segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Semana de tema livre

Histórias de Consultório



Trabalho como secretária em uma clínica, onde atendo três ginecologistas e dois urologistas.
No começo, pela inexperiência, não tinha trato suficiente para lidar com os clientes da saúde, pois se trata de um público que exige muito mais atenção e cuidado do que os demais.
Aqui vejo de tudo. De mulheres com disfunções sexuais, como frigidez, até ninfomaníacas. De homens com problemas de ereção até os compulsivos sexuais assumidos.

Não é fácil lidar com pacientes complicados, mas acho que o pior de todos é o “paciente tarado”. Este tipo adora jogar uma cantada, muitas de péssimo gosto, sai atirando para todos os lados... e ainda se considera o tal na cama. Talvez seja a questão do fetiche, de transar com uma secretária, não sei.

Há um mês atrás, dei de cara com um paciente assim. Era um paciente que se consultava com um dos urologistas há um ano.

- Thainá, você tem namorado?
Eu estranhei a pergunta. Não tinha intimidade alguma com ele, apesar de eu conhecê-lo há bastante tempo e conversarmos com uma certa regularidade.
- O senhor não acha que esta é uma pergunta muito pessoal, não?
- Eu sei, mas é que eu te achei uma tremenda gostosa e eu queria pedir seu telefone e ver se não podemos sair na sexta à noite...
- Anh?

Eu não conseguia esboçar reação alguma, tamanho o susto.
- Ah, vai, vamos... garanto que te faço ver estrelas de tanto gozar...
- É mesmo?
- Pode apostar. Satisfação garantida ou...
- Ou o meu orgasmo de volta?

Outro caso foi quando eu checava com um paciente, após a triagem inicial, a altura e o peso. Rotinas da clínica para fins de cadastro.

- Senhor, qual a sua altura e peso?
- Ah, 1.80 de altura, 78 kg e... 18 cm.
Como estava em época de TPM, não aguentei e rebati:
- 18 cm do que, senhor?

Também me lembro de uma paciente que ligou pedindo uma “ajuda” básica...

- Eu preciso fazer aquele exame do HPV...
- Certo, senhora... Mas afinal, qual é a sua dúvida?
- Então, assim... eu queria saber se eu posso fazer esse exame hoje. Preciso fazer o mais rápido possível, porque eu tenho urgência... mas acontece que eu transei e tô sentindo muita dor lá... você sabe, né?
- Sim, eu entendo... então não tem como, porque pra fazer esse exame a senhora não pode ter tido relações sexuais por pelo menos três dias. E eu sugiro que espere essa dor passar pra depois fazer, pois pode acontecer alterações no resultado.
E eu não imaginava o que estava por vir...
- Pois é, menina. Eu saí com um cara, só que o pau dele era muito grande... grande não, enorme!... e grosso (e eu com isso?). Ele me comeu daquele jeito, de quatro... ele enfiava com tudo... e eu sentia a cabeça dele batendo na entrada do meu útero.
A essa altura, eu não sabia mais o que fazer. Se ria, se chorava... de rir.
- Entendo... quando foi que a senhora teve essa relação?
- Hummmm... ontem!
O cara devia ter sido um cavalo. Não era de se duvidar que ela tivesse toda machucada.

Ah... e também teve um paciente, um homem na casa dos 40, do tipo bombadão, retraído na cadeira como se fosse uma criança com medo do escuro. O motivo: era a sua primeira consulta com um urologista... e estreante no exame de toque. Tadinho, fiquei com pena ao ver sua expressão de medo. Assim que o chamei para assinar a guia de consulta, ele resolveu aproveitar o espaço pra me perguntar:
- Moça, deixa eu te perguntar uma coisa... você sabe me dizer se esse exame dói mesmo, como todo mundo fala? Sabe como é que se faz?
E pra eu explicar isso? Roxa de vergonha. E lá fui eu.
- Senhor, o exame é simples. Ao contrário do que muita gente diz, não dói. Ele apenas vai colocar um dedo no seu ânus pra ver se não há nenhuma irregularidade na próstata.
- O que mais que o médico vê? (como se eu fosse médica, né)
- Não sei te informar detalhes, o que sei que é o médico analisa o volume, a consistência, a mobilidade, a sensibilidade da região...
- Sensibilidade?!

Ui! Pronto. Foi o que bastou pro o machão começar a suar frio.
- Você sabe mais ou menos quanto tempo dura?
O nervosismo dele era evidente. Esfregava as mãos, ficava cada vez mais suado, coitado...
Eu, a essa altura, quase sem reação, calada... pensando: ele deve gostar do exame mesmo sem nunca antes tê-lo feito.
- Ei moça, você não ouviu minha pergunta?
- Sim, sim... desculpe, o procedimento é rápido, senhor, fique tranquilo.
- Ai, mas você tem certeza mesmo de que não dói, moça?
E eu, sem noção, solto a pior de todas as besteiras:
- Senhor, tente se acalmar. Afinal, são só 15 segundinhos.
Só depois que fui me dar conta...
Mais uma bola fora para a minha lista. Não consigo entender porque os homens têm tanto medo do toque retal. Tem tanto homem que aprecia um fio terra na sua forma mais profunda (já ouvi muitos relatos de pacientes, mas não vou falar por questões éticas,), e ainda acham que fazer um simples exame, que tem como objetivo protegê-los de uma doença tão séria quanto o câncer de próstata, é sinônimo de viadice ou de “ferir a masculinidade”.

Para descontrair, um vídeo bem humorado sobre este tão temido exame.





Thainá Costa dos Santos

domingo, 30 de agosto de 2009

O Cadelo



Pelo assobio ao telefone, já deduziu quem era. Otto olhou ao redor para ver se estava sendo observado pelos colegas de trabalho. Cobriu o aparelho com a mão e começou a arfar como um cachorro, bem próximo do bocal. Ela então iniciou o diálogo com sua voz feminina e dominadora:
- E como tá o meu cadelo hoje?
Otto voltou a olhar para os lados a fim de se certificar de que sua conversa não estava sendo ouvida pelos demais.
- Atiçado. E a dona dele?
- No cio.
- Hmmmm... E vai virar minha cãzinha?
- Só se o cadelo dela latir.
- Au, au.
- Mais alto.
- AU, AU.
- Não tô ouvindo.
Olhou ao redor e viu que os colegas continuavam trabalhando em suas baias sem perceber nada de anormal. Resolveu arriscar.
- AU! AU! AU! AU!!!
Dona Dalmira, que servia cafezinho em uma das baias, esticou o pescoço para ver o que estava acontecendo, fazendo Otto esconder o rosto atrás do monitor de seu PC.
- Meu cadelo tá fraquinho?
- Satine, eu tô no trabalho.
- Hmmmm... então é uma ótima ocasião pra mostrar que é mesmo meu cadelo.
- Você sabe que eu sou.
- Prova. Late alto!
- Satine...
- Late!!
Otto, temeroso e resignado, desceu para baixo de sua baia e latiu a plenos pulmões, chamando a atenção de toda a repartição. Desligou o celular e se levantou, ajeitando a camisa e tentando disfarçar, mas Ramiro, gerente de vendas, o fitou como que esperando por uma boa explicação para a cena.
- É o toque do celular. Mas já mudei.
Nem Ramiro nem os outros colegas se mostraram convencidos, mas deixaram a situação por isso mesmo, já que o ocorrido era tão inusitado que ninguém conseguia ter certeza do que realmente havia escutado e visto.

No caminho para casa, Otto refletiu em o que aconteceria se, numa happy hour da vida, contasse aos colegas que ele tinha uma dona. Com certeza iriam rir dele e censurá-lo. “Mas só porque não conhecem a Satine”, reconfortou-se. Aquela loira de coxas poderosas, seios opulentos e fantasias ensandecidas recompensava cada gesto de obediência com sessões de intimidade inenarráveis. Animalescas como ele nunca sonhara ser possível. Sentia seus instintos primais virem à tona com um impulso selvagem em que mordidas, lambidas e saliva eram apenas o couvert de um banquete de carnes e suores. A cama virava uma savana de apenas dois animais. E era pequena para tanta caça, tanto safári de sensações. Com ela, ele era um cachorro do mato feliz, domesticado de dia e alimentado de noite.

Ao chegar em seu apartamento, mal colocou a chave na porta quando ela se abriu.
- Olha o que eu comprei pra você.
Disse Satine, tirando uma coleira de dentro da bolsa branca. Otto, ao olhá-la apoiada no batante da porta de vestido listrado e cinta-liga, colocou a língua para fora a salivar.

No dia seguinte, jantavam em um restaurante requintado, quando Satine o repreendeu com o uso dos talheres.
- Mas cadelo não come assim, de garfo e faca.
Otto deixou os apetrechos de lado, enfiando seu rosto no prato e passando a rasgar seu mignon au poivre com os dentes, para repulsa de um elegante casal na mesa ao lado e orgulho de sua dona, que agora o recompensava com o pé descalço afagando seu sexo por baixo da mesa.

Na quarta-feira, enquanto era levado para passear no parque, buscando quando em quando um pedaço de arame de sutiã que Satine atirava na pista de cooper, ele indagou pela enésima vez:
- Você ainda vai ser minha cãzinha, né?
- Vou. Agora pega, pega!

Ainda na mesma semana, foi lavado por Satine na banheira e teve o corpo enxugado com o uso de um secador de cabelo.
- Aaaaiii!!
- Que foi, cadelo?
- Você me queimou nas costas, afasta esse secador aí.
- Ah, é? Então vai pra fora!
Satine engatou a presilha da corrente em sua coleira e puxou Otto até a porta.
- Satine, calma.
- Vai ficar lá fora até se comportar.
- Mas eu tô nu.
- Ah, e cadelo veste roupa por acaso. Fora!
Foi nu em pêlo para o corredor do edifício e ouviu o “blam!” às suas costas. Ficou entre o medo de ser flagrado e a indignação de ser expulso da própria casa. O constrangimento era maior que o frio no corpo molhado. Tentou secar-se balançando o corpo para tirar a água dos pêlos imaginários. Para continuar o jogo, passou a andar de quatro de um lado para o outro. Então ouviu o som de sua porta sendo trancada a chave. Desesperou-se, mas sabia que agora, mais do que nunca, precisaria fazer o jogo dela para adentrar em seu lar novamente. Percebeu que Satine o observava pelo olho mágico. Então, começou a uivar, pedindo que abrisse a porta. Não obtendo a reação desejada, passou a arfar sorridente, com língua de fora e olhar de cachorro pidão. Arranhou a porta com a “pata” direita e choramingou. Olhou o painel numérico sobre o botão do elevador, temendo que a porta se abrisse com a chegada repentina de um condômino, mas por sorte estava no térreo. Ouviu então vozes por trás da porta de um dos apartamentos vizinhos. Ficou receoso que alguém fosse sair para o corredor. Passou a arfar e a fazer truques, ficando de joelhos em frente à porta e rolando no chão pelado. Nada. A chave da porta vizinha começou a girar, alguém estava realmente saindo para o corredor. Pôs-se a uivar mais alto, desesperado. O trinco do apartamento vizinho se mexeu. Então Otto latiu com o vigor de um rottweiler, arranhando a porta em pânico. Ela se abriu, fazendo-o cair para dentro do apartamento. A porta foi fechada por Satine logo em seguida e Otto se precipitou sobre o corpo de sua dona, a princípio grunhinho, mas logo em seguida lambendo-a obediente, aliviado e feliz. A noite seguiu-se com o melhor sexo oral que já praticou e recebeu em toda a sua vida.

Satine continuou com suas sandices. Certa vez, em um motel, colocou Otto na beira da banheira de hidromassagem, obrigando-o a urinar dentro dela de quatro e com uma perna levantada. Em outra ocasião, espalhou pelo próprio corpo pedaços de carne crua, obrigando Otto a devorar cada naco, alguns dos quais estrategicamente distribuídos em sua anatomia. Já em outra, apagou as luzes do apartamento, cobriu bem as janelas e o fez procurá-la usando apenas o faro, formando no chão um rastro de objetos que aromatizou com o cheiro de seu sexo.

Mas as contra-indicações daquela relação não tardaram a aparecer. Otto teve um problema no menisco por andar muito tempo de quatro; ficou com um vergão no pescoço num dia de semana em que Satine o puxou com muita força pela coleira, gerando indagações embaraçosas dos colegas de trabalho; e ainda por cima se pegou acordando aos uivos numa noite em que Satine não foi ao seu apartamento.

O cúmulo aconteceu em um final de semana, no qual Satine teve de viajar e propôs a Otto que ficasse acorrentado a uma das pilastras de concreto da sacada de seu apartamento. Ao ladrar contra a proposta, Satine afirmou que a extensão da corrente daria a ele acesso à cozinha, ao quarto e ao banheiro, permitindo assim condições de usufruir dos principais cômodos de sua casa, sem falar da própria sacada, onde poderia tomar um arzinho. Porém, claro, ela levaria a chave do cadeado. Otto recusou-se terminantemente. Indignado, perguntou a Satine o que faria se houvesse um incêndio: “lato pra vizinhança?!”. Indagou então por que ela não o levava na viagem, recebendo a resposta de que não fabricavam casinha de transporte no tamanho dele. Acabaram não entrando em consenso. Irritada com a desobediência, ela boicotou seus encontros com Otto depois da viagem, evitando visitá-lo por quatro dias. Ele ficou sem ninguém para lhe dar banho ou levar para passear, deixando a barba ficar espinhenta por falta de tosa. Furioso com a indiferença de sua dona, esbravejou quando ela lhe ligou no trabalho em uma manhã cheia de serviço.
- Sabe o que aconteceu? Não era só você que estava me observando pelo olho mágico naquela noite. A minha síndica também estava. E viu tudo! Falou para o prédio inteiro que eu estava no corredor nu, molhado, uivando e latindo. E agora?
- Agora você mija na porta dela!
- Ah, sim, e transo com a perna dela, que tal?
- Não, isso você só faz em mim.
- Sabia que hoje eu vou ter de dormir num hotel?! Ééééé, tem reunião de condomínio e eu não posso botar minhas patas no prédio. Sabe por quê? Adivinhe quem vai ser o assunto da noite?
- O cadelo.
- Isso mesmo, o cadelo. Este que vos fala!
- Late baixo! Junto!
- Fala a verdade, você nunca vai ser minha cãzinha, né?
- Quieto!
- Olha aqui, pra mim chega! Cansei de ser seu cadelo. Você é uma fora da casinha! Procura outro pra adestrar! Tchau!
Bateu o telefone, bufando, e olhou ao redor, estranhando o silêncio. Viu então que todos os colegas de escritório estavam parados atônitos em suas posições de trabalho, com os olhos arregalados direcionados a ele. Enfurecido e rompendo com aquele silêncio tenso, Otto rosnou:
- Grrrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!
Todos imediatamente voltaram às suas funções assustados, fazendo de conta que nada houve e que não testemunharam a conversa ao telefone.

Caminhando no final do dia, em direção a um hotel barato próximo a seu trabalho, pegou uma rua pouco movimentada onde viu uma cena que lhe deu arrepios: um funcionário da prefeitura fazendo os serviços de carrocinha, pegando os cachorros de rua com um cabo comprido, tendo em sua ponta uma espécie de laço de arame eletrificado. O funcionário laçou um dos pobres animais, fazendo-o paralisar com o efeito do choque, caindo instantaneamente no chão e estrebuchando em desvario, sendo então arrastado pela cauda até o veículo. Otto ficou compadecido do bicho que agora quase considerava seu igual. Mal teve tempo de penalizar-se quando sentiu um laço como aquele vindo por trás e lhe descendo pelo alto da cabeça, apertando seu pescoço e liberando uma descarga elétrica que amorteceu seus sentidos. Tentou livrar-se inutilmente, com seus dedos não mais conseguindo obedecer corretamente os comandos cerebrais. Caiu no chão quase desfalecido. E, enquanto era arrastado pela calçada até um veículo próximo, conseguiu mover as pálpebras para cima e ver Satine puxando-o pelas pernas.
- Você foi um cadelo mau. Muito mau.


Mario Lopes

sábado, 29 de agosto de 2009

Estreia animal



Tem Desaforada nova no blog. Helô Garrett é jornalista, assessora de imprensa, fã de Truman Capote, polivalente, mãe e inimiga da rotina, colaboradora do jornal Farol e colunista da revista Blooming. Ela será a Desaforada das quintas, mas, nesta semana, excepcionalmente, seu post está saindo no sábado, já que anteontem foi vez da estreia de uma Desaforada X, a historiadora e professora Rubia Carneiro. E no debut de ambas, o tema é "animais de estimação", ou seja, nada mais adequado para duas feras do texto. Bem-vinda, Helô. Bem-vinda, Rubia. Vamos ao texto...



Hoje é minha estréia como Desaforada!!!
Fiquei muito feliz com o convite, mas quando o meu novo grande amigo me passou o tema desta semana fiquei pensando em o que escrever...
Escrever sobe a minha angústia em ver minha princesa pedindo um bichinho e eu empurrando a responsabilidade de ter um cachorrinho para a sua avó?
Ou lembrar como era a minha relação com os bichinhos nos primeiros anos da minha vida?

Bom, acho que vou começar pelo princípio...
A primeira grande tragédia que lembro da minha vida foi quando o Banzé morreu.
Eu devia ter uns quatro ou cinco anos quando ele se foi. Era o xodó de toda a família, um pequinês muito fofo. Em um lindo dia de sol meu irmão me disse: o Banzé morreu. Foi uma tristeza profunda e o meu primeiro velório. Nos fundos da casa da minha avó tinha um bosque e foi lá que enterramos o Banzé. Meu irmão fez o trabalho pesado, enquanto fui pegar uma flor na roseira. Ele foi enterrado debaixo de uma árvore e até hoje quando passo por lá lembro dele.
Depois do Banzé nunca mais tive muita sorte com cachorros. Eles sempre morriam.
Eu tinha uns dez anos quando meu pai e minha mãe foram morar no sítio e eu fiquei na cidade morando com a minha avó. Um amigo da família me deu uma rotwailer, mas quando cheguei da escola, ela, que tinha menos de um mês, estava no tanque. Minha avó achou que ela estava muito suja e resolveu dar conta do problema. Resultado: ela morreu.

Com essas tristes experiências resolvi partir para outros animais, menos perecíveis eu diria. Como minha família era muito ligada ao meio rural eu comecei a ter vacas de estimação, sempre com nomes de pessoas. A que eu mais gostava era a Jenifer. E sofri muito quando meu pai disse que eu tinha que mudar o nome dela porque a minha tia tinha ganhado bebê e o nome seria Jenifer. Não admitia mudar de nome, afinal, a vaca tinha nascido antes. E nesta época também acabei domesticando um touro, é muito engraçado ver as fotos, eu adorava ele desde que era bezerro e, quando ele ficou adulto, eu andava “a cavalo” nele. Muito metida eu...
Mas aí sofria também quando resolviam transformar minhas vacas em churrasco... deve ser por isso que não gosto de carne.

Passada esta fase, resolvi gostar de cavalos de verdade. Afinal andar em bois era um tanto perigoso para uma mocinha... Aí comecei a ter cavalos. A que mais gostava era a Princesa, uma linda égua Quarto de Milha, charmosíssima. Passamos por muitas coisas juntas, mas como cavalos também são perecíveis ela se foi...

A Babalu me acompanhou com um bom tempo. Uma vira-lata muito querida, amiga mesmo. Eu ganhei ela da minha madrinha quando eu tinha uns 11 anos, lembro que foi antes da minha primeira comunhão, porque ela aparece nas fotos. Ela acompanhou minha adolescência, meus anos rebeldes, minha gravidez, e meus primeiros anos de casada. Mas de velhinha também se foi...

Hoje vivo o dilema de uma mãe que vê sua filha pedir todos os dias um irmão e um cachorro. A desculpa de morar em apartamento cola, mas acho que na verdade, como muita coisa que nós mulheres passamos e queremos evitar, é que nossos filhos sofram da mesma forma, é assim que me sinto.
Imagina a Isa passar por tanto sofrimento em se apegar tanto aos bichinhos, e aos não tão bichinhos assim...
Mas, afinal, é sofrendo que se aprende, então deixo esta parte de ter cachorrinho para a casa da sua avó... ichi, isto está me parecendo familiar...





Helô Garrett

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Pulo Do Cão


Era um cachorro diferente, mesmo antes de eu conhecê-lo. Tinha um mal da raça que o tornava quase como um eterno recém-nascido humano, mas com a grande vantagem do choro menos esporádico e mais grave.

De pêlos brancos bem ralinhos, longas orelhas eretas, olhos pretos enormes e pequeno rosto redondo, era o mais belo cão-morcego jamais visto por mim. Uma fofura, e sobre isso, a opinião era unânime. Não ouso cometer o mesmo equívoco de outros donos de bichos, que dizem que seus companheirinhos são pequenos gênios peludos cujo único atributo ausente é a capacidade de falar, mesmo porquê nada falta ao meu cão. Aliás, o que mais gosto nele é o fato de que os únicos sons possíveis que ele pode fazer são chorar ou latir… nunca falar ou reclamar. Todos nós sabemos que desde que se aprende a articular palavras, o que menos sai de uma boca são elogios e afins. Deve ser algum tipo de alergia universal.

Mesmo afirmando que nada falta ao meu cachorro, admito que ele é um tanto quanto desprovido de esperteza. Logicamente não muito mais do que o que falta para muitas pessoas por aí. Apesar da suposta ignorância, ainda acredito que essa característica é extremamente vantajosa a todos os animais de estimação, porque talvez só assim eles consigam ser felizes vivendo dia após dia no mesmo cotidiano monótono e muitas vezes solitário. Eu, em sã consciência, ficaria louca vivendo tal qual meu bicho. Imagina só ter a felicidade resumida a uma migalhinha de comida, uns poucos minutos do dia brincando com o dono e uma passeadinha pelas mesmas ruas desde sempre.

Ou talvez eu esteja me exaltando. Quem sou eu pra dizer que minha vida é mais feliz que a do meu bicho, já que ele não pode nem debater o assunto comigo. Aposto que, se ele pensasse - quem sabe ele até pense, mas apenas não fale -, daria graças por ter nascido cão ao invés de homem.

Enquanto eu empanturro-me de comidas deliciosas, para depois morrer sob o sofá, gemendo, meu bicho sofre ao receber apenas um pedaçinho do manjar… mas depois compensa saltitando sob minha barriga, feliz da vida ao me ver morto com o meu próprio veneno. E ele lá, crente de que quem ri por ultimo ri melhor.

Ele também já deve ter notado que há algo estranho pra fora daquela porta. Afinal, toda vez que eu chego em casa, em terno e gravata, ele - sempre nu - prevê meu mau humor e trata de só dar alguns pulinhos simbólicos, para não sair da rotina, e de se deitar embaixo da minha mesa, só saindo dali ao comando de um cafuné, o seu alvará de soltura. Logo, meu cão deve louvar o fato de ficar no máximo 30 minutos exposto ao inferno que o faz ficar horas estático sob risco de uma bronca, e um castigo às vezes.

Telefone então, nem se fala. De tanto me ver atendo-o, para logo em seguida ficar algum tempo berrando, o bicho já corre só de ouvir o trim-trim. E o pior é que eu não largo o celular… até quando estou lendo um livro qualquer, e aproveito para espiar o cão, também sempre acompanhado de sua bola. Às vezes, ele me empurra essa bolinha com olhos tão vibrantes, que tenho vontade de entender o que ele quer dizer com isso. Mas sempre que começo a pensar, meu telefone toca e… bem, aí você já sabe.

Nos fins de semana, até que ficamos bem unidos, a não ser nos que viajo. Ultimamente, tenho feito isso com freqüência, e o engraçado, é que o cachorro parece nem notar. Chego em casa às seis horas da matina, e o máximo que ele faz é ficar ao lado do pacote de ração. Nem reclama… acho que já se acostumou a ficar sozinho.

Dia desses, cheguei em casa após um feriado na praia e vi que a casa estava virada de pernas pro ar. O chão infestado de objetos, as mesas vazias, as cortinas rasgadas, tudo indicava que um ladrão havia entrado ali. Após checar meus objetos de valor, e constatar que nada havia sumido, fiz uma busca de meus pertences, e o engraçado é que nada estava faltando. Dei urras pela minha sorte, pois só o que roubaram foram as comidas que estavam sob a mesa. A geladeira e o armário estavam intactos, apesar de que quase tudo que havia lá dentro já estava estragado.
Fui ao mercado tratar de comprar minha janta e… touché! Ainda faltava isso…

Ainda bem que sou bastante observador e reparei no buraco que havia perto da parede. Ladrões espertos esses… levaram até meu cão especial.



Letícia Mueller

De deuses a vagabundos


“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.”
Mário Quintana

Nunca os animais de estimação estiveram tão em voga quanto hoje. John Grogan, autor de “Marley e Eu”, que o diga. Pet shop, clínicas estéticas e veterinárias, academias, padarias – e uma infinidade de opções para deixar a vida do seu bichano cada vez mais prazerosa. Quer ganhar dinheiro? Abra uma pet shop. Só não dá mais dinheiro do que abrir Igreja – porque competir com Deus não é negócio.

Desde que o ser humano surgiu e distinguiu-se de toda a Criação, sentiu necessidade de possuir uma companhia que não questionasse suas ações ou rivalizasse o tempo todo consigo. Resultado: lá se foi a domesticar cães, cavalos, porcos, cabras e toda uma gama de animais necessários para sua sobrevivência. No entanto, o cão era diferente. Não era comida (menos na China, é claro). Era companheiro. Era obediente. E toda essa submissão corrompeu de tal forma o ser humano que ele não teve dúvidas – então, cães, gatos, peixes e pássaros foram condenados a aturar eternamente o desejo humano de companhia. Desde então, os animais fizeram história: Calígula, por exemplo, promoveu seu cavalo a senador - e olha que ele trabalhava mais que nossos atuais representantes. E eu não poderia deixar de citar outro equino famoso: “Bucéfalo”, cavalo de Alexandre, o Grande. No Egito, gatos, crocodilos, serpentes, leões, besouros, hipopótamos, etc, etc, eram deuses – os egípcios sim, literalmente adoravam os animais!

Durante a Idade Média, os camponeses dividiam o teto carinhosamente e de bom grado, com seus animaizinhos de estimação: cães, gatos e... doninhas, ovelhas, esquilos, papagaios, porcos e macacos (isso sim é amar a natureza!). O único problema era explicar porque o porquinho do filho mais novo (e nesse caso refiro-me ao suíno mesmo) havia virado refeição. Animais e humanos viviam em tal simbiose que os bichanos até frequentavam a Igreja – e rezavam em latim. Mas como nem tudo são flores nesta vida, aos gatos restava o trabalho – de deuses idolatrados no Egito Antigo a meros caçadores de ratos, quanta humilhação...

Mas como eu não acho graça nenhuma em ficar olhando o pobre peixe entediado dentro do seu aquário e nem o pobre solitário infeliz passarinho cumprindo pena na sua gaiola, me deterei nos inevitáveis e adoráveis cães e gatos.

Se você não gosta de animais ou não possui um em casa, não visite aquele amigo que tem dois pudles e um siamês. É praticamente impossível encontrar alguém que tenha um animalzinho, que não tente fazer você ficar horas sentado no sofá só para ouvir as inúmeras histórias do(s) bichano(s), além de querer te mostrar todas as fotos que tirou desde o momento em que o mesmo desmamou até a de ontem, enquanto ele se espreguiçava. Também não aconselho a visitar aquela tia que tem dez gatos, se você é alérgico. A não ser que você esteja procurando um tratamento de choque e pretenda ficar imerso nos pêlos dos bichanos (que se espalham por todos os cantos da casa), para ver se cria imunidade...

E quando dois donos se encontram, então? A disputa é inevitável: cada um procura impressionar o outro, falando sobre as peripécias e particularidades do seu bichinho. É nessa hora em que se escutam “pérolas”, e descobrimos que existem cães que comem tangerina, melancia, strognoff e pizza de aliche (e usam guardanapo no final), que “falam” para o dono que querem brincar (e o dono jura que o Rex articulou MESMO a palavra), que seguem os donos nos passeios e retornam sãos e salvos para o lar (foram fazer caminhada, manter a saúde) e que ainda sabem fazer manobras no skate. Ou ouvimos os amantes de gatos discorrerem apaixonadamente sobre a independência, inteligência, sensualidade e elegância dos bichanos (se fossem humanos, seriam perfeitos – se bem que teriam alguns contratempos, pois o olfato felino é 14 vezes mais forte do que o dos humanos – Já se imaginou sentindo tantos odores assim? Iria ficar maluco tal qual o protagonista do livro “O Perfume”). E se você é fã de cães não vá querer discutir com aquele teu amigo que ama gatos. Cada um com suas afinidades.

O ser humano é muito engraçado mesmo: adora dar características humanas para os animais. Ainda nem comprou o ser de sua devoção e já lista todos os nomes possíveis e imagináveis – desde os óbvios “Rex” e “Totó” até os mais estapafúrdios, como “Ferro Velho”, “Já te disse” e “Espelotada”. A maioria prefere dar nome de gente para o bichinho - da ex-sogra-chata para aquela Vira-Latas preguiçosa, do ex-namorado tranqueira para aquele gato rajado, do vizinho entroncado para o chihuahua... Ah, mas existem também os amantes da História, que batizam as criaturinhas com nomes imponentes: Zeus, Thor, Pégasus (a pessoa nem desconfia que Pégasus era um cavalo alado e batiza o hamster com esse nome). Pobre animal, não pode escolher o dono e nem o próprio nome... E então, ao chegar a seu novo lar, ganha identidade, passa a ser o mais novo membro da família, torna-se o centro das atenções, mesmo sendo conhecido pela alcunha de Zequinha, Teco, Miguel, Fulano, Negão, Fred, Juninho, etc.

E o pior é que tem gente que leva esse negócio do “mais novo membro da família” tão a sério que passa a tratar o bichinho de forma bizarra, como se ele fosse o bebezinho humano que todo mundo acha fofo: de repente, o pobre coitado se vê envolto em mantas, com babados, fitinhas, lacinhos, perfume, roupas de grife e tudo o mais. Existem ainda aquelas pessoas que gastam fortunas na festa de casamento ou de aniversário dos seus bichinhos, ou que deixam generosas quantias nas clínicas veterinárias para suprir os gastos com os exames de raio-x, ultrassom, cesária – sem falar nos afortunados bichinhos que fazem academia, tomam banho de ofurô, tem dieta balanceada, divertem-se nas “baladas”, vão ao salão para manter o visual “impecável”. Há que se preservar o bom senso, e exageros não devem ser percebidos como o “normal”. Fazer festa de aniversário e levar no spa? Fala sério, existem milhões de crianças que nunca receberam parabéns ou comeram bolo no dia dos seus festejos. Subverter as coisas não é saudável. Nem é correto. O problema é que, na maior parte das vezes, o correto não é o mais fácil, ou o socialmente aceito. Promover festa de casamento de cachorro dá mais ibope do que doar cesta básica para família carente e analfabeta. Que mundo louco, não?


Rubia Carneiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Gata Caolha: Uma Lição de Vida


Capítulo 1 - Alguns Mitos Sobre os Gatos

O primeiro contato que tive com um felino foi na antiga casa em que minha família morava, em Curitiba, no bairro Jardim Centauro. Eu tinha cinco anos de idade quando, de repente, avistei um gato desconhecido no meu quintal. Corri para abraçá-lo e ele sumiu. Naquele momento perguntei para a minha avó, que estava nos visitando:
- Por que o gato fugiu de mim?
- Porque este bicho é um felino arisco de rua. Tenha cuidado com gatos porque eles são traiçoeiros. Afinal, felinos não gostam do dono, e sim da casa.
Naquela época fui a uma loja de calçados com a minha mãe e ela falou com a vendedora que queria trocar o sapato, pois tinha comprado gato por lebre. Naquele instante, pensei:
- Eu pensava que couro fosse feito de boi... Nossa! Existem couros de gatos e lebres também!
Na volta, pegamos o ônibus e avistei um neto malcriado brigando com a sua avó que ralhou:
- Não me faça de gato e sapato!
Logo refleti:
- Pela expressão usada pela idosa... Sapatos feitos de gatos não devem ter qualidade.


Capítulo 2 – “Animalterapia”

Em 1983, aos nove anos de idade, por sofrer bullying no primário pela dificuldade de aprendizagem, a orientadora escolar pediu para que meus pais me levassem a uma psicóloga. O consultório da profissional indicada ficava muito longe da minha casa, no bairro Vila Isabel, por isto eu e minha mãe precisávamos pegar o ônibus.
A clínica ficava numa casa antiga datada do século XIX. Ao lado dela tinha uma residência abandonada. Um certo dia, antes de fazer minhas sessões, notei que naquela rua havia uma pastora-alemã abandonada, porém muito dócil. Naquele mesmo instante fiquei amiga da cachorra e ela passou a brincar comigo todas as vezes que me via. Então pensei:
- Se fosse uma gata em vez de cachorra, será que ela seria minha amiga deste jeito?
Alguns meses depois notei que a cadela desapareceu sem nenhuma razão. Foi quando a psicóloga recebeu uma nova paciente: Graziele. Ela era uma adolescente de 13 anos que não levantava a cabeça e nem falava. Então, minha mãe chamou-me no canto e me explicou:
- Esta garota ficou assim porque um tarado a pegou. Por isto é que eu digo para você tomar cuidado... Se alguém oferecer balas e caronas nunca aceite!
Naquela época não tinha tantos casos de pedofilia como tem agora. Mas sempre tive medo destes bandidos e por isto sempre estava em alerta.
Alguns dias depois, eu estava brincando no parquinho da clínica quando, de repente, vi a pastora-alemã. Porém, ela estava com um olhar triste, cabisbaixo, e a sua parte traseira parecia estar muito machucada. A psicóloga saiu da clínica para me chamar, viu o problema da cachorra, resolveu levá-la ao veterinário e adotá-la.
Quando a doutora recolheu a cadela para dentro da clínica, o animal foi direto para o colo de Graziele, que ergueu o olhar para o bicho e, pela primeira vez na vida, vi aquela garota falar a palavra “oi”. A partir daquele instante a terapeuta decidiu fazer as sessões de Graziele junto com a cachorra. Quatro meses depois a menina voltou a falar normalmente.
Alguns anos mais tarde, descobri que a cadela sofreu o mesmo tipo de violência que vitimou Graziele. Além disso, surgiram pesquisas afirmando que pessoas vítimas de estupro que fizeram terapias acompanhadas por animas que sofreram o mesmo tipo de violência tiveram um resultado melhor . Este método foi apelidado de “animalterapia” .


Capítulo 3 – Fazendo Amizade Com um Gato

Há oito anos, mudei junto com os meus pais do bairro Jardim Centauro para o Jardim Santa Bárbara, em Curitiba mesmo. Porém, Gisele, minha irmã, ficou morando no antigo bairro. O mais interessante é que ela ganhou uma gata e este animal proliferou tanto a sua família que no final do ano Gisele estava morando com 20 felinos.
Na época, meu sonho era ter um cachorra amarela da raça “labrador”, a qual eu colocaria o nome de Dorothy Alice. Porém, isto era impossível, pois meus pais viviam dizendo que nunca aceitariam o fato de eu possuir um animal de estimação na mesma residência que eles.
Quatro anos depois, minha irmã doou os gatos e ficou sem nenhum bicho de estimação. No ano seguinte, apareceu um gato caolho, cinza “moriscado” e com um dos caninos avantajado, bem no quintal da minha casa. Toda vez que eu via aquele animal sentia medo. Além disso, minha mãe vivia dizendo que aquele bicho era pesteado e feio.
Um ano depois, após sofrer uma violência moral em público, eu estava admirando a beleza do quintal quando, de repente, vi aquele animal deitado no jardim. Então, resolvi , chamá-lo e assim o felino aproximou-se. Acariciei o pêlo dele e ficamos amigos.
Todas as vezes que meus pais avistavam eu brincando com o bicho, eles reclamavam. Até que, com o tempo, se acostumaram.
Uma vez, eu estava brincando com o felino no quintal, até que minha irmã, que veio visitar a família, começou a brincar com o animal também e disse:
- Isto não é um gato. É uma gata e deve ser muito velha. Mas o importante é que ela é dócil e gosta de você.
Eu então falei:
- Então poderei chamá-la de Dorothy Alice.


Capítulo 4 – Origens de Gata Caolha .

Eu nunca soube ao certo como Doroty Alice veio parar na minha casa. Porém tenho duas versões:
1º - A Gata Caolha Era da Gisele
Um certo dia meu pai viu a Gata Caolha e falou:
- Aposto que este bicho era um dos gatos que pertencia à Gisele. Tenho quase certeza de que ela jogou esta gata aqui só para “sacanear” a gente.
Assim, na próxima visita que a minha irmã fez, ela aproximou-se de Dorothy Alice e exclamou:
- Boa tarde, gata fofa. Esta gata caolha é braba com outros gatos, por isso ela perdeu um olho numa briga.
Eu indaguei:
- Gisele, esta gata é sua ? Ela era um daqueles 20 felinos que você tinha?
Ela apenas respondeu:
- Esta gata é mais sua do que minha.
2º - A Gata Caolha Era da Falecida Dona Laura
Uma vez, dentro do ônibus, sentei-me junto com a vizinha que morava do lado esquerdo da minha casa. A gente começou a conversar sobre animais de estimação. De repente, eu disse:
- A senhora notou que uma gata caolha apareceu lá em casa e ficamos amigas?
Ela respondeu:
- Diz a lenda que aquela gata pertencia à Dona Laura, que morava na mesma rua que a gente. Falam que esta senhora foi passear no bairro Centro Cívico com os netos e, no meio do passeio, a turma viu uma gata sendo maltratada por um grupo de playboys. Ao avistarem um deles furando o olho do animal, os netos de dona Laura atacaram os mauricinhos e levaram o bicho ao veterinário. Após isso, aquela senhora adotou a felina e a colocou junto com seus outros três gatos. O problema é que os outros animais não aceitaram a presença da nova colega, começaram a persegui-la e foi justamente na sua casa que ela encontrou sossego.
Eu então comentei:
- Pois é... De vez em quando eu noto que um gato siamês amarelo de olhos azuis, uma gata angorá branca e um gato preto aparecem para agredir Doroty Alice... Porém, todas as vezes que eles atacam a gata caolha, eu pego uma vara e os expulso, sem machucá-los, é claro.
Assim, a vizinha completou:
- Pois é... Estes gatos que você citou aí são os antigos colegas de moradia da gata caolha.


Capítulo 5 – Lições Que Aprendi Com a Gata Caolha

Com esta gata aprendi várias lições:

1º - Nunca Desista Por Piores Que Sejam as Dificuldades
Dorothy Alice gostava de caçar passarinhos no quintal . Antes da minha mãe adoecer, ela gostava de varrer a varanda de casa e por isto vivia com uma vassoura piaçava nas mãos.
Uma vez, a gata estava prestes a pular em cima de um pardal quando, de repente, minha mãe sentou uma vassourada nela. Apesar disto, Dorothy Alice não desistiu e foi caçar passarinhos do outro lado da casa.
Também notei que o fato de a gata ser caolha não foi nenhum obstáculo para ela. Pois esta felina continuou caçando aves perfeitamente. Tanto que, na primeira vez que avistei Doroty Alice fazendo isso, comentei:
- Esta gata caolha caça passarinhos tão bem... E olhe que ela tem um olho só! Imagine se ela tivesse dois...
Moral da história: Nunca devemos desistir de caçar os pássaros de nossos sonhos, por mais vassouradas que o destino possa nos dar. Pois o quintal da nossa vida é sempre imenso e repleto de possibilidades.

2º - Você Poderá Ajudar um Amigo Só Com a Sua Presença
Num dia ensolarado de primavera decidi passar graxa nos meus calçados e deixá-los secando ao Sol. Quando estavam ao ar livre, Dorothy Alice aproximou-se deles e começou a se esfregar nestes calçados com os seus pêlos macios, como se eles tivessem o poder de acariciá-la. No final da tarde, peguei estes meus sapatos para lustrá-los e notei que os pelos da gata já tinham feito boa parte do serviço. Graças a eles, meus calçados estavam brilhando.
Lição da cena: você pode ajudar um amigo só com a sua presença.

3º - Quem Não Tem Cão Caça Com Gato
O ditado que mais duvidei na vida foi este acima.
Como alguém pode caçar com gato?
Mas Dorothy Alice ensinou-me que este ditado está mais do que certo.
Quando eu rezava para ter uma cadela da raça “labrador” foi que a gata caolha surgiu do nada e mostrou-me que um felino também pode ser o melhor amigo de uma pessoa. Ela provou que o ditado “gato não gosta do dono e sim somente da casa” é totalmente errado.
Uma vez, meu pai ganhou amostras grátis de uma nova ração de cachorro. Então ele me disse:
- Ofereça esta ração de cães para a gata. De repente, ela gosta...
Mesmo duvidando que esta ideia desse certo, resolvi dar aquela comida para a felina. Fiquei assustada quando vi que Dorothy Alice comeu toda a ração para cães. Logo pensei:
- Quem não tem comida de gato, come ração para cachorros.
Nos primeiros meses passei a oferecer leite num potinho para a gata. Porém, meu pai não gostou da ideia e chamou-me a atenção. Como nem sempre tinha ração de bichos para dar ao animal, pensei:
- Se a gata comeu ração de cachorros, bem que ela pode se alimentar da refeição preferida da sua presa: pedaços de queijo! Afinal, queijo é laticínio e gatos gostam de leite.
Ofereci um pedaço de queijo para Dorothy Alice, ela adorou e até hoje faço isso.
Moral da história: muitas vezes os alimentos dos nossos rivais podem ser nossas principais comidas também.

4º - Não Adote um Animal de Estimação, Espere Que Ele Adote Você
Muitas pessoas escolhem um animal de estimação pela beleza , sem pesquisar se a personalidade dele é compatível com a alma do seu futuro dono. Este é um grande erro. Por causa deste tipo de equívoco é que muitos animais de estimação são abandonados pelas ruas. Uma pessoa pacata jamais se harmonizaria com um animal travesso ou vice-versa.
Minha amizade com Dorothy Alice deu certo porque ela me adotou.

5º - Quando Receber Carinho Procure Estendê-lo à Alma
Na primeira vez que acariciei Dorothy Alice, notei que ela tentava estender os carinhos para outros objetos. Ela se esfregava no muro como se ele fosse a extensão das minhas mãos e depois voltava para os meus braços.
Moral do ato: toda vez que receber carinho no corpo, procure estendê-lo para a sua alma, pois isto faz bem para sua auto-estima.

6º - Nunca Julgue uma Criatura Antes de Saber a Verdade
Um certo dia, resolvi colocar uma calça suja de molho. Para isso, fui até a lavanderia que ficava em frente ao quintal onde a gata me observava. Eu ia colocar a roupa de molho quando notei que estava com um relógio que não era a prova d'água. Então, rapidamente tirei o objeto e coloquei-o em cima da máquina. Depois, mergulhei a calça de molho. Em seguida, fui para o meu quarto. Chegando lá, percebi que tinha deixado o relógio em cima da máquina de lavar. Fui até o local e desesperei-me quando não encontrei o objeto. Ninha família ajudou-me a procurar o relógio. Então pensei em voz alta :
- Como meu relógio foi desaparecer de cima da máquina? Ninguém estranho estava em casa. Só eu e a ... Gata !
Após esta reflexão fui revistar o animal, que escondia uma coisa em suas patas. Mas vi que o objeto era apenas um caroço de pêssego. Mesmo assim ralhei com o bicho:
- Quem pegou o meu relógio? Só pode ser você, né, gata? O que você fez com ele?
Naquele mesmo instante, meu pai achou meu relógio dentro do balde onde a calça estava. Eu então disse:
- Desculpe, Dorothy Alice! Pois agi de uma forma precipitada!
Lição da cena: nunca julgue alguém sem antes ter certeza, absoluta, do fato em questão.

7º - Toda a Lenda Tem Um Fundo de Verdade
Uma vez resolvi buscar no Google a seguinte expressão: lendas sobre gatos caolhos. Então vi num site que, nos Estados Unidos, encontrar um gato caolho é sinal de sorte e, toda a vez que alguém encontra um bicho assim, para aumentar a sua expectativa de sorte, a pessoa deve cuspir na mão direita e dar três pulinhos.
Ora, Dorothy Alice só trouxe sorte para minha vida.

Conclusão:
Através deste meu relato é possível concluir que a “Animalterapia” funciona de verdade e traz excelentes resultados. Minha convivência com a gata caolha fez com que minha saúde física melhorasse e minhas crises de depressão baixassem.



Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O verdadeiro significado


“Ter estima, ter apreço, afeição, amizade; gostar de, apreciar”. Assim aparecem alguns dos significados da a palavra estimar. Esta palavra tem um glamour muito grande para muitas pessoas, e se volta à relação com seus gatos, cachorros, papagaios e qualquer outro animal julgado comum para se viver em uma casa. Possuem em seus lares ou porque ganharam, ou porque compraram, ou simplesmente porque estavam precisando de uma companhia. Acontece que toda essa estima pelos bichanos é limitada: muitas pessoas não estimam a raça e a espécie dos animais como deveriam.

A verdade é que todo e qualquer animal, o nosso cachorrinho, o nosso gatinho, também representam as espécies e os diferentes animais como um todo, mas que não estão ao alcance de nossos olhos. São aqueles que sofrem diariamente nos abatedouros, que são vítimas de caçadores em busca de pele, de carne, de poder e dominação sobre o outro. Uma questão de sobrevivência? Sobreviveríamos melhor em um mundo com a natureza em equilíbrio e sem mortes do que em um que está sendo alterado somente pelo consumo, pelo gostinho de “quero mais”, para saciar aquela vontadezinha de comer carne ou de ter um casaco de pele chique de doer.

Os animais, eu, você, eles, somos iguais, e não somos mais inteligentes nem mais importantes que eles uma vez que necessitamos de suas companhias para substituir alguma outra companhia humana que não temos ou que nos abandonou. Ou para nos fazer um afago e nos esquentar no frio. Ou que, na pior das hipóteses, sirvam de alimento a vida toda para crescer e se reproduzir, pois segundo os humanos mesmo dizem, sem eles não conseguimos desenvolver capacidades humanas e nutricionais (sendo que o próprio humano ainda não usou da própria inteligência que diz ter a mais para entender que não necessitamos mais deles, mas o sabor é gostosinho, pra que mudar, né?). É tudo mais tão conveniente como está. O homem, o eterno homem, que se sente maior, melhor, que se julga superior. Passa o tempo e os dias, e a sua contradição aumenta. Por que amar uns e comer outros? Se for para amar, se é para estimar, que amemos a todos, que tenhamos a sutileza de tratar bem nossos gatinhos e cachorros como também não contribuir para que, em um outro lado, outros apanhem, sofram e morram. Mas pra que? Para que amar a todos quando é mais conveniente amar o mais próximo, o mais bonitinho e o que se encaixa melhor na vida e na casa vazia do ser humano?



“Amar e estimar deve ser um sentimento depositado a todos, seja de qual espécie e raça for! Faça jus ao verdadeiro significado da palavra amar. Os mais radicais me acharam uma louca, uma sonhadora da mudança do mundo e de que todos vão tomar esta consciência de amar a todos igual e unicamente. Não, nem todos vão, a maioria não. Mas ainda acredito que, da minoria que entende e que ama e consegue respeitar os animais, sejam eles de qualquer espécie, já estará fazendo a diferença no mundo e para eles. Pois a cada pessoa que entende o significado da palavra amar, alguma vida em algum lugar irá se beneficiar, e disso eu tenho certeza. Eu sonho com um mundo em que todos sejam amados igualmente e na mesma intensidade e sem distinção. Continuarei acreditando que a cada mente modificada, um ser é poupado. E que, um dia, todos possamos sentir o amor a todos animais como se fossem da mesma família”.



Por que amar só uns e ignorar outros?
A natureza é minha estimação!

Bianca Silva

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tema da semana: Animais de estimação

Ela é minha menina

Pensei em fazer uma analogia aos relacionamentos humanos mas olhei pro lado e não pude deixar de falar do meu animalzinho aqui de casa.

Tenho uma gata a Nini, Menina, Mini, Julinha e algumas onomatopéias que surgem no momento.
A minha gata, diferente de alguns gatos, senta. Ela parece meditar todos os dias por alguns minutos depois de fazer o seu toalete.


Quando estou triste ela sente, mia, conversa comigo e senta em cima. As vezes ela senta em cima do teclado do computador pra deixar bem claro que ela também é prioridade... e é.

Quando viajo aciono uma rede de amigos que se revezam em cuidados com ela.

Ela só come ração boa e não curte peixe cru.

O engraçado é que sexualmente somos muito parecidas. Eu a levei para cruzar com gatos persas, lindos como ela, das cores mais variadas e ela quase os matou. Em compensação, enquanto vivi em uma edícula por um ano, ela “atendia” os vira-latas em casa ou ia ao encontro deles na rua.
Ela é minha companheira. Conversamos, enquanto escrevo ela se joga no chão, às vezes caça que nem um “Gremilin “e em outras dorme como um Buda tibetano.

Ela sabe quando eu abro os olhos. Por ter muito pêlo, eu não a deixo dormir no meu quarto. Mas assim que abro os olhos já escuto os miaus enlouquecidos.


Já choramos juntas, já passamos fome, ela me viu terminar três relacionamentos, mudamos de casa três vezes, ficamos separadas seis meses, mas estamos aqui juntinhas no nosso dia a dia muito particular.

Eu não sabia que gostava de gatos. Sou meio cagona com cachorros. Tive que cuidar do avô dela e de um vira lata na marra (minha irmã simplesmente o largou em casa e se foi). Fiquei sem casa uma época e tive que doá-los. Antes disso havia cruzado o meu persa com o persa de uma amiga. Dei uma fêmea para um amigo e ele me deu a fêmea da ninhada dela. Hoje não consigo me imaginar sem a minha bolinha de pêlos.




Patrícia Ermel

domingo, 23 de agosto de 2009

Hábitos De Consumo


Nem a perícia nem a polícia entenderam quando arrombaram a porta. Depois de cinco dias sem dar sinal de vida, e com o cheiro começando a preocupar os vizinhos de apartamento, encontraram Murilo já em adiantado estado de putrefação, sentado no sofá da sala e com a boca aberta, provavelmente pela queda do maxilar em decomposição. A TV estava ligada, exibindo em looping o menu interativo do filme “Bilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”. Em sua mão esquerda, a única pista: uma minúscula calcinha de cotton roxa com lacinhos laterais e o forro virado para fora.

Dez dias antes e a 500 quilômetros dali...

Evilásio fingia dormir enquanto apreciava Pamela se vestindo. Admirava seu corpo ainda preservado mesmo depois de tantos anos de casados. Sabia que era uma mulher atraente. E também sabia que a mosca varejeira do ciúme estava incomodando-o mais do que de costume. Resolveu que naquele dia tiraria à prova suas suspeitas. Enquanto Pamela desceu para preparar o café, Evilásio ligou para o trabalho e alegou suspeita de Influenza A para ficar em casa. Contudo, cumpriu normalmente com seu ritual diário, vestiu-se com roupas de trabalho, comeu seus cereais ao lado da esposa, brincou com o gato e despediu-se dela com o mesmo beijo mecânico de sempre.

Saiu com o carro e o estacionou na esquina de casa, ficando de guarda para a eventual chegada de um tipo suspeito. Até o meio da manhã, tudo estava na mais absoluta normalidade, sem qualquer movimentação digna de alerta. O tédio já deixava Evilásio sonolento, mexendo no dial para tirar do noticiário e encontrar alguma música animada. Foi quando Pamela saiu de casa a bordo de seu Golf. Evilásio abaixou-se por trás do painel de seu veículo temendo ser visto. Pamela prosseguiu pela rua sem perceber o carro do marido, indo no sentido oposto e se distanciando cada vez mais. Evilásio ligou seu Peugeot e teve trabalho na perseguição, por pouco não perdendo o rastro da esposa em meio ao trânsito tumultuado da capital. A tarefa de acompanhar um carro à distância era mais difícil do que ele havia suposto, não poderia se aproximar demais sob o risco de acabar sendo visto, como também não poderia se distanciar muito sob pena de não mais localizar seu alvo.

O Golf de Pamela então entrou na garagem de um hotel que Evilásio considerou um tanto suspeito. Resolveu deixar seu carro em frente ao estabelecimento com o pisca-alerta ligado. Entrou disfarçando sua tensão e olhou para a escada que vinha da garagem, percebendo que alguém estava subindo, provavelmente Pamela. Evilásio, para estranheza da recepcionista, nada disse e foi para uma sala contígua à recepção, pegando um jornal na mesa de centro, abrindo-o e sentando-se, camuflando o rosto por trás das notícias de podridão do senado federal. Um pouco trêmulo, percebeu que era Pamela que chegara na recepção pelo toc-toc de suas botas. Esticou o olho direito discretamente para fora do periódico e a viu conversando com a recepcionista. Apenas pediu uma chave, sorriu, agradeceu e caminhou em direção à escada que dava acesso aos quartos. Evilásio destrambelhadamente jogou o jornal no sofá e levantou-se de súbito, indo até o balcão enquanto tentava acalmar mentalmente seus batimentos cardíacos. Perguntou à atendente para qual apartamento estava indo a moça que acabara de conversar com ela. Teve três dígitos como resposta: “203”. Evilásio repetiu o número para si mesmo, respirando fundo e se perguntando se deveria chegar arrombando a porta. Não, ele não teria força para tanto e ninguém iria abrir se ele simplesmente batesse, a não ser que fossem amantes muito descuidados. Perguntou para a recepcionista se ela tinha uma chave reserva, recebendo então a resposta de que se ele tivesse interesse no quarto poderia pegá-la com a própria moça que acabara de chegar, pois ela apenas estava lá para conferir as acomodações, já que pesquisava hotéis para acomodar seus tios que viriam do interior. Evilásio então se deu conta de que, de fato, sua esposa comentara que faria esse levantamento para seus familiares, a pedido dos próprios. Embaraçado e temendo que Pamela o flagrasse ali, tratou de entregar uma nota de R$ 50,00 à recepcionista, ordenando "eu não estive aqui, ninguém esteve aqui". Saiu rapidamente do hotel, entrando em seu carro e dando uma ré para esperar a esposa também tomar a rua.

Logo, Pamela saía da garagem a bordo de seu Golf, sendo novamente perseguida por Evilásio. Agora ela pegava a marginal e avançava pela cidade sabe-se lá para onde. Evilásio então viu que seu celular estava tocando, piscando sobre o painel do veículo. Era Pamela. Fechou a janela e abaixou o som do rádio, tentando se concentrar para aparentar normalidade. Atendeu. Pamela perguntou se ele viria almoçar em casa, Evilásio respondeu que não seria possível, pois naquele dia estava uma loucura no trabalho. Ela então comentou que almoçaria num shopping e ligou justamente para perguntar se ele se importaria de almoçar perto do trabalho. “Imagina”, respondeu Evilásio, “tudo bem, amor”. Pamela perguntou se Evilásio queria que ela comprasse algo para ele e explicou que aproveitaria para enviar as fotos do filho pelo correio, pois foram mandadas pela colônia de férias e a avó do garoto certamente gostaria de vê-las. Evilásio indagou por que não mandava por e-mail, mas já sabia a resposta: a mãe de Pamela não tinha computador. Ela recomendou que ele se alimentasse bem, disse que estava com um pouco de enxaqueca e se despediu. Evilásio ficou certo de que aquele telefonema tinha a única e exclusiva intenção de rastrear sua presença em casa, para Pamela saber se poderia encontrar seu amante já na hora do almoço.

Suas suspeitas foram se confirmando quando viu Pamela estacionar seu carro na frente de uma sex shop. Evilásio conseguiu um espaço para parar seu veículo do outro lado da rua. Viu Pamela sair, acionar o alarme e dar a volta no carro. Evilásio sabia que ela não assumiria estar comprando algo para usar com o amante, mas sim que era uma surpresa que estaria fazendo para o marido. Decidiu então que esperaria ela fazer as compras ao invés de dar um flagrante dentro do estabelecimento. Só que Pamela não entrou na sex shop, e sim em uma farmácia ao lado. Evilásio forçou a visão para ver o que ela iria comprar, tinha certeza de que seriam preservativos ou KY. Errou. Pamela comprou seu tradicional remédio contra enxaquecas (uma caixa verde com tarja vermelha muito fácil de identificar), abrindo ali mesmo um copo de água mineral e tomando um comprimido.

Pamela voltou para o carro e Evilásio recomeçou a discreta perseguição. No estacionamento do shopping, ficou a três carros de distância ao passar pela fila da cancela eletrônica, perdendo o Golf da esposa de vista. Ficou circulando por um bom tempo no estacionamento, mas não conseguiu encontrá-la. Deixou seu Peugeot numa vaga bem distante da porta de acesso ao shopping, e correu para dentro do estabelecimento, apressado e ao mesmo tempo cuidadoso para encontrá-la sem ser visto.

Depois de muita procura, avistou Pamela entrando numa loja de roupas femininas. Evilásio estava certo de que compraria lingeries. Ficou na frente da vitrine, fazendo de conta que apreciava as peças em exposição, mesmo sabendo que causaria estranheza nas vendedoras se ficasse naquela condição de observador por muito tempo. No lado interno da loja, viu a esposa sendo atendida e apreciando calças jeans e blusas. Todas peças comportadas. Despediu-se da vendedora e caminhou rumo à porta do estabelecimento, fazendo Evilásio correr para a frente de uma loja de artigos de informática, ficando de costas e com a cabeça baixa, encolhida entre os ombros.

Evilásio foi perseguindo Pamela num cuidadoso distanciamento de duas lojas entre ambos. Ela parava para olhar uma vitrine, ele fazia o mesmo imediatamente, e assim foram caminhando. Intrigado, Evilásio percebia que nenhuma das vitrines vistas por Pamela eram comprometedoras, ela parava para ver relógios, sapatos, jóias, óculos, luvas, objetos de decoração e até chapéus femininos. As suspeitas só voltaram quando ela entrou em uma agência de viagens. Para onde ela queria ir? Suspeitíssimo. Evilásio ficou à espreita, olhando de longe pelas paredes envidraçadas, mas sem conseguir avistar direito a esposa. Olhou o relógio e percebeu que o horário do almoço já avançava. Pensou em pegar um pão de queijo para enganar a fome enquanto Pamela conversava lá dentro sobre a viagem misteriosa. Mas ela logo saiu da agência, caminhando pelo corredor em direção à praça de alimentação. Evilásio ficou em dúvida, não sabia se entrava na agência para perguntar aonde a esposa queria viajar ou se continuava seguindo-a. Temeu perder seu rastro e optou pela perseguição.

Na praça de alimentação, foi para a fila do McDonald’s e ficou a uma boa distância vendo a esposa encher o prato de salada num buffet por quilo. Evilásio sentou-se por trás de uma pilastra que dificultava sua visão mas tinha a vantagem de camuflá-lo muito bem. Vez ou outra, esticava o pescoço para apreciar a esposa se entretendo com chicórias, alfaces e tomates-cereja. Até que a viu atender o celular. Conversou sorridente com alguém do outro lado da linha que Evilásio tinha certeza: era ele. Depois de algumas esticadas de pescoço, viu Pamela desligar o aparelho e voltar a comer seus verdes. Agora, restava saber se ela havia combinado de encontrá-lo em algum lugar ou se ele viria até ela. Passados alguns minutos, chegava um rapaz bem aparentado que se sentou em frente a Pamela. Agora Evilásio não aguentava mais ficar esticando o pescoço de quando em quando, resolvendo sentar-se em outra mesa que lhe dava uma visão privilegiada. Apesar de não ter mais a pilastra obstruindo o contato visual, a nova mesa ainda ficava muito distante, dando apenas para perceber que os dois conversavam animadamente. Ela sorrindo, muito simpática, ele retribuindo e precipitando o corpo para a frente a fim de falar mais próximo. Deixou com Pamela uma carta ou documento que ela apreciou e logo guardou em sua bolsa. O rapaz se levantou, despedindo-se de Pamela com um discreto beijo no rosto (para não dar bandeira em público, Evilásio tinha certeza) e seguindo seu caminho pelos corredores do shopping. Evilásio resolveu segui-lo.

Já não suportando mais a tensão, resolveu abordar o elegante e misterioso rapaz. Colocou-se à sua frente e perguntou de onde ele conhecia a moça com a qual acabara de conversar. Sem entender a abordagem um tanto direta e beirando a truculência, ele apenas respondeu que ela era cliente de sua agência de viagens, que ele ligou para avisar que Pamela esquecera lá a cotação de um pacote, pedindo que voltasse para buscar, mas que, ao ser informado por ela que estava na praça de alimentação, resolveu ele próprio levar pessoalmente o documento. Insatisfeito, Evilásio indagou para onde era o pacote de viagens. Soube então que eram algumas propostas, para praias do nordeste e de Santa Catarina, para duas pessoas, pois ela estava planejando uma viagem surpresa para fazer com o marido. Não teve como Evilásio não se sentir desconcertado com as respostas dadas pelo agente de viagens, lembrando que Pamela vivia realmente dizendo que ele estava estressado e que precisava de uma viagem de férias. Pediu desculpas e voltou a caminhar em direção à praça de alimentação, sem dar maiores esclarecimentos ao rapaz.

A mesa de Pamela agora estava vazia. Evilásio voltava então à arriscada brincadeira de procurar pela esposa ao mesmo tempo em que se cuidava para não ser visto por ela. Mas os minutos iam correndo e nada. Uma perseguição ingrata, sem pistas ou rastros. Quando já ia desistindo de sua odisseia de shopping center, resolveu parar e refletir sobre quais seriam os locais suspeitos. Talvez o cinema, seria um lugar (quase) perfeito para namorar sem o risco de ser flagrada. Se fosse essa a escolha, ele não saberia o que fazer, pois a essa altura Pamela muito provavelmente já estaria em uma das dez salas, sendo que ele não teria como saber em qual delas entrou. A segunda suspeita seria a de que Pamela foi embora do shopping, estando agora nos braços de seu amante em alguma cama redonda. Também neste caso, não haveria o que pudesse fazer. A terceira opção era de que Pamela entrara em alguma loja onde pudesse comprar presentinhos para seu amante. Mas daí as opções seriam inúmeras. Resolveu tomar a atitude mais simples e óbvia: ligar para Pamela e indagar onde ela estava. Foi o que fez. Pamela atendeu, respondendo simpática que ainda estava no shopping, na Saraiva, vendo livros que precisava comprar para a faculdade. Que já havia impresso as fotos numa das lojas e que logo mais as enviaria para a mãe. Questionado sobre o motivo da ligação, Evilásio apenas conseguiu responder que ficou com saudades. Pamela se desmanchou de meiguice ao telefone, dizendo que há muito ele não fazia isso e que ficara muito feliz com a atitude. Despediram-se e Evilásio correu para a escada rolante, atropelando alguns passantes até chegar ao segundo piso, onde ficava a loja da Saraiva.

Após procurar e procurar, Evilásio começou a dar por certo que Pamela havia mentido. Realmente deveria estar na tal cama redonda àquelas horas. Mas novamente se surpreendeu ao identificá-la na seção de CDs e DVDs ouvindo alguns discos para escolher quais comprar. Evilásio pegou o primeiro livro que viu na seção de auto-ajuda e abriu-o em frente ao rosto, olhando a esposa por cima de um exemplar de Lair Ribeiro. Pamela agora se deslocava pela loja, olhando para as prateleiras aleatoriamente. Logo iria para os livros da seção de sexo, deduziu Evilásio. Errou novamente, Pamela chegava na fila do caixa para pagar e colocar em uma sacola livros e outros produtos que escolhera enquanto o marido a procurava desesperado pelos corredores do shopping.

Fora da loja, agora Pamela caminhava até o banheiro feminino. Evilásio comprou um sorvete de casquinha e ficou disfarçando próximo à porta. Pamela saiu ainda ajeitando os cabelos. Andou até a franquia dos Correios. Como a loja era muito pequena, Evilásio não se arriscou em entrar. Apenas ficou aguardando a saída de Pamela, escondendo-se por trás de um quiosque de perfumes. Algum tempo depois, ela saía, pagava o estacionamento do shopping e avançava em direção à garagem, tudo acompanhado por Evilásio, já cansado de seu jogo de gato e rato, decepcionado e aliviado com o resultado de sua investigação.

No caminho para casa, ainda levantou a hipótese de que Pamela se encontraria no trajeto com aquele amante cuja existência já começava a ser realmente descartada por Evilásio. Algum tempo depois, mais uma vez contrariando as suspeitas de Evilsáio, ela entrava com seu carro na garagem de casa. Ele ainda precisava esperar pelo menos meia hora, pois estava muito cedo para chegar do trabalho. Decorridos os 30 minutos, Evilásio saiu da esquina e chegou em seu lar. Foi recebido com beijos e um CD de MPB dado de presente. “Tem mais surpresas?”, ele indagou, “quem sabe...”, ela respondeu. Evilásio não sabia quando ela falaria da viagem que fariam, só sabia que ele próprio não poderia tocar no assunto, pois Pamela descobriria que o marido a seguira durante o dia.

Naquela noite, Evilásio ainda deu uma última investida, revirando a bolsa da esposa enquanto ela dormia. Não achou nada de suspeito, apenas seu estojo de maquiagem, um par de brincos de pérolas, a correntinha com pingente de maçã que ele lhe dera no aniversário, os óculos de grau, um prendedor de cabelo em formato de gravata borboleta e algumas balas de aniz. E ainda encontrou os tickets dos Correios e da Saraiva, além da tal carta do pacote de viagens que ela cotara para fazerem juntos. Voltou para a cama e dormiu abraçado a Pamela, com os lábios suavemente colados à testa da esposa, sentindo-se ao mesmo tempo culpado e feliz.


Três dias depois, no horário de almoço, quando Pamela foi ao supermercado buscar algo que faltava para a refeição, tocaram a campainha e Evilásio colocou a TV no mute para ir até a porta. Era um carteiro devolvendo uma caixa que não chegara a ser entregue porque o destinatário não se encontrava em casa para recebê-la. Evilásio estranhou, mas leu o nome de sua esposa no remetente, aceitando a correspondência de volta, deduzindo se tratar das fotos enviadas para a sogra. Despachou o carteiro, fechou a porta e levou a caixa até a mesa de centro na sala de estar. Virou-a e conferiu o destinatário, cujo nome ele na verdade desconhecia: Murilo, um cara que morava longe, pelo que indicava o endereço. Abriu a caixa e encontrou em seu interior um DVD do filme “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças”. Foi a vez de abrir a caixa do filme. Deparou-se então com uma minúscula calcinha de cotton roxa com lacinhos laterais. A mesma que vira Pamela vestindo há três manhãs enquanto ele fingia dormir. Pelo cheiro e aparência, ficava evidente que a peça havia sido usada, provavelmente por um dia inteiro. Ao seu lado, um bilhete com a caligrafia de Pamela no qual se lia: “Para você matar saudades do meu gosto”. Neste momento, Evilásio teve a ideia de colocar em prática seus dotes de químico industrial.



Mario Lopes

sábado, 22 de agosto de 2009

Frio na barriga


Em uma fase da nossa vida, o esconde-esconde dá um frio na barriga, você não sabe se aquele lugar realmente é o melhor, se a pessoa vai conseguir te achar, na verdade nessa época você nunca quer que te achem. A mesma coisa no pega-pega, que é só correr, dá para ver se está chegando perto ou não, e aí é só “dar um galeto” e pronto, continua correndo.


Passando essa fase, tem a outra que achamos que isso é brincadeira boba, na verdade, achamos que tudo é bobeira. Essa é a fase em que nossos pais deveriam nos trancar no quarto e só nos deixar sair dali dois anos depois (dependendo da pessoa, mais até).


Depois, tem a fase em que o esconde-esconde é maravilhoso, continua dando um frio na barriga, realmente não saber se aquele lugar é o melhor, e ficar tentando outros lugares. A diferença dessa para a primeira é que aqui você sempre quer que te achem. Já o pega-pega para alguns perde a graça, é muito explícito, para outros essa é a graça. Para outros, o pega-pega se transforma num esconde-esconde e vice-versa.


Depois, tem a fase em que o pega-pega é muito melhor que o esconde-esconde. O esconde-esconde é muito devagar, perda de tempo, o agora é o mais importante.
Depois... o esconde-esconde é tudo :D



Giana Liebel

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

História pro amor dormir


Esses dias, conheci o homem dos meus sonhos.

Nosso amor, de tão sublime, parecia que vinha de outras vidas.
Parecia eterno, parecia perfeito. Algo tipo um conto de fadas.
Tudo era tão lindo, que eu não acreditava. Nunca achei que o amor fosse pra mim... imagina!
Isso só acontece com os outros! Pensava eu.

E era tanto carinho, tanto fogo, tanta paixão, tanto amor, tanto afago... AHH!
Eu delirava, perdia o ar, as pernas tremiam, a barriga congelava, a língua perdia a fala.

Pena que aí, eu acordei.


Letícia Mueller

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Dons X La Fontaine X Canivete Suíço



Em 1979, quando eu estava com cinco anos de idade, tive uma doença chamada meningite que atingiu uma parte do meu cérebro deixando algumas seqüelas, como problemas de coordenação motora, por exemplo.

Por causa destes transtornos, sempre fui uma péssima aluna de Educação Artística e Educação Física. Meus colegas sempre caçoavam dos meus desenhos e dos meus artesanatos, o que sempre causou-me uma ponta de complexo.

Até que, em 1987, uma professora chamada Eivelise trouxe um texto chamado: A Revolução Na Escola dos Bichos de autoria de La Fontaine, com pequenas adaptações para os dias atuais. O conto era este:

A Revolução Na Escola dos Bichos

Um certo dia, na escola dos animais, a diretora Coruja decidiu mudar o currículo e afirmou:

- A partir de hoje, todos os alunos assistirão a todas as matérias! A cobra precisará saber voar, o peixe deverá aprender a correr na terra e a andorinha terá que ser campeã de natação. Além disto, no final do ano letivo, haverá uma competição esportiva... Afinal, o mercado de trabalho exige profissionais polivalentes!

O tempo passou até que chegou o dia da competição. Porém, o evento foi um desastre: a cobra caiu de asa delta, o peixe faleceu por falta de ar e a andorinha afogou-se.

No final da aula a professora Eivelise explicou:

- Cada um tem um dom: uns para exercícios físicos, outros para atividades intelectuais, etc. Há um cientista que descobriu que existem sete tipos de inteligências diferentes: lingüística, matemática, espacial, musical, cinestésica, social e espiritual. Portanto, se você possui o dom de escrever, mas não sabe desenhar... Não se preocupe. Afinal cada um nasceu com um tipo de inteligência.

Naquele instante, brotou uma esperança no meu coração que me encheu de alegria . Porém, esta felicidade acabou quando, em 1993, fui aprovada num concurso público para dar aulas na Educação Infantil.

Ao chegar a escola, a primeira coisa que a diretora fez foi me dar cartolina e material para desenho. Depois ela exclamou:

- Agora, você vai desenhar!

Então eu expliquei:

- Desculpe, mas eu não sei desenhar.

Porém ela insistiu:

- Não interessa! Você vai desenhar e pronto!

Tentei copiar a gravura de uma boneca. Mas o desenho saiu torto. Assim, a diretora percebeu e gritou:

- Que coisa horrível! Você não serve para nada! Seu problema é de competência!

Como na época eu era recém-saída da adolescência, com 18 anos de idade, entrei em depressão e fui chorar no banheiro. No dia seguinte, deixei o texto: “ A Revolução Na Escola dos Bichos“ na mesa da diretora, sem que ela percebesse.

Mais tarde, ela veio gritando para mim:

- Foi você quem deixou este texto na minha mesa?! Isto é uma indireta ?! Colocarei esta mal-criação na sua ficha!

Alguns dias depois, pedi demissão da escola. Hoje, esta diretora está aposentada e, por ironia da vida, ela complementa o seu salário exercendo a função de “guru” de terapias alternativas como: hipnose, cartas de tarô, meditações e regressões de vidas passadas.

Em 1997, ganhei um canivete suíço de uma amiga de aniversário, que me disse:

- Este é um presente para você. É um canivete suíço , que tem mil utilidades. Ele é: faca, chave de fenda, martelo, alicate, lixa, tesoura, abridor e não sei mais o que...

Agradeci o presente. Mais tarde, fui usá-lo para abrir uma lata, porém não consegui e precisei usar um abridor comum. Depois, resolvi usar o canivete suíço como tesoura, mas ela estava cega. Após isso, tentei usar o produto como lixa nas minhas unhas, mas não fazia efeito...

Então refleti: há pessoas que são como os canivetes suíços, acham que sabem fazer de tudo, porém fazem mal feito o pouco que pensam que sabem fazer...

O dom do canivete é ser canivete. Afinal ele não foi planejado para ser tesoura, lixa e nem chave de fenda.

O mundo real é como a fábula de La Fontaine, cada criatura possui um dom único e especial. Cabe a ela aproveitar o seu tipo de inteligência e não imitar os outros.



Luciana do Rocio Mallon

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sobre a Lei Que Proibia Estrangeirismos Em Publicidade



Soube, através do meu jornal preferido, que há alguns dias a justiça suspendeu a lei estadual que vetava palavras estrangeiras em publicidade. A justiça alegou que esta lei, proposta pelo atual governador do Paraná, feria a liberdade de expressão e traria transtornos aos comerciantes.

Concordo com esta lei proposta pelo governador Roberto Requião. Na minha opinião, ela é um sinal de respeito com o consumidor e não oprime a liberdade. Creio que nas lojas até poderia haver expressões em outras línguas, desde que viessem acompanhadas do idioma Português porque seria agradável para os turistas sem prejudicar os consumidores locais. Afinal, o problema é que estamos num país de pessoas simples, no qual a maioria nem sequer sabe interpretar textos em Língua Portuguesa e não têm a mínima noção da Língua Inglesa. Esta mania dos comerciantes de colocar publicidade em Inglês já me fez passar por situações engraçadas, como estas as que narrarei a seguir.

Às vezes saio para fazer compras com a minha avó Mirtes e minha tia Tata Ni , que são senhoras simples. Um certo dia, num shopping, Minha tia viu a seguinte palavra escrita numa vitrine: "Off!" Então, ela disse para minha avó:
- Veja, Mirtes, escreveram errado neste estabelecimento! Acho que eles queriam escrever “Ave !” e escreveram “Off !”
- Deve ser para anunciar que os preços estão bons...
- Mas só porque eles escreveram a palavra “Ave!”, de uma forma errada, eu nem irei entrar.
Então expliquei :
- Desculpe, Tata! Mas a senhora enganou-se em partes... “Off!”, em Inglês, é uma gíria que significa liquidação.

Neste caso, por causa de uma palavra em Inglês mal empregada, quase que a loja perde uma excelente freguesa. Num outro estabelecimento mais adiante, Tata Ni viu a seguinte placa na vitrine: "Sale!" Ela então comentou com a minha avó:
- Mamãe dizia que “sale” era sal em Italiano.
- Mas para que colocar a palavra sal numa loja que só vende roupas?!
Expliquei novamente :
- É que, na verdade, “sale” significa liquidação em Inglês.

Por causa das situações acima é que observamos que o governador Roberto Requião está certo ao desejar colocar uma lei que proíbe estrangeirismo no comércio. Isto não é uma simples questão de nacionalismo e sim de respeito ao consumidor .


Luciana do Rocio Mallon

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Cura Da Loucura


Em uma segunda-feira de manhã, ele se pôs diante de mim. “Eu não consigo mais conviver com esta situação” - disse-me ele com o olhar estendido ao chão. Abaixou sua cabeça escondendo o rosto atrás do capuz. “Eu posso te ajudar em algo?” - perguntei, tentando amenizar a tensão do momento. “Você não entende, não é? Não tem ajuda, somente um milagre, uma cura, que não sei o que é e aonde existe” ele me disse cruelmente.

Uma lágrima caiu lentamente no tapete enquanto seus pensamentos voavam. E ali, abaixando a cabeça para ver a gota que umedecia o pano, entendi o tamanho de seu sofrimento. De repente, seus olhos cor de mel, vivos, como a única coisa mais viva que sua aura, fitaram meus olhos castanhos, tão normais. “Você tem a cura?” - perguntou–me, com algum resquício de esperança que aqueles olhos cor fogo ainda esquentavam. “Ainda não, mas vou tentar achá-la” - disse no meu lapso maior de loucura, prometendo algo que ao menos sabia o que era. E então, todos os dias de manhã, nós dois discutíamos formas de achar a cura que ele tanto precisava. E ela era tão misteriosa para mim que, enquanto falávamos, me desesperava por dentro por não conseguir decifrá-la.

Quando falava o que sentia, sobre seus medos e desesperos, eu os media à medida que ele movia seus gestos pondo a mão na cabeça, no rosto, no peito, na boca e enrugando o olhar. Em uma sexta-feira, pela manhã, o sol batia naquele “nosso” lugar. “Chega, não vamos nos enganar! Não acharemos a cura nunca” - disse ele sem dó nem piedade, nem dele, nem de mim. “Calma, pode haver uma saída” - disse, relutando como numa prece agonizante. Meu coração por dentro se arrastava. Ele fitou com os mesmos olhos daquela segunda-feira. “Se achá-la, promete que irá mostrá-la às pessoas?”- pediu-me singelamente. “Se achá-la, é você quem irá mostrar” - eu disse, segurando suas mãos tão frias, mas que emanavam em meu peito um calor, uma esperança por ele. E então, na segunda-feira, o telefone de meu consultório tocou. Recebi a notícia fatídica: Eduardo se jogara do décimo andar de seu prédio. Uns diziam que ele era somente um louco. Mas ali, naquela sala e naquele momento, jazia uma louca, uma louca apaixonada com a cura que, mesmo que tarde, estava estampada no coração: o amor.


Bianca Silva

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Semana de tema livre

Cuide de Você




Fui na exposição de Sophie Calle... pra quem não conhece é uma artista que faz das suas experiências pessoais uma transcendência artística, seja por vídeo, por literatura, por fotografia, por performances...

Com diferentes interpretações femininas, ela conseguiu ampliar o universo de um amor perdido em um labirinto entre a dor e a confusão que se faz quando o objeto amor torna-se um discurso e não a práxis.

Revi e-mails que enviei, que recebi e a verdade é uma só: amamos mal.
Pensamos o amor, queremos amar, fomos feitos para amar mas ao entrar em contato com o outro somos obrigados a sair do nosso “umbigão” e enfrentar nossas fraquezas, nossas mazelas.

O desconforto desse contato pode se tornar sufocante se o contraponto não for lapidado por paciência, gentileza e amizade. Gentileza, mas não polidez. Pode-se ser formal, polido e com muita educação e requinte, cruel e estúpido como foi o ex -namorado de Calle em sua carta.

Não entrarei no mérito do conteúdo da carta porque sugiro a experiência individual. Entre no site, vá a São Paulo, entre em sua exposição e se perda em você.
Términos são difíceis mas necessários. Invadimos e somos invadidos por limites que desconhecemos até a dor nos lembrar que eles existem.

Transcender a dor, como Sophie sugere, é fundamental. Portanto, caras leitoras, se tiverem algo a dizer sobre experiências infelizes, podemos compartilhar juntas neste blog, podemos fazer um vídeo, uma instalação ou mesmo uma crônica em grupo.
Não deixem que a dor empedre ao ponto de ficar plasmada em um silêncio ruidoso. Gritemos! Gritemos juntas!!!


Patrícia Ermel

domingo, 16 de agosto de 2009

Naturezas mortas mortas



Naturezas mortas mortas, é assim que ela chamaria a exposição. Flores e arranjos fotografados em cemitérios. E também lápides, esculturas fúnebres e outras artes do amém. Percorria os corredores de jazigos daquele pequeno território santo interiorano em busca de flagrantes congelados em bronze e cimento. Poderia ter escolhido um dia de semana qualquer, onde o ambiente vira um perfeito museu a céu aberto, sem os inconvenientes das almas ainda encarnadas transitando para sujar o fundo de um anjo barroco ou de uma cruz invadida pelo musgo. Mas agendara para si o Dia de Finados, supondo tornar arte os semblantes amargos e as mãos saudosas dos que viriam homenagear seus mortos. Era lotação de shopping center em um ambiente que, normalmente, só tinha a visita do vento durante o dia e dos bêbados e vândalos durante a noite.

No intervalo entre um clic e outro com sua Canon, semi-ajoelhada diante de um vaso ornamentado com flores de plástico já desbotadas em seus polímeros, percebeu uma senhora que deixava uma rosa vermelha sobre um túmulo e baixava a cabeça em seu minuto de oração. Tinha o figurino e silhueta esguia típicos de uma viúva de filme noir, com a diferença de aparentar uma lamúria autêntica, numa pose de devoção com as mãos contritas diante do peito e os lábios em silencioso murmúrio, tremulando frases santas. Fez o nome do Pai e virou-se para tomar o rumo do portão de entrada, mas a fotógrafa apressou-se em abordá-la, pois a luz crepuscular daria uma dramaticidade única àquela imagem dolorosa por dedução.

A mulher revelou não ser viúva e nem ao menos parente de quem estava naquele túmulo. Todo ano, no final do Dia de Finados, ela percorria as fileiras de túmulos identificando aqueles que não receberam visita dos vivos. Então, depositava uma rosa nos desguarnecidos por flores novas ou por algum cuidado recente na aparência. Recusou-se a posar para a foto, sem maiores explicações. A fotógrafa aceitou a recusa do convite e a deixou seguir seu caminho, admirando-a por aquele ato voluntário que cobria a lacuna de indiferença deixada por famílias pouco zelosas com seus mortos.

Voltou a semi-ajoelhar-se diante do vaso que deixara para trás, percebendo que a luz solar daquele final de tarde agora não mais banhava a peça, pois camuflou-se por trás de uma palmeira mergulhando o objeto na sombra. Teve de esperar que o sol declinasse mais no horizonte até que seus raios não mais fossem obstruídos pela copa. Aproveitou para descansar, havia passado o dia registrando muitas velas se dissolvendo no calor da chama, algumas tantas mãos abraçando rosários e um cachorro que repousava sobre o chão batido da última morada de um indigente (quem sabe o dono daquele animal morimbundo). Surpreendeu-se ao perceber que outra mulher estava agora à frente do mesmo túmulo da falsa viúva. Contrastando com a serenidade dela, tinha uma aparência de grande desgaste emocional e vestia-se totalmente de branco. Não orava, mas as lágrimas lhe brotavam das órbitas em profusão. Inclinou o tronco para pegar a rosa deixada pela falsa viúva, olhou-a com rancor indisfarçável e partiu seu caule ao meio, rasgando em seguida suas pétalas e picando a planta com as mãos enrugadas, agora ensanguentadas pelo rasgar dos acúleos. Jogou sobre o mármore do jazigo os restos da rosa, virou-se e partiu em direção ao portão do cemitério.

Intrigada com a atitude, a fotógrafa buscou explicação abordando um coveiro que improvisava o conserto de um buraco no calçamento cobrindo-o com um punhado de terra que trouxera no carrinho de mão. O homem repuxou as rugas das maçãs do rosto com seu sorriso simplório e balançou a cabeça com pesar. Então, explicou que aquela senhora vestida de branco era enfermeira plantonista, e que, todo ano, vinha correndo ao cemitério no final do Dia de Finados para tentar descobrir que mulher depositava flores na sepultura de seu finado marido. Que sempre chegava tarde demais para fazer o flagrante e vingava-se do falecido destruindo a homenagem da suposta amante.

A fotógrafa agradeceu a explicação, guardou seu equipamento e tomou o caminho do portão do cemitério. Antes de entrar em seu carro, olhou para o outro lado da rua e viu, num ponto de ônibus, a falsa viúva tirando um lenço branco da bolsa para cuidar dos sangramentos da viúva legítima.



Mario Lopes

sábado, 15 de agosto de 2009

Essas não colam mais...


Se tem uma coisa (de várias) que são capazes de me deixar p... da vida é a bendita (ou será maldita?) mania dos homens de inventar desculpas esfarrapadas para tudo. É incrível, muitas vezes o cara está errado, pisa na bola; mas sempre quer dar um jeitinho de sair pela tangente.
Não importa os motivos – justificar alguma coisa que fez ou deixou de fazer; evitar discussões, fugir de enrosco, não ter coragem de dizer a verdade ou simplesmente mal caratismo – as desculpas costumam serem as mesmas.

O pior é que, quando estamos apaixonadas – leia-se aqui cegas para a realidade – acreditamos nelas. Mesmo assim, acho que tem homens que pensam que toda mulher é tapada, só pode. Ao ponto de subestimar nossa inteligência...

Situação: Você marcou um encontro para as 22h e ele só aparece depois da meia-noite.
"Ah, o meu carro quebrou na marginal."
“Desculpe, eu tava preso no trânsito.”
“O pneu furou.”
Detalhe: não tem step?

Situação: Você marcou um encontro e meia hora antes do horário combinado, ele liga para remarcar ou cancelar.
“Querida, me pediram para ficar até mais tarde na empresa e, por isso, vou ter que desmarcar o nosso encontro de hoje à noite.”
“Olha, hoje vou ter uma reunião com o cliente X (que geralmente é cúmplice e utiliza a mesma desculpa com a namorada) e vou chegar mais tarde.”

Situação: Você liga para o celular dele até os seus dedos começarem a doer. Ele não atende ou só cai na caixa postal.
“A bateria descarregou.”
“O sinal tava fraco.”
“Tava no silencioso.”
“Não ouvi tocar.”

Situação: Você liga, deixa recado, mas ele não retorna as suas chamadas.
"Não deu tempo de te ligar."
"Tenho andado muito ocupado."
"Tô trabalhando demais.”
“Sabe, eu tô na maior correria.”
E a mais nova: “Meu celular tava sem crédito, por isso não te liguei.”

Situação: Depois de um encontro, e muitas vezes de uma tórrida (ou nem tanto, rs) noite de sexo, ele diz:
"Eu te ligo amanhã."
Sem dúvida, essa é a pior desculpa que uma mulher é obrigada a ouvir. Pô, o cara não curtiu? Então para que pede o telefone? Por mera educação? OK, ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas, cacete, custa ser honesto pelo menos uma vez na vida?
Tem mulher que fica na expectativa, esperando o telefone tocar. Deixa de sair e fazer outros programas. Empanturra-se de doces para controlar a ansiedade, que aumenta com o passar das horas. E a ligação nunca vem.
Criar expectativas e depois sumir do mapa, isso sim é uma tremenda sacanagem (no mal sentido da palavra). Se o cara foi macho pra foder, então que seja macho o suficiente para dizer que não rola mais e pronto.

Situação: Você questiona sobre aquela garota que não desgruda do seu parceiro, dá mole descaradamente e ele diz:
"Ela é só uma amiga."
Sim, ou é uma amiga mui íntima ou que o “fodão” está tentando comer – e não consegue.

Situação: Você está saindo com o cara há meses, é mais do que evidente que ele está enrolando. Quando você o coloca contra a parede, cobrando uma posição sobre o relacionamento, ele diz:
“Preciso de um tempo para pensar.”
“Não estou pronto para um novo relacionamento.”
É foda. O cara não quer compromisso, mas não tem coragem de dizer que não quer é COM VOCÊ. Aí, no dia seguinte, você descobre que ele está namorando uma vadiazinha qualquer, geralmente a mais rodada de toda a vizinhança. Do dia para a noite a nova oficial se torna insubstituível na vida dele (muito mais do que você, que conviveu com o babaca e o aturou por anos).
E quando estamos na fossa, nossa auto-estima vai parar lá em baixo. “O que ela tem que eu não tenho” ou “Onde foi que eu errei?” são algumas das perguntas que, mesmo sem querer, acabamos fazendo.

Situação: Quando o cara falha na hora H. Geralmente ele dispara a clássica:
“Nossa, é a primeira vez que isso acontece comigo!"
“Isso nunca aconteceu antes”.
Conversa para boi dormir. Papo furado. Admitir que broxar pode acontecer a qualquer momento é muito mais bonito (e inteligente).

Situação: Quando ele quer terminar contigo e não sabe o que dizer (porque tem medo de falar os reais motivos):
“O problema não é você, sou eu."
Se um dia eu ouvir uma dessa eu mando tomar no cu sem dó nem piedade.

Situação: Quando você pega o seu namorado (ou marido) com outra (ou outro, vai saber né, rs) e ele solta a pérola:
"Não é nada disso que você tá pensando.”
Dispensa comentários, não?

Haja paciência. Homens, sejam mais criativos em suas desculpas porque essas já não colam mais.

Melhor dizendo, parem de inventar desculpas. rs

E você, amigo(a) leitor(a), qual foi a desculpa mais esfarrapada que já ouviu?

PS: Pode parecer, mas nunca generalizo, OK?


Camila Souza - a desaforada que não leva desaforo para casa. rs

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Nem Tudo Que Reluz É Ouro



Sexta-feira, 20h, Carmelo Rangel, Priscila está no banheiro se preparando para sair. Em frente ao espelho, a jovem de 20 anos colore os cílios com rímel, pinta levemente os olhos de preto, cora as maçãs do rosto com blush, aumenta os lábios com batom e alisa os longos cabelos cor de mel. Veste a roupa comprada na véspera, um vestido preto decotado, calça seu scarpin salto 15, põe seus brincos enormes de cristal Swarovski, e voilá, está pronta. Priscila passa no quarto do irmão e pergunta:

- E aí, tá bom?

O irmão afirma de leve com a cabeça, enciumado com a irmã linda que tem.
Sexta feira, 23h30, Avenida Batel. Priscila está em frente a um dos points preferidos para a balada, conversando com as amigas e checando o ambiente. Homens mais velhos chegando de Audi, BMW e afins, atraem seu olhar de minuto a minuto, até que decidem entrar. Começa a brincadeira.

O lugar é daqueles iguais a tantos outros frequentados por pessoas como Pri, lindas e ricas, ou seja, o lugar perfeito para o jogo que as amigas criaram. Cada uma deveria procurar o cara mais gato da noite e “pegar”, mas pegar de jeito.

Ansiando a vitória, cada uma vai para um lado e começa a procurar, não sem antes garantir um charme com uma cerveja em uma mão e um cigarro na outra. Priscila requebra, rebola, joga os cabelos para trás, acompanhando o ritmo da música, mas sempre de olhos bem abertos, atenta para achar seu alvo.

Até que o encontra. Escondido em uma roda de nerds terríveis, estava o homem mais gato da noite, o Moreno-dos-olhos-verdes.

Ela vai dançando enquanto se aproxima sorrateira, para não parecer mulher muito fácil. Mexe o corpo lentamente, dando algumas olhadas em direção a ele para chamar a atenção. Quando percebe que já foi notada, Priscila se aproxima ainda mais, mas agora dançando de costas, fingindo-se de difícil.

Ele dá o bote, ela cede. Beijo quente, rápido, molhado, muito molhado. Ele desce a mão. Ela sobe a mão. Ela é difícil, ele pensa. Quero ela. Quero ele. Preciso. Preciso.

Priscila despede-se das amigas com um sorriso de orelha a orelha. De mãos dadas com o Moreno-dos-olhos-verdes, ela sai sem nem ao menos ter que tocar na carteira e já com a certeza de passear em seu carro importado.

E lá vai ela, linda e loira, dentro de uma Mercedes SLK 320, acompanhada com seu prêmio. Moreno-dos-olhos-verdes abre a porta da mansão para Priscila e o casal entra tropeçando nos próprios pés.

Aos beijos, abraços, mãos e línguas, ambos correm para o sofá, cheios de volúpia. Priscila, já descalça, sente as mãos do Moreno-dos-olhos-verdes percorrerem seu corpo com vontade, e tirar-lhe o vestido já indesejado, ao mesmo tempo em que ela também arranca a sua camisa.

E a surpresa é mútua e inevitável, pois nenhum dos dois, apesar de despidos, estava nu ou semi-nu. Olham um para o outro, e para aquilo que os unia.

Na brincadeira do pega pega,esconde-esconde, o “Slim Control” saiu na frente, e o casal, já receoso em conhecer o que havia por trás do modelador alheio, usa de sua melhor arma contra o inimigo.

De luz apagada, Moreno-dos-olhos-verdes e Priscila Linda e loira comemoram a estratégia usada, pois não só na horizontal é tudo igual, como também à noite, todos os gatos são pardos.



Letícia Mueller

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Intenções reveladas


Existem pessoas que teimam em dizer que nossos comportamentos não são uma forma de comunicação. Através deles entendemos o que o outro quer, se gostou ou não, entre outras informações. É de acordo com o comportamento, a forma de sentar, de se vestir, de olhar, de sentir, de falar e através de simples expressões faciais que ficamos conhecendo mais e melhor. Por mais que se tente esconder algo, nosso comportamento faz sua revelação.


Esses dias me deparei com um antigo amigo, ele é mudo e surdo, as pessoas estavam meio que brincando com essa situação, falando coisas não apropriadas. Aquilo me atacou de uma tal maneira que eu não poderia fazer outra coisa a não ser dar a volta e estacionar o carro. Assim, pude identificar essas pessoas, não sei falar através dos gestos, mas pude perceber que meu amigo chorava, mesmo sem escutar as barbaridades que aqueles moleques estavam dizendo. Mesmo com a minha chegada eles não pararam, ele chorava, porque, apesar de não entender, ele sabe ler os lábios, sabe ver nos olhos se a pessoa lhe fala algo de bom ou não, sabe ver o que nós “normais” não conseguimos ver, o coração.


Aquilo mexeu comigo, falei muitas coisas àqueles moleques, mas o meu amigo em gestos me disse que eu não precisava fazer aquilo, para que eu não me igualasse a eles. E as lágrimas rolavam ainda mais de meu rosto e do rosto do meu amigo. Como depois de presenciar essa cena, dizer que os comportamentos não falam mais que palavras?

Aqueles moleques foram embora, rindo, ou melhor, gargalhando de toda situação. Levei meu amigo para a casa dele, e ali ele sorriu em meio às lágrimas, me agradecendo, e colocando a mão no coração, coração esse que estava machucado, terrivelmente ferido, mas ainda me deu um sorriso, de coração.

Afirmo que nossos comportamentos, falam mais que nossas palavras, quantas vezes pensamos tanto em responder algo e, quando vamos ver, nossos gestos e nossas expressões já responderam, revelando algo que muitas vezes não era para ser exposto.

O nosso comportamento não mente, não omite, mas fere, machuca quando não controlado, porque a fala é fácil de controlar mas o comportamento não é tão fácil assim.




Mary Palaveri