domingo, 4 de outubro de 2009

In Utero



Cada integrante do blog recebe sempre a recomendação de ter um ou mais textos já prontos de reserva, para postar no caso de não haver tempo de escrever durante a semana - e é o que acontece neste domingo, em que a energia frenética do relógio e o volume na agenda de compromissos fazem pular para fora do HD alguma criação perdida nos back ups da vida. O texto abaixo não é novo, é um roteiro de filme escrito há cinco anos e que ficou "na gaveta" pelo fato de o autor ter ficado insatisfeito com o final. Mas, dando uma de Mario Prata (que escreveu "Os Anjos De Badaró" publicando trechos em seu blog e coletando opiniões dos internautas), a obra está aqui à disposição de quem quiser dar pitacos e contribuir (se um dia for viabilizado o filme, o nome de quem contribuir irá nos créditos como agradecimento). É a primeira vez que um roteiro é publicado no blog, o que é bastante válido, já que os posts aqui são livres das amarras de gênero, estilo ou formato. Nota: int. significa interna; VO é Voice Over (voz do personagem narrando o que se vê no vídeo); FADE OUT é a imagem escurecendo; e a formatação está longe do padrão ideal (Master Scenes, lay-out mundialmente aceito) devido às dificuldades com os recursos disponibilizados pelas ferramentas do blog.

int. sala/cozinha/quarto de nena – dia
NENA, gestante de poucos meses, surge com ar entediado em ambientes diversos de sua casa, fazendo atividades rotineiras: assistindo TV, comendo alguma guloseima pouco nutritiva, lendo revista feminina de conteúdo pouco construtivo, passando roupa, tomando banho, olhando barriga no espelho, sempre com ar de apatia. A casa é de classe média baixa, um tanto desarrumada, pintura descascada nas paredes e com decoração de mau gosto. Nena tem aparência de ser bastante jovem (entre 18 e 20 anos) e uma certa indiferença no ar quanto à sua situação de gestante.
nena (vo)
Sabe lá o que são nove meses assim?! Enjôo, vômito, mal estar, essas coisas. E todo esse tempo sem balada, sem uma cerva, um trago... um pico. De vantagem, só fila preferencial de banco ou de supermercado. Porque de resto, de resto é isso, esse peso a mais dentro da gente. E sexo? Dá pra pelo menos trepar de vez em quando? Eu não sei. Nove meses é muito. Vou deixar de viver nove meses. Sabe lá o que é isso?! Não sabe, não. Você é homem.

int. bar – noite
Em um bar semi-vazio, Nena sentada no balcão fala girando um copo de whisky.
nena
Por isso, se não quer que eu tire, paga.
Nena vai levar o copo à boca, mas uma mão – de CIRO – entra em cena e puxa o copo.
ciro
Quanto você quer?
Ciro a observa com um misto de temor e impotência, tem um semblante cansado. É bem mais velho do que Nena – entre 45 e 50 anos.
nena
Faça uma proposta. Para passar mais sete meses desse jeito, e com você pegando no meu pé, não vou topar por pouca coisa, fique sabendo.
Ciro bebe do copo que tirou de Nena, virando a bebida em gole único.
ciro
Depois ele fica comigo.
nena
Todo seu.
Nena sorri cinicamente.

int. maternidade – dia
Por um aparelho de TV no apartamento onde Nena está internada após o parto, vemos o bebê no berçário. Nena está deitada na cama. Ciro em pé a seu lado. Nena, ignorando o ambiente e sua situação, acende um cigarro. Dá uma baforada longa e fecha os olhos, num sorriso de quem diz “há quanto tempo!”.
nena
Todo seu. Ou melhor, só uma coisa antes: fez o depósito?
ciro
Se eu paguei o resgate, você quer dizer. Sim, tá lá.
Nena dá mais uma tragada. Ciro resta estático, em pé à sua frente, parecendo já não ter mais o que dizer.
nena
E a criança, vai fazer o que com ela? Dar pro vagabundo do seu filho cuidar?
ciro
Não. Como você mesma disse, ele... é um vagabundo. Então comprei a parte dele também.
Nena balança a cabeça com sorriso irônico no rosto.
nena
Hmmmmm... isso sim é um business man.
Ciro abaixa a cabeça e se dirige para a porta do quarto. Nena interrompe sua saída falando alto.
nena
Mas eu não estou arrependida, se você quer saber. Nem um pouquinho.
Ciro se detém com a mão na maçaneta.
ciro
Disse bem: não está.
Ciro abre a porta e sai do quarto. Nena, solitária, olha para a porta, dá a última tragada no cigarro e o atira pela janela. Depois, joga os cabelos para trás e recosta o corpo no travesseiro atrás de si. De súbito, volta sua atenção para o monitor de TV no qual vê o bebê que pariu recentemente. Vemos a imagem do monitor chegando cada vez mais perto, tornando cada vez mais nítido o pequeno bebê mexendo a cabeça solitário. Os olhos de Nena vão ficando hipnotizados pela cena. A imagem do monitor vai crescendo na tela assim como A TRILHA e o teor de sutil magnetismo que acomete o olhar de Nena. Quando já vemos o campo do monitor bem próximo, surge um braço de enfermeira que toma a criança do berço e a tira de cena. Os olhos de Nena saem de transe instantaneamente, e se arregalam um pouco mais como que querendo dizer algo.



FADE OUT
FIM


Mario Lopes

4 comentários:

Camila disse...

Ei Guto, você s/tempo p/escrever? Eu não acredito! hehe ;-)
Beijos.

Anônimo disse...

Sem tempo para escrever porque fico escrevendo o dia todo. Não para o Desaforadas, infelzimente. rs ;-)
Beijo, Mila.

Guto (Mario para quem não sabe do apelido)

Karime disse...

Tema bem casca, hein ? Daria um filme bem "forte"...só não dá prá olhar em sábado de noite, senão a gente tem vontade de cortar os pulsos de colherinha...Show!
Bjo

Anônimo disse...

De fato, Kariime. Talvez por isso mesmo (por ser uma situação amarga demais e insolúvel) eu nunca consegui encontrar um final apropriado. Trava, acho que é a perspectiva de unhappy end por maiores que sejam os esforços. E eu assumo, adoro finais felizes. rs
Beijo, Karime.

Mario