domingo, 18 de janeiro de 2009

Minha urologista é a cara da Angelina Jolie


A crise dos sete anos chegou aos dois. Ela se antecipou, trazendo consigo o mais desagradável sintoma de que as coisas não vão bem: o desinteresse sexual. As relações tinham intervalos cada vez mais elásticos. E todo ato ocorria com brevidade, em durações cada vez menores, dando a impressão de que um dia ainda chegaríamos à casa dos segundos. Havia inúmeros motivos e nenhum em específico. Talvez o maior fosse a previsibilidade, a rotina. Sabíamos exatamente o que o outro iria fazer. Todos os truques, todos os caminhos, todo o trajeto, desde as preliminares até o “foi bom pra você?”. Foi quando percebi que eu sempre beijava primeiro o seio esquerdo e depois o direito. Nunca entendi o porquê. Talvez por ser o mesmo sentido da leitura. O que me levou a deduzir que no Japão se começa pelo seio direito para depois ir para o esquerdo. Mas, enfim, não vem ao caso. O fato é que se antes um simples toque no cabelo já era motivo de excitação, agora a nudez recorrente parecia exigir esforços cada vez maiores para soprar a brasa adormecida e transformá-la em virilidade. Masturbar-se escondido exigia um esforço consideravelmente menor. E eu começava a desconfiar que ela também aderiu à prática.
Quando cheguei à segunda semana e meia sem sexo e ereção, resolvi que precisava tomar alguma providência urgente. Tirei do criado mudo o livro de médicos conveniados de meu plano de saúde para procurar ajuda especializada. Como estávamos em período de férias, quase todos os urologistas haviam viajado, exceto dois: um que morava um tanto longe, na região metropolitana; e outro de nome esquisito: Deko Tornato. Liguei e dei sorte, aproveitando uma brecha de agenda de outro cliente que cancelou consulta.
No dia seguinte, eu estava no consultório, folheando um exemplar da Caras enquanto pensava no que dizer sobre o meu caso, pois é sempre difícil para um homem admitir para si mesmo que está impotente, quanto mais para uma outra pessoa (mesmo ela sendo profissional). De súbito, a porta do consultório se abriu, surgindo uma mulher extremamente atraente, deixando a recepcionista (que também não era de se jogar fora) parecendo a Charlize Theron (no filme “Monster”, que fique bem entendido, tamanho foi o contraste). Seu rosto era quase exótico de tão agressivamente belo: parecia mestiça, com olhos gateados, pele levemente amorenada e uma boca de lábios absurdamente protuberantes, dois apêndices de carne que deveriam ser considerados obscenos de tão voluptuosos. Como ela estava vestida de jaleco branco, supus que fosse uma enfermeira ou assistente. Chamou meu nome, levantei-me, a cumprimentei e entrei no consultório, estranhando não estar por lá o Dr. Deko. Ela me convidou para sentar e eu o fiz. Ela contornou a mesa e sentou-se na cadeira do Dr. Deko, o que me fez estranhar ainda mais a situação. Foi quando cruzou as mãos sobre a mesa e me perguntou o que me trazia ali. Olhei para os lados procurando uma porta pela qual o Dr. Deko fosse entrar, mas só havia as paredes, um armário e a cama alta para os pacientes se deitarem. Por um brevíssimo instante, eu me indaguei sobre o que falaria àquela mulher enquanto o médico não chegasse. Mas foi então que me dei conta: não era um Dr. Deko, mas sim uma Dra. Deko. Só mais tarde eu viria a saber que Deko é um nome feminino no Japão e que ela era filha de mãe italiana com pai japonês.
Desconcertado, passei a levantar mentalmente uma tabela de hipóteses sobre o que poderia dizer àquela mulher. E ela aguardando minha resposta. Meu plano relâmpago foi ganhar tempo, então disse que eu estava com uma “dorzinha” (não surgiu nada melhor). Ela franziu a sobrancelha parecendo estranhar, perguntou “onde precisamente?”. Eu não sabia como responder e me enrolei todo tentando improvisar, afinal eu nem sabia que existiam mulheres urologistas. Não estava acostumado a falar do meu pinto, a não ser com minha mulher. Muito menos a falar de impotência, nem mesmo com meu espelho. Ela percebeu o meu embaraço, mas seu pedido gerou um constrangimento ainda maior: levantou-se, solicitando que eu me deitasse e abaixasse minha calça. Há mais de cinco anos que eu não fazia isso para outra mulher que não a minha. Enquanto desabotoava o cinto e abaixava o zíper tentava relembrar qual cueca estava usando, torcendo para que não fosse nenhuma daquelas de cores berrantes ganhas de uma de minhas tias no Natal. Não era, uf. Deitado, fiquei olhando para o teto enquanto esperava o início de trabalho da Dra. Deko. Quando ela tocou meu membro e puxou a pele para examinar a glande, o resultado foi instantâneo e absolutamente desconcertante. Eu não sabia se pedia desculpas, se dava uma risadinha para descontrair, se me declarava ou o que. Com naturalidade, Dra. Deko prosseguiu com o exame. Os lábios bojudos entreabertos e eu tentando desviar o olhar para não deixar a situação ainda mais embaraçosa (como se isso fosse possível).
Encerrada a inspeção visual, pediu para que eu vestisse minha calça. Ela lavou as mãos em uma pia de louça e design moderninho, sentou-se novamente e esperou que eu fizesse o mesmo. Explicou que, dada a minha facilidade em ter ereções (dá pra acreditar?!), o diagnóstico provável é que as dores derivavam de algum tipo de priapismo, embora essa suspeita não pudesse ser afirmada categoricamente porque minha glande também inchou na ereção. Falou então, em tom bastante sério, que eu precisaria ficar atento, porque se as dores e ereções voltassem a ocorrer insistentemente (quem dera...), ela precisaria recolher sangue diretamente do meu pênis (ai!), e o tratamento poderia envolver desde o uso de drogas até intervenção cirúrgica (ai, ai!). Caso contrário, um priapismo muito duradouro poderia causar danos irreversíveis, fazendo que eu necessitasse de uma prótese peniana (ai, ai, ai, ai, aaaaaaaai!).
Como eu não tinha nem dor, nem ereção saí de lá tranquilo. Quer dizer, tranquilo em termos: eu não resolvi meu problema. Mas pelo menos estava “vivo”. Os dias que se seguiram foram de pura tormenta íntima. Há muito tempo eu não tinha uma ereção como aquela, mas fiquei com aquele segredo para mim, já que não havia revelado à minha esposa sobre minha ida à urologista. Senti que eu precisava rever a Dra. Deko, e não para fins curativos. Liguei para marcar nova consulta, mas a agenda dela estava toda tomada (por que será?). Tive de me conformar com a espera de dois longos meses. Mas pedi à recepcionista que me deixasse na fila dos que queriam aproveitar uma “janela” de algum paciente que desmarcasse hora. “A fila é grande”, ela me avisou. Por pouco eu não perguntei se havia cambista vendendo horário. Desliguei sabendo que ninguém iria desmarcar. Aqueles dois meses prometiam ser intermináveis...
Algo surpreendente aconteceu : eu e minha esposa começamos a, como dizem, nos procurar mais. E até nossas fantasias voltaram a ser despertas. Certa vez entrei em casa enquanto ela estava adormecida no sofá da sala. Acordada com certo susto pela minha chegada súbita, ela aproveitou a situação para brincar de vítima de um assalto, pedindo para que eu levasse tudo mas a deixasse intacta. Entendendo prontamente as intenções da brincadeira, eu a prendi com panos ao braço do sofá, exigi que me contasse onde estavam as jóias e ela, resistente, disse que jamais diria, o que me fez puni-la com sexo selvagem ali mesmo, no meio da sala, cenário que até então só havia se tornado palco sexual nos limites da TV, com pornôs para consolar a falta de trepadas reais.
Outras fantasias vieram em seguida. Uma dada vez em que cheguei em casa, encontrei minha esposa vestindo apenas um camisetão e calcinha, limpando a mobília com um aspirador e se fazendo passar por diarista. Não vou me estender narrando outras aventuras, exceto a que melhor se coadunou com a minha situação naquele momento da vida. Minha esposa estava com uma enxaqueca que a perturbava bastante e resolveu ir para a cama. Eu a acompanhei e, sentindo haver ali uma oportunidade, resolvi brincar de médico, examinando, apalpando-a e dando diagnóstico de duplo sentido. Embora a dor de cabeça a impedisse de se divertir mais, ela disse que gostaria de brincar outras vezes com aquele tema e que até poderíamos revezar os papéis: certas vezes, ela seria a minha médica; em outras, eu assumiria a função. Minha esposa era professora e usamos seu jaleco branco para nos passar por doutores. Eu maquiavelicamente tratei de lhe dar a especialidade da urologia, e disse até que gostaria que seu personagem tivesse outro nome: “Dra. Deko”. Ela riu, achando exótica sua alcunha, mas aceitou. A partir de então, passei a ter minha própria Dra. Deko cover. E me divertia muito levando a cabo situações que não teria como executar com a verdadeira Dra. Deko. Para compensar minha mulher, eu me propus a ser seu ginecologista, “só se ele se chamar Dr. Torquato”, disse ela rindo e parecendo querer mostrar que também era criativa para dar nomes exóticos a nossos personagens. Aceitei a condição, claro, e me tornei o mais minucioso e profundo ginecologista que as ciências médicas poderiam conceber.
O tempo passou e chegou o dia da minha consulta. Eu estava decidido a confessar à Dra. Deko meu passado de impotência, apesar de o meu moral na cama ter subido consideravelmente desde a vez em que fui consultar com ela. Eu só não sabia se iria confessar que minha libido tinha a ver com seu “toque mágico”. Pior ainda se seria capaz de falar das brincadeiras de médico, nas quais usávamos seu primeiro nome para nos referir à personagem da minha mulher. Mas, chegando ao consultório, tive uma infeliz surpresa, junto com outros lamuriosos pacientes: a Dra. Deko teve de cancelar todas as consultas, pois estava se mudando da cidade com seu marido, e sua vida tinha ficado excessivamente atribulada por conta de deixar tudo em dia antes de irem para Brasília. Eu nem sabia que ela era casada, imaginei que tirava a aliança para não machucar acidentalmente os pacientes ao tocá-los. De consolação, a recepcionista (aquela que não era de se jogar fora) nos deu o cartão de um médico indicado pela Dra. Deko. Antes de eu sair do consultório, a moça ainda comentou que a médica também se complicou em função de estar lançando um livro na livraria de um shopping naquela noite. A informação soprou minha chama adormecida.
Às 20h estava eu na livraria mencionada pela funcionária da Dra. Deko, segurando uma taça de vinho com uma mão e um livro da minha ex-urologista com a outra. Eu não sabia que fim daria àquela publicação sobre “priaprismo após os 30”, mas estava decidido que o levaria, pois seria ótimo pretexto para uma conversa com a autora. Fiquei na fila de autógrafos e observei o homem na escrivaninha ao lado da Dra. Deko: certamente seu marido. Se ela era um clone de Angelina Jolie, ele era do Brad Pitt. Vim a ser posteriormente informado que era médico como a esposa, e que era ginecologista de minha mulher. Seu nome: Dr. Torquato.


Mario Lopes

3 comentários:

Anônimo disse...

Ai ai ai ai ai... depois de ler este texto (ou relato, que seja) acredito sem sombra de dúvidas que a vida é (ou pode ser) uma caixinha de surpresas.
... e que meras coincidências também existem. ;-)
Beijos,
Camila.

Anônimo disse...

Olha, Camila, pra mim a grande supresa é que a vida é uma caixinha de coincidências. ;-)
Beijo.

Mario

Sophie disse...

poxa, que história hein!
é... coincidências existem!
'beeeeeijOs