pois bem Carmo desembarcou noutro porto, ambientou-se fez amizades e ali se instalou. Continuou com seu jeito de cabra macho e conquistador, daqueles que conquista num só olhar e não deu outra, Carmo encontrou Zilda ou Zildinha para o pessoal da vila, uma senhora um tanto quanto mais velha que ele, viúva do dono da maior peixaria do porto, era uma boa pessoa um tanto quanto tímida muito embora fogosa como só o falecido soubera.
E não deu outra, bastou a primeira festa na vila que Zildinha já caiu nos encantos de Carmo, meio acanhada no inicio, mesmo assim dançou com ele a noite inteira, mal sabia ela que Carmo já sabia do seu currículo completo. Dos dois filhos casados que moravam na cidade grande, que ela morava sozinha após a morte do marido e claro astuto como é sabia que a solidão acompanhava aquela senhora.
Conversaram a noite toda, nos dias seguintes Carmo separou a melhor pesca para a peixaria de Zildinha, que resistia tentava manter a postura de viúva enquanto suas veias fervilhavam por baixo do vestido de chita.
Carmo levava a melhor pesca, azia bom preço, dava conselhos e toques sobre os companheiros, trocava uma lâmpada aqui, arrumava uma janela ali e aos poucos foi se aproximando, dia que não pescava ficava rodeando a venda, atendendo clientes, dava uma olhada no negocio enquanto Zilda fazia as coisas de casa ou da rua, sem cobrar um só tostão!
Dessa vez foi mais demorado, foram três meses de cordialidade para que Carmo arrebatasse o coração de Zildinha que não resistiu e cedeu aos “encantos” de Carmo que era vinte anos mais jovem que ela. Logo Carmo já estava lá assumindo o posto do falecido, passava de braços dados com Zildinha na feira, cuidava da peixaria em dias que ela deixava de trabalhar coisa que em trinta anos de casamento nunca havia ocorrido. Ah o falecido se revirou no caixão, mas pouco importava, Zildinha agora tinha quem por ela olhasse, amasse, guardasse, protegesse e cuidasse, sim pois cuidar era o que Carmo fazia de melhor, afinal peixe era com ele mesmo...
Carmo logo começou a ficar mole, pescava dia sim dia não, o melhor peixe não trazia, falava que a pesca não foi de sorte, mas a vila toa sabia que os melhores peixes ele vendia já no desembarque do porto para garantir seu pé de meia...
Com o tempo Zildinha teve que voltar a comprar peixes dos colegas de Carmo, porque este se dizia cheio de moleza e desaprendido o oficio, se dizia agora apenas ajudante dos companheiros porque não pescava, mas a vila toda sabia que as pescas de Carmo continuavam e rendiam há como rendiam, mas ficavam todas para seu pé de meia.
Alertada Zildinha foi, mas de que importava, ela deu cama, comida e roupa lavada, pois Carma olhava por ela, cuidava, protegia, guardava, amava. Pelo menos em seu pensamento.
Os falatórios logo iniciaram em toda a vila, o que teria acontecido com Zildinha? Não percebia as atitudes de Carmo? Não percebia que a pesca rendia? Não via as raparigas do porto em volta dele nos dias de festa? Não sabia da historia de Dira? Não respeitava a memória do falecido?
-É nada disso não minha gente, Carmo me ama e fica me rodeando é pra cuidar de mim!
-Eita Carmo, virou agora gigolô foi?
-Gigolô não meu amigo, que eu sou é cabra da peste!




Fernanda Bugai

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Doce Veneno Azedo


Mulher gosta mesmo é de cafajeste. Eu falo isso todo dia pro meu filho, pra ele já ir aprendendo cedo. A mãe dele, além de ficar braba, ri de mim, achando que sou louco por falar com um bebê de 7 meses. Eu falo que louca é ela, por ter tido um filho com um cara doido como eu que fala com um neném recém nascido.
No fundo, nós dois sabemos que nem nós, nem ninguém, é assim tão normal quanto imagina.
Eu, por exemplo, que sempre fui um cara comum, às vezes me pegava e ainda me pego fazendo coisas nem tão convencionais para os padrões, ou melhor, meus padrões.
Quando eu era jovem e tinha lá meus 20, 25 anos, tratei de fazer dinheiro, comprar um carrinho legal e investir em roupas e penteados modernos, para que a mulherada investisse em mim.
Além de ter de trabalhar duro para ficar elegante e sensual, eu ainda tinha que ter paciência e cautela com essas minhas “clientes”. Paciência, porque sabe como é... até a mulher mais linda, inteligente e engraçada do mundo, tem os seus tiques e suas TPM´s. Agora imagine o pacotemulherchata completo, em uma mulher horrorosa. E cautela, porque elas costumam ser histéricas e ciumentas, e seriam capazes de me matar se soubessem das outras.
Pois é, não era fácil, mas eu sabia que tinha de resistir.
Claro que, se não valesse a pena, eu não estava lá, me submetendo a esse papel humilhante de ser escravizado por uma mulher. Mas confesso que não foram poucas às vezes em que pensei em largar essa vida e procurar algo melhor para fazer, obviamente dentro das minhas possibilidades, e ainda mais importante que isso, das minhas habilidades.
Qualquer um que me conhecesse saberia que eu não nasci pra ser um cara certinho, desses de carteira assinada e batendo cartão dia após dia. Eu nasci pra ser bixeiro, cafetão, gigolô... quem sabe até comerciante no mercado negro, ou um traficantezinho classe C, pra não exagerar. Mas ó, tem coisa que sempre me neguei a fazer, tipo virar político. Isso nem pensar. Sou desonesto, mas nem tanto. Além disso, querendo ou não eu tenho meu trabalhinho diário, corro risco de vida diariamente, agüento o pão que o diabo amassou. Esse é meu trabalho, e mereço meu salário no(s) fim(ns) do dia.
Podia ser perigoso, difícil e tudo o mais, mas eu não posso negar que sempre adorei esse meu ofício. Tenho muita sorte de ter nascido com esse dom, afinal, não basta ter a beleza e o charme, é preciso ser persuasivo, instigante, sedutor e... cara de pau. Se bem que isso não deve ser problema pra nenhum homem.
Pra mim pelo menos nunca foi. Eu fisgava a presa, e já na primeira semana, soltava um euteamo, cantado baixinho, suave, quente no ouvido da moça. Essa era a parte mais difícil, em que eu controlava meu corpo para parecer que o suor e as mãos trêmulas eram de tesão, e não de nervosismo.
E no fim, tudo dava certo. Eu passava meses com a moça, e quando achava que já não compensava mais, simplesmente “abria“ o jogo com aqueles papinhos de: “o problema não é você, sou eu”, ou ainda “você merece alguém melhor para te amar”, e blá blá.
Elas saiam magoadas, mas nunca ao ponto de especularem a minha conta, ou querer presentes de volta. Eu tinha muito cuidado em me certificar de que a mágoa seria exclusivamente emocional, e nunca cifronada.
Mas, como todo super herói tem seu momento de conflito, eu não fui o primeiro a fugir a regra.
Em uma das raras vezes em que estava sozinho, procurando novo “emprego”, conheci a Vera. Eu já estava um pouco alterado quando ela chegou, usando mini saia e blusa decotada, e me ofereceu um drink. O drink multiplicou-se em tantos outros que perdi a conta, e o resultado da equação foi eu ter acordado, deitado em sua cama, às 14 horas do dia seguinte.
É claro que acordei assustado e surpreso, mas o medo só veio depois de uma longa semana que ela passou no meu apartamento. Toda dengosa, ela sussurrou com voz aveludada, quase cantando:
- Euuutiamooo.
Mas o medo ainda veio em seguida, depois que eu a escutei, e, além de acreditar em suas palavras, me senti feliz como nunca.
Não podia mais viver longe dela, e então a convidei para ir morar comigo, em meu apartamento. Ela aceitou de prontidão, e em menos de duas horas, suas roupas já preenchiam meus armários e o banheiro cheirava a perfume caro.
Nessa noite, ela me convidou para ir a um motel comemorar nossa junção, e 9 meses depois, era oficial: eu me tornara um escravo de uma gigoloa... ou gigoléia, tanto faz.
Preciso ir, o neném ta chorando, e, a Vera deve ter... bem, não sei.
Preciso ir.



Letícia Mueller

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Leões De Olhos Azuis


Quando meu avô morreu eu tinha menos de 2 anos. Mas eu lembro quando a gente sentava no jardim de casa nas frias manhãs de inverno, pra tomar sol. Pude ver a neve naquela manhã gelada de 1975, no colo dele poucos meses antes dele partir.
Minha avó me criou enquanto meus pais trabalhavam pra trazer o sustento de casa. Ela, dona de casa, continuou dando todo amor que ele não podia mais oferecer. Sempre contava sobre ele e sobre o que tinham vivido e falava que meu avô era um homem sem vícios, mas muito sedutor. Ele tinha os olhos azuis como os da minha mãe...
Deixando um pouco de lado todo romantismo e nostalgia da criança que não viu mais a neve, penso que esse assunto me lembra uma prática libidinosa, lasciva, voluptuosa, invariavelmente desejável: Sedução. Arma letal dos homens de olhos azuis. Vovô que me perdoe, mas eu sei que ele era do tipo que conquistava de longe, era como se fosse um gigolô com princípios. Só de olhar já sabia o que queria dizer, o que queria fazer e o que esperava de volta.
E como um leão, elegeu entre as leoas a que seria a sua rainha, a sua preferida. Arrancou da sua escolhida todo amor, sorveu-lhe toda dedicação, prazer, atenção, devolvendo-lhe a uma certa distância, um doce olhar azul. Com seu jeito de andar imponente e seguro, nunca deixou transparecer qualquer sentimento de dor ou fraqueza.
A leoa impunha-se altiva e dominante às outras da mesma espécie, ainda que lhe servindo em silêncio. Caçou para ele, alimentou-o, o fez o verdadeiro rei. E dele, continuou a receber aquele doce olhar. Apenas o olhar. Desejava mais, precisava de mais, mas o rei precisava exercer seu papel de líder e apenas... liderar.
Na selva, leões costumam ter mais de uma leoa à sua disposição. Ainda que tenham àquela que está ao seu lado, nenhuma das outras deixa de estar presente, andam coladas nas suas patas, protegendo-o e satisfazendo aos seus instintos. Não recebem o doce olhar azul, mas estão lá, sempre lá, esperando que um dia a caça que elas abateram seja a saboreada pelo rei.
O rei pode mesmo comparar-se a um gigolô que não cansa de ser adulado por suas servas, mas esquece de um detalhe importante. Um dia, a caça pode acabar. E se na fome entre eles tiverem que comer uns aos outros, primeiro irão os mais fracos, depois os menos velozes e por fim os que tiverem motivos para entregarem-se à morte. Entre o rei e a rainha, qual vai sobreviver?
Se meu avô fosse vivo acho que ele me diria que a relação de amor entre leões é sempre sincera. Mas não esqueça de alimentá-la. A leoa irá devorar-lhe por fome, e não por falta de amor. Nem sempre a força... nem sempre...


Angelica Carvalho

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Shirley E Os Gigolôs


Shirley era uma adolescente de 17 anos de idade filha de Romilda, uma mãe solteira que possuía um salão de beleza. Esta garota vivia em conflito com a sua mãe, pois ela nunca falava quem era o seu pai. Além disto, Romilda era muito rígida, pois não deixava a filha namorar, nem ir às festas e seu horário era muito controlado. A adolescente sempre brigava com a mãe, pois esta senhora trocava de namorado todo o mês e além disto, quando Romilda estava apaixonada fazia questão de pagar a maioria das contas dos seus companheiros.Toda vez que a garota reclamava disto, ela apanhava da cabeleireira. Então, a jovem passou a pensar assim:
- Um dia terei meu próprio salão de beleza, já que estou aprendendo a função com a minha mãe e nunca nenhum homem me explorará!
Shirley encontrava consolo nos filmes que locava na locadora em frente a sua casa. Mas havia um problema: ela achava Susan, a dona da locadora, muito estranha. Pois esta empresária usava os cabelos raspados, tinha sobrancelhas juntas em seu rosto que nunca estava maquiado, era robusta e usava roupas masculinizadas. Sempre quando Shirley aparecia na locadora, a dona tentava puxar conversa oferecendo um filme e comentando sobre ele. Geralmente a adolescente prestava atenção aos comentários das películas e assistia as obras em casa. Porém, ela nunca deu brecha para que Susan tentasse alguma intimidade.
O tempo passou, Shriley foi aprovada no vestibular no curso de Estética. Porém, para fazer economia, continuou morando com a sua mãe, mesmo com a relação conflitante e para se distrair a moça continuou encontrando consolo nos filmes da locadora. Os anos voaram, Shirley completou trinta anos quando viu que a saúde da sua mãe estava complicando-se, de repente, sem nenhum motivo aparente. Assim a moça acompanhou Romilda ao médico e os exames comprovaram que a mulher estava com o vírus HIV. No instante em que soube que era portadora do vírus da Aids, falou o seguinte para filha:
- Eu sempre tive medo da solidão, por isto trocava de companheiro constantemente e pagava todas as contas deles com medo de ser rejeitada. Fui iludida por gigolôs e acabei deste jeito.
Shirley levantou a cabeça, não abandonou sua mãe e fez companhia a ela até o seu último suspiro. Quando Romilda faleceu, sua filha levou o salão de beleza em frente, sempre tratando bem as pessoas e fazendo cursos para atualizar-se. Mas ela estava sempre sozinha e só encontrava consolo nos filmes da locadora.
Um certo dia, já com 37 anos de idade, Shirley teve uma crise de solidão, entrou em depressão e começou a chorar. Por isto ela resolveu navegar na Internet. Desta maneira a moça estava verificando seus e-mails e, de repente, viu que o título de um deles era assim: Personal Friend- A Solução Para Sua Solidão.
Ela abriu a mensagem, rapidamente, e leu a seguinte propaganda:
“- Personal Friend Ricardão:
Um dos problemas, do mundo atual, é a solidão!
Portanto, mulher, se você está sozinha chame o Personal Friend Ricardão que ele trará momentos de felicidade a você. O Personal Friend Ricardão tem curso superior, baila mais de trinta tipos de dança e fala cinco línguas estrangeiras. Fisicamente ele é: moreno alto, bonito e sensual...”
Ao ler esta parte, Shirley pensou:
- O que é isto?!
- Moreno, alto, bonito e sensual?!
- Isto parece uma música dos anos oitenta gravada pela banda Erva-Doce.
Mesmo assim a donzela continuou lendo a propaganda e entrou no site do Personal Friend. No portal, deste rapaz, havia fotos provocantes dele. Pois este homem parecia uma mistura de: Reynaldo Gianecchini, Victor Fazano, Tom Cruise e Fábio Assunção.
Porém, o que assustou mesmo foi a seguinte frase no final do “site”:
- Cada consulta R$100,00.
Desta maneira a jovem refletiu:
- Cada consulta R$100,00?!
- O termo consulta para este tipo de profissão é estranho. Afinal, um Personal Friend não é um médico e muito menos um advogado.
Assim a moça olhou para as fotos daquele profissional novamente e, hipnotizada por elas, marcou uma consulta com o moço. Deste jeito os dois encontraram-se num shopping, onde Shirley contou sobre toda a sua vida ao profissional. Após isto foram ao cinema e a uma danceteria. Todas as despesas foram pagas pela moça, que também pagou o dinheiro da consulta para o Personal Friend.
A partir daquele dia Shirley passou a marcar encontros com Ricardão toda a vez que sentia solidão. Ela deixou até de locar filmes e isto intrigou Susan, que passou a observar a casa da vizinha vinte e quatro horas por dia.
Após um ano usando os serviços do Personal Friend, Shirley convidou o rapaz para morar na sua casa com todas as despesas pagas, como sempre. Ricardão topou, mas não abriu a mão das suas outras clientes. Quando Shirley trouxe o Personal Friend para a sua residência, foi observada por Susan, que ao mesmo tempo estava navegando na Internet dentro da sua locadora. Naquele mesmo instante ela abriu um link que caiu no site do Personal Friend, assim a empresária adivinhou o que estava acontecendo na casa da vizinha. Seis meses depois a dona da locadora viu Shirley apanhando de Ricardão. Então, anonimamente, Susan passou a enviar filmes sobre gigolôs para Shirley. Os títulos eram estes: Gigolô Americano; Gigolô Europeu Por Acidente; Os Gigolôs e Gigolô Suíço: Uma História Real.
Seis meses mais tarde, Ricardão sumiu sem nenhuma explicação da casa de Shirley. Dias depois, esta moça estava andando num beco escuro. Quando, de repente, uma pessoa encapuzada agarrou a pobre e deu várias facadas matando a coitada. Logo polícia prendeu Ricardão. A prisão deste Personal Friend apareceu, como notícia, na televisão. Quando Susan viu esta cena, pensou:
- Matei a minha amada Shirley só para ver este detestável gigolô na cadeia.





Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tipos de Gigolô


A primeira vista, esta palavra nos remete à um tipo de homem somente visto em filmes. Aquele que só vive na boa vida à custa da mulher, vivendo, comendo, bebendo, se vestindo pelo dinheiro da suposta “amada”. Em troca, ele lhe oferece “amor” e sexo, realizando seus desejos. Sempre está bem vestido, é um homem geralmente forte, belo e que encanta as mulheres, lançando seu charme à todas amigas da sua “amada”. Ou seja, aparentemente, o homem perfeito.

Mas a verdade, é que ele existe. Mas não necessariamente em sua forma perfeita. Mas deste tipo de homem, tem de monte por aí. Ou vocês pensam que só mulher se aproveita de homem?Na na ni na não! O que acontece é que ao mesmo tempo que podemos observar as igualdades entre homens e mulher no campo do trabalho, sexual e de relacionamentos, cresceu também a modalidade do homem gigolô.

Algumas mulheres nem percebem, mas em nome do amor, se apaixonam por umas verdadeiras “tralhas” que não trabalham, estudam ou tem qualquer perspectiva de vida. Assim, tudo que lhe pedem ela faz para agradar, comprar coisas, faz planos e pensa no futuro sozinha A(aliás, ele finge apesar junto com ela). E ele só ali, na boa, curtindo. E estes não são necessariamente belos, fortes, altos e simpáticos: às vezes são uns ridículos, aqueles que quando é apresentado para a família, ninguém gosta. É porque geralmente nossa mãe tem instinto para saber quando um namorado é gigolô ou não!


Há também o cara que é um gigolô sexual mesmo. Tem mulher que se apaixona pelo sexo que o cara faz. Assim, vira uma escrava sexual de certo homem, mesmo sem perceber. Não mantém uma relação fixa e estável e apenas se alimenta daquilo que seu gigolô sexual pode lhe dar.

Mas o pior gigolô é aquele que a mulher sabe que é e mesmo assim aceita. Ou porque acha que está velha demais ou carente demais, tem mulher que aceita qualquer tipo de homem, nem que seja para lhe bancar ou mesmo para lhe fazer algum tipo de companhia. Este é o gigolô mais comum, que mais vemos por aí: mulheres com relacionamentos superficiais, apenas usando o companheiro como uma forma de gigolô.

Se em nossa história sempre tivemos mulheres se prestando ao favor do “vender o corpo” em troca de dinheiro ou de comodidade, temos isso acontecendo com o universo feminino, mesmo que de uma forma ainda disfarçada. Se bem que estes dias minha mãe encontrou um papel na orelhão, aqui em Curitiba, que dizia: “Sexo de graça!Ass: Quico” e o número do telefone do dito cujo. Aos poucos, os gigolôs vão aparecendo por aí, basta percebermos melhor.


Bianca Nascimento

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Tema da semana: Gigolôs

Hoje é dia de estreia no blog. Nikolle Koutsoukos Amadori é advogada, mestra e DJ. Fala grego e inglês, e estuda fotografia, cinema e jornalismo. Cosmopolita, já morou na Europa e viajou por países de culturas bem peculiares como Camboja, Vietnam, Laos e Sri Lanka. Ama poesia e Gabriel Garcia Marques. Sósia de Reese Whiterspoon, ela já avisa que está fazendo rodízio de nacionalidade dos pretendentes, sendo que portugueses e gregos nem adianta mandar currículo. Bem-vinda ao time, Nik.


Manual Do Gigolô Contra Barricada Paterna



O maior dificultador dos planos de um gigolô vem sempre em dobro: os pais da moça/vítima. Geralmente eles sentem o cheiro da espécie a uma boa distância. E sabem que sua menina trabalhadeira e herdeira próspera é alvo fácil de tipos sedutores que querem levar uma vida mansa. Então, pensando nesses carismáticos bon vivants, aqui está um manual de como driblar essa dupla de rei e rainha do baralho. As cartas estão lançadas.

1ª) Vista-se de acordo. Não precisa ser um Armani, mas nada de camisas de time de futebol, banda de rock ou com estampas xadrez que fazem você parecer um bicheiro. Preferencialmente investigue o figurino do pai da preciosidade e imite-o. O progenitor olhará para você e pensará "bom, não é possível que um sujeito que veste casaco de algodão egípcio seja má pessoa". Se não tiver grana para tanto, compre umas golas polo Lacoste falsas do Paraguai. Se o jacarezinho estiver bem visível, é o que basta.

2ª) Faça uma imersão cultural. Os pais da moça torcerão o nariz se você não for páreo para discutir artes plásticas, música clássica e cinema europeu. Na primeira oportunidade, soltarão um “mas como você não sabe soletrar Krzysztof Kieslowski?!?”.

3ª) Ostente. A insegurança dos pais de ter na família um encosto financeiro se quebra se você mostrar que tem um certo padrão. Então, ande com estilo. Conte com os amigos nessa hora. Empreste o carro daquele seu primo bem de vida para pegá-la num final de semana. O mesmo vale para aquele celular último modelo que orgulha seu colega de gigolozices. Mas não exagere, nada de jóias grossas e douradas, senão você parecerá ou novo rico ou gangster.

4ª) Registre seu email no lonely planet e faça um intensivo de lugares interessantes no mundo. Dê preferência àqueles mais exóticos, eles estão na moda agora e são considerados super chiques. Não esqueça de prestar atenção em nomes de restaurantes pitorescos da riviera francesa e das cidadelas da costa malfitana. A mãe da garota com certeza irá se encantar com seu papo.

5ª) Olhe sua postura. Aconteça o que acontecer, coluna reta, ombros alinhados, cabeça erguida e aquele olhar compenetrado. Saiba utilizar o manual do “corpo fala” a seu favor. Pense que o tal livro deve ser um daqueles de cabeceira do pai da moça para identificar possíveis perigos na área.

6ª) Cuidado com o conjunto. Carro limpo, sapato lustrado, relógio não esportivo... Qualquer detalhe pode denunciar sua verdadeira identidade.

7ª) Faça uma aula de etiqueta básica para saber escolher entre mil taças, talheres e pratos quais são os mais adequados para cada ocasião, além de aprender a cumprimentar, servir e se comportar em eventos sociais.

8ª) Use vocabulário requintado mas não prolixo, evite linguajar rebuscado porque mais parecerá um político do que um bom partido (é o único caso em que político e partido não combinam).

9ª) Use sempre de gentileza no trato da moça, abre a porta do carro, deixe-a entrar nos lugares antes de você, seja gentleman até na padaria da esquina.

10ª) E, por último, mas não menos importante, finja que você trabalha. Ninguém vai cobrar carteira assinada, portanto trate de inventar uma ocupação, seja ela investidor da bolsa ou mesmo algo confidencial (agente do serviço de inteligência, por exemplo) para evitar maiores questionamentos e parecer importante. O principal é que pareça que você tem um emprego e ganha consideravelmente bem.

Mas calma, não se assuste. É uma empreitada compensadora. Passando no teste, é sombra e água fresca pro resto da vida, ou até durar a grana da família. Sim, porque gigolô que é gigolô de verdade larga o barco antes que ele afunde e encontra abrigo em outro iate rapidinho. Daí são novas cartas na mesa.



Nikolle Koutsoukos Amadori
Colaboração de Mario Lopes

domingo, 11 de abril de 2010

Mudanças


Às vezes precisamos abrir mão de pessoas, coisas ou momentos por um bem maior.
A natureza humana é possessiva, egoísta, encostada e não se permite sofrer ou se sacrificar pensando a longo prazo.
Por conforto ou comodismo... sei lá, preguiça, seja o que for, as pessoas são capazes de deixar as coisas como estão para não se comprometer com a mudança, a surpresa, a dificuldade.
Um trabalho que não te faz feliz, um relacionamento que não está como poderia, um amigo que já não se mostra tão amigo assim. Podem ser várias as situações, a questão é se temos força para mudar o que não nos agrada.
Se temos coragem de mover as coisas de lugar para que realmente tenha um efeito positivo.
Sim, porque ninguém mexe em nada sem ter objetivo. Não é por hobby ou diversão, mesmo porque, dependendo do assunto, dói.

Creio que valha a pena avaliar. Colocar na balança e sentir se a parte boa tem mais peso que a ruim. Pode ser até que empate, aí pode ser interessante rever mas talvez não seja necessário fazer grandes alterações.
Mas, se a parte ruim se sobressair, pára e pensa. Não precisamos e nem devemos sofrer de uma forma que nos destrua aos poucos, que nos faça esquecer de nós mesmos, seja o motivo que for.
Nos anulamos sem perceber e não damos a devida atenção a quem é mais importante e move toda nossa história: nós mesmos. Nós somos responsáveis por nossos atos, sentimentos, atitudes e as consequências que elas trazem. Precisamos nos sentir bem dentro do cenário que participamos. Se isso não acontece, é hora de movimentar.
Pode ser uma decisão difícil, dolorosa, mas é só respirar fundo e ir em frente. Se é por uma boa causa, não importa se vai doer, a gente sobrevive, fomos feito pra isso. Somos fortes, aprendemos, nos adaptamos, conhecemos, crescemos, nos acostumamos. É só ter coragem, tirar energia lá de dentro e agir.

Poder dar oportunidade às mudanças é o que vale. Nunca saberemos se dará ou não certo sem tentar. Com toda certeza o desenrolar da história fará diferença na vida de todos os envolvidos. Se a intenção é melhorar, bora, não se amarre, um novo tempo pode apresentar várias possibilidades. Temos que passar pelas novidades, enfrentá-las e sair mais preparados delas. A experiência de vida resultante dessa vivência dará muito mais energia, sabedoria e segurança para viver e sobreviver aos episódios que nos acontecem.
É essencial que tenhamos o controle em nossas mãos. Não podemos controlar o mundo, mas podemos escolher como construir nosso castelinho.

Será que aquele sofá não ficaria melhor naquele outro canto? Será que não é hora de mudar o cabelo? Ou quem sabe partir pra outra e deixar a fila andar?

E aí, já fez alguma mudança hoje?


Liliana Darolt

sábado, 10 de abril de 2010

Gastrite Humanitária


A história se passa nesta pequena ilha no meio do absoluto chamado Planeta Terra, onde ainda persiste uma linha de Fast Foods chamada Mc Ronalds. Desesperados com as concorrências (Mc Gonagles, Mc Bongos, Mc Fome-Zero, Mc Vegan, entre outras 300) os diretores da empresa decidem aplicar uma jogada de marketing que ainda funciona nos longos tempos que se passaram: A filantropia.
Mc Dia da Etiópia Feliz, esse é o slogan. Na compra de um número 3 2/4 com batatas extragrandes, metade do dinheiro vai para a fundação Somos Todos Iguais que organizará no fim do mês uma reunião com todos os etíopes na praça central da capital Adis Abeba.
A Grande Reunião, como é chamada pelo Presidente da Fundação, contará com a presença de várias personalidades, entre eles o cantor Bono Vox, a atriz ex-porra-louca-agora-mãe-de-família Angelina Jolie, Judy Foster, Tiririca e Rihanna, esta última trajará um vestido verde, amarelo e vermelho com a estampa do Mc Ronald onde se localiza o chácra do Plexo Solar, também conhecido como estômago.
Repórter Valquíria Tomentindo em Adis Abeba: '' Isso aqui está uma loucura, como vocês podem ver alí atrás estão os cozinheiros, ajudantes de predreiro e voluntários trabalhando juntos. Toda a comunidade colaborando, tudo muito lindo, é com você Carlos de La Roca''
Repórter Carlos de La Roca: "Olha aqui a multidão tá querendo entrar! Estão todos querendo saber a que horas ficará pronto o Mega Lanche Feliz. Agora só resta aguardar, aqui de fora a movimentação está muito grande, são cerca de 78 milhões de esfomeados. Não é brincadeira não, as estradas estão bloqueadas!''
Cerca de quatro horas e meia depois, ficou pronto o também chamado de Hamburguer Contra a Fome. De dimensões continentais, serve até 80 milhões de miseráveis que se jogam de corpo e alma no maior símbolo de destruição que pode haver no mundo além da desnutrição: Fast Food.
Cerca de 70 homens trajando roupas camufladas verde-oliva chegam ao local e o principal deles, de boina vermelha, destacando sua cabeça e sua anti-posição política, dirigem-se à entrada do monumento e tiram uma foto, cortando com uma foice o laço. Nesse momento, o Presidente da Fundação força um riso e solta um pouco a gravata.
Agora foi dada a largada, é o estouro da boiada.
As pessoas escalam o hambúrguer, desbravam, mergulham no molho especial para tentar garantir um pedacinho de picles que fica escondido no meio. Gênios das escavações, os etíopes constroem com facilidade uma tubulação por dentro da comida, agora podendo apreciar cada pedaço em equivalência. É claro que sempre tem os espertinhos que não querem dividir o queijo, literalmente, e esses são imediatamente colocados para fora das instalações enquanto enfiam tudo o que conseguem na boca no caminho de saída da comida. São alvejados na cabeça deixando um rastro de queijo na lente da câmera em rede internacional.
- Não é nada não, minha filha, é ketchup.



Larissa Santin

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fogueira



- Só mais 5 minutos turma!
Lola, compenetrada na sua missão, mal ouvia o que a professora dizia. Segurava os lápis de cor com força, só para ter certeza de que sua mão não a trairia com um movimento em falso. Os olhos, quase grudados no papel, há 10 minutos não miravam outra coisa que não fosse o fogo ardente, que de um traço amarelo e reto, virou um misto de cores quentes e flamejantes de crescimento imaginavelmente infinito. Lola criava faíscas quentíssimas que depois se uniam ao grande fogaréu com tanta rapidez, que teve de diminuir seu ritmo para que a folha não acabasse antes de ter podido ao menos desfrutar do calor que criava. O que queria mesmo era juntar um calhamaço de folhas para poder fazer uma fogueira de São João, igual a que tinha na festa junina do colégio.
Mas até que se contentava com sua pequena fogueira de piquenique. Pelo menos poderia ser levada no bolso, para qualquer lugar, a qualquer hora, diferente do que seria a fogueira de São João. Lola não conseguia imaginar como poderia levar algo tão grande junto de si, mas sabia que caso conseguisse fabricá-lo, daria um jeito. O transporte definitivamente não seria o problema.
O grande empecilho era o tempo e a professora. Todos os dias, ela permitia apenas 15 minutos de pintura e desenho. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Lola, de início, achou que o tempo disponível era mais do que suficiente para fazer o que queria, mas foi só executando o trabalho que viu que, com seus 7 anos de idade, até poderia fazer o mesmo que alguém já com seus 12 anos, mas levaria um pouco mais de tempo.
Se ao menos a professora lhe deixasse levar os lápis de cor para a casa... Mas ela nada podia fazer. Eram as normas da escola.
Então, Lola empenhou-se em acabar a fogueira o quanto antes. Como isso pra ela era tarefa prazerosa, e já era de sua índole a dedicação, deixou os seus desenhos inacabados de florzinhas e casinhas de lado e dedicou totalmente os seus 15 minutos diários à sua fogueira por algum tempo.
Até a professora, sempre tão apática e difícil de impressionar, olhava estupefata o desenho de Lola e sua dedicação em deixá-lo perfeito. A combinação de cores, a forma das chamas, o sombreamento, a disposição, tudo estava em tal sincronia que qualquer um que olhasse o papel, mesmo que de relance, ficaria assustado acreditando que ali havia um pequeno incêndio.
Se o desenho já impressionava, imagine então quando descobriam quem fora a sua criadora.
Mas Lola, compenetrada, nem notou os olhares impressionados da professora, e nem de mais ninguém, mesmo porquê fazia questão de colocar o desenho, após o expediente diário, no meio de seu maior caderno, seguramente guardado, para evitar qualquer dano e poder levá-lo para a casa em segurança.
Os dias se passaram lentamente, e Lola continuava trabalhando 15 minutos diariamente, mesmo com a chegada do inverno, quando suas mãos moviam-se com dificuldade e Lola mal sentia as pontas do dedo.
E foi justamente vestida com um velho casaco puído que sua mãe já usava desde quando menina, meias grossas remendadas por baixo do tênis rasgado e uma calça de veludo larguíssima feita para um homem 3 vezes maior que ela, que Lola acabou o seu desenho.
Extasiada, ela mal podia se conter ao olhar o seu trabalho finalizado. Deu os últimos retoques, e sem pedir licença, saiu correndo da sala para ir direto para a casa.
A professora fingiu nem reparar.
Atravessou todo o trajeto da escola para sua casa correndo com toda a sua força e contra o vento gelado, sem olhar para trás e esbarrando aonde quer que fosse que aparecesse à sua frente.
Assim que chegou em casa, procurou pelo irmão e encontrou-o agachado no vão da porta, tiritando de frio, com os lábios roxos e rachados.
Abraçou o irmão, dando-lhe o casaco que usava, tirou do bolso da calça o desenho que há tanto tempo vinha trabalhando e deixo-o sobre o colo do menino.
Lentamente, o corpo do casal de irmãos foi relaxando, até que pegaram no sono.
De dentro da casa, se alguém além de Lola e seu irmão ali morasse, resolvesse olhar para a rua, nada veria.
A janela, embaçada, chorava ao ver a cena.





Letícia Mueller

quinta-feira, 8 de abril de 2010

La Dolce Vitta


Na semana posterior à saída de Ricky Martin do armário te pergunto: O que mais falta sair do armário, heimm? Melhor, Afinal, o que é de fato “Sair do Armário?”
Se você procurar nos sites de busca vai achar de tudo. Eu , como não tenho vocação para racismo, ou preconceito, ou hipocrisia não vou colar aqui tudo o que li, afinal alguém, em algum lugar pode achar que estou sendo irônica e me delatar a alguma ONG protetora de minorias. Minoria é modo de falar, claro, afinal eu não acho que tenha que ser minoria, só acho que cada um vive como quer, onde quer e no armário ou fora dele que queira também. Só não entendo porque tanto estardalhaço por uma opção sexual. O mundo acabando, a guerra rolando, as enchentes detonando, o governo roubando e você aí, se preocupando se o Ricky Martin gosta de homens? Bem na boa, azar o dele que não me conheceu.
Penso que tem muito mais coisas saindo do armário além do Ricky – percebam, tô íntima já, Ricky. Alguém pode me explicar em que armário estão nossos impostos que pagam o salário de alguns políticos que apadrinham a família inteira em cargos governamentais? Alguém pode me explicar em que armário o mensalão ficou escondido até alguém meter a boca no trombone e arreganhar tudo publicamente? Alguém, por favor, me diz onde foi parar o dinheiro da cueca daquele cara que não tinha mais onde enfiar a grana? (Posso sugerir idéias também). E não menos importante, alguém me diga onde o Deputado assassino decepador de cabeças de jovens foi parar que não está na cadeia? São só perguntas, tudo bem se não tiverem respostas, afinal, sair do armário é só pra quem é muito macho - ou não - e tudo no final acaba no rabo de alguém. Ou tô mentindo?
Assumir que assiste BBB (e gosta), aceitar que o governo culpe as ocupações irregulares pela calamidade desta semana no Rio, ver o Lula pedir a Deus pelo fim das chuvas no Rio (que apoia a Dilma, tomando multa atrás de multa), ler que o Rubinho acha a Willians uma “porcaria” (Deus sabe o que o carro diria), encher acara de martini e dizer que a cereja fez mal e escrever esse texto e achar que alguém vai concordar, não são maneiras de sair do armário?
Me parece que, pelas notícias que são divulgadas todos os dias, sair do armário nada mais é do que você dar a certeza às pessoas que tem certeza de algo que com certeza finalmente agora você tem certeza... e detalhe... só você não sabia. Pegou?


Angelica Carvalho

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Teste: Que Tipo de Coelho da Páscoa é o Seu ?


Marque X Na Alternativa Correta:

Coelho da Alice No País das Maravilhas: Já no mês de março você recebeu ovos e cestas de Páscoa adiantados de todos os lugares: do trabalho, da família e dos vizinhos. Este coelho é apressado e tem medo de perder os compromissos.

Coelhinha da Playboy: Você foi a uma balada de Sábado de Aleluia, bebeu demais e parou num motel com gatas, quero dizer com mulheres lindas vestidas de coelhas, que deixaram você sem nenhum centavo no bolso. Atenção: com este tipo de coelha, com certeza você não pode se esquecer dos embrulhos na cenoura e nos ovos.

Coelha do Mato: é semelhante à coelhinha da Playboy, porém muito mais perigosa. No sábado de Aleluia você resolve acampar no mato. Durante algum tempo você dá uma volta e encontra um bar de quinta, no meio da floresta, onde uma mulher com pouca roupa, olhando para a selva, aproxima-se de você e pergunta: - Será que deste mato não sai coelho? Então você todo empolgado cede aos encantos da coelhinha. Porém amanhece na floresta todo tonto e sem um centavo no bolso.

Dois Coelhos Com uma Cacetada Só: É véspera de Páscoa e você pensa: Irei ao mercado para comprar ovos de chocolate e churrasco, assim matarei um coelho com uma cacetada só. Chegando ao local você passa mais de três horas na fila, onde os chocolates já derreteram e a carne ficou com um cheiro desagradável. Sem falar que você se esqueceu da senha do cartão no caixa e não quiseram aceitar o seu cheque.

Coelho Detetive: Reza a lenda que nos Estados Unidos, uma família decidiu fazer a seguinte brincadeira: a vovó míope escondeu os ovos num parque cheio de árvores e espalhou algodão, na grama, para fingir que eram os pêlos do coelho. Assim ela disse para os netos que o coelhinho tinha escondido o chocolate no meio no mato. Uma das meninas ao procurar os doces, acabou achando um cadáver com algodão no nariz.

Coelho Boladão e Chapado: É aquele que canta: “De olhos vermelhos, de pêlo branquinho, eu pulo bem alto, eu sou coelhinho...”

Já descobriu qual é o seu Coelho da Páscoa?



Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 6 de abril de 2010

História De Bagagem


“Penha”, em seu ritmo desacelerado, chegava devagar, quase parando. E parou. Às 21h35, desciam pessoas segurando em suas bagagens, grandes, curtas, alegres ou tristes histórias. O relógio central agora marcava 21h37, hora de “Transtupi” ir embora. Mas não era triste: partiu levando sorrisos e olhares felizes que podiam ser vistos das janelas. Só naquela hora, quinze latas saíram rumo à Umuarama e outras tantas para qualquer destino dentro da cidade. E de “rés” e entradas, saíam e surgiam novos destinos e futuros.

A rodoviária Curitibana é apenas um lugar de passagem. Porém, no segundo andar, alguém quer tornar a cidade permanente na memória de quem passa ali. Mesmo comercializando artigos para lembrança de Curitiba, a loja anuncia “semi-relógios, jóias, óculos de sol, perfumes, cosméticos e bijuteria”. Esqueceu de colocar o que de mais interessante nela se vende. Mas a “Casa dos presentes”, do outro lado do corredor, frisou em Caps Lock, “LEMBRANÇAS” como uma das suas opções. Apesar disso, em cinco minutos, vinte e duas pessoas passaram na frente da loja sem nome e olharam para seu interior. O pequeno Alexandre era um deles, pois quando não girava em 360 graus, olhava concentrado nos pequenos bonecos e carros, que para ele se tornavam gigantes.

Uma mulher meio bêbada, só de calcinha, também já havia passado por ali uma vez. Márcia, vendedora da loja sem nome, riu de canto quando se lembrava da cena na rodoviária onde para ela “você vê de tudo um pouco”. Em cinco meses trabalhando lá, fez mais amigos do que em vinte e dois anos de vida. Mas entre eles não está a mulher de calcinha vermelha e seios à mostra.

Naquela noite, havia alguém que perderia um destino, talvez um reencontro ou um afago da família. Rose contou que isso sempre acontece. Pessoas sempre esqueciam seus destinos em cima do caixa onde ela trabalha. Eram 21h43 e se Anderson não voltasse em 15 minutos, Criciúma ficaria para outro dia, mas não naquela noite. E foi assim que aconteceu.

Mas isso era apenas um dos tantos incidentes que aconteciam lá dentro. De segunda a segunda, cenas de sexo no banheiro, travestis e homossexuais passam por ali aonde Maurício limpa. Apesar disso, o brilho de seu sorriso ofuscava de longe, sorrindo mesmo com mão enfiada no lixo. Depois de limpar quase um quarto da rodoviária, sai catando lata por onde passa. E à medida que enche sua mala, garante um aumento de até duzentos reais na renda que ele mesmo faz. “Só não roubo”.

Maurício acha que não, mas rouba um pouco do “ganha pão” de seus colegas catadores de latinhas, como Osvaldo de quarenta e seis anos. Com dois filhos e a patroa Juscelina para sustentar, o homem de sacola preta nas mãos e olhar azul anil cansado, faz de seu local de trabalho a grande Curitiba e ali, depois das 18h, um “bico”. Já do outro lado, o moreno broncudo que revira os lixos toda hora e não tem tempo quase nem para falar, só sabe dizer “por dinheiro não falo”, mas continua pobre com seu manto cinza por cima.

Ninguém fica lá. Famílias, jovens, crianças, andarilhos, serventes passam toda hora. Mas quem ficava parado por mais tempo ali olhando para o lugar de passagem são os olhares atentos dos seguranças e dos policiais. E também dos taxistas. Amilton tira dali o que precisa para ajudar no sustento do engenheiro elétrico, da contabilista, dos dois analistas de informática, da estudante de química e da esposa, dona de toda essa cria. Depois de vinte metros de história, mais um cliente chegou. E tantos outros que naquele mesmo instante partiram. Levaram em suas bagagens mais histórias para contar. Deixaram naquele “não lugar”, outras tantas para ainda serem contadas.



Bianca Nascimento

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Semana de Tema Livre

Pare, agora!



Às vezes me sinto como o personagem de Kafka, sujeito agitado, massacrado pela correria do dia-a-dia que acabou virando uma barata. Em função da falta de tempo e da superficialidade com a qual encaramos nossas tarefas diárias, para que possamos ter tempo de fazer tudo e agradar a todos, esqueço o real motivo de estar fazendo o que faço.
Nosso dia tem 24 horas, mas se tivesse 48, tenho certeza que ainda faltaria tempo para fazermos tudo o que precisamos, queremos ou para dar atenção para todas as pessoas que precisam da nossa atenção.
Nos últimos dois meses, estou em falta com tantos amigos que tive que fazer uma lista mentalmente, e a cada check-list, vou riscando-os num suspiro de “ufa! mais uma tarefa cumprida”. Minha família tem minha atenção nos poucos 120 minutos dos finais de semana, que dedico a eles. Queria poder fazer tudo com mais calma, mais bem feito, mas principalmente, saber dizer não.
Esta sim é uma tarefa difícil: dizer não aos outros, sem medo de magoá-los, ou de não ser uma pessoa querida. Mas, com certeza, antes de dizer não aos outros, é preciso aprender a dizer não e a impor limites a mim mesma; saber discernir o que realmente será relevante no meu dia, na minha rotina e organizar meu tempo de forma que todas as atividades sejam executadas da melhor maneira, e de forma que eu possa dar atenção às pessoas queridas e, principalmente, a mim mesma.
A idéia de estar sempre disponível para os amigos, pronta para qualquer programa, é simplesmente mea culpa. A mensagem que passo para meus amigos e família, me disponibilizando para qualquer coisa, a qualquer hora, faz com que eu deixe a porta sempre aberta para que tudo fuja ao meu controle. É o medo que tenho de desapontar, de magoar os outros. Eu sempre sou a parceira, a agregadora, a que diverte todo mundo... E na hora de dizer “não, obrigada”, eu empaco.
A cada dia que passa, tenho certeza que preciso cansar. Preciso saber quando parar e quando continuar, como continuar. Saber dizer simplesmente “não”, sem dar muita explicação, o que para as mulheres é quase uma missão impossível, já que adoramos dar justificativas para tudo.
A palavra mágica é limite às nossas atitudes, às minhas atitudes. Não impor limites a mim mesma, permite que os outros sintam vontade de invadir meu espaço e que eu não tenha a menor responsabilidade (e vontade) de provocar mudanças na minha vida.
Eu preciso de limites. Todo mundo precisa de limites.
A única coisa que não deveria ter limite na nossa vida é sermos felizes, né? A cada conquista profissional, a cada conquista amorosa, a cada presente ganho ou prêmio conquistado, deveríamos poder comemorar sem limites!
É engraçado e de certa forma triste, como existem pessoas que possuem amigos ou familiares que não estão vivendo um momento de felicidade, e por este motivo, não demonstram sua alegria diante de alguma coisa, com medo de magoá-los.
Mas isso seria tema para outro post.
O lance agora é aprender a dizer não, organizar meu tempo e a dispor de um pouco mais dele em prol das pessoas queridas.
O lance agora é impor limites a mim mesma, à correria do dia-a-dia, procurando descobrir o sentido de tudo isso.
E a senha? A senha é ser feliz. Sem limites.


Karime Abrão

domingo, 4 de abril de 2010

Assessoria Irrestrita



- Alô!
- Nha-ooo-shfpt...
- Alô!
- ...
- Acorda!
- Quem tá falando?
- A Nicole.
- Não ouvi.
- Ni-co-le. Tô falando baixo, senão vão me ouvir lá fora.
- Lá fora onde? Que horas são?
- Fora do banheiro. São umas duas, mais ou menos.
- ...
- Acorda!
- Que você quer?
- Você disse que ia me ajudar...
- Ah, naquele assunto?
- É.
- Onde você tá?
- Na casa do cara.
- Que cara?
- Não interessa, um cara aí. Uma amiga me apresentou.
- Ele deve tá ouvindo tudo.
- Tá não. Também tá no telefone. Daí aproveitei pra vir no banheiro.
- E o que você quer saber?
- Se eu devo ou não.
- “Deve ou não” o que?
- Ai, você sabe!
- Tá, descreve o cara.
- Bonito, inteligente, elegante...
- Então dá de uma vez.
- Ai, você não tá ajudando.
- Tô sendo prático.
- Não tá, tá sendo superficial.
- Tô sendo homem.
- Tenta se colocar no meu lugar.
- OK, como você tá agora?
- Sentada no vaso, folheando uma Vogue com ensaio de uns vestidos do Givenchy...
- Não, eu quis dizer: você tá nervosa? Com medo? Com tesão?
- Ai, um pouco de tudo.
- Agora é você quem não tá ajudando.
- Não é isso. É que eu não sei se é o momento. Primeira vez que a gente sai...
- Nicole, a gente tem pouco tempo. Demorando aí no banheiro o cara vai achar que você tá passando mal.
- Então diz o que eu faço!
- Dê!
- Você só tá querendo voltar a dormir.
- Nicole, agora é sério. Você tá precisando é de macho. E urgente. Então, sai já desse banheiro senão eu mesmo vou me levantar e ir aí te comer!
- Grosso!
- Você tava precisando ouvir umas verdades. Além do mais, aceitou entrar no ap do cara, caput! Vai ter que dar.
- Mas...
- Chega, não quero ouvir mais nada. Saia e pule no colo do animal. Amanhã você me conta tudo. Combinado?
- Tá bom...
- Tá bom mesmo?!
- ... Tá.
- Então mande ver. A hora é essa. Ou você acha que ele te levou aí pra que? Falar de Givenchy?!

Fora do banheiro...
- Ai, amiga, mas tem certeza mesmo?
- Claro, agora, desliga esse telefone, espera ela sair do banheiro e ataca. Senão vou começar a botar fé nesse papo de que ex-gay não existe!
- Tá bom, obrigado pela força, amiga, te adoro.
- E engrossa essa voz!
- Tá bom (ham-ham), digo, TÁ BOM!
- Melhorou. Agora se enche de confiança.
- Ai, deixa eu respirar fundo (funga).
- Tá confiante?
- Ai, miga...
- Opa! Não fala nada. Agora não tem volta! Desliga esse telefone e avança.
- Tá bom...

A porta do banheiro se abre.
- Posso emprestar essa Vogue que achei no banheiro?
- Você gosta de Givenchy?...


Mario Lopes

sábado, 3 de abril de 2010

Hoje tem estreia no blog. Larissa Santin é uma jornalista criativa, persuasiva e volátil que tem vários vícios (e não quer parar com nenhum deles...). Trancou ciências sociais, mas não sua consciência social, indo trabalhar em um serviço de voluntariado para crianças. Pinta quadros, anda de bike e é ex-praticante de Tai Chi Chuan. Tem uma gata e um golden retriever. Geminiana amante de Érico Veríssimo, Voltaire, peixe cru, abraço de vó, fogueira e de... água ("não posso ver uma poça que me jogo"). Bem vinda ao time, Lari, que você goste tanto daqui quanto de banho de chuva.

Jacarepaguá Blues





- “Tão indecente, foi o jeito que essa mina descarada, arranhada, repulsiva me jogou de repente. Eu já sabia das suas intenções maléficas contra mim por isso me precavi com todo alho e cebola, que eu consegui comprar. Mas o que eu não sabia era que você era exata e precisa nos seus movimentos, por isso confesso: eu to num terrível astral.”
Cantarolava, enquanto cortava 3 cebolas médias e 5 dentes de alho numa tábua de madeira escuta. No fogão, uma panela grande. Na colher, manteiga. Acendeu o fogo, levou a manteiga até a panela, que de quente, derreteu. Jogou as rodelas perfeitas de cebola e alho e escutou aquele som característico acompanhado de um cheiro mais característico ainda. Era meio dia.
Era uma e quinze. “Onde está esta desgraçada?”, pensava, sentada na cadeira da cozinha, panela com tampa, fogo apagado. Pobre criatura, fora feita pra agüentar altos níveis de estress por conta da espera. Esperar, esperar, esperar. Essa era sua rotina. E nem sabia dizer se ainda era feliz. Se não fosse, conseguiria viver sem ela?
Era uma e meia. Não. Não conseguiria viver sem ela. Levou uma mão sobre os olhos a fim de enxugar as lágrimas. Estava chorando por uma hora e meia, agüentaria uma vida inteira? Não.
Era duas horas. “com quem ela está?”, ela pensava. Ela ou seu demônio interno. A insegurança e a desconfiança dando sinais de existência. Há tempos desconfiava das relações de infidelidade. Levou a mão à testa e coçou. Mal sinal.
Era duas e meia. Quando, de repente, escutou a porta de casa se abrir. Levantou-se da cadeira azul de madeira revestida e a esperou se aproximar.
- Onde você estava?
- Mal chegei e já estou sendo interrogada pelo FBI. Cruzes!
- Isso não é brincadeira, você ta entendendo? Não estou brincando.
- Eu também não!
- Pare. Onde você estava?
- Meu Santo Jesus, eu estava trabalhando!
- Você sai às 13 do trabalho.
- Sim, e hoje saí às 14. Tem algum problema?
- Claro que tem!
- Ah é?
- Com quem você estava?
- No meu trabalho?
- Não, espertinha. Eu sei que você não estava no trabalho. Confesse.
- O que? Confessar o que? Ta louca?
- Sim, estou louca mesmo. Louca de agüentar você, com suas mentiras agora cada vez mais freqüentes. Porque você não segue sua vida? Porque continua comigo?
- Olha, não to afim dessa conversa.
- Você ta vendo? Além de tudo não quer conversar!
- Mas olha o nível dessa conversa! Eu estou te falando que estava no trabalho até mais tarde hoje. O que que é hein? Qual teu problema?
- O problema é que é mentira. Confesse!
- Não vou confessar nada, sua maluca!
- Ahá! Mas tem algo estranho acontecendo. Me diz. Você tem outra?
- Escute! Essa conversa está encerrada. – dando as costas.
- Confesse, confesse! – berrava pelo corredores enquanto seguia a companheira até o quarto, sem resposta. Uma grande batida na porta do banheiro testemunhara o fim dos dias. Ela sentou-se na cama, olhou tudo em volta, olhou mais uma vez a porta fechada à sua frente e finalmente compreendeu que obteve sua confissão.
- “ Mais um capítulo, da novela colorida, dolorida que eu pedi pra ver…” – continua a canção.





Larissa Santin

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Se Sim Ou Se Não...


Eu tenho uma história para contar. Uma história engraçada, aleatória, assim meio bizarra, fora do normal. Deixaria de ser apenas um sonho ou uma fantasia maluca, não fosse a realidade com que eu via e sentia as coisas.
Deveria ser umas 2 da manhã. O asfalto ainda estava aquecido pelo sol e soltava uma fumaça fantasmagórica. Minha cabeça explodia e eu, já cansada de ficar no bar e louca para capotar em uma cama, resolvi me despedir de todos e ir embora. Não havia ônibus numa hora dessas, pelo menos não em dias de semana. Era uma quinta-feira.
Como eu não estava tão longe de minha casa, chamei um táxi e fiquei aguardando em frente a um lugar qualquer, mas bem iluminado. Depois de esperar por 15 minutos, eu, já impaciente, estava ligando para a companhia de táxi quando a rua foi iluminada por uma luz estranha que se aproximava lentamente, tornando-se cada vez mais forte até que eu só conseguia enxergar uma massa branca amarelada. Quanto mais intensa ficava a luz, mais alto ficava o barulho.
Bem, eu de tão nervosa por estar sozinha às duas da manhã em uma rua “esfumaçada” esperando meu táxi por 15 minutos, imaginei coisas muito piores do que um simples ônibus, comum como todos os outros. Então, assim que o ônibus parou e encostou no meio fio, eu assumi uma postura de mulher madura e corajosa e fui falar com o motorista.
- Boa noite, para onde vai esse ônibus?
Para minha surpresa, o motorista nada tinha de monstruoso ou sobre-humano. Tinha um rosto com nariz, dois olhos, boca e tudo o mais que tem direito. Nada faltando ou sangrando, só eu, suando atemorizada.
- Como vai para onde? Vai pra onde você quiser.
Rá! Eu sabia, eu tinha certeza que aquele era o ônibus da morte, que o motorista estava apenas fantasiado de humano, que tudo aquilo era diabólico e maléfico. Como se estivesse vivendo em um filme do Wes Craven, falei com os olhos arregalados, prestes a sair correndo:
- O... quê?
O motorista, ao ver minha reação, explode em uma crise de risos tão pura, ingênua e intensa que começo a rir também.
- A dona não vai me dizer que levou a sério o que eu falei, vai? Disse o homem, recuperando o fôlego, com lágrima nos olhos.
Quando eu, envergonhada, abri a boca para respondê-lo, um casal de jovens entrou no ônibus conversando distraidamente sobre algum filme em cartaz no cinema. Tranquilizada, eu olhei para o cartaz que o motorista, indiferente, apontava com uma mão, enquanto a outra, já sobre a marcha, preparava-se para a partida. No cartaz, estava todo o itinerário do ônibus, e por sorte, o ponto que eu desceria era um dos próximos. O estranho era que o ponto ficava na minha rua, e eu nunca vi um ônibus passando por ali.
Na verdade, eu nem sabia que passava ônibus às 2 horas da manhã no lugar onde eu estava, mesmo porque se eu soubesse, não teria chamado um táxi.

Indignada comigo mesma ao pensar que aquilo ali poderia ser algo demoníaco, eu sentei e tentei me manter tranquila. Afinal, a Prefeitura não pode colocar mais um ônibus para circulação e criar novos pontos e novos horários? O que um ônibus pode ter de tão maligno? Nada, não é mesmo?
Bem, tentei permanecer calma, mas havia algo de estranho no ar. Os dois adolescentes, desde que foi dada a partida, tornaram-se quietos e atentos. Até soltaram suas mãos um do outro. O pior é que não pareciam estar apreensivos ou com medo como eu. Na verdade, estavam ansiosos prestando atenção em algo que não conseguia e nem tentava notar.
O motorista também. Desde que saiu daquele primeiro ponto, parecia ter perdido um pouco o seu ar de humano. Às vezes, quando eu olhava de canto de olho para ele pelo retrovisor, notava que também tentava me olhar sem que eu o notasse. Impossível.
Até poderia ser tudo invenção da minha imaginação, mas algo me dizia que havia ali algo de errado.
Dizem que intuição feminina nunca erra, porém tudo o que eu mais queria naquele instante é que a minha estivesse totalmente enganada.
Eu queria descer daquele ônibus e ir a pé, mas sinceramente não sabia aonde era mais perigoso, se ali dentro, ou lá fora, nas ruas escuras e abandonadas.
O motorista não parava de me olhar. Já havia desistido de tentar ser discreto, e praticamente me dissecava com os olhos.
O casal de jovens começou a ficar inquieto. Ficavam de cochichos, enquanto gesticulavam e olhavam para a janela. Eu até tive a impressão de ter ouvido o meu nome, mas como era possível? Não era. Porém, eu poderia jurar que seus olhares estavam direcionados para mim, e que, pela minha intuição de leitura labial, diziam algo como "vamos matá-la" ou "ela tem que morrer".
Eu estava nesse impasse, quando vi que o casal se levantou rapidamente. Pelo sim pelo não, e mais desesperada do que qualquer outra coisa, corri para a porta no mesmo instante que o motorista parava o ônibus.
Para minha surpresa (tive mais surpresas nessa última hora do que já tive em minha vida inteira), o motorista, ao me ver em frente à porta, abriu-a sem problema algum.
Saí correndo feito louca pela rua, sempre olhando para trás em busca de um casal de jovens zumbis, um motorista ensanguentado, e um ônibus fantasma.
Bem, cheguei em casa viva, agradeci às minhas pernas ágeis pelo bom trabalho e por terem me salvado, e pela maldita companhia de táxi que foi responsável por tudo isso.
Desde esse dia, eu não ando mais de ônibus à noite, e não voltei àquele bar para checar se o tal ponto realmente existia ou não.
Confesso que não quero saber. Se for verdade, nunca mais me sentirei segura.

Se for mentira? Passarei o resto da vida me tachando de desequilibrada e psicótica.
Agora, se você me perguntar se eu acho que aquilo realmente aconteceu da forma que imaginei, eu não sei responder.
Mas confesso que... bem, eu deveria ter ficado lá, pelo menos pra ver qual seria o final da história, não é?
Tá bom, chega. Eu só era a figurante do filme do Wes Craven, confesso.






Letícia Mueller