quinta-feira, 16 de outubro de 2008

CONTRADIÇÕES



Somos seres profundamente contraditórios. Aí reside a nossa grande riqueza e também nossa imensa pobreza. Riqueza, porque nos apresenta como um lindo mosaico, repleto de cores diversas e desenhos irregulares que, no conjunto, fazem até algum sentido. Pobreza, porque há muitas diferenças entre o que queremos e o que realmente somos, entre o que dizemos e o que acabamos fazendo.
Mas entendemos o que é contradição? Diz-se que há contradição quando se afirma e se nega simultaneamente algo sobre a mesma coisa. O princípio da contradição informa que duas proposições contraditórias não podem ser ambas falsas ou ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Existindo relação de simetria, não podem cada das proposições, ter o mesmo valor de verdade.

No dicionário aprendemos: Contradição, substantivo feminino que significa: ato de contradizer; objeção; afirmação contrária; contestação; incoerência entre os atos e as palavras; Filosoficamente, entendemos que contradição é a oposição entre duas preposições, uma das quais exclui a outra;
No princípio da Lógica -: uma proposição não pode ter, simultaneamente, o valor de verdade e o valor de falsidade.

"A minha língua jurou, o meu coração não.” Eurípides
Cito aqui umas poucas contradições comuns, a título de exemplo.
Contradições da condição de (des)igualdade homem-mulher
Encontramos na Bíblia, duas citações contraditórias do apóstolo Paulo. A primeira feita na Primeira Carta aos Coríntios, estabelecendo a inferioridade feminina e a segunda, a advertência sobre a igualdade, encontrada na Carta que escreveu aos Gálatas:

“Quero, no entanto, que saibais o seguinte: a cabeça de todo homem é o Cristo; a cabeça da mulher é o homem; a cabeça de Cristo é Deus... E o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher, para o homem.”
“Não há mais judeu nem grego; já não há mais escravo nem homem livre, já não há mais o homem e a mulher; pois todos vós sois um só em Jesus Cristo.”

Na verdade nenhuma das Ciências reconhece inferioridade da mulher em relação ao homem: diferenças biológicas não implicam em juízo moral e social diferenciado.
Por outro lado, as contradições encontradas nesses textos bíblicos continuam ainda hoje tanto nas religiões que os adotam e como na mentalidade de muitos que nem as praticam.
Contradições no Orkut (texto encontrado na internet)
“Enviado por CoRVo em 31 Março, 2007 - 18:32

Vou resumir a historinha para vocês:Hoje (29/03), abri minha página no Orkut e notei um tal de Sean Ford na lista de visitantes recentes. Segui o link e vi que não conhecia o cidadão, que afirma residir em São Francisco.
Notei também que ele não só apareceu na minha listinha de visitantes recentes, como na de trocentos outros orkuteiros desbocados. Imagino que deva ter usado algum outro meio para conseguir isso. Ninguém ficaria o dia todo clicando em todos os perfis que vê pela frente. Ok, desconsidere. Falamos de orkuteiros. Brasileiros.
Recados não param de chegar, começando às 9 da manhã.
Aos que não têm a sorte de possuir um perfil no Orkut, vou dar uma palhinha da farra que estão perdendo.
Temos desde gente reclamando do cara (o tal Sean Ford)ter entrado no 'orkut *dela* e não ter deixado scrap' até criaturas soltando os cachorros.
Valeria: Olá! Olhou meu orkut e nem deixou um scrap. Quem é vc??
RaFiNhA:quem e vc nao meche no meu orkute ta vai olha de outro

Essa é a melhor! Veja quanta revolta:
vanessa:ai pode entrar e olhar a vontade ,pois de pessoas fofoqueiras e invejosas minha vida já está cheia e vc só é mais um dele quer dizer o mesmo que sempre vive querendo saber de minha vida né seu otáio corno!
Coitado do Seu Ford... O que ele vai pensar da gente? É engraçado essa mania do povo dizer que aquele espaço é só MEU e ninguém pode ficar bisbilhotando. Para usufruir do site, ninguém paga host nem nada, então não venham reclamar, orkuteiros! É bem naquela: tá na chuva é pra se molhar! Não acham contraditório (tsc tsc) participar de um site relacionamentos e não querer se relacionar? Cada um que aparece...”
Eu ainda acrescentaria: Porque alguém publica (torna público, de domínio do povo) algo que alega que teria conteúdo privado e depois vai questionar quem leu? Não existem tantas outras formas de comunicação particulares, dentro e fora do orkut? Não é uma enorme e risível contradição?
Contradições na relação tempo e trabalho
No que tange ao trabalho, por exemplo, temos hoje uma imensa legião de pessoas que tem muito tempo livre e, poderiam então, desfrutar da vida. São desempregados, subempregados, empregados em tempo parcial, aposentados que mesmo precisando não conseguiram retornar ao mercado de trabalho, dentre outros, que embora tenham tempo de sobra, não apresentam condições para bem desfrutar das possibilidades da vida. Lutam para sobreviver.
Outros que têm trabalho e renda, porém, em sua maioria, pouca renda e muito trabalho, o que lhes impõem a situação de um apenas sobreviver e não de um viver com mais sentido, mais reflexivo e mais proveitoso.
Existem aqueles que têm muito trabalho e muita renda também. Parece perfeito, porém lhes falta tempo para desfrutar a vida e, quando o possuem, acabam reféns da realidade descrita que gera relações violentas, trazendo-lhes problemas de segurança.
Todos nós somos profundamente contraditórios. Acho esse é o ponto de partida para avançar: aceitar nossa precariedade, essa provisoriedade, a falta de completude.
Somos muito diferentes uns dos outros nas nossas reações, motivações, comportamentos. Podemos impor nossa forma de ver como a única possível? Os que exigem uma única moral, um único ponto de vista, um só comportamento não entenderam a complexidade do ser humano. Os mais moralistas que geralmente ditam regras, costumam esconder suas inseguranças, impor certezas aos outros que muitas vezes nem possuem, e cobrar comportamentos que costumam não praticar.
Uma das aprendizagens mais difíceis da vida é a desaprender a ter tantas certezas: descrer dos que sabem tudo, rever dogmas que parecem definitivos e aceitar que os conhecimentos são mais provisórios, incertos, incompletos.
Não é preferível viver com poucas certezas, mas construídas, do que com muitas certezas nunca questionadas?
Ensinaram-nos certezas, geralmente com boa vontade. Porém não seria importante reexaminá-las à luz de cada etapa em que nos encontramos, questioná-las corajosamente e, se for necessário, mudá-las? Desconstruindo e reconstruindo? Onde está nosso compromisso? Com a verdade que percebemos em cada momento ou com verdades absolutas, impostas externamente?
Não é melhor caminhar com menos certezas, cheios de contradições aceitas, do que guiados por verdades absolutas introjetadas que nos infantilizam, sobre as quais nunca pensamos?
Entendo que viver nas contradições aceitas é o primeiro passo para caminhar na aprendizagem para diminuí-las, para que não nos impeçam de crescer tanto como indivíduos (livres e únicos) como melhores seres humanos em sociedade.
Nem sempre é fácil compreender nosso coração e o que ele de fato deseja. O coração, como dizia o filósofo Blaise Pascal: "Tem razões que a própria razão desconhece"; é uma conexão entre discursos e silêncios, revelações e mistérios.
Por coração podemos compreender nossa vontade, emoções e percepções. Nesse território existem muitas riquezas a serem descobertas e também muitas incertezas a serem reveladas.
Quando olhamos para nós, nossa vida e história, podemos ter dificuldade em entender o "porquê" de muitas de nossas atitudes e escolhas. A vontade humana sendo um campo minado, no qual a inconstância e a fragilidade constantemente se hospedam, pode deixar rastros de confusão.
Aquilo que se deseja ardentemente hoje pode não ser apreciado mais no amanhã. Ainda mais em um mundo marcado pelo transitório e pelo descartável. A vontade é, muitas vezes, sede de contradições. Entretanto, ela não pode ser trabalhada e modelada, com empenho e esforço, para que venha a se transformar em uma vontade constante e inteira no que decide, para que consigamos saciar nossa sede de alegrias menos transitórias?
Vontade fraca, que não sabe ser constante no que escolhe ou que concorda com tudo o que lhe foi imposto pela cultura ou o é pela mídia, sem questionar, não acaba por não ser livre?
Parece-me necessário mergulhar no mistério de nossas contradições, acolhendo o silêncio do que ainda não somos capazes de compreender, mas direcionando com nossa liberdade as nossas escolhas, rumo à construção de um bem permanente e mais amadurecido.


Luciene de Morais é dentista e Desaforada X

5 comentários:

Anônimo disse...

Luciene, estou impressionado com a fluidez do seu raciocínio em um campo tão fértil quanto complexo, e pela facilidade com que transita da filosofia para a trivialidade sem ser banal. Um mosaico de reflexões pertinentes e, por vezes, incômodas, mas certamente muito necessárias. Quero acrescentar uma informação que talvez você desconheça: o Brasil tem um dos pensadores mais respeitados do planeta, com uma teoria tão revolucionária que está sendo considerada para a filosofia o que a lei da relatividade significou para a fisica. O nome do pensador é Newton da Costa, ele mora em Florianópolis e escrevi um roteiro sobre a sua vida e pensamento que, espero, venha a se tornar documentário no ano que vem. O postulado revolucionário dele é o de que duas afirmativas podem indicar raciocínios opostos e mesmo assim não ser contraditórias. Claro que é filosofia em um grau de intelectualidade difícil de se atingir e compreender, e não quero aqui cair na armadilha de tentar explicar de forma simplista um estudo de espantosa complexidade. Ao que tudo indica, ele faz sentido e vem conquistando respeitabilidade cada vez maior no mundo todo. Só é lamentável o Newton ainda não ser conhecido (e reconhecido) em seu próprio país como deveria.
Obrigado por ser nossa Desaforada X, escreva mais e parabéns por ter brindado os leitores com essa teia de reflexões que vão inflamar o pensamento de muita gente.

Mario Lopes

Verônica Pacheco disse...

Lu, muito obrigada! Vc me salvou de uma hoje. Gostou da figurinha que achei pro seu post? Acredito que aquela imagem ilustra bem suas ricas palavras.
Engraçado como a tecnologia vicia agente. Eu sem o meu micro não sou ninguém. O Bolinha quer me dar um lap, para acabar com esta estória de computador pra lá e pra cá, já que agora viajarei muito, mas eu não quero. Gosto do meu micro e sem ele me sinto pelada. Mas acredito que terei que ceder. Ainda bem que o ser humano tem uma ótima capacidade de se adaptar as coisas.
O tema da semana é bem legal, mas pouco inspirador (pra mim ao menos, neste momento do caos da mudança). Peço desculpas ao meu leitor por ter faltado hoje. Ainda bem que as amigas existem. Amiga culta, sempre pronta a ajudar e agora também Desaforada X. Demorou mais vc escreveu né? Seja bem vinda ao clube.
Seu post livre e pontual foi ótimo, de coração, muito obrigada! Agradeço por me substituir tão prontamente, pelas ricas palavras e claro como não poderia deixar de faltar, se não, não seria vc, o recado claro. Entendi, concordo e posso falar de boca cheia, de que não existe mais qualquer contradição. Afinal, não há nenhuma contradição na adaptação. Rsrsrs
Verô

Luciene de Morais disse...

Olá Mário. Que bom que apreciou o texto e a maneira como foi escrito. Gosto de reflexões mesmo. Sabe, realmente eu não conheço as teorias de Newton da Costa, embora já tenha ouvido falar nele. Você comentou que escreveu um roteiro sobre sua vida. Apreciaria muito lê-lo. Pode enviá-lo a mim? Ah, quando eu puder, envio outros textos como DesaforadaX. Beijo.

Oi Verô. Gostei sim da "figurinha" que escolheu para o meu post: bastante pertinente. Fique à vontade, amiga, quando precisar de ajuda. Gostei de escrever. Só uma coisa... não era um recadinho não. Estava realmente fazendo estas ponderações intimamente quando você solicitou um texto... Assim não foi difícil responder prontamente, não é? Acho que escrevi para mim... e como somos todos humanos e cheios de contradições, o texto acaba "servindo" para qualquer de nós.
Agradeço seus elogios!
Beijo

Anônimo disse...

Mas pra onde mando, Luciene? Meu e-mail é marioaugustolopes@hotmail.com. Diz lá qual sua conta de e-mail, pode ser?
Beijo e aguardamos um novo e poderoso post como este primeiro.

Mario

Luciene de Morais disse...

Meu email luciene.de.morais@gmail.com
(mandei um convite a você há algum tempo atrás, não recebeu?)
Obrigada, Mário, fico no aguardo, estou curiosaaaa...
Beijo