quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Formigas



Grão de areia sozinho não é nada. Palha em meio à plantação, também não. Não que não sejam, mas não é comum dar-lhes o valor devido quando parecem tão ínfimos ou pouco significantes ao nosso mundinho particular. Dá-lhes valor quem os conhece com o tato, quem sabe diferenciar pelo toque a mais pura simplicidade.

Lembro-me de que quando era criança que adorava brincar com formigas. Formiguinha passeando na calçada não é nada, pensava, e então ia lá, atazanar a pobre coitada. Ela seguia seu caminho e eu colocava um galhinho na trilha, para forçá-la a achar uma saída. Rapidamente, andava pra lá e pra cá até dar a volta e passava por cima se fosse preciso. Forte, obstinada. A cercava por minutos a fio, rindo com inocência infantil. Então eu a fazia subir pela minha mão e ela, seguindo a luz ou algo que eu não sabia o que era, continuava a caminhar, a extrapolar, a querer chegar sabe Deus onde.

Então, pra dificultar, eu cortava-lhe uma perninha, mas ainda assim ela continuava viva. Então, tirava-lhe outra e sem entender como, ela persistia. Fácil mesmo era cansar de tudo aquilo e então, pah! Com um pisão acabava com a história. E fácil seria se fosse assim com tudo na vida. Querer não ir à escola e dizer que “não vou”, querer não comer feijão e deixar no prato, querer se molhar na chuva e simplesmente ir e, pah! Pronto.

Mas quem disse que a formiguinha anda sozinha? Já pisei em formigueiro e senti a família inteira subindo por minhas pernas, picando a cada movimento e fazendo minha circulação se transformar em um pesadelo de angústia e dor. Quanto mais você se debate, mas arde e parece que elas nunca vão sair todas do seu corpo, sempre sobra uma e ela te machuca como fossem cem.

E por falar em cem, o que dizer da força que tem a bichinha, que carrega cem vezes o seu peso? Andando em grupos, porque trabalham em filas, podem erguer um castelo e abrigar milhares de seres iguaizinhos e tão fortes quanto. Podem se enfiar pelas frestas e tomar uma casa inteira ou abrigar-se em qualquer espaço quente onde possam procriar e dominar. Milhares, que sozinhas não representam nada, só que uma puxa a outra e dá a vez no seu caminho.

Poderiam ser mais uma pequena vida se ficassem lá no seu mundinho sem ninguém pra mexer com elas. Mas sempre tem alguém que vai querer desafiar sua força. E aí, de inocentes não tem mais nada. Mesmo parecendo tão frágeis, leves e ao menor estalo se despedaçarem, tem a sorte de voarem com o vento. Então, ninguém segura. Recomeçam tudo sozinhas e quando se vê estão com mais um exército formado pronto a defender-se de quem as queira cortar as perninhas. E lembrando, a formiguinha nunca está sozinha e por isso jamais será extirpada por completo, mesmo você sendo o maior sádico do planeta.

Depois de alguns pisões em formigueiros dos mais diversos tamanhos, aprendi duas coisas: a olhar por onde ando e a respeitar os limites. Elas lá e eu aqui, no mesmo mundo e em mundos diferentes. E, pensando bem, como tudo na vida tem uma causa e um efeito, acho que, por bem, elas mereceriam um destaque pelas lições que me ensinaram.

Se pudesse escolher-lhes um codinome, seriam, “mentirinhas”... (acho que da próxima vez quero nascer tamanduá).




Angelica Carvalho

Um comentário:

kaike silva disse...

Nossa Parabéns Curti muito sua postagem vou postar nos bloogs que eu comando, muito boa mesmo! parabéns!