segunda-feira, 22 de março de 2010

Semana de tema livre

Hoje é dia de estreia no blog. Larissa Santin é geminiana com ascedente em leão. Impaciente, orgulhosa e volátil, ela pinta, toca violão e estuda cinema. Fã de Mozart e Bjork, adora banho de chuva e abraço de vó. Apaixonada por Al Pacino e Charlotte Gainsbourg. É viciada em curtir a vida, o que fica claro em textos como o que vem logo abaixo (não que seja auto-biográfico, que fique claro). Bem-vinda, Larissa.

Por Um Punhado De Cloro


Cheguei ao bar. Encontrei meia dúzia de amigas que não via há mais de quatro dias. Para um grupo como o nosso, tão “conciso”, quatro dias era tempo demais. Era tempo para que Verônica traísse o namorado, rompesse e voltasse.
Era tempo para que Aline encontrasse o amor de sua vida, entregar-se e chorar ao fim do quarto dia. Era tempo de Bárbara ligar para oito outras pessoas começando seu discurso com “olha, não é que eu queira contar, mas...”.
Era tempo de Diana chegando dez minutos atrasada e falando como uma matraca sobre suas árduas tarefas no trabalho. Era tempo de Michele repetir três vezes o nome da cor do seu esmalte “vermelho Madonna, inspirado na Madonna”, dizia ela.
Era tempo de Carmem olhar-se no espelho frente à mesa em busca de aprovação. Era tempo de mim, no bar, entediada. Era tempo de mudar.
Só não era tempo de chegar o fim de noite sem nenhuma história para orgulhar meu ego de aspirante a femme fatale. Eu já tinha passado da fase de postulante a pin up, não que trocasse o estilo ninfeta por vestidos justos pretos e uma cigarrilha com piteira equilibrada por finos dedos revestidos por luvas brancas esticadas até os cotovelos. Meu figurino sempre foi discreto, mas eu acreditava que a postura poderia me adaptar à persona que eu bem quisesse sem ter de me travestir. Aquela poderia ser uma noite despretensiosa, sem ambicionar o amor platônico da Aline, os adereços triviais da Michele, as histórias bombásticas da Bárbara, os adultérios de Verônica (mesmo porque eu nem teria a quem chifrar), mas aquela madrugada chegava com clamor de libido e aventura. “Pego cedo amanhã, vou embora”, “eu também”, “eu também”, “idem” e pronto, era a coreografia do vamos-todas-juntas-já. Nem adiantaria negociar uma hora a mais, meia horinha, só uns minutinhos, o que fosse.
Esperando o elevador, passei a reparar no porteiro, Waldomiro, devia ter uns 45 anos, aliança no dedo. Evangélico... Plim! Chega o elevador. Ficar ou subir. Se ficar, o que usar de isca ou de desculpa para puxar conversa com um homem para o qual eu só dirigia a palavra para indagar se haviam deixado algo no meu escaninho. Subi.
No apartamento, mal acendi a luz e já saí caçando a cartela de Rivotril que deixei na gaveta do banheiro.
Abri a cartela e saquei uma pílula. Antes e ingeri-la, cometi o grave pecado de me olhar no espelho. Eu sei o que vi. Eu sei o que gostaria de ver e nesse embalo do fascínio por mim mesma, joguei a pílula ralo abaixo. O que mais além de mim eu precisaria para seduzir Waldomiro?
Joguei os cabelos para trás, de modo natural e abri a porta de frente. Plim! Chegou o elevador e nós vamos para baixo. Cheguei à portaria e dei dois toquinhos na porta. Um, dois. E Waldomiro a abriu prontamente preocupado com a minha visita. “Waldomiro, me diz uma coisa. Que horas fecha a piscina?”
“Às dez horas, se é em tempo de férias, às onze”; “Que horas são Waldomiro?”; “São duas e trinta”; “ Será que teria problema se eu entrasse na piscina a essa hora? Te juro que não faço barulho”; “Olha, eu não sei...”; “Não, o senhor não terá que se preocupar com nada”; eu disse, medindo aquele homem de cima abaixo cheia de intenções. “A senhora está bem?”; E eu disse que sim, caminhando lentamente até o portão de entrada da piscina. Waldomiro olha tudo de longe sem saber o que fazer e entra na portaria, senta-se e observa as câmeras de segurança do prédio. Quando cheguei à beira da piscina, tirei os sapatos e coloquei um dos pés na água, verificando a temperatura. Comecei a tirar o casaco. Seu Waldomiro assiste a tudo pela câmera de vídeo. Foi quando ele apareceu, meio apressado, colocando as duas mãos na cabeça ao me ver sem a blusa; “Meu Deus, dona Fernanda! Não faça isso!”; “Não, eu só vou dar um mergulho, é coisa rápida. Cinco minutos”; “Não, a senhora não pode fazer uma coisa dessas. Essa hora, num dá! Se o síndico pega, cai pra cima de mim. Por favor, por favor, dona Fernanda... a senhora bebeu?”; Ri e fui em direção à piscina. “Não, dona Fernanda! Isso vai dar problema” disse Waldomiro me puxando pelo braço. “Problema pra quem?”; “ Dona Fernanda, o síndico mora logo aqui no primeiro andar, vai sobrar pra mim. Por favor, por favor. Eu lhe levo até o elevador. Vamos, dona Fernanda, vamos”. Andamos até a porta do hall e Waldomiro continuava me segurando pelo braço, sem motivo aparente. Ele queria me tocar, ou pelo menos era o sinal do seu corpo. Chegamos à frente do elevador e somente a luz vermelha do botão denunciava o que passava pela minha cabeça.
Quando um clarão de luz surgiu, Waldomiro me disse: “Pronto, dona Fernanda. Pode subir agora”; “ah é? Pode?”; falei empurrando-o contra a parede e colocando a mão entre suas pernas. “Escute aqui. Eu vou subir, colocar o biquíni, descer e mergulhar. Depois disso, a gente vai conversar de pertinho... tá certo, Waldomiro?” Entrei no elevador, a porta se fechou com a imagem dele, atônito.
Entrei em casa, voltei ao banheiro e novamente me vi no espelho. Lavei o rosto, abri a gaveta, saquei outra pílula e fui me deitar.



Larissa Santin

4 comentários:

karin disse...

Puta texto afudê hein.

Juliana Anverce disse...

:O
:O

se inspirou hein dona Santin!
haha

Anônimo disse...

gostei muito!

Anônimo disse...

Ela É inspirada. :-)
Beijo e parabéns pela estreia, Lari.

Mario