sábado, 3 de outubro de 2009

Estreia de nova Desaforada X. Elaine Souza, na definição de sua amiga Rubia Carneiro (também Desaforada X), é uma solteira discreta, formada em Letras (Português/Inglês), e que gosta muito de ler e escrever, bom para ela e para quem lê o blog. Elaine já começa com um texto que atesta sua paixão rasgada, assumida e incondicional pelo ofício da palavra. Bem-vinda ao time, Elaine.

A inspiração provém do espírito

Meu cérebro é uma cripta obscura, onde pairam adormecidos e perdidos nas trevas, minhas memórias e pensamentos, aguardando ser libertados.
Abri com cuidado a porta rangedora e fui despertar, reviver e acordar a mente para que ela pudesse acionar meu corpo. Ressuscitar , dar movimento repentino às conexões neurais, bombear sangue e oxigênio para o pulsar da vida , descalcificar os ossos das mãos, para que elas pudessem comunicar-se com o mundo real.
Foi assim que renasceu do íntimo de meu ser, das profundezas da alma e logo então, algo subiu pela garganta, veio incontrolável e subitamente uma vontade pertinente de voltar a escrever.
Para mim, hoje já é tarde. Eu me pergunto porque demorei tanto tempo para voltar a descobrir o quanto amo escrever. Sim, já faz muito tempo que não escrevo. Ainda estou tentando lembrar de como era bom e revigorante. Sinto que morri por alguns anos, minhas percepções da vida, meus conceitos, minha sede de vivenciar a escrita, submeter as palavras ao meu domínio. Estive em coma profundo, lutando contra o receio de evidenciar meus sonhos, meus questionamentos. Comecei a acordar aos poucos... os pensamentos bocejantes, lutando para emergir da escuridão, as ideias ressuscitando devagar, de repente meus olhos se abriram... a primeira letra, em seguida a primeira palavra, a suavidade do teclado, meus dedos movendo-se com insegurança... e um despertar consciente de alegria, uma explosão de sequências de frases nítidas, agora não mais aprisionadas...
Quero estar viva, ser livre para me expressar, dar ouvidos ao conhecimento e sabedoria que correm em minhas veias, quero romper as portas fechadas e folhear as linhas de meu “coração caixão”, libertar a alma e o sentido das minhas frases, até então falecidas.
Ter sede de novos pensamentos, novas ideias, pensar unicamente, inovar. Esses, são artifícios e qualidades fundamentais que o homem precisa ter no mundo de hoje e que são interessantes para o futuro, onde o importante mesmo é ser “escritor tecnológico” de sua própria existência, ser capaz de acessar e utilizar com frequência os fluxos mentais armazenados em sua memória e não deletar seus dados como arquivos velhos em um computador neural danificado. O que nos motiva a escrever?
Talvez o desejo de confrontar o espírito controlador que cada vez mais nos ameaça internamente, esse anjo da morte que está trancafiando nossos pensamentos em prisões, retendo nosso ímpeto artístico. Já não bastam os limites que a sociedade impõe às nossas atitudes? Nossos corpos impedidos de “estar”, nosso “eu” impedido de “ser”. Quantas publicações, livros, propagandas, retirados de circulação. Difícil encontrarmos um estímulo para escrever e para sermos nós mesmos em meio a tantos nãos, proibições e censuras. Escrita é o ato de transcrever nossas próprias emoções. Há um pouco de nós em cada palavra, podemos ser, agir e sonhar qualquer coisa, de qualquer jeito, tudo é possível, tudo é real. Quem escreve é um deus e as palavras são a sua criação. Como um ser divinal, o escritor nunca deve morrer, suas palavras nunca devem ser silenciadas nem rotuladas, mas compartilhadas com todos. É por essa razão que acreditamos no poder e na invenção de cada nova palavra, cada nova frase.
São as pessoas diferentes que ganham o mundo: os que tem a coragem de se manifestar, os que não tem medo de sobreviver às criticidades alheias e dizer o que pensam. Aos que dizem que escritores são loucos, psicóticos, exagerados, são eles mesmos que o são, por não perceberem a beleza, a sensação confortante e a estranheza libertadora que se tem ao final de um texto bem formado, uma tese bem escrita, até mesmo uma carta de amor fantástica.
Como diria a música de Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
Eu poderia explicitar múltiplas e ótimas razões para justificar e admirar esse hábito, o que não me desagradaria nem um pouco. Uma vez que iniciamos o processo, este pode vir a tornar-se viciante como doces doses de morfina. O ato da escrita é um vício não somente dos grandes escritores e poetas, mas de quem transpassa amor incondicional em suas criações. São por essas razões incompreensíveis e indecifráveis que escrevo minhas opiniões variáveis e insólitas, principalmente pela emoção, pelo desejo, pela satisfação e pela paixão.
E escrevo... e escreverei sempre.

Elaine Souza

4 comentários:

Anônimo disse...

Soberbo, Elaine. Escreva sempre mesmo. Nunca mais deixe essa paixão adormercer, porque nitidamente ela vive dentro de você, e esse estado de coma pelo qual passou não é de um pedaço do seu ser, mas sim da melhor parte dele.
Beijo, parabéns e bem-vinda.

Mario

Camila disse...

Se escrever é sinônimo de loucura, então sou uma louca feliz (apesar de a inspiração ir embora de tempos em tempos).
Beijos.

Karime disse...

Elaine! Adorei: "Quero estar viva, ser livre para me expressar, dar ouvidos ao conhecimento ...quero romper as portas fechadas ... libertar a alma..."
Bjo

Elainy disse...

Obrigada pessoal!
Seus incentivos com certeza serão a minha melhor inspiração para escrever.
Bjos a todos.