quarta-feira, 21 de maio de 2008

Entabulando


Quanto mais passava o pano úmido, mais o tom vermelho se dissipava para o rosa, espalhando-se pelo bege. Mas Joelmir não desistia, permanecia no esfrega, alastrando o degradée e fazendo tanto atrito que esquentava a gola do blazer. Até que sua tenacidade começou a desgastar o tecido. Joelmir bufou, segurou-se para não gritar um palavrão em sua sala cercada de finas paredes de eucatex. Até que Murilo entrou evitando olhar Joelmir de frente.
- Não vai na reunião?
- Que reunião, Murilo?! Você acha que eu tô com cabeça pra reunião?! Foi você, não foi, seu babaca?!
- Eu o que?
- Meu, você nem tá conseguindo segurar o riso.
Murilo cai numa gargalhada reveladora.
- Tá bom, eu tô envolvido, mas não fui eu, não. A gente pediu pra Milene.
- Que Milene?
- A do bocão.
- Da convenção no Rio? Do biquini vermelho?
- Essa mesma.
- Então eu tive sorte que ela não engoliu meu blazer. Ei, mas você falou “a gente”. A gente quem?
- Ah, não sou dedão.
- Ué, já entregou a Milene mesmo.
- Pô, Joelmir, mas você quer que eu entregue meu brother?!...
- Tá, manda esse porra desse Eliseu subir aqui pra tirar essa mancha.
- Pára com isso, Joelmir. Manda na tintureira, eu pago.
- Se eu chegar em casa sem o blazer, a Cinara vai desconfiar.
- Desconfiar do que, se não aconteceu nada?
- Murilo, se liga! Você sabe que ela é uma ciumenta obsessiva. Vai exigir que eu dê o nome da tinturaria pra investigar pessoalmente. Só o fato de eu chegar em casa sem o blazer já será motivo pra ela me acusar.
- Então fala a verdade: que a gente te sacaneou.
- Ah, boa! Murilo, acorda, ela vai dizer que “é, vocês são todos uns borra-botas, ficam se protegendo uns aos outros, nhé-nhé-nhé”.
- Tá, diz que esqueceu o blazer no escritório, daí eu levo pra lavar...
- Murilo... Murilo... é igual ao caso da tinturaria... a Cinara daí vai querer vir pro escritório buscar essa porra, bosta, cu, caralho, merda de blazer. Será que você tá se ligando no que vocês me meteram?
- Mas que josta, Joelmir. Se ela desconfia tanto assim da tua conduta, por que se casou contigo?
- Isso não é hora de discutir a relação.
Nisso, Eliseu entra na sala.
- Oi, Murilo, tão te esperando pra reunião.
- Eliseu, o Joelmir já descobriu que foi você. Não sei como. O cara é um gênio.
- Como assim “que foi você”?! Foi tudo idéia sua!
- Ei, vocês dois! Eu quero uma solução, só isso.
- Simples, eu levo na tinturaria...
- Eliseu, a gente já discutiu isso. Todas as alternativas que envolvam confessar a verdade ou lavar o maldito blazer estão fora.
- Ué, qual a solução então?
- É isso que eu quero saber, seus jumentos! A Cinara é neurótica e vocês me foderam.
- Calma, Joelmir, o Eliseu vai ter uma idéia, né, Eliseu?
- Hmmm...
- Aliás, Joelmir, quem manda você usar blazer bege. Se fosse um chumbo ou azul marinho não tinha dado essa merda.
- Animal, quem você acha que me manda vestir só camisa branca e blazer claro? A Cinara! Pra ficar mais fácil de achar mancha de batom.
- Mas então ela é burra, porque daí é só você pedir pra garota não usar batom.
- E não usar perfume, né, porque senão a Cinara fareja.
- Ela te cheira quando você chega em casa?
- Como um perdigueiro. Os caras da alfândega deviam contratar essa devassa.
- Então, vê se não deixa mais esse blazer dando sopa aí pendurado.
- Claro, vou andar com ele por aí no calor. Só falta você me arrumar um cachecol.
- Bege, claro.
- Joelmir, Murilo, esperem aí que eu já volto, tive a tal idéia.
Eliseu sai da sala e Joelmir encara Murilo raivoso.
- Esse idiota tendo uma idéia, haha. Mais fácil a Cínara me deixar chegar em casa atrasado.
- Por que ela ficou desse jeito? Você deu motivo?
- Nunca. Na verdade, o motivo é um tabu.
- Que tabu?
- O mais antigo do mundo.
- Diz logo.
- O de que todo homem é polígamo por natureza.
- De onde ela tirou isso?
- Ela viu num documentário. Dizia que a gente foi criado pra sair por aí procriando, espalhando nosso sêmen, provendo o mundo de novas crias...
- Sei... Ei, já sei.
- Diga, Einstein.
- Você diz que foi assaltado e roubaram seu blazer.
- Ela vai dar queixa na Furtos e Roubos, eu vou me enrolar todo pra preencher o BO, daí fodeu.
- Pô, mas mente cara.
- Murilo, ela tem um livro intitulado “Psicologia da Mentira Masculina, Como pegá-lo de calça curta”. Sabe lá o que é isso?!
- Caracas!
- Já sei! Cara, você vai sair agora e me comprar um blazer idêntico a este aqui.
- Tá louco. Quanto custa essa merda?
- Mais barato do que o colete de coluna cervical que você vai ter de usar se não solucionar meu problema.
- Tá bom, tá bom... vou pedir um vale.
- Ah, e não esquece de desfiar essa costurinha aqui no punho, senão ela vai perceber.
- Porra, Eliseu!
- Putz, não dá. Olha aqui no forro. Ela mandou bordar minhas iniciais.
- Puta que pariu. Tem certeza que ela não botou um satélite te vigiando também?
- Não sei, cara. Falou em me implantar um chip.
- O que você tá procurando embaixo da mesa, Eliseu?
- Satélite, acho difícil. Mas microfone escondido não dá pra descartar.
- Cara, que se foda. Deixa ela descobrir. Vai ser uma benção porque daí você já aproveita e pede divórcio dessa louca.
- Não posso, Murilo. Ela tem um primo distante, um tal de Simeão, que é matador de aluguel. Só vi o cara por foto. É uma montanha de músculo, Murilo, maior que essa porta aí atrás.
- Ah, esse cara nem deve existir, ela inventou isso pra te assustar.
- Não vou facilitar com essa maluca.
- Cara, derrama café, daí mistura tudo.
- Murilo! Como que você quer que ela acredite que eu derramei café na gola do blazer, bem do lado do pescoço?! Só se eu bebesse pelo ouvido.
- Ah, tipo você foi se espreguiçar e tal.
- Faça-me o favor, Murilo. Ela vai sacar tudo. Vai dizer que eu camuflei a mancha de batom com café. Que alguma vadia borrou a gola em algum motel da Rodovia dos Minérios.
- Os motéis lá tão dando almoço executivo de brinde.
- Todo motel dá isso, sua anta.
- Sério?! Pensei que só os da Rodovia do Minérios é que ofere...
- Murilo! Volta pro nosso assunto, porra!
- OK, OK. Tive uma idéia.
- Qual?
- Não é nada pessoal, Joelmir, mas por que você não se mata?
Nisso, Eliseu volta à sala segurando o telefone sem fio em uma das mãos.
- Tudo certo. Os paramédicos já estão chegando.
- Que paramédicos?! Alguém se machucou?
- Não, Joelmir. É pra você.
- Como é que é?!
- Minha nossa, o tal do Simeão tá vindo!
- Vocês querem deixar eu explicar?! Olha, eu acabei de falar com o meu cunhado, que é socorrista. Bom, na verdade é motorista, mas tá valendo do mesmo jeito porque ele...
- Fala, caralho!
- Tá bom. Ele dirige uma ambulância dessas de socorro 24 horas. E eu falei pra ele o teu drama, Joelmir, daí disse a minha idéia: a gente finge que você caiu e bateu a cabeça. Ele até conseguiu uma bolsa de sangue pra jogar no seu blazer.
- Tem de ser tipo A positivo.
- Que é isso, Joelmir?! Você acha que ela iria desconfiar e fazer uma perícia numa situação dessas?!?!
- Vocês não conhecem a Cinara...
Eliseu volta a falar ao telefone.
- Jojoba, tem sangue tipo A?... Positivo... Não, retardado, eu quis dizer positivo o sangue, não no sentido de “positivo, câmbio”... Tá... OK...
- E aí?
- Ele disse que eles arranjam, Joelmir.
- Beleza!
- Já tem um médico sabendo da história. Vão deixar você enfaixado na cabeça, daí é só se fazer de desacordado. Até pega uns dias de dispensa. Ô, vidão...
- Parece um bom plano. Ei, mas eu não vou saber fingir que caí.
- Faz de conta que caiu aqui mesmo, tropeçou no pé da mesa. Daí a gente já sai da sala com você arrastado.
- Tá, mas e como que eu vou sair sangrando daqui!?
- A gente faz um cortezinho em você.
- O que?!?!
- Calma, Joelmir. Cortezinho de nada. Uma incisãozinha do lado do pescoço.
- Caaaaaaaaaaara...
- Fica frio. Até trouxe o estilete.
- Tem que desinfetar esse troço.
- Joelmir, não é hora pra esses luxos.
- Ai, ai, ai, não sei não.
- Jojoba, venha rápido que eu vou preparar o terreno.
Eliseu desliga o telefone. Certifica-se de que a porta está fechada, tira o estilete do bolso e sobe a lâmina.
- Joelmir, não vou nem sujar a lâmina.
Pouco tempo depois, Cinara fala ao celular em seu carro.
- Cortou a jugular?! E como alguém pode cortar a jugular tropeçando no pé da mesa?!... Hmmm... Estranho, hein, Ângela. E perdeu muito sangue?... Ah, amiga, muita coincidência isso de ter uma bolsa de sangue do tipo dele na ambulância, hein!... Quem acudiu o Joelmir?... Aqueles dois idiotas, sei... Saíram da sala desesperados?... Como assim?... O Joelmir tentou esganar o Eliseu?!... Ué, mas por que se foi o Eliseu quem socorreu ele?!... Ui, que cena de horror... Correu sangrando atrás do Eliseu até cair desacordado?!?!... Não tô entendendo nada, só sei de uma coisa, Ângela: tem mulher no meio. E você, como minha informante contratada, tem de descobrir quem é. Vou mandar grampear os telefones de novo. Tenho certeza que é aquela tal de Milene... Ééééé, aquela do bocão. Você mesma me disse que ela chamou atenção naquele congresso que teve no Rio. Fica atenta, Ângela. Alguma pista?... Hãããnnn, ele deixou o blazer. Então, vai lá e vê se não tem nada nos bolsos, bilhete, fio de cabelo... Melhor: manda já o blazer lá pra casa pelo motoboy... Ei, como secretária da diretoria, bem que você pode pedir uma licença e dizer que vai pro hospital ajudar o Joelmir... Alô... Alô, Ângela... Caiu... Ô, merda, vou ligar lá de casa. O celular não pega direito aqui na Rodovia dos Minérios, Simeão.



Mario Lopes

3 comentários:

Verônica disse...

Muito bom!!!! Este já tinha lido, mas a cada linha redescobria uma nova palavra ou expressão. Como nos filmes, sempre enxergamos mais coisas nas repises.
bj
Verô

Anônimo disse...

Legal, Verônica. Sempre é bom entrar na sessão "Vale a pena ler de novo".
Beijo.

Charlie

Anônimo disse...

Marião,
Já tinha lido e acho que comentado. Este é um genuino Mário Lopes a moda de Luiz Fernando Veríssimo.
parabéns! Mais uma vez.

Rodolfo