domingo, 23 de maio de 2010

Clímax Em Looping


Entrou esbaforido pela porta, olhando para trás mesmo com ela fechada, como se houvesse algum segredo que ninguém mais no mundo pudesse saber. E havia. Bem guardado na sacola plástica que segurava contra o peito.

- O que aconteceu, Gustavo?

Deixando Julia com a caneca de café equilibrada no ar e sem dar qualquer esclarecimento, Gustavo passou a adentrar pela casa, seguido por ela, cada vez mais curiosa.

- Sabia que talvez a gente já tenha feito isso?

- Isso o que?

- Vou precisar de uma forma de provar para você.

- Provar o que?

Chegando no quarto, Gustavo tirou da sacola plástica uma geringonça tecnológica que mais parecia aqueles rádios valvulados da primeira metade do século XX, sem a caixa de madeira que os envolvia. Via-se fusíveis e transistores antiquados, tendo um relógio analógico de ponteiros dourados no canto esquerdo e um calendário digital no direito. Colocou a traquitana sobre a cama e apreciou-a como se fosse uma verdadeira preciosidade.

- O que é isso?

- Para de fazer perguntas, Julia, você tá me deixando confuso.

- Eu é que tô confusa!

Com as mãos na cintura, apreciou o quarto todo como se fosse um cineasta analisando o set de filmagem. Gustavo coçou o queixo e então pegou sua gambiarra tecnológica com uma das mãos e a sacola plástica com a outra, fazendo agora o caminho inverso, voltando a passar pelo corredor e chegando à cozinha, seguido novamente por Julia, ainda equilibrando seu café na caneca alta de corações lilás que ganhara no aniversário. Agora, Gustavo deixava o rudimentar equipamento sobre a mesa e a sacola no chão enquanto abria os armários, tirando deles um pote transparente de pó de café e uma caixa de coadores de papel. Julia, já um tanto impaciente, deixou sua caneca sobre a mesa e observou, quase não se contendo de curiosidade.

- Tem café pronto, acabei de passar.

- Não é isso!

Gustavo foi até a cafeteira elétrica na pia e, aleatoriamente, jogou sobre o coador de papel um punhado de pó com o medidor. Pegou água com a jarra refratária despejando-a em seguida no compartimento da cafeteira. Fechou o topo do recipiente, botou a jarra na base e apertou “on”. Foi até a geringonça sobre a mesa e mexeu nos ponteiros do relógio analógico.

- Olhe para a jarra.

Julia deixou sua caneca sobre o balcão ao lado da pia e aproximou-se da jarra transparente, observando-a com atenção: vazia e com o vapor começando a embaçar o vidro. Gustavo apertou um botão no estranho equipamento sobre a mesa. De súbito, Julia testemunhou, bem diante dos seus olhos, o café instantaneamente pronto e passado, como se em uma fração de segundo toda a água esquentasse, subisse pelo tubo plástico, descesse até o pó, atravessasse o coador e enchesse a jarra, quase transbordando-a. Ela se desinclinou, piscou os olhos e virou-se para Gustavo sem entender.

- Uau. O que aconteceu aqui?

- Julia, nós viajamos no tempo.

Julia deu alguns segundos para seu cérebro processar a informação. Diante da falta de lógica, apenas gargalhou. Um riso nervoso, mais para aliviar o estado de conturbação mental do que para confirmar o hilário da situação.

- Toque na jarra.

Julia foi parando de rir aos poucos e obedeceu ao pedido de Gustavo. Surpreendeu-se mais uma vez.

- Está fria.

- Que horas são agora?

- Umas três...

Gustavo apenas balançou a cabeça negativamente. Assustada, Julia olhou para o relógio de parede decorado com vaquinhas azuis e constatou que eram seis da tarde. Para confirmar, foi instantaneamente até a janela, notando que a luz crepuscular já esticava a sombra de alguns poucos passantes na rua que voltavam do trabalho.

- Gustavo, me explica rápido.

- Já expliquei. A gente viajou no tempo. Fomos para o futuro.

Julia permanecia sem entender. Estava confusa e assustada demais para articular qualquer raciocínio naquele momento. Apenas tentava lembrar da última vez que havia fumado maconha ou se era um deja vu daquela ocasião em que experimentou LSD numa festa.

- Gustavo, pare.

- Julia, é verdade. Eu sei, eu também demorei a me convencer.

- Avançamos quanto no tempo?

- Apenas três horinhas.

Julia olhou para o equipamento sobre a mesa.

- É isso aí?

- É.

- Como é que ela faz essas coisas? Como você conseguiu isso?

- Eu comprei.

- De quem?

- De um vendedor. Na rua.

- Gustavo, pare.

- Sério.

- De onde ele conseguiu isso?

- Não sei.

- Como ele te provou que funciona?

- Que nem eu fiz com você agora. Só que mais simples, ele só me mandou olhar os ponteiros do meu relógio de pulso. Em seguida, eu vi que eles tinham avançado meia hora. E não só o meu, o da torre da igreja também. Na janela da casa da Dona Eulália eu tinha visto que o jornal estava começando na TV, e de repente já estava acabando.

- Tá, mas poderia ser um truque, ele poderia ter hipnotizado você!

- Foi o que eu pensei. Mas daí ele me deu uma prova absoluta. Julia, eu juro, ele programou a máquina para viajarmos ao início do século passado. Eu não conseguia acreditar! Então, entramos no bar que era do meu bisavô! Eu vi o velho, só conhecia por fotos. Esse vendedor então pediu dois refrigerantes. Nós bebemos. Ele pediu outro. Saímos, enquanto meu bisavô esbravejava dizendo que ia chamar a polícia porque nós não pagamos. O tal do vendedor me levou num terreno qualquer, cavou um buraco ao lado de uma mudinha de árvore e colocou a garrafa lá dentro. Daí mexeu nessa máquina de novo. Quando eu vi, nós tínhamos voltado ao presente. Ele me mandou cavar ao lado de uma árvore. Eu fiz isso.

Gustavo então pegou a sacola plástica que deixara no chão, tirando de dentro dela com as mãos trêmulas uma garrafinha de refrigerante toda suja de terra e grama.

- Olha aqui, Julia, a garrafa de refrigerante que ele tinha enterrado há um século!

Julia estava atônita. Gustavo lhe estendeu a garrafa para que ela pegasse, mas Julia se restringiu a olhar assustada para aquela prova suja.

- E quanto você pagou?

- Nada. Ele me disse que eu poderia testar por 24 horas. Dá para acreditar?

- Por 24 horas? Então você nunca mais vai precisar devolver.

- Exato. Porque agora eu tenho, literalmente, todo o tempo do mundo!

Julia ria, mas ainda com a mente entorpecida pelas possibilidades trazidas por aquela estranha novidade sem sentido.

- Tá, e o que vamos fazer? Vamos para a idade média? Ou saber como vai ser o futuro da humanidade? Não, melhor não, dizem que não vai ter água. Ah, eu queria conhecer a Hilda Hilst!

- Julia, você não tá entendendo. Eu tenho um plano muito melhor.

- Qual?

- Vem.

Gustavo jogou o refrigerante barrento na pia e puxou-a pela mão, segurando com a outra todo cuidadoso o artefato que agora era realmente a maior relíquia de sua existência. Passaram pelo corredor, entraram novamente no quarto e fecharam a porta. Sentaram-se na cama, um de frente para o outro, deixando o equipamento sobre o gaveteiro.

- Julia, lembra daquilo que você dizia, que gostaria que seu orgasmo nunca acabasse.

Os olhos de Julia então brilharam e ela ficou boquiaberta ao se dar conta de o que Gustavo tinha em mente.

- Mas isso é possível?

- Claro. Eu só tenho de programar a máquina direito.

- M-mas como assim?

- Preste bem atenção, vou explicar. Eu posso programar esse equipamento como uma máquina fotográfica, daquelas que para sair na foto com os amigos você usa o temporizador, saca?

- Sei.

- Então, eu vou programar para que, dez segundos depois que a gente gozar juntos, ela volte no tempo dez segundos. Então o que acontece? Como ela vai estar programada para voltar no tempo dez segundos num dado horário, ela fará isso para sempre. E nós teremos dez segundos de gozo por toda a eternidade.

- Gustavo, isso é loucura...

- Você não quer viver pra sempre?

- Mas...

- Então imagine viver um orgasmo eterno!

Julia ficou sem palavras diante da situação.

- Julia, nós podemos usar essa máquina de outras formas, para brincar de viajar no tempo e conhecer a pré-história, a revolução francesa, o escambal, só que uma hora poderemos morrer por algum motivo. Mas se fizermos isso que eu estou propondo, seremos eternos. Gozando eternamente! Consegue imaginar o que é isso?

Julia continuava apenas boquiaberta.

- Só que será necessário sermos muito precisos, porque não teremos uma segunda chance. Vamos ter de gozar juntos no momento exato. E eu vou ter de ajustar o cronômetro muito bem ajustado. Você topa?

A resposta de Julia foi um longo beijo. O último longo beijo antes de virarem eternos.

Enquanto Gustavo ajustava o equipamento, cronometrando-o milimetricamente ao mexer no ponteirinho dos segundos para a hora mágica (às 18:30:00 estaria programada para voltar às 18:29:50), Julia já foi tirando suas roupas e deitando na cama, suspirando fundo para se concentrar ao máximo na tarefa que iria desempenhar por todo o sempre.

Gustavo terminou de ajustar a máquina para os dez segundos mais cruciais de sua existência, e então também tirou suas roupas, enquanto Julia afastava a colcha da cama empurrando-a com os pés (18:15:03). Gustavo veio por sobre seu corpo com um olhar de gana e tensão ao mesmo tempo, passando a beijá-la com carinho, inicialmente na testa, nariz e bochechas, lentamente, preparando terreno para um sexo que seria o último, o único e o eterno (18:17:04). Seus beijos se alastraram por todo o corpo de Julia, que foi aos poucos sentindo sua carne íntima se encharcar em fluídos que jamais secariam (18:19:12). Também ela quis retribuir as carícias, num derradeiro sexo oral que fazia do falo de Gustavo uma alusão contemporânea aos minaretes de Clarke e Kubrick no início dos tempos – lamentou não terem colocado música para este momento, mas se houvesse trilha sonora, ela seria “Assim Falou Zaratrusta” (18:21:52). Os dedos de Gustavo agora tateavam o sexo de Julia buscando impregnar suas lembranças com uma memória digital que registrasse a lisa rugosidade daquele relevo irregular, deslizando com a ponta do indicador por cada linha, morro, vale... (18:22:13). Também sua língua desenhou um passeio sinuoso em úmido tributo àquele templo no qual jamais deixaria de prestar louvor, aproveitando para levar ao infinito aquele sabor e aquele aroma que queria tatuados no palato e por dentro das narinas (18:25:02). Sorveu de seus seios um colostro imaginário, e beijou aquele ventre cujo umbigo em breve seria o centro de seu universo, enquanto tinha seu dorso abraçado por coxas tão trêmulas quanto poderosas (18:26:43). Penetrou-a sofregamente, em estocada única e ansiosa, fazendo Julia comprimir sua musculatura cavernosa com gula secular, perjurando com sua carne todos os demais prazeres, os quais nunca atinavam sobre a própria insignificância perante a magnitude do sexo (18:27:01). Avançaram em ritmo e intensidade, cavalgando cada vez mais rapidamente rumo ao clímax, sustentando no semblante um sorriso sutil de quem, inconscientemente, debocha de todos os que trepudiavam sobre a inverossimilidade do “felizes para sempre”, estavam agora marchando em direção ao êxtase, pulsando em euforia ascendente, descompassada e irreversível, em gemidos que ecoariam nos confins dos tempos (18:28:13). O desvario era mútuo, comungavam o frenesi de dois corpos que se aproximavam com acelerada compulsão ao momento que seria repetido por séculos e séculos, multiplicando dez segundos de êxtase a uma equação de tempo incalculável, uma ampulheta de gozo em âmbulas sem fim, um mecanismo agora acionado por uma troca de olhares cujo significado ambos sabiam decifrar como ninguém: estavam à beira do orgasmo universal (18:29:50).

Foi quando entrou no quarto o marido de Julia com um revólver na mão, fazendo Gustavo broxar instantaneamente e a vagina dela se contrair de terror, deixando pairar no ar um breve segundo de silêncio que pareceu um mar de tempo.


- Peguei vocês, seus traíras!

Bang! Bang!

- Peguei vocês, seus traíras!

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- Peguei vocês, seus traíras!

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- Peguei vocês, seus traíras!

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- Peguei vocês, seus traíras!

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- Peguei vocês, seus traíras!

Bang! Bang!

- Peguei vocês, seus traíras!

Bang! Bang!

- Peguei vocês, seus traíras!

Bang! Bang!

E assim, ad eternum...

Mario Lopes

(Inspirado por Juliana Biancato)

2 comentários:

Devaneios e outros venenos disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Que honra ser a ins"piração" de algo tão ousado, criativo e surpreendente! bjos mil

Anônimo disse...

Honra é ter uma mulher tão inspiradora como você por perto, Ju.
Outros mil.

Mario