sexta-feira, 21 de março de 2008

Tem que escolher um só?



Fiquei uma noite sem dormir mudando de marido. Fala sério gente, não dá pra escolher um só. Homem pra casar? Aff! Pensava: Fulano é bom partido por causa disso e daquilo; mas, Sicrano também é ‘partido’, por outros tantos motivos. Ah, tem também o Beltrano que tem tudo a ver comigo. Enfim, há muitos homens que eu admiro e cada um por uma razão diferente.
Então, diante de toda essa crise e na tentativa de facilitar as coisas, virei uma árabe feminista (ao cubo). Intitulei-me sultana de um micro país chamado Falônicos do Sul. Lá construí meu palácio, chamei alguns ‘partidos’ e ele começaram a chegar.

"Odalisco" n. 1: o americano James Dean, sim, porque é impossível resistir àqueles olhos claros, aquela cara linda e safada e todo aquele jeitinho de garoto rebelde e angustiado com a juventude. Com ele eu me exibo vez ou outra em um carro veloz (mas não muito, né James), ou, o coloco sentadinho em algum canto, só para admirá-lo.
"Odalisco" Segundo: outro americano. Fred Astaire. Ele me leva aos bailes, às pistas de dança ou simplesmente dança comigo em uma das tantas salas do meu palácio, quando eu tenho vontade e assim desejo.

John Coltrane e Carlos Gardel. Sim, porque eu preciso de boa música para aquietar a alma e para dançar com Fred Astaire. Já imaginou? Misturar os solos de sax de John com a voz de Gardel? Só aqui em Falônicos do Sul isso é possível.

O sueco Ingmar Bergman escreve roteiros e dirige seus filmes repletos de erotismo, só pra mim. Mas isso só depois que eu aprovo o roteiro.

Para os momentos de leitura já estou com um bom escalão: Jorge Luís Borges já se instalou por aqui com suas histórias fantásticas; Ernest Hemingway também lê ao pé do meu ouvido sua literatura jornalística; Aldous Huxley me instigando a criatividade; Pablo Neruda e Mario Quintana além de lerem suas poesias, que tanto me agradam, também me fazem alguns versos; Edgar Alan Poe me surpreende sempre com algum conto e, por último, Jack Kerouac e a contra-cultura americana. Algumas vezes vamos até o Big Sur e passeamos de pés descalços pelas encostas do Pacífico.

Alfred Kinsey, ah, ele não poderia faltar. Sexólogo responsável pela maior pesquisa sobre comportamento sexual de homens e mulheres. Reza a lenda que ele inclusive praticava sexo com os(as) voluntários(as) que participavam das suas pesquisas. Sim, morram de inveja, todo esse conhecimento só pra mim.

Já tenho também alguns artistas, dos mais diversos estilos, que estão decorando salas do palácio e "fazendo arte" pra mim: Roy Lichtenstein com sua pop-arte; Gustav Klimt responsável por alguns mosaicos e murais do meu palácio; Monet com seu impressionismo; não poderiam faltar o Guido Crepax com seus quadrinhos eróticos e o fotógrafo Robert Capa, que além de talentoso é lindo.

Ernesto Guevara escolhido porque é lindo e amo os revolucionários e eles me dão tesão.
Para as noites que preciso de mais conhecimento, filosofo com Michel Foucault, Jean-Paul Sartre (a Simone que me desculpe) e Friedrich Nietzsche (eu estou conseguindo fazer ele perder o ódio que sente pelas mulheres rapidinho, quer dizer, não sei. Talvez a raiva esteja aumentando).
Pra terminar: Virgulino Ferreiro da Silva, vulgo Lampião, para as vinganças mais sangrentas, se necessárias. Vai que alguém inventa de roubar meus odaliscos... Ah, aproveito para deixar claro que não admitirei furtos em minha propriedade, nem paparazzi, e que os meus castigos deixarão até Lampião sem graça.

Enquanto isso, em algum canto do palácio...

— Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso. (...) Neruda lia esse poema muito calmamente, quando tudo começou.

— Neruda pára com essa melação e venha me ajudar. Alguém roubou a porra da minha caixa de charutos. No mínimo foi aquele argentino filho da puta metido a revolucionário. - Falou Robert Capa, indiguinadíssimo.

— Ei, mais respeito aqui dentro. Quem manda nessa pindaíba aqui, ainda sou eu. - Grito eu ainda mais alto.

— Minha flor do cerrado, se tu quizé eu arranco os bago desses baitola aqui e como com sal - disse Lampião.

— Não carece ainda Lampião. Não se avexe tanto.

— Fui eu mesmo. Grita Ernesto, e digo mais, endurecer sim, mas, perder a ternura jamais. Se alguém aqui quer brigar, brigaremos senhores.

— Aquilo que eu sempre disse, vai ter-te com uma mulher, levas um chicote. A culpada é ela. - Gritou Nietzsche apontando duramente para mim - Aonde já se viu, nos reunir aqui, homens tão diferentes. Isso é um abuso. Essa louca trouxe pra cá os homens mais célebres de todos os tempos, por pura vaidade. Alguém aqui está contente? Em dividi-la? Eu já estou quase comprando a minha passagem de volta.

— É verdade. Além da superlotação é impossível viver aqui, com essas diferenças de estilos e ideologias. Acho que devemos fazer uma assembéia, e você, Sultona, deverá escolher apenas um de nós - ataca Huxley.

— Ah, mas como? Não poderia optar só por um. Cada um de vocês tem os predicados que considero importante. Não poderia achar tudo isso em um homem só. Sejam bonzinhos. Não façam isso comigo. Se for pra escolher um só, prefiro ficar sem nenhum. - Falei isso achando que mobilizaria os meus meninos...que nada...

— Ei, esperem, onde vocês estão indo? Não, não, fiquem. Gente, calmaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, vamos conversar melhor sobre isso. As coisas não podem ser assim, ei, tou falando com vocêssssssssssss ...




Mônica Wojciechowski

2 comentários:

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

Mônica, ótimo texto a-do-rei!

Rodolfo disse...

Olá Mônica (Impronunciável),

Não nos conhecemos ainda mas como tenho dito para as outras meninas que tenho comentado, isso não faz a menor importância.
Assim a gente não cria vínculo, pode elogiar, criticar sem que isso cause qualquer constrangimento futuro.

Bom, seu texto é divertido, pluripartidário (? Achei legal colocar isso), libertário, moderno..... Me lembrou Woodstock nos 70, Janis cantando Cry Baby ou Mercedez Benz, aquela gente toda pelada, fumando unzinho por um causa bacana, amor livre...
Ao mesmo tempo senti cheiro de "já ouvi essa estória em algum lugar..." Será que sequestraram Valentina, pensei? A de Botas?

Voltando ao tema, vou dar minha opinião sobre haréns, embora vc não tenha me dado essa liberdade.

Diz a lenda que um dia Janis Joplin (mas poderia ser o Mick Jagger para não me chamarem de machista) voltando de uma turnê (daquelas feitas em ônibus mesmo) que rodou com a sua banda por "trocentas" cidades nos EUA ao ser perguntada sobre como havia sido a mesma, respondeu:

"Puxa, ela foi ótima. Ao longo desses dias todos transei com 30 homens......
Nunca me senti tão sozinha".

Ok, nem tudo acaba em sexo. Mesmo em falônicos do Sul, não é?

Rodolfo