quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Nuvem, A Estrela E O Forte Como Pedra


Eirapuã teve seu nome na noite em que nasceu, quando sua mãe olhou para o céu e viu brilhar uma estrela mais forte. Enquanto a menina vinha ao mundo pelas mãos de Eiruba, a mais experiente parteira da tribo, e abria os olhos pela primeira vez, Hurassí se despedia da filha tocando levemente seu rosto e fechando os olhos. Eirapuã teve sua primeira perda... tão pequena e já podia sentir a dor.
Itagiba, pai da menina, sempre forte em seus sentimentos, disse que daria a Eirapuã tudo o que sua mãe poderia ter sonhado, e que faria da menina, a mais rica de todas as tribos. Resolveu deixar a menina protegida de todo o mal que pudesse atravessar seu caminho e para isso, a mantinha durante o dia, longe da tribo, em um recanto de águas naturais e cercado de árvores densas, onde lhe ensinou a pescar e caçar. À noite, a levava com cuidado para dentro da oca, sem que ela pudesse participar das confraternizações típicas da tribo. E assim, Eirapuã estava passando por sua segunda perda, tendo delimitados seus pensamentos e frustradas suas relações.
Foi assim, até os doze anos quando a menina virou mulher e, sem jeito, e sem saber o que fazer, foi ter com Eiruba, escondida do pai. Eiruba viu a menina e não conteve sua emoção ao ver que a menina estava tão parecida com a mãe. Eirapuã disse não ter muito tempo e pediu que a ajudasse com aquele “corte” que não parava de sangrar. Eiruba explicou tudo a Eirapuã, enquanto ajeitava seus cabelos e pintava seu rosto, como fazia com sua mãe, quando ainda era viva.
- Eiruba, como era minha mãe?
- Sua mãe era bonita como um dia de sol, pequena. Seu pai lhe contou dela?
- Ele contou que ela fechou os olhos quando eu abri os meus.
- Tinha muito amor dentro do coração, tanto, tanto, que quando fechou os olhos, ainda deu pra escutar seu coração batendo por algum tempo.
- Eu sinto uma dor aqui, Eiruba, sempre que olho para o céu e vejo uma estrela brilhar – disse a menina colocando as duas mãos no peito.
- Sua mãe olha por você Eirapuã, e um dia você entenderá o que essa dor significa.
Voltou para a oca antes que o pai voltasse e desse por sua falta e se pôs a pensar sobre o que Eiruba havia lhe falado. Itagiba chegou e viu a menina diferente, pintada e com os cabelos colocados para o lado e furioso perguntou quem havia lhe ensinado aquilo. Eirapuã, assustada, contou a verdade, disse que não sabia ao que fazer, que seu pai nunca a havia deixado estar com outros da tribo e que ficou com medo de morrer e deixá-lo sozinho e que, por isso, tinha ido procurar Eiruba.
Por um segundo Itagiba ficou calado. Virou-se e se deu conta do mal que estava fazendo à filha privando-a do convívio dos outros. Várias missões já haviam passado por aquela tribo ensinando sobre o mundo moderno, os costumes da civilização, tecnologia, ensinando a língua latina às tribos. Eirapuã foi criada longe disso, nada sabia sobre os povos, as culturas ou qualquer tipo de informação que a ajudasse a crescer. Decidiu então que era hora de partir e fazer valer a promessa que havia feito. Fazer da menina, a mais rica de todas as tribos.
Itagiba levou Eirapuã à cidade mais próxima de sua tribo, onde com muita paciência e perseverança, a apoiou a aprender sobre o mundo e como sobreviver a ele. Aprendeu sobre as pessoas, sobre o bem e o mal, aprendeu sobre como se vestir, se portar, cursou escolas, faculdades, aprendeu a falar outras línguas, especialmente o inglês de sua professora tão dedicada. Itagiba, sempre ao lado da filha, a viu crescer e tornar-se uma ilustre profissional dedicada às Letras e ao magistério. Eirapuã escreveu alguns livros e sabia que sua missão era disseminar conhecimento e apoio... E, sempre mencionava a tal dorzinha no peito que vinha quando olhava para o céu e via uma estrela, ao seu médico – um senhor espírita e já muito amigo de Eirapuã - que, até àquele momento, não havia conseguido diagnosticar nenhum mal físico.
No dia em que Eirapuã recebeu um prêmio pelo trabalho voluntário com crianças de tribos pobres do sul da África, estava eufórica. Recebeu todos os cumprimentos de seus colegas e superiores. Mal esperava para chegar em casa e mostrar ao pai, já velhinho, que tudo o que o pai sonhara a ela, havia acontecido. Ao chegar, viu seu pai sentado na cadeira de balanço com um cobertor nas pernas e um pequeno bilhete na mão que dizia:
“Minha Estrela. Fizemos tudo como deveria ser feito. Estou indo encontrar minha Nuvem”.
Sentiu ainda mais forte desta vez aquela dor. Era como se fosse estourar seu peito, e ao derrubar as primeiras lágrimas, deu um grito e viu tudo enegrecer, fechando seus olhos em seguida. Sonhou que estava em sua tribo e que Eiruba, ao lado de seus pais, estendia a mão a ela e dizia:
“A dor que nasceu sentindo transformou-se em silêncio. No amor e na dor se traçam os caminhos, nas vitórias os degraus, nas perdas o cajado. Caminhe sempre em direção ao céu e lá encontrará todas as suas respostas”.
Ao abrir os olhos e despertando lentamente, Eirapuã se vê cercada por seus colegas. Seu médico aproxima-se e pergunta:
- Sente-se bem, Eirapuã?
- Está doendo aqui...
- Seu peito, Eirapuã... é natural, você teve uma emoção muito forte hoje. Acalme-se, vai ficar tudo bem.
- Doutor, esta dor me acompanha a vida toda. Como pode ter certeza de que vai ficar tudo bem?
- Descobri a causa da tua dor.
- É mesmo? E é grave?
- Rs. Depende de como encara sua vida.
- Meu pai me ensinou a entender a vida, doutor. Posso entender o que tiver pra me dizer. O que eu tenho?
- Saudade... palavra que não existe na tua língua mas eu vou lhe explicar...


Angelica Carvalho

3 comentários:

Leticia disse...

Nossa guria, lindo.
Adorei, parabéns.
Beijos
Leticia

Anônimo disse...

Caramba, Ange. A coisa mais legal de você acompanhar pessoas que escrevem com regularidade é quando se testemunha um salto quântico. É o que vejo aqui, parabéns mesmo.
Beijo.

Mario

Anônimo disse...

Valeu, gente !! :-)

beijos ange