domingo, 25 de outubro de 2009

Guia Do Orgasmo Múltiplo Masculino



Uma das revelações mais curiosas (e polêmicas) de Freud é a de que a mulher sente inveja do homem por ele ter pênis. Em compensação, outra revelação dele deixa os sexos quites na disputa: o homem inveja a capacidade que a mulher tem de parir. Mas, para desequilibrar a peleja entre invejosos, talvez tenha faltado um outro quesito na tabelinha do pai da psicanálise: homem tem inveja de orgasmo múltiplo.
Atribuído como um privilégio exclusivamente feminino, ele desperta curiosidade e até certo desdém dos inconformados. Alegam ser exagero o que se comenta a respeito, esquecendo-se que já é da natureza da mulher reverter sua sensibilidade aguçada em prazer: mesmo um orgasmo feminino simples tem maior intensidade e duração do que um masculino. Além disso, uma mulher pode gozar várias e várias vezes em uma mesma relação, enquanto que o homem já tem seu rendimento comprometido depois do primeiro orgasmo, sendo muito difícil se recompor para um terceiro ou quarto round. E mais, enquanto um homem só tem um tipo de orgasmo, a mulher pode ter dois: vaginal e clitoriano. Como se não bastasse, a mulher não precisa obrigatoriamente gozar para achar o sexo bom, enquanto que o homem geralmente considera a transa frustrante se ele não chegou lá. Isso sem falar no mitológico ponto G, no número de zonas erógenas superior ao do homem, nas diversas áreas sensíveis do aparelho sexual (que se mapeadas fazem a genitália feminina parecer o Playcenter e o pênis um playground de condomínio), entre outros privilégios em excitação e orgasmo. Com tanta tecnologia sexual, é incrível como o orgasmo feminino só se tornou um “direito” a partir da segunda metade do século passado. A bem da verdade, o homem sempre teve medo do potencial de prazer da mulher. Ele o deixa em condição desfavorável e limitada, não sendo por acaso que em alguns países extremistas da África e Ásia mutila-se o clitóris da mulher quando ela chega à fase da adolescência. Aliás, o clitóris sempre foi tão ameaçador que sua primeira menção “científica” ocorreu na Santa Inquisição, quando um sacerdote, ao torturar e explorar a fisiologia de uma suposta bruxa, descreveu-o como “a ponta do bico do seio de Satanás”. O homem e a religião nunca se conformaram com Deus ter criado um ser tão high-tech no potencial sexual. E é aí que a ciência de Freud se encontra com a arte de Shakespeare, quando os dois entram em consenso na afirmativa de que homens se esmeram obsessivamente na criação de obras-primas na mesma proporção em que se mostram talentosos em gerar guerras - é acúmulo atávico de frustração reprimida, tentando compensá-la através de feitos extraordinários, seja para o bem ou para o mal. Muito se fala da ala das mal-comidas mas nada se comenta da ala dos maus-comedores, a qual é muitíssimo mais deprimente e perigosa. Basta dar uma rápida olhada na galeria dos líderes de maior apetite sexual para se perceber que foram muito mais competentes e construtivos do que a dos assexuados: compare John Kennedy e Bill Clinton com Hitler e Stalin, por exemplo. Claro que os dois primeiros pagaram caro por sua fama de comedores, mas o único "erro" público que cometeram foi o de gostar demais da fruta, porque de resto foram estadistas exemplares. Já os outros dois, assim como uma infinidade de líderes nefastos, sempre tentaram suplantar uma possível falta de sexo (ou de bom sexo) com o uso da baioneta. Fizeram de seus bigodes falsos ícones fálicos para sugerir virilidade, porque seu comportamento público e humanitário demonstrava justamente o contrário. Também temos nosso similar local: na disputa presidencial de alguns anos atrás, o candidato Enéas Carneiro (sim, aquele do "meu nome é Enéas!") havia dito que, se eleito, daria condições ao Brasil de produzir artefatos nucleares, pois, segundo ele, só assim os americanos parariam de nos apontar dizendo: "olha ali um índio de tacape na mão" - em resposta, o então presidente do Partido Verde (e também candidato à presidência da república), Alfredo Sirkis, respondeu em seu horário eleitoral que: "a bomba atômica é o Viagra dos energúmenos". Coloque as fotos de Enéas e de Sirkis lado a lado e tire suas próprias conclusões de quem tinha vida sexual mais sadia e satisfatória.
Como a ciência adora fazer uma descoberta inusitada e causar celeuma, já ventilou-se a capacidade de o homem ter orgasmo múltiplo. Que mulher pode ejacular, isso é uma verdade comprovada; mas quanto a homem sentir orgasmo múltiplo é mais ou menos como afirmar que macho também tem ponto G. Pode até ter, mas a privilegiada criatura que o possua será uma enorme exceção à regra, quase uma atração circense. Os motivos pelos quais o orgasmo múltiplo masculino é uma enorme bobagem (não se necessitando nem ao menos ser urologista para desmascarar tal embuste pseudo-científico) residem em algumas constatações muito simples. O orgasmo masculino está diretamente ligado à eliminação de sêmen pelo pênis. Mesmo homens que passam por vasectomia expelem esperma, pois a maior parte do líquido não é composta por espermatozóides e sim por secreções que facilitam a condução dos gametas até o óvulo. Contudo, há sim adeptos do gozo “a seco”: monges praticantes do sexo tântrico de altíssimo grau de concentração meditativa conseguem gozar sem ejacular, mas essa habilidade é destinada a uma meia dúzia de gatos chineses pingados de um templo shaolin que passam a maior parte da vida aprendendo a transar com o vento e a plantar bananeira se equilibrando no dedo mindinho, portanto não dá para inserir nas estatísticas. Levando em conta que cada gota de sêmen equivale a uma perda de 30 gotas de sangue, e que não se pode gozar sem ejacular, um sujeito que tivesse orgasmo múltiplo equivalente, digamos, a um minuto de duração, não teria um clímax sexual e sim uma hemorragia. Cada vez que o mancebo fosse transar, teria de deixar os bancos de sangue de sobreaviso. Além do que, nenhum par de testículos do mundo seria capaz de produzir tal quantidade de sêmen. Como também nenhuma camisinha teria reservatório de elasticidade suficiente para armazenar tanto líquido sem arrebentar. Considerando que a bolsa escrotal produz mais em baixa temperatura (procurando sempre estar de 2 a 3 graus Celsius abaixo da temperatura do corpo humano), talvez o abominável homem das neves fosse capaz de ter uma indústria de gametas tão fértil assim. E provavelmente esse ser apto ao orgasmo múltiplo seria mesmo uma aberração, pois para gerar um gozo tão poderoso seria preciso ter uma quantidade sobre-humana de células de Leydig nos testículos (as células intersticiais responsáveis pela produção de testosterona). O problema é que a testosterona em excesso não gera apenas mais esperma e virilidade, mas sim uma quantidade colapsar de efeitos colaterais, começando pelo fato de que nosso personagem hipotético seria tão peludo que faria o Tony Ramos parecer Espiridião Amin. E seus escrotos precisariam ter um epidídimo, que é a estrutura que armazena os espermatozóides até serem liberados no ato sexual, de proporções nababescas, em outras palavras, um saco que faria inveja a quem pegou friagem enquanto estava de caxumba (fenômeno que, aliás, deve ser tão lendário quanto o orgasmo múltiplo masculino). Pensando bem, talvez realmente o abominável homem das neves, o pé grande ou o sasquati possam ter orgasmo múltiplo.
Mas há uma constatação ainda mais aterradora na qual podemos chegar: se formos somar os danos que tal gozo colossal causaria no canal uretral, na próstata e no corpo cavernoso do pênis, chegaríamos à conclusão de que o “abençoado” teria uma vida útil sexual bastante reduzida e de qualidade comprometida. E mais: ao contrário do que se poderia pensar em um primeiro momento, esse tempo todo de jato seminal acabaria causando mais dor do que prazer, já que o esforço de tamanha ejaculação geraria lesões internas no aparelho genital devido ao atrito do esperma expelido somado a toda a energia física acionada no processo do gozo. Os movimentos peristálticos feitos por tempo tão prolongado teriam consequências difíceis de se prever. Aliás, o excesso de terminações nervosas que seriam arranhadas pelo jato de esperma em profusão poderia resultar em dores lancinantes, haja vista a soma de relatos pavorosos de homens que foram vítimas do Candiru: o peixe que entra na uretra dos desavisados que gostam de tomar banho sem roupa em rios da bacia amazônica. O esguicho de tanto esperma causaria micro-lesões em toda a extensão do duto uretral. Se isso resultaria em inflamações ou ferimentos mais graves, só um especialista poderia afirmar. Mas que doeria, doeria. Qualquer homem sente um tanto de ardência interna proporcionada por uma ejaculação de poucos segundos. Imagine o que seria essa ardência num gozo de minuto...
Sendo assim, orgasmo múltiplo masculino é inviável, e mesmo que fosse possível seu resultado poderia ser muito mais uma maldição do que um superpoder invejável. Fisiologicamente, o homem não foi concebido para ter orgasmo múltiplo. O que é uma benção para as mulheres, pois se já existem tantos apressadinhos por conta de um orgasmo ralinho que dura poucos segundos, imagine o que seria se essa legião do fast fuck tivesse a sensação do orgasmo múltiplo similar ao da mulher. As penetrações durariam menos que uma prova de cem metros rasos. Ganhariam do Usain Bolt.
Então, não há esperança? Não existe orgasmo múltiplo masculino nem nunca existirá? Na verdade, existe. Mas é resultado da sublimação, ou seja, da canalização da energia sexual para outras atividades que possam suplantar a carência de estímulos da libido. E ela pode ser praticada tanto por homens quanto por mulheres. Claro, ainda não inventaram nenhuma sensação melhor do que um orgasmo sexual legítimo. Este prazer pode ser superado pelo oferecido por certas drogas, mas não há nenhuma sensação saudável, natural e sem contra-indicações que seja comparável a um orgasmo. Nosso mestre do templo shaolin diz que tal nível de êxtase pode ser ultrapassado através de técnicas meditativas, mas vamos considerar que somos meros mortais e que tal prática ainda se encontra distante de nossas capacidades. Então, continua o orgasmo no alto do pódio. O orgasmo da sublimação ocorre quando se consegue conquistas e prazeres capazes de competir (mesmo que com certa distância) com o delírio de um gozo. E o orgasmo múltiplo da sublimação é quando algo muito, muito, muito fantástico resulta em um prazer indescritível. Corresponde a uma conjunção de fatos muito raros e extasiantes. Vamos a algumas possibilidades coadunadas com o universo masculino.
Seu time marca um gol aos 45 do segundo tempo e sagra-se campeão = orgasmo.
Seu time marca um gol aos 45 do segundo tempo e sagra-se campeão enquanto o time rival é rebaixado para a segunda divisão = orgasmo múltiplo.
Outro exemplo:
Milhares de latas de cerveja se espalham pelo asfalto por conta de um acidente do caminhão de entrega = orgasmo.
Milhares de latas de cerveja se espalham pelo asfalto por conta de um acidente do caminhão de entrega contra o carro da sua sogra = orgasmo múltiplo.
Mais um:
O avião presidencial tem uma pane e cai = orgasmo.
O avião presidencial tem uma pane e cai sobre o congresso nacional = orgasmo múltiplo.
OK que são situações que não dependem de você, o que torna o orgasmo múltiplo da sublimação algo muito difícil de ser atingido. Então, supondo que você queira um orgasmo múltiplo de sublimação voluntário, o que fazer? Simples, é quando se apela para prazeres radicais. O salto de para-quedas, a onda perfeita, a vitória no tatame sobre um oponente dito invencível, a viagem dos sonhos, o megashow de rock.
E assim acaba este guia do orgasmo múltiplo masculino. Convenhamos, um tanto quanto sem graça. Como tudo que é masculino.


Mario Lopes

8 comentários:

Karime disse...

Como sempre, adorei! Tags: maus-comedores, fast fuck, playground de condomínio...hahahaha! E apesar da minha imaginação fértil me fazer visualizar o Enéas em ação, não acho que tudo o que é masculino, seja sem graça.
Bjos

Camila disse...

Ka, eu também não acho. rs
Beijos!

Anônimo disse...

Ei, vocês duas, até deve ter alguma coisa "com graça" feita por nós, homens, mas não serei eu quem ficará de observador/apreciador. Espero, inclusive, que essa coisa esteja em mim. hehe
Beijo e boa sorte pra ambas.

Mario

Karime disse...

Aqui no sul... a gente diz assim quando alguma coisa nos surpreende de alguma forma: "mas que bah..." (que barbaridade).

Camila disse...

Óia Guto, só sei que... Homem é Tudo Palhaço! hehe
Beijos.

Camila disse...

Meu nome é Enéaaaasssss! hahaha

Anônimo disse...

Como "aqui no sul", Karime?! Assim fica parecendo que o Paraná fica no norte, rsrs. Mila, é bem verdade, a gente é palhação mesmo. E não preciso nem dizer onde é o nosso picadeiro. hehehe ;-)
Beijo.

Mario

Karime disse...

Sul do sul, então... eu sou meio sem noção, mas noção de geografia ainda tenho... :) Bons tempos de escola!
Bjo