sábado, 21 de junho de 2008

Achados e Perdidos
- Não pára! Não pára! Não pára! Não pára! Não pára! Não pára!
Parou. Com a mão cobrindo a boca de Solange e arregalando os olhos como se isso o ajudasse a ouvir melhor. Poderia jurar que escutou um carro freando. E agora, ali, imóvel embaixo dos lençóis e sentindo a musculatura rija do corpo todo, mais do que do próprio falo dentro da amante, poderia jurar que estava ouvindo passos. Foi quando desejou trocar o poder jurar pelo poder sumir. Pulou para fora da cama, juntou as roupas no chão, fisgou os dois sapatos com as pontas dos dedos médio e indicador, jogou tudo no guarda-roupa e pulou para dentro do móvel, fechando-se no breu, no silêncio e no aroma de naftalina. Não acreditava estar dentro de um clichê. Mas estava. Começou a ter certeza disso quando ouviu o ranger da porta do quarto sendo aberta.
- Oi, amor, chegou antes do previsto, hein.
A frase não deixou nenhuma dúvida a Gerson: ele estava mesmo dentro de um clichê. Tanto que ficou antecipando em sua mente o “não é nada disso que você está pensando” se o marido abrisse o guarda-roupa. Ficou imaginando Solange toda despenteada e nua sustentando um sorriso de concreto na face, enquanto o cônjuge afrouxava a gravata resmungando sobre o dia difícil. Gerson, totalmente desconfortável em meio a vestidos pendurados e sapatos femininos lhe incomodando as solas dos pés, tentava manter o máximo silêncio, querendo sentar-se mas pedindo paciência aos músculos das pernas, pois temia mexer ou derrubar algo ao fazer um movimento, por mínimo que fosse. O escuro absoluto e a contenção paranóica de toda e qualquer manifestação sonora, incluindo a própria respiração, faziam com que Gerson inevitavelmente prestasse atenção a tudo que se passava do lado de fora, até as meias sendo desleixadamente jogadas no carpet ele conseguiu distinguir.
- Tava me esperando peladinha, é?
- Lógico, esquentei a cama pra nós dois.
Pelo tom da conversa, e pela habilidade de Solange em usar o charme para despistar, Gerson conseguiu antever o que viria em seguida. Os beijos estalados, as lambidas, os gemidos, tudo aumentando em volume e intensidade. O que poderia ser pior do que o amante ouvir a amada se consumindo em prazeres nos braços do marido? “O marido ouvir a amada se consumindo em prazeres nos braços do amante”, respondeu para si mesmo. E pior ainda seria ver. Num impulso masoquista, sentiu-se tentado em abrir uma fresta da porta do guarda-roupa para constatar a performance do arqui-rival, mas preferiu prezar pela própria pele, que estava mais vulnerável e a prêmio do que nunca.
O sexo não parava e Gerson começou a se aborrecer. Como a gemeção era muita, resolveu tentar agachar-se, seguro de que dificilmente seria ouvido, mesmo que disparasse um “creck” daquele doloroso melisco do joelho esquerdo. Ficou de cócoras, agasalhando o pinto dentro de uma bota acolchoada cano médio que parecia esperá-lo aberta para a acoplagem. Começou então a ouvir, do outro lado, o macho-alfa narrar a própria transa.
- Isso, chupa.
A porta do guarda-roupa não conseguia sufocar os “schleps” da boca de Solange em ação. Depois de alguns minutos de vigorosa felação, o narrador resolveu mudar os planos.
- Agora de quatro.
Gerson tremia, não sabia se de frio, de medo ou de ódio. Solange havia dito que Juarez só chegaria na manhã do dia seguinte. O amante sabia que não poderia confiar. Agora era tarde.
- Isso, assim.
“Só falta ela estar fazendo coisas que se nega a praticar comigo”, pensou o homem nu no guarda-roupa. Se a narração do sexo antes o incomodava, agora era quase uma necessidade. Gerson torcia por ela, para saber o que de fato estava acontecendo naquela pouca-vergonha.
- Cadê minha cadelinha?
- Aqui.
Ah, não. Isso não. Quando Gerson a chamou uma única vez de safada recebeu um tapa estalado. E na orelha, rendendo um zumbido de horas.
- Agora: quitute.
O que ele queria dizer com “quitute”? Gerson não sabia, mas pôs-se a imaginar quando ouviu Solange abrir a gaveta do criado mudo.
- Achou, gostosa?
- Ahãn.
Os sons então passaram a ser um tanto indefinidos, mínimos porém sugestivos. A princípio, parecia uma bisnaga sendo espremida. Depois, veio um gemido agudo, seguido por um roçar de carnes íntimas e algo que parecia a salivação em um beijo longo.
- Maciozinho?
- Maciozinho, maciozinho.
Gerson não chegou a nenhuma conclusão, apenas a suspeitas. Só teve a certeza de que da próxima vez exigiria para ele também o “quitute”.
- Tudo?
- Tudinho.
As panturrilhas de Gerson começaram a formigar. Como agora não era mais gemeção e sim gritos e grunhidos vindos do lado de fora, sentiu-se à vontade para sentar-se sobre os calçados de Solange. E assim o fez, recostando-se naquilo que parecia ser uma mala de viagem, com a bunda sobre uma pantufa macia e as pernas encolhidas para caber no pequeno espaço, com suas roupas emboladas próximas a seus calcanhares.
O sexo perdurou por mais um bom tempo, sempre com o narrador antecipando a próxima etapa: “abre”, “senta”, “empina”, “dobra”, “engole”, "cavalga", etc.
- Não pára! Não pára! Não pára! Não pára! Não pára! Não pára!
Finalmente. Gerson já tinha ouvido aquilo antes. E sentiu agora um desejo contraditório: queria que seu rival a fizesse gozar, para acabar de vez com aquela agonia. Teve ainda de suportar os berros de Solange, como se estivesse sendo morta ao invés de gozando. Chegou a assustá-lo: por um momento, Gerson cogitou de abrir a porta para se certificar de que realmente estava tudo bem. Mas os últimos suspiros lhe deram certeza de que estava. Bem até demais.
Alguns beijos. Corpos se acomodando ao leito. Suspiros profundos. Silêncio.
Gerson passou a imaginar como iria conseguir atravessar a noite naquele espaço ínfimo, no escuro e nu. Com extrema cautela levantou meio corpo, apoiando as costas na parede do guarda-roupa, e tirou do cabide um vestido de tecido felpudo para usar como cobertor. Sentiu-se mais aquecido, mas ainda entediado. Temor já não havia mais, pois ouvia os roncos que partiam da cama e Solange o informou certa vez que o marido tinha sono pesado. Sentiu-se tentado a fugir na ponta dos pés, mas não queria contar com a sorte. Por mais paquidérmico que fosse o sono de Juarez. Resolveu ficar e esperar até o dia seguinte ou uma situação oportuna. Mas dificilmente iria conseguir dormir naquela posição e circunstância. De repente se deu conta: seus pés estavam apoiados em algo que parecia ser um pequeno baú, mas que na verdade era o estojo de maquiagem de Solange. Lembrou de tê-lo visto em uma viagem com a amante: era uma caixa prateada e retangular com alça no topo, tal qual as solas de seus pés agora desenhavam em sua mente. Com movimentos estudados precipitou o corpo em direção ao objeto, pegou-o cuidadosamente com as duas mãos e o depositou em seu colo. Lembrava que Solange tinha um espelho com uma pequena lâmpada para iluminar a face, permitindo apreciar seus poros e início de rugas com nitidez. Abriu o estojo, explorando-o delicadamente, até seus dedos encontrarem, em meio a batons e tubos de creme, o tão desejado objeto, que passaria a fazer papel de lanterna improvisada. Gerson tateou pela haste flexível do espelho até encontrar o botão de ligar. Por um instante ficou com medo de o aparelho funcionar a eletricidade. Clic. Não, era a pilha. Passou a conseguir ver tudo ao seu redor: um céu de vestidos de todas as cores e modelos, um chão de sapatos dos mais variados e, às suas costas, estava escorado não em uma mala, conforme havia pensado, mas sim em um pequeno gaveteiro que despertou sua curiosidade. Virou-se para ele e abriu bem lentamente as três gavetas: na primeira, apenas manuais de secadores e eletrodomésticos; na segunda, bijouterias; e, na terceira, pequenos álbuns de fotografia. Antes de pegá-los, depositou novamente o estojo de maquiagem a seus pés. Agora sim, estava com o colo desocupado para receber os álbuns e passar o tempo distraindo-se com as imagens iluminadas pela luz do espelho portátil.
Abriu o primeiro álbum. Eram fotos do casamento de Solange com Juarez. Ela com aquele vestido de uma imensa flor branca ao lado do peito que quase o fez rir quando a amante usou para ele no motel. Depois, imagens da lua de mel em Porto de Galinhas (Solange queria evitar o local porque não gostava do nome, mas era o pacote mais em conta e ela acabou gostando das fotos no catálogo da operadora de turismo). Gerson ficou orgulhoso ao constatar nas fotos de biquíni o quanto sua amada era gostosa.
O segundo álbum já era das fotos da chamada “vidinha de casada”. Algumas imagens de festas de aniversário, brincadeiras caseiras com colegas de truco e churrascadas no quintal. Mais adiante, a casa comprada com a união do FGTS dos dois, ainda virgem: sem a pintura do portão na parte externa nem as grades nas janelas. Aquele descuido havia rendido a invasão por assaltantes quando viajaram para o litoral no final do ano retrasado. Gerson conheceu Solange pouco antes da ocasião. Mas duraram muito tempo como simples colegas de trabalho. Sentiu que tinha afeição por ela (além do tesão) quando soube que Solange não iria trabalhar porque “limparam” sua casa. Queria ajudar mas sem saber como. Foi também esse incidente que gerou sua aproximação, com um tímido “tudo bem?” na volta da moça ao trabalho.
O terceiro álbum demonstrava um incômodo sutil: Solange parecia mais entusiasmada, só que isso escondia sua nova fase, agora com Gerson como amante. Revoltada e assustada com o roubo de todo o patrimônio adquirido com os presentes de casamento, Solange aparecia em fotos de quando começou a praticar artes marciais (com um professor cujo bíceps dava dois do de Gerson, num feixe de músculos que ele invejava e temia). Ela também já demonstrava os primeiros traços de desgaste na relação matrimonial, tentando recuperar o tônus afetivo através de aulas de dança de salão com o marido, mas surgindo afastada dele nas churrascadas e festas de final de ano. Havia ali ainda imagens de um Gerson escondido: fotos de locais para os quais Solange viajava com o marido, nas quais ele ia logo em seguida, ficando em um hotel próximo para se encontrarem quando fosse oportuno.
O quarto álbum tinha imagens bem mais recentes. Uma fase que já começava a preocupar Gerson, pois ela o desencorajava a fazer viagens que os deixassem próximos, alegando temer ser descoberta. A melancolia causada pela ausência de Solange naqueles dias fazia Gerson pensar se não a estava amando de verdade. Suspirou baixinho para não ser flagrado. Continuou a folhear o álbum, agora com imagens melhores que os demais, devido à compra da nova impressora que Juarez trouxe de sua viagem a Foz do Iguaçu (num final de semana inteiro para Gerson e Solange). As fotos sugeriam tentativas pífias de retomar o romance na relação com Juarez: jantares domésticos com mesa a luz de velas e situações forçosamente descontraídas na cozinha, viagens de tiro curto ao litoral, reuniões familiares (não se conformou ao vê-la abraçada toda sorridente com a sogra que afirmava fazê-la chorar toda vez que viajava a Campo Mourão) e outros acontecimentos que pareciam acenar com uma tentativa de reconciliação, já que Solange desabafava constantemente suas frustrações na cama e fora dela. Só que mais adiante as fotos não tinham nem o marido nem o amante escondido. Eram de situações do trabalho (como a festa de amigo secreto, quando Gerson não compareceu por ter pego conjuntivite) e viagens que passou a fazer sozinha: excursão com as ex-colegas de faculdade, viagem de compras a São Paulo e seminários com os companheiros de tatame. Gerson achava graça, porque não conseguia imaginar aquela moça magérrima batendo em alguém. Era segurar naqueles longos cabelos ruivos e pronto, fim de combate. Mas as fotos indicavam que ela estava se empenhando, pois Gerson já chegava a três, quatro, cinco imagens de encontros diferentes com os colegas de luta. Foi quando teve uma estranha suspeita: ele se deu conta de que quem poderia estar na cama não era Juarez.
Abriu a porta do guarda-roupa bem lentamente para não fazer barulho. Viu então Solange deitada em posição fetal, tendo sobre seu dorso o bíceps formado por aquele conhecido feixe de músculos que Gerson invejava e temia. Solange, de olhos arregalados, então apontou para o dono do braço, que dormia às suas costas, e, sem emitir som, articulou exageradamente os movimentos labiais para a leitura de Gerson:
- So-no-le-ve.


Mario Lopes

9 comentários:

Anônimo disse...
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Verônica disse...

Só da tua cabeça para sair isso não é?! Muito legal! Inesperado o final. Adorei!
;)
Verô

Anônimo disse...

Pois é Verônica, você não foi a única a se surpreender com o final da história. rs
Parabéns!
Beijos,
Ca-mi-la. ;-)

Anônimo disse...

prefiro vc como exibicionista do que como voyeur, pelo menos nesse blog...rs bj. Mazé

Anônimo disse...

Verô e Cami, a intenção foi essa, hehe. Beijo, garotas, e obrigado.
Mazé, não sei se estou devagar, por ser início da semana, massss... não tendi. De todo modo, meus lados exibicionista e voyeur querem uma explicação. :-)
Beijo

Charlie

Anônimo disse...

Aff, Charlie. Estou comparando seus 2 textos da semana. Poderia dizer tbem que prefiro vc como protagonista do que como coadjuvante. Sacou? Beijoca

Anônimo disse...

Anônima, te digo que prefiro que fale com seu lado explícito ao invés do metafórico. hehe
Beijo.

Charlie

Môncia W. disse...

ai, mariooooooooooooooo.

me deu uma tristeza lendo a sua história. toda essa narração das fotos. argh. impressora de foz do iguaçu? ahhhhhhhhhhhhhhh. socorro.

será que todo esse marasmo pós alguns anos de casado é inevitável? não me deixe pensar assim, não acabe totalmente com o pouco romantismo que me habita. hihihihi.

enfim. adorei o texto. divertido e honesto (até demais...).

beijo. beijo.

Mô.

Anônimo disse...

Mopi, te garanto que não precisa ser assim. Mas esta é a regra, infelizmente. Em breve, vai estrear um trabalho meu (não quero antecipar, mas logo você saberá mais a respeito) que é justamente o contra-ponto deste conto. Um alento. Existe, sim, felicidade no casamento. Mas isso é raro. O que a torna ainda mais bonita.
Beijo.

Charlie