quarta-feira, 25 de junho de 2008

As viagens da minha vida



Oh, don't you want to find? Can't you hear this beauty in life? The roads, the highs, breaking up your life Can't you hear this beauty in life? (one day - the verve)

Segundo contam minhas fontes originais, também conhecidos como meus pais..rs meu gosto por viagens deve ter iniciado quando eles foram passar uma temporada no Uruguai e minha mãe estava com 4 ou 5 meses de gravidez dessa que aqui bloga. Mas é fato que viajar sempre fez parte do meu imaginário tanto quanto das minhas práticas.

A primeira delas sempre foi a viagem existencial que as páginas escritas me proporcionavam: jornais, revistas e acima de tudo os livros me ensinavam muito sobre uma variada gama de assuntos que eu só fui vivenciar bem mais adiante, pois é comecei a ler com pouco mais de dois anos e meio e a leitura me tomou de tal forma que modelou e mediou toda minha visão de mundo a partir dai. Além de viajar para lugares desconhecidos a leitura me proporcionava um mergulho em mim mesma, ainda em fase de constituição identitária que tentava compreender o mundo.

A música e o cinema também proporcionaram grandes viagens. Jamais vou esquecer das tardes chuvosas em que me trancava em meu quarto ouvindo o vinil disintegration do the cure e tentando analisar cada letra, esmiuçar cada sonoridade e melodia. Na adolescência temos o tempo e a dimensão exatas para cada viagem. E existem os amigos para garantir que a viagem seja ainda mais atribulada e quase sempre divertida. Os amigos, a música, a literatura e claro, algumas substâncias lícitas e tb as ilícitas, que de alguma forma contribuem para determinadas viagens por paraísos artificiais ou submarinos amarelos. No meu caso, mais especificamente aos melancólicos recantos soturnos de uma alma dilaceradamente romântica submersa em uma capa de frieza e racionalismo quase cartesiano.

Life´s a journey not a destination....

Entre muitos caminhos e estradas sempre cruzamos com pessoas interessantes, e dessas pessoas levamos um pouquinho a frente, afinal o que vale é a jornada e não o ponto final. Em uma de minhas viagens musicais de puro flânerie emocional, ainda muito jovem, encontrei um moço que pensava em termos tão estreitamente parecidos com os meus - um mundo de notas infinitas e possibilidades de acordes - que a convivência parecia impossível, afinal almas assim só existem na ficção. Por medo abandonei o caminho sem nem dar a partida. Mais adiante nos desencontramos e re-encontramos entre viagens e desconexões reais, móveis ou no ciberespaço. A viagem que nunca foi talvez fosse das mais intrigantes... mas não sei e jamais saberei pois acho que joguei a passagem fora...rs

Um pouco mais velha, numa roadtrip à praia detonei um coração puro que me encantava e conheci o fogo de uma paixão alucinante que me deixou sozinha a contemplar o horizonte... Em um outro momento, parecia ter encontrado estrada de tijolos amarelos, aquela que reluzia no mágico de oz e do qual elton john se despede em goodbye yellow brick road. No caso, o arco-íris ao final não me conduzia ao pote de ouro com os leprechauns mas sim à um mês de puro romance em Paris, a capital do amor e das luzes em uma viagem de pseudo-lua-de-mel de um casamento que nunca chegou a acontecer. Juras de amor entre o Pére Lachaise e a Sacre Couer.... E houveram mais e mais viagens animadas assim por mais de quatro anos, just like a heaven, uma hora eu estava em são paulo, outra em gramado, outra anywhere.... Mas fui feliz apesar dos pesares e, dessas viagens restam traços materiais que corroboram a memória fotográfica, quando ainda tínhamos o hábito de revelá-las e não de armazená-las ad infinitum na visibilidades hedonistas dos fóruns digitais.

E porque nem todas as viagens são felizes e perfeitas que anos depois disso me embrenhei amargando uma depressão a uma terra de barro vermelho na qual minha memória se esforça para lembrar algo além da tristeza, da saudade e do excesso de álcool e remédios que preenchiam minha alma naqueles tempos desoladores nos quais esqueci até meu nome e conspirei contra pessoas "de bem". Quando se erra na escolha de um determinado destino ou quando se foge de um "destino" não devemos viajar. Essa é uma máxima que carrego nas minhas malas desde então.

Depois destes tempos sombrios, flanei em viagens ansiosamente filosóficas, curiosidades histórico-políticas e pré-disposições ainda juvenis "I want it to be perfect like before" me lembrava bob smith. Em uma de minhas incursões, a idéia de que talvez eu não precisasse me deslocar tão longe para viver o que eu precisava, mas apenas deveria me despir de pré-conceitos e noções consensuais que ainda teimavam em me incomodar.. foi assim que embarquei na viagem do relacionamento estável, um país que eu ainda não vislumbrara até aquele momento.

Depois desse tempo, somente viagens pré-estabelecidas e metódicas, mas não menos enriquecedoras como sete meses de mergulho e vivência na cultura alternativa da nova inglaterra no qual vivi a potência do meu próprio ser, andanças pela espanha medieval e fronteiriça e os eternos nightclubs paulistanos.

E hoje? Muitas viagens ou deslocamentos de trabalho e pouco ou quase nada de tempo para viagens existenciais, exceto em poucos momentos psicanalíticos ou na companhia de alguns dos meus melhores amigos. Por sinal, um deles e que egoistamente assumo, me faz muita falta, deixou os vagões dessa viagem carnal que é a vida mesma, há quase três anos, mesmo assim ainda mantenho o assento VIP na primeira classe pra ele.

Recentemente precisei fazer uma viagem que todo mundo sabe que terá que fazer mas não a deseja mesmo assim: retornei à terra natal para o velório de meu irmão do meio. O trajeto de quase uma hora do avião foi tomado por imagens, sons, cheiros de uma infância familiar e tradicionalmente suburbana, mas que me causou uma espécie de comoção e reflexão que há anos eu não fazia.

E agora, provavelmente enquanto vocês lêem esse texto, encontro-me em algum ponto entre dois aeroportos para mais uma jornada de trabalho, mas meu olhar de flanêur certamente indicará excertos textuais para outros posts.

Lady A.

Desaforadas dão entrevista na Rádio Educativa
As desaforadas convidam seus leitores para ouvirem e interagirem com a gente. Hoje, quarta, 25/06, das 13h30 às 14h30 na Rádio Educativa - Programa Rota 630 (AM), escutem as Desaforadas em uma entrevista exclusiva. Quem não mora em Curitiba pode escutar pela web em http://www.pr.gov.br/rtve/
Boa sorte às desaforadas em mais essa investida. Infelizmente como falei no post estarei viajando a trabalho, mas depois quero saber tudo :)

8 comentários:

Verônica disse...

Adri, gostei muito do seu post. Aliás, as Desaforadas estão fazendo viagens bem interessantes. hehe!
bj
Verô

sejadivina disse...

Viajar é sempre bom... Tanto no ambiente físico da coisa de ir, e pegar um avião, como tbm viajar dentro dos nossos pensamentos e imaginar uma série de coisas (rs).

Gostei do programa. Parabéns pelo sucesso, meninas!

Beijinho.

João Acuio disse...

Ahá! Eu ouvi vocês.


Parabéns! Muito sucesso aos 'desaforadas'.

Tchau!

bj, abrs,
João

p.s.: aí moniquinha...

Anônimo disse...

Olá Adriana,

Puxa que texto legal e interessante... Viagens que só descobrimos às vezes nos poucos momentos de parada e flashback nesse mundo de velocidade tão alucinante... Todo mundo tem estórias para contar que podem gerar boas conversas e dar um tempero especial na vida. Parabéns!

W.Allen

Mônica disse...

adorei o texto, adri. parabéns.

Anônimo disse...

Adri, vc faz falta ao blog!! Não suma por tanto tempo de novo! Mazé

Anônimo disse...

João, que legal que você ouviu. Espero q tenha curtido a entrevista. E obrigado pelas felicitações às Desaforadas.
Adri, você me fez viajar no tempo: The Cure forever.
Beijo.

Charlie

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

Gente, valeu!!! gostei de escrever algo mais pessoal dessa vez... bjo