sábado, 4 de outubro de 2008

Brilho Eterno De Uma Mente Sem O Que Mesmo?


Quem nunca tomou um porre na vida, que atire a primeira pedra. Agora quero saber quem já tomou um daqueles em que se constata um sério caso de amnésia alcoólica, esses sim, são pra acabar com o juízo de qualquer um. Você acorda com todas as dúvidas do mundo. Será que eu discuti com a minha melhor amiga? Será que eu falei algo que não devia? Será que eu fiz algo que não devia? Ou pior, será que fui para a casa de quem não devia? Ahhhhhh, são dúvidas que enlouquecem e que, geralmente, ao se olhar para o lado depois de uma noite mal dormida, obtemos algumas das respostas, mas logo surgem outras indagações. Será que foi bom? Será que eu fiz ou disse algo que possa ser usado contra mim? Será, será, será??? Por essas e por outras que sou adepta ao maravilhoso ditado “se eu não lembro, eu não fiz”, existe forma melhor de se isentar de certas “culpas”?
Resumindo: “aproveite o momento, mesmo que seja para pirar com as dúvidas, na pior das hipóteses pode deletar e jurar de pé junto que nada aconteceu”.

Luciana Oliveira


- Hmmm... foi o melhor se-xo-da-mi-nha-vi-da.
- Ahãn, digo o mesmo.
- Você foi perfeito... tudo tão incrível.
- Também achei.
- Se eu soubesse que esse sofá era tão bom pra isso nunca teria deixado as visitas botarem a bunda nele.
- Até a música certa na hora certa, percebeu?
- E aquele truque com o licor de cereja, hmmmm...
- Parece que o gosto não sai da boca...
- Não sai mesmo. Você sabia que uma relação sexual tão inesquecível como esta pode conquistar uma mulher por toda a vida?
- Que bom, porque eu quero você pra sempre.
- Eu disse “inesquecível”? É o que veremos.
- Como assim? Onde você vai?
- Procurar aquele Jim Bim que eu deixo na estante.
- Espera, toma o resto do licor de cereja, tem ainda um pouco.
- Fraco, muito fraco. Tá servido?
- Vai beber cowboy mesmo?
- Yes, tratamento de choque.
- Então deita aqui de novo pelo menos.
- Não posso, o Jim Bim tá acabando e vou ter de me servir de outras bebidas aqui mesmo. Qual será? Cinzano não, amargoso, se bem que vai dar uma segurada no fígado...
- Você está querendo tomar um porre, é isso?
- Não é bem o porre que eu quero, mas a conseqüência dele.
- Será que dá pra você me explicar melhor isso? Tô confuso.
- É o seguinte, fizemos um sexo das estrelas, e amanhã?
- Amanhã?... Ué, que é que tem? Não pensei nisso ainda. Eu posso te ligar e a gente sair pra almoçar... sei lá.
- Amanhã você não vai ligar e vai me esquecer.
- Eu vou ligar, eu prometo.
- Tá, então suponhamos que você ligue. Daí, vamos almoçar, você vai comprovar que não é um cachorro de uma noite só. Vamos nos envolver, vou me apaixonar, um dia vamos transar sem camisinha, você vai me engravidar, vai dizer que o filho não é seu e me acusar de golpista. Daí vou passar o resto da vida criando um rebelde que vai ficar a semana toda me cobrando onde é que está o pai dele que não aparece nem na reunião de pais da escola.
- O que?! Da onde que você tirou isso?
- Não se impressione, querido, eu tenho o dom da premonição.
- Você está prevendo tudo errado. Eu não sou quem você está pensando, não.
- Pronto, foi-se o Jim Bim. Vai de Bacardi Lemon comigo?
- Eu gosto de você de verdade.
- Sei.
- É sério. Não queria apenas te levar para cama. Eu quero uma vida com você.
- Uma vida, né? Tipo casados? Eu tendo três filhos, ficando fora de forma, um dia você se enjoa de mim, percebe que a mulher que bota suas cuecas na máquina de lavar não é mais a gostosa que você comeu numa noite primaveril de quase uma década atrás. Então se envolve com uma qualquer que você conheceu numa viagem de trabalho e me deixa às mínguas com uma pensãozinha que mal dá pra pagar a terapeuta do mais novo, que ficou traumatizado com a separação.
- De onde você tirou isso?!
- Essa pergunta de novo?! Já disse que sou profetiza. Ixi, vou ter que buscar gelo na cozinha, vai falando.
- E o que você está querendo se embebedando assim?
- Esquecer, meu bem, esquecer tudo.
- Esquecer o que? Uma noite maravilhosa como essa?
- Não. Esquecer as conseqüências, tá me ouvindo?
- Tô.
- Sabe aquele filme Brilho Eterno De Uma Mente... De Uma Mente...
- Sem Lembranças.
- Isso. Olha trouxe a bandejinha toda de gelo, pro caso de você querer me acompan...
- Não obrigado. O que tem o filme?
- Então, lá tem uma máquina para você esquecer o passado. Mas eu tenho a receita para esquecer o futuro.
- Como assim?!
- Simples. Quando eu tomo porre, esqueço de absolutamente tudo o que aconteceu na noite anterior. E, de quebra, extermino junto qualquer tipo de futuro que pudesse ser consequência desta noite. Funciona que é uma beleza.
- E você quer esquecer o que tivemos?
- Tudo. Absolutamente tudo. Inclusive de você. Antes que seja tarde.
- Mas isso é um absurdo.
- Só vou te pedir pra sair do sofá, querido, porque tenho de arrumar tudo enquanto estou sóbria.
- Você não está entendendo. Eu estou falando sério. Eu gosto muito de você mesmo. Eu quero te conhecer melhor.
- Boa tentativa. Olha, verifica se você não deixou nada cair aí pelo chão. Não quero nenhuma pista quando eu acordar amanhã.
- Por favor, me ouve. Não sei que trauma você tem com relações afetivas e tal, mas eu não sou como certos caras que só querem sexo. E eu estou realmente muito interessado em você, nossas conversas, o seu jeito de ser, seu carisma...
- Ei, me ajuda, não dá pra só eu ficar procurando, né. Vê se o seu celular tá no bolso.
- Pára de beber só um minuto, por favor, e me ouve.
- Vou te dar umas instruções e quero que você siga à risca, hein.
- Você tem certeza que vai conseguir esquecer?
- Eu sempre esqueço quando bebo demais, isso vem desde o meu primeiro porre na faculdade.
- Então me dá esse copo, vai.
- Ei, se afasta, já tô de pileque, mole-mole pra eu fazer um escândalo e chamar o porteiro.
- Tá, mas vamos conversar, eu não quero te perder.
- Ai, como é difícil. Olha, pega essa garrafa com o resto de licor, você mesmo que trouxe e eu não vou entender de onde surgiu esse negócio. Agora, vou te levar até a porta porque senão daqui a pouco nem eu mais sei o caminho.
- Nós não podemos pelo menos ser amigos.
- Depois do sexo que fizemos hoje nunca que conseguiríamos nos ver apenas como amigos.
- Você não pode fazer isso com a gente.
- Tem certeza que não esqueceu nada?
- Fecha essa porta, não me expulsa assim, eu juro que...
- Agora, as instruções que eu disse: nunca me ligue, eu vou pensar que você é um doido e vou bater o telefone na sua cara; e diga para o porteiro lá embaixo, o seu Waldomiro, que não me conte que um homem subiu comigo de noite, OK? Ele foi a única testemunha.
- Eu te amo.
- Chega, você foi longe demais. Vai apertar o botão do elevador ou quer que eu faça a gentileza?
- Não, pode deixar. Você vai se arrepender.
- Não posso me arrepender de algo que eu não lembre, posso?
- Um dia a gente ainda vai se cruzar pela vida e algo em você vai lembrar de mim.
- Duvido. Ei, chegou seu elevador.
- Um último beijo?
- ...

No dia seguinte...
- Bom dia, seu Waldomiro. Que horas são?
- Meio-dia e quinze.
- Que dor de cabeça! Vou ali na farmácia da esquina, comprar um Engove, sei lá. Que horas eu cheguei ontem, o senhor lembra?
- Umas dez e meia, mais ou menos.
- E eu já estava... eu tinha bebido, o senhor lembra como eu estava?
- Estava normal.
- Uf, que bom. Mas normal e... sozinha?
- Sozinha.
- É, né? Vou lá então.
- Sozinha. Como sempre.
Saiu do prédio tentando entender o gosto de cereja na boca e as últimas palavras do porteiro.




Mario Lopes, com prólogo de Luciana Oliveira, assessora de marketing e Desaforada X.

6 comentários:

Anônimo disse...

Marião,
Parabéns. Excelente dobradinha e estória divertidíssima.
Abs
W.Allen

Anônimo disse...

Valeu, Rodolfo. É, acho que a dobradinha merece um brinde. hehehe
Abraço.

Mario

mazé disse...

Eu quero fazer esse curta, Mário...rs Bjo

Anônimo disse...

Uhuuuuuuu!!! Massa, Mazé. Vou transformar em roteiro e conversar com amigos diretores. Teje escalada como protagonista. ;-)
Beijo.

Mario

Lu Oliveira disse...

Adorei querido...
Bjks

Anônimo disse...

Que bom, Lu. Méritos do prefácio. hehe ;-)
Beijo.

Mario