domingo, 15 de fevereiro de 2009

A menina dos olhos da menina dos olhos de menina


Foi diagnosticado pouco antes de completar dois anos de idade, quando já balbuciava as primeiras palavras. A menina não enxergava as cores como nós. Mas era um tipo raríssimo de daltonismo. Havia modificações radicais nos padrões cromáticos, sendo que já no maternal encontrou dificuldades nas aulas de pintar e até mesmo no convívio com as outras crianças. O oftalmologista tentou explicar aos pais:
- Lembram que quando vocês eram crianças apontavam o verde e diziam que era roxo e vice-versa? Pois então, para esta menina isso vai durar a vida toda. Terá sempre olhos de menina. Vocês verão que a parte escura dos olhos dela, que popularmente chamamos de “menina dos olhos”, na verdade não é escura: é de um tom âmbar que embaralha todos os cromatismos antes de chegarem à leitura do cérebro. E a grande diferença é que quando somos crianças o que erramos é o nome das cores, já ela enxerga realmente as cores de outro jeito. Vocês terão de aprender a lidar com a situação.
As mestras e os coleguinhas ficavam pesarosos pela menina que enxergava errado. Mas, com o tempo, perceberam de forma acachapante que ela era a mais feliz de todas as crianças, seja no colégio ou no conjunto residencial onde morava. Isso porque seu mundo tinha um colorido muitíssimo mais vivaz.
Para ela, o cinza se transformava em azul celeste, e assim todos os dias eram para a menina dias de tempo bom.
O preto se tornava laranja, e por isso os velórios eram aos seus olhos uma estranha festa de gente ao mesmo tempo elegante e com jeito de palhaço.
O marrom tomava a energia de um verde oliva encantador, tingindo-lhe de grama o caminho que os outros amaldiçoavam por ser de barro e sem calçamento.
O vermelho ganhava matizes de tom rosado quebrando sua agressividade peculiar e fazendo os filmes de terror parecerem patrocinados por alguma fábrica de iogurte de morango.
As transparências adquiriam uma pigmentação de groselha, fazendo a menina perceber as lágrimas como refresco que vertia dos olhos.
Tudo que era pálido passava para dourado, sendo que quando seus primos ficaram adoentados ela ajudou em sua recuperação por adorar visitar e brincar com os “meninos de ouro”.
A fuligem e a sujeira puxavam para o lilás e o amarelo ovo, atraindo a menina para junto das crianças de rua que viviam abandonadas à própria sorte.
E todas as cores faziam festa aos seus olhos desde que abria as pálpebras ao amanhecer até quando as fechava fitando para o teto falsamente alaranjado do seu quarto. Familiares e educadores começaram a se preocupar com tanto êxtase pela vida, mesmo em paisagens e circunstâncias tão repugnantes ao olhar. Os psicólogos e neurologistas passaram a desconfiar que, além da anomalia da visão, a menina poderia ter algum distúrbio mental. Mas, como o caso era uma aberração pouco conhecida da medicina, ninguém se arriscava a dar um diagnóstico definitivo sobre a questão. Também não havia cura ou cirurgia, nem ao menos perspectiva de algum dia se criar pesquisas sérias a respeito, já que se prestariam a atender um em cem milhões de seres humanos (ou mais). O jeito foi conviver com o “problema”.
A menina cresceu, se tornou uma adolescente muito sociável mas pouco aceita, às vezes tornando-se motivo de zombaria por não saber distinguir as cores ou por ter um jeito todo peculiar de se vestir, nunca andando na moda e apelando para padrões visuais um tanto insólitos. Diziam que seus trajes eram inconvenientes, com cores que refletiam mau agouro, mas ela nunca entendeu aquelas observações em tom de denúncia, visto que sempre estava de bom humor e os dias sorriam para ela. Suas diferenças de leitura visual também contagiavam as paredes de seu quarto e se refletiam até na escolha da cor de seu notebook (comprou justo aquele que se acumulava no estoque: o modelo marrom com cinza, total fracasso em vendas).
Claro que uma garota tão diferente também haveria de ter sua vida afetiva comprometida. Chegou à idade adulta tendo colecionado escassos relacionamentos com outros meninos, pois poucos eram os que se arriscavam a tentar a sorte com uma garota gótica: é o que pensavam dela ao ver seu batom cor de fuligem (que para ela era de um lilás encantador) e suas roupas de tons mórbidos.
Num certo dia, andando pelo centro da cidade, viu caminhar ao longe, vindo em sua direção, um homem como nunca havia encontrado antes. Não era um homem, e sim um anjo. Seu corpo todo brilhava de um dourado arrebatador. Ela não teve como não abordá-lo. Tímido e sem entender o olhar hipnotizado da jovem, o homem dourado a cumprimentou e foi educado e gentil. Ao ponto de trocarem telefone, saírem e se amarem sem demora.
O romance logo chegou ao conhecimento dos pais, que ficaram absolutamente aturdidos na noite em que conheceram o rapaz. Na verdade, seu corpo inteiro havia sido atingido por um tipo extremamente agressivo de vitiligo, que descamou toda a sua pele, deixando à mostra a parte mais abaixo da epiderme, marcada por uma palidez tão crua e opaca que o tornava cadavérico aos olhos das pessoas comuns. Mas não aos de sua amada, que o via como um ser dourado que magnetizava suas pupilas.
O casal tratou de proibir o namoro, visto que a filha não poderia se relacionar com um ser tão repugnante. Para romper com sua dependência financeira, ela conseguiu emprego em uma fábrica de bebidas, trabalhando na inspeção visual da linha de envasamento: conseguia detectar facilmente corpos estranhos dentro das garrafas retornáveis, pois o vidro era âmbar como a cor de suas pupilas, ficando assim quase invisível de tão transparente.
Passou a morar em um quartinho de pensão. Via o namorado quase que só aos finais de semana, pois ele trabalhava duro em uma serigrafia e mal tinham tempo para se encontrar. Ao apreciar os produtos de uma ambulante que vendia camisetas e bijuterias em frente à fábrica, a garota teve uma idéia para aumentar seus ganhos: ofereceu-se para desenhar estampas e imprimi-las, deixando-as à venda com a mulher e ganhando um percentual nos lucros. A proposta foi aceita. Ela desenhou então diversas ilustrações, sempre tendo como tema seres das trevas, pois lhe pareciam os únicos capazes de entendê-la. Vampiros e criaturas da noite surgiam em cenas festivas, e seu namorado dourado as imprimia em silk screen, sempre em camisetas de tecido escuro.
As vendas foram um total fracasso, pois todos achavam o visual por demais bizarro. Exceto um marchand que casualmente caminhava pela calçada onde a ambulante estacionara sua Brasília. Comprou todo o lote de camisetas com a condição de saber qual o telefone da autora daqueles desenhos tão inusitados.
O marchand convidou a menina das pupilas âmbar a pintar para ele. Entregou-lhe pincéis, tintas, cavalete e telas e pediu que se empenhasse, prometendo voltar em duas semanas. Foi o tempo suficiente para ela aprender a brincar com todos aqueles até então desconhecidos objetos de pintura. Negligenciou quase que por completo as chamadas cores quentes, optando por usar das matizes escuras e tons pastel. Passados 14 dias, lá estava o marchand admirado com o conjunto de obras que prometera exibir em uma vernisage que abalaria a cidade.
De fato, a exposição foi concorrida. A menina das pupilas âmbar e seu namorado dourado foram alvo de inúmeras fotos, ambos amedrontados com tamanho assédio. Formavam um casal dos mais chamativos, ela por suas roupas sombrias, ele por sua pele alva como lençol. No dia seguinte, estampavam as páginas das colunas de artes dos jornais. As pinturas haviam sido vendidas na mesma noite. As encomendas chegaram aos borbotões. Todos queriam uma nova aquarela da garota que deu ao mundo uma nova forma de enxergar felicidade a partir de tons obscuros e sujos.
Em pouco tempo, a publicidade passou a ser influenciada. Designers do mundo todo tiveram de rever todos os seus conceitos de equilíbrio e harmonia. Cromoterapeutas tiveram de tirar seus livros das prateleiras e repensar as formas pré-concebidas de causa e efeito das cores no humor das pessoas. Estilistas entravam em síncope ao ter de reinventar da noite para o dia toda a moda verão que em pouco tempo estreariam nas passarelas.
Conhecida agora mundialmente como “a menina das pupilas âmbar”, ela só queria sossego ao lado de seu amor. Naquele momento, já tinha dinheiro suficiente para sustentar um sonho antigo dos pais: o de financiar uma pesquisa exclusiva sobre seu distúrbio de visão. Viu que não tinha mais vida privada e que se escasseara o tempo para seus verdadeiros prazeres: o de apreciar o céu azul anil dos dias cinzas, pisar no verde do barro e visitar as coloridas crianças das incolores repartições de hospitais e órgãos de proteção à infância. Resolveu que seu dom estava se tornando maldição – como tanto afirmavam no passado e que só agora, que estava em triunfo, ela conseguia perceber. A vida era realmente estranha para ela, pois o escuro e o claro trocavam de posição até mesmo nos conceitos de ascensão e queda.
Decidiu que já vivera o suficiente vendo o mundo de maneira diferente dos demais. Recebeu de seu amor dourado o apoio para investir tudo o que havia ganho em uma arriscada e inovadora cirurgia que tornaria sua visão igual à das pessoas ditas normais.
Viajou para um país distante, passou dias sendo submetida a diversos testes até chegar a data agendada para a cirurgia. Depois de muitas horas, saiu do centro cirúrgico com as pálpebras cobertas por gaze e esparadrapo, ficando assim em seu apartamento no sofisticado hospital por quase uma semana. Ao ser retirada a bandagem, quase não reconheceu o universo ao seu redor. Aliás, quase não reconheceu seus próprios pais. Aos poucos sua visão foi desembaçando e revelando um mundo muito diferente do que estava acostumada a contemplar. Mas seu maior choque não foi a confusão cromática e sim a ausência do homem que amava. Os pais lhe entregaram uma carta assinada por ele, na qual afirmava que precisava partir, que ela não o aceitaria quando o visse como ele verdadeiramente era. A menina dos olhos outrora âmbar se desesperou, pensou em cogitar com a equipe médica se não havia também alguma cura cirúrgica para o vitiligo, mas então se recordou que gastara todo o seu patrimônio em sua própria operação. Foi quando se deu conta de que seu namorado realmente a amava, pois aceitou a decisão dela mesmo sabendo que isso significaria seu afastamento para sempre.
Ela chorou o marrom do pouco âmbar que restava em seus olhos e passou dias de uma recuperação dolorosa, que mais corroía o coração do que a frágil retina que se recompunha e se retraía com os estímulos luminosos que vinham da janela. Pela primeira vez ela entendeu o que a moça do tempo queria dizer com “tempo ruim” no noticiário. Adaptou-se pouco a pouco a um mundo opaco que fazia fenecer até mesmo suas melhores lembranças.
Retornou de viagem e tentou esquecer seu amor voltando a se relacionar com as tintas. Só que não pintava mais como outrora. Seus quadros deixaram de ter a provocação inquietante das trevas em festa, da obscuridade extasiante. Eram agora como os demais quadros que todos conheciam. O marchand que a descobrira agora se envergonhava de suas obras. Os compradores sumiram, nunca mais recebera convite para expor em nenhuma vernisage. Para os artistas convencionais, místicos, estilistas, carnavalescos e diretores de arte aquilo era um alívio. Poderiam enfim retornar à segurança de seus conhecimentos acadêmicos, às suas convenções práticas, às suas associações simplistas, ao conforto de seus conceitos herdados sem esforço. O vermelho voltara a combinar com o azul, e o branco mais uma vez era a cor da paz e transmitia pureza e relaxamento. Ninguém mais haveria de colocar em xeque aquelas definições milenares.
A menina de olhos normais caminhava pelo centro da cidade para tentar se distrair. Já quase esquecera dos tempos em que tinha as meninas dos olhos de cor âmbar. Distraída, agora ela pouco reparava nos outrora chamativos meninos e meninas de rua. Percebeu que também estava sem cor por dentro e que precisava fazer algo. Diante de um pote no chão que esperava por uma doação, arremessou uma moeda. Agradecido, homem-estátua então lhe esticou gentilmente um chapéu contendo diversos bilhetinhos com mensagens para que escolhesse um aleatoriamente. Fechou os olhos, tateou entre os papelotes, desdobrou um e leu a seguinte frase:
“Não há mérito algum em se apreciar o belo” - Clarice Lispector.
Foi então que voltou-se ao homem-estátua todo pintado de dourado e, mirando fundo em seus olhos, descobriu que acabara de reencontrar seu anjo de vitiligo.



Mario Lopes

4 comentários:

* Cá * disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
* Cá * disse...

Lindo! Que maravilha seria se nós, pessoas "normais" pudéssemos envergar o mundo como esta garota... com certeza seríamos muito mais felizes.

Anônimo disse...

O mais incrível, Cá: a gente pode. ;-)
Beijos.

Mario

Sophie disse...

Texto maravilhoso.
Muito lindo mesmo.